A Vingança
39 Vagalumes
Notas iniciais
P.O.V. Anne
Passava de meia-noite, eu não estava conseguindo pegar no sono, não tenho o costume de dormir cedo, e pra mim meia-noite é cedo.
Estava deitada imaginando a minha vida perfeita, apesar de ela já estar bem próxima disso. Mas seria realmente perfeita se eu estivesse morando na Noruega com Leo em uma fazendinha, ou em um castelo, tanto faz.
Ainda estava aqui viajando na maionese e me perguntando se Nárnia realmente existe quando uma pedrinha bateu na janela ao lado da minha cama. Por um momento achei que fosse minha imaginação, mas cheguei a conclusão que não era quando Valdez bateu no vidro para chamar minha atenção. Ele acenou sorrindo e em seguida colou um envelope na janela. Depois saiu correndo para sabe-se lá aonde.
Sorri. Esse garoto não tem jeito mesmo.
Olhei ao redor, todos continuavam dormindo. Ótimo!
Abri a janela e peguei o envelope. Dentro havia um bilhetinho que dizia:
Lago de canoagem em 10 minutos. =)
Com cuidado para não acordar ninguém, sai pela janela, de pijama e pantufas.
No caminho encontrei Jôh, quase morri do coração quando escutei alguém me chamando, mas por sorte era só ela, ainda bem que não fez muitas perguntas.
Cheguei ao lago. Leo já estava lá. Parecia meio... ancioso e agitado, ok, ele está sempre agitado mas... sei lá!
– Oi! — disse e veio me dar um beijo rápido antes de pegar a minha mão e me guiar a algum lugar que eu suspeito que seja a praia.
– Onde estamos indo? — pergunto.
– Surpresa, preparei uma coisinha especial pra você.
Passamos pelo refeitório e depois atravessamos a floresta do norte. Por um momento achei que fossemos para o Bunker 9, mas acabamos saindo na praia.
O mar estava calmo, e a Lua refletia uma luz prateada sobre as águas, as estrelas brilhavam como nunca havia visto antes.
Caminhamos um tempo em silêncio observando o céu e as estrelas.
– Ok, estamos chegando. — Leo diz. Olho ao redor, não percebo nada diferente. — Feche os olhos.
Sorrio lembrando da primeira vez em que ele havia me pedido isso, no dia do meu aniversário, na clareira, quando ganhei Festus. Fecho os olhos.
– Não vale espiar! — avisa.
– Ta bom.
Andamos mais alguns metros até que Leo me diz para parar.
– Tudo bem, pode abrir.
A princípio acho que estou sonhando, porque o que vejo me lembra muito um sonho que tive outro dia. Uma típica toalha de piqueniques, vermelha e branca, está estendida na areia com algumas almofada e aquelas comidas maravilhosas de piquenique que só vemos nos filmes. Mas o diferencial é o que está ao redor da toalha, espalhado pela areia existem dezenas, talvez centenas de caixinhas de vidro transparente, cada uma com um... vagalume.
– Meus deuses! — digo balançando a cabeça. — Você é louco!
Ele ri concordando.
– É, sou sim! Mas por você.
O empurro de leve.
– Bobo. — sorrimos.
Leo me leva até a toalha de piquenique. Respira fundo e se ajoelha segurando as minhas mãos.
– Eu não me lembro de ter feito isso, então é porque não fiz, lá vai: Suzanne, você aceita ser, oficialmente, minha namorada?
– Deuses! Você ainda pergunta?! — Leo levanta e eu o abraço apertado. — É claro que sim!
– Queria fazer tudo direit... — o interrompo com um beijo, talvez o melhor, não que os outros tenham sido ruins, claro que não! Mas esse é tão... especial, é aquele beijo que te faz esquecer completamente que o mundo existe.
Quando nos afastamos é apenas o suficiente para que possamos olhar nos olhos um do outro.
– Eu trouxe pizza de chocolate. — Leo diz, começo a rir. — O que foi? — pergunta rindo também.
Dou de ombros.
– Sei lá! É que tudo parece tão... surreal.
– Mas pode ter certeza que não é.
Nos sentamos. Apoio a cabeça em seu ombro.
– Você preparou tudo isso sozinho? — pergunto observando o mar.
– Praticamente. — sorrio. — A comida foram as ninfas que prepararam, são ótimas cozinheiras.
– Sabe, isso tudo me lembra muito um...
– Sonho que você teve. — completa.
Volto a sentar direito para o encarar.
– Exatamente! Mas eu não lembro de ter te contado sobre ele.
– Você não me contou, mas eu tenho os meus contatos. — diz dando uma piscadela para mim.
Seus contatos devem ser os filhos de Morfeu, eles adoram espiar sonhos alheios. Um deles deve ter visto o meu e contado para Leo.
– É realmente verdade aquilo tudo que você me disse aquele dia? — pergunto. — Sobre me amar e tal?
– Claro que sim! — diz passando a mão carinhosamente pela minha bochecha. — Por quê?
– É que, tipo, há algum tempo atrás eu morava em um cassino em Las Vegas, então você e Nico apareceram e derepente, de um dia para o outro, tudo mudou, meu mundo virou de cabeça para baixo, e eu acabei descobrindo que de cabeça para baixo era o meu lado certo. E agora eu estou aqui! No piquenique mais fofo e mais perfeito que eu já fiz! Cara, é muito louco! As vezes eu tenho medo de que tudo isso não passe de um sonho.
Leo ri, não sei exatamente por que, mas não importa, fazer as pessoas que amo sorrirem é o que mais gosto.
Ele confere seu relógio de pulso.
– É quase 01:00h. — diz.
– E...?
– Fiz um acordo com as ninfas, você já vai ver. — ele arruma as almofadas para que possamos deitar.
Arrumo a almofada sob minha cabeça e seguro sua mão. Leo confere mais uma vez o horário.
– Três... dois... um.
No um todas aquelas caixinhas ao nosso redor estouram, como bolhas de sabão, e os vagalumes saem voando. Seu brilho se misturava com o das estrelas, como se dançassem com elas, e aos poucos todos vão se reunindo em um só ponto. Depois se separam, no início não entendo muito bem, mas percebo que estão formando imagens... lembranças de coisas que aconteceram semanas atrás. A primeira é Leo e eu conversando, pela primeira vez, no McDonald's do Cassino. A próxima eu estou rindo de algo que ele falou no Camaro, é estranho me ver feita de vagalumes... A terceira é quando ganho Festus e depois o nosso quase primeiro beijo. Na quinta "imagem" estamos jogando videogame naquela minha casa em Miame, e na última, o nosso beijo de minutos atrás. Aos poucos os vagalumes vão indo embora.
Sorrio e me viro para Leo apoiando-me no cotovelo.
– Posso te perguntar uma coisa? — digo.
– Pode.
– Eu sei que a vida de um semideus é difícil, e que viver lá fora pode não ser uma boa ideia, mas você acha que temos chances de... você sabe, crescer, ter uma família... e talvez morar em uma fazenda na Noruega? — pergunto mexendo nos botões de sua camisa.
Ele sorri.
– Claro!... Quer dizer, se você acreditar, tudo é possível.
– Eu te amo. — digo, assim, do nada.
– Eu também te amo, vida. — ele diz. Se eu tivesse escutado algum casal falando assim eu, com certeza, teria achado nojento, mas quando é pra gente é tão... sei lá... uau!
– Acho que preciso voltar para o meu chalé, — digo desanimada — se alguém inventar de ir ao banheiro agora de madrugada e não me encontrar lá... não vai ser legal.
Leo faz beicinho e cara de choro.
– Fica mais um pouco?! Só um pouquinho!
Sorrio e me apoio sobre seu peito para beijá-lo.
– Acho que posso... ficar mais... um pouco. — digo entre os beijos. Valdez me segura firme pela cintura mantendo-me o mais perto possível. Meus dedos deslizam pelos seus cabelos escaracolados enquanto o beijo se intensifica.
Leo é quente, tipo, literalmente, quanto mais ele se agita, mais a temperatura do seu corpo aumenta, não como nas pessoas normais, nele é... diferente, é gostoso beijá-lo quando está assim.
Naquele momento não nos preocupamos com mais nada, apenas nos importamos em aproveitar cada beijo, cada toque e cada segundo que estamos juntos, porque a vida de um semideus é curta, então devemos aproveitar.
* * *
P.O.V. narrador
Os dias que se seguiram foram estranhamente normais. Semideuses novos chegavam, monstros atacavam,... nada de mais!
Nico e Jôh continuaram lavando louça por mais um bom tempo. Provavelmente depois que o castigo terminasse teriam pesadelos com pratos e copos.
Nico ainda planejava viajar, mas dessa vez Jôh iria com ele.
Leo e Anne sairiam em uma missão assim que o um mês do castigo terminasse, parece que Hermes os havia escolhido para fazer uma entrega muito importante sabe-se lá para quem.
* * *
O futuro desses semideuses ainda é incerto. Muitos problemas surgirão, e muitas batalhas vão lutar. Ganharão a atenção dos deuses, e a inveja de muitos semideuses. Mas uma coisa é certa, e isto não foi previsto por nenhum oráculo, enquanto tiverem um ao outro nada será impossível...
Basta acreditar.
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