“11:30h sexta-feira, 10 de Janeiro”

Depois que mantive Natália atualizada do que tinha acontecido naquela madrugada, acabei pegando no sono novamente. Foi o suficiente para eu perceber que dia era: sexta-feira. Sempre acreditei que esse dia era mágico, milagroso, sexta-feira ou cura ressaca ou traz ressaca. De qualquer forma, minha fada madrinha podia jogar um feitiço e mudar tudo.

“Priscila” – Comecei a falar sozinha (em pensamento) – “É sexta-feira”. – PONTO FINAL – “Preciso te lembrar que dia é hoje, novamente?” – Olhei pra cima, Deus, você tá de sacanagem comigo. Sentei na beira da cama enquanto tomava meu café já gelado e amargo: ele volta hoje. Virei a caneca como se fosse um shot de tequila (nunca mais faço isso): o André e o Mateus estarão no mesmo lugar hoje. Pelo menos eu tinha um motivo para ficar perto dele. Entendam, por mais que eu e o Mateus fossemos amigos desde a época da Cleópatra, cada um tinha criado um círculo de amizade diferente. Talvez por isso nossa comunicação fosse tão rara e nosso relacionamento tão frio e direto. Parece ridículo, mas eu tinha medo de me aproximar dele, medo não, vergonha. O que ele vai pensar de mim? Eu não sei se saberia o agradar, nem o que falar. Provavelmente ficaria com aquela cara de adolescente apaixonada: as típicas bochechas rosadas, os lábios tremendo ao sorrir e olhos piscando sem parar. É melhor deixar essa ideia no fundo da gaveta mesmo.

Por que eles são assim? Aliás, por que vocês são assim? Indecifráveis quando querem. Decifráveis nos piores momentos. Reclamam tanto de mulheres e como somos com todas aquelas chatices de indiretas, mas vocês acabam não colaborando muito também. A pior parte: sou dependente dessa raça desgraçada.

Com muito esforço (e um pouco de drama) resolvi sair da cama para aproveitar o dia. É claro que minha real intenção era tumultuar ao chegar na piscina. Queria entender qual o olhar que as pessoas me fuzilariam, imaginar o que estavam pensando e se a vida delas no momento, era mais agitada e sem solução do que a minha.

– Mãe! – Gritei atravessando o apartamento até a porta. – Vou para a piscina! – Não pensei muito antes de sair ou eu desistiria.

Enquanto esperava o elevador, criava na minha cabeça minhas próximas falas do dia. Será que eu olho diretamente pra ele ou não? Será que eu dou bom dia? Ou será que eu cumprimento com um beijo? Não, devem existir mais alternativas além dessa. Será que eu falo alguma coisa ou eu finjo que nada aconteceu? É isso mesmo, se eles podem fingir que nada aconteceu, eu tinha meu direito também.

– OLHA SÓ QUEM CHEGOU! – Um dos meninos da gangue gritou ao me ver entrar na piscina.

– É A NAMORADINHA DO ANDRÉ! – O outro completou a frase.

MEU DEUS, eu tinha esquecido de como garotos são tão imaturos. Naquele momento eu não queria um buraco para colocar minha cara, eu queria me afogar na piscina e ser esquecida ali mesmo. Justo eu que queria fazer tanto segredo com isso, acordo com meu nome na boca do povo. Nelson Rubens, chama o TV FAMA pra mim, eu quero minha foto na chamada do programa.