A Vitória
1 Um
Notas iniciais
A Vitória
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“Para Papai e Mamãe,
Leiam com atenção:
Eu percebi que hoje, eu, realmente, não sirvo para nada. Não há razão para eu estar viva. Afinal quem me ama eu não correspondo e os que eram para fazer o seu papel de amar, não o fazem.
Ontem, foi a última vez.
Não darei mais chances para nem um de vocês. Pela última vez, eu tive o desprazer de me apresentar e não ver ninguém, ou melhor, vi, mas a pessoa estava um pouco “ocupada” e não prestou muita atenção em minha apresentação. Nada de pai, nada de mãe. Essa é a última vez que isso ocorre.
Vocês sempre dizem a mesma coisa: “Dessa vez nós vamos”; “É porque não consigo achar um tempo”; “Eu tenho pessoas que merecem mais importância”; “Perdão, juro que eu saí, mas o trânsito estava horrível!”; etc.
Vocês dois não acham nem sequer um tempo para os dois, por que achariam um tempo para passar comigo? Sei que o papai está obcecado por trabalho e que a mamãe, bom, todos já sabem o que acontece. Estou fazendo isso para o meu próprio bem.
Hoje irei para um lugar que eu sempre me sinto livre, amada... mesmo que esse amor não seja por pessoas. Se me conhecem, encontrar-me-ão lá.
Então corram! E depois irei para onde tudo começou. Bom, depois disso... não haverá mais um “depois”.
Vou desabafar, sinceramente, pai, onde você foi parar? Vale a pena mesmo o senhor conseguir realizar seus sonhos e perder toda a “sua” família? Porque a autossatisfação não é tudo que devemos conquistar na vida, pai. Quando eu era pequena, – ainda continuo pequena –, você acostumava ler para mim antes de dormir, você me deu os primeiros livros que li, deu-me Harry Potter e eu agradeço por tudo, porque até uns tempos atrás, era com o senhor que eu me sentia mais viva. Pai o senhor fazia eu me sentir amada, me animava, brincava, mas essa magia desapareceu com o decorrer dos anos, passei a não ser mais a sua princesa... e o senhor passou a não ser mais o meu rei. Você está tão longe... tão distante, tão aparentemente indiferente a tudo o que acontece nas nossas vidas que eu às vezes me pergunto o que eu fiz para ser tratada assim, ou melhor, não ser tratada de nem uma forma.
Mamãe, quando você voltou a lecionar fiquei tão contente, você finalmente poderia ficar alegre novamente, porque em casa, parada, como uma dona de casa você não era nem um pouco feliz... porém, de acordo que o tempo foi passando a senhora de alguma forma, perdeu o foco, e simplesmente passei a não vê-la mais rir, nem tocar a noite ou cantar cantigas de ninar.
Você me pôs no balé desde os meus três aninhos e já irá fazer 13 anos que danço e a senhora sempre ia às minhas apresentações, mesmo sem o pai, mesmo sem o apoio de ninguém eu via a senhora presente. E isso já era o bastante. Sei de como a senhora é “séria”, mas mesmo assim eu gostava de ficar do seu lado e te beijar e abraçar, mas a senhora se tornou ausente. Tão ausente quanto papai sempre foi...
Eu sempre amei dançar, sempre amei, e amo, mas isso chegou ao fim. Tudo chegou ao fim. Já passei muito tempo aguentando transparecer o que não sou: uma bonequinha de porcelana... Linda, risonha e superficial.
Cansei de tudo’
Sua filha, Helena.”
...
O pai tremia o bilhete entre as mãos e molhava a folha com lágrimas de um remorso tardio. Ele vestia um terno com a gravata meio folgada e o cabelo com um penteado “rebelde”.Já a mãe, de camisola estava com as emoções à flor da pele. Ela caminhava de um lado para o outro do lado da ama da filha, em um quarto de um tom lilás e com pôsteres de filmes, bandas e séries de livros espalhados por todos os lados. Pôsteres de: Harry Potter, A Seleção, Jogos Vorazes, Dezesseis Luas, V de Vingança, Evanescence e etc. O bilhete escrito aos prantos após a chegada da última apresentação de balé, que ela participara como uma brilhante bailarina da Royal Academy of Dance, de cor amarela e o collant rasgado com as sapatilhas jogadas aleatoriamente. Só isso foi encontrado de “vestígios” da última noite de apresentação de balé que Helena Marques Duarte participara.
Nada mais.
– Cansei de tudo... –o pai balbucia as últimas palavras do texto de despedida de sua única filha, ainda com a cabeça inclinada, sentado na cama, fitando a estante de livros “empilhados” dela. – Sabe, Judith, a culpa de isso ter acontecido... não é minha. É sua. Isso é um karma! Por você ter feito isto com nossa família. Eu sempre tento consertar fazendo o certo, mas não... você não sabe o que é ser certo. Não é?
A mulher ainda de camisola, pragueja algo impossível de se entender e se foca no homem. Respira fundo, e solta o verbo calmamente.
– Eu não sei bem sobre o que quer discutir, mas vamos deixar esta discussãozinha de lado e vamos mais uma vez “juntar forças” para acharmos nossa filha, porque de uma coisa nós dois sabemos: eu estou tão errada quanto você. O que acha Roberto?
Roberto tem quarenta anos, mas ele aparenta ter cinquenta, já com cabelos escassos e brancos, várias rugas, olheiras. Foi atacado pelo monstro do estresse. Um monstrinho que ataca devagar e invade a cabeça de todos, primeiramente atrapalhando os pensamentos e depois de um tempo se vê os resultados no corpo. A saúde se esvai tudo por uma falta de escape. Ele é um homem muito bem sucedido, financeiramente, um executivo de primeira, honesto, especializado em MBA de Energias Renovaveis e um dos sócios da empresa Emílio Enterprise. O senhor Roberto, pai de Helena e marido de Judith. Só. Um homem de caráter, fiel, bom pai, mas ausente em tudo que não envolva a “sagrada palavra” trabalho. Duas coisas essencialmente o motivavam, anteriormente, sentimento e amizades, mas com o mundo dos negócios, ele foi percebendo que não precisava de “tudo isso” para ser feliz, só de um pouquinho de diversão nas trocas de expediente e uns dias de folga hibernando na cama.
Ele levanta-se vagarosamente dobra o bilhete e o dá nas mãos de Judith.
– Certo. – E sai do cômodo dobrando à direita pelo corredor de paredes branquíssimas e desce pela escada espiralada, ao chegar ao último degrau da escada ajusta a cabeça para cima e visualiza o teto. – Vou esperar no carro! Não demore – um longo pigarreio – querida...
Judith tem cerca de dois anos a menos que seu marido, ela é linda, mas ultimamente não tem se cuidado. Não com a rotina que tem seguido semanalmente... ela está em uma certa “crise de meia idade”. Bom, ela não sabe muito bem o que seguir e sem nem um ombro ou pilar para se apoiar acabou caindo no buraco profundo da depressão, nem mesmo o seu amor pela música pôde propiciar certo desprendimento do mundo que estava antes a sua volta. Passara por clínicas e tomara remédios de tarja preta, mas eles só serviram para piorar ainda mais a situação.. afundara-se na tristeza. Uma linda professora de faculdade de música clássica que ama o que faz, possui um cargo desejável e bem cobiçado, por isso ela escondera esse “grau clínico” –mau súbito– para a Universidade na qual leciona. O marido, Roberto, a acompanhou nas consultas, sim, e a medicou e cuidou bastante dela, mas logo se enfezou, por ela está paranoica, cética, sem foco algum e sem sentimentos para mostrar, e saiu de cena. Judith ficara sem chão, e momentos drásticos requerem medidas drásticas.
Ela chora diante do bilhete e das roupas de bailarina de sua boneca – filha –, ela queria dizer, querida. Depois de sair do transe, vai ao seu closet e troca de roupas e desce rapidamente ao encontro de seu marido. E dá um sorriso amarelo ao vê-lo ouvindo música no rádio.
– Carro novo? Saiu do emprego cedo hoje – comenta ela com ar de desdém. – O que houve?
– Nada. Só acho que fui demitido...
Graças a Deus, pensara ela.
– Que pena, meu bem. – Ela fala “sinceramente”, pois sabe que o marido é viciado no trabalho.
– Tudo começou, neste carro... – Roberto começa a sua narrativa para Judith.
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