A Vida de Samanta

5 Capítulo 5


1 semana depois…

Não havia contado para Maelle tudo o que aconteceu e nem sobre a minha decisão de fazer o aborto. Isso me deixava tão sufocada, precisava de alguém para conversar sobre isso e acho que ela é a única nesse momento que eu poderia falar.

Mas como contar isso a ela? Tipo, não vou chegar e “olha só, amiga, vou fazer um aborto, depois disso podemos ir no BK?”. Chega a ser estupidez. Sei que não posso passar por isso sozinha, nem sei se conseguiria.

— Pensando em que, jovem mamãe? — Maelle aparece na porta do meu quarto.

— Não fala isso alto, minha mãe pode escutar!

— Uma hora você vai ter que contar, você sabe disso, né? — ela se senta ao meu lado.

— Não vou contar.

— Acho meio difícil esconder uma barriga por nove meses, mas se é sua escolha. — ela riu.

— Eu decidi não ter o bebê. — disse mais rápido do que deveria.

— Como assim? Você endoidou? O que vai fazer?

— Um aborto.

— Isso é muita irresponsabilidade. — ela levanta. — Você do nada decide fazer um aborto? Não pensou nem em conversar comigo, ou com sua mãe ou com o outro irresponsável que te engravidou? Não dizendo que é errado, mas você nem sabe direito se quer isso. Não falou com ninguém, não pesquisou sobre. Sabe se o pai vai querer ter a criança?

— Não é questão de querer. Querer eu quero, mas sou uma adolescente, não terminei nem o ensino médio. Vou me virar como? E garanto que estou fazendo um favor a ele. Ele também tem muito o que viver antes de trocar fraldas.

— Deveria ter pensado antes de transar.

— Então você não me apoia?

— Quero que saiba que sempre vou te apoiar. Mas não exatamente agora, sem você ter um preparo emocional para isso.

— Eu estou preparada para isso. Você pode ter certeza disso.

— Então vamos na clínica agora.

— Oi? Como assim? Agora? Nem temos horário marcado.

— Mas a gente pode tentar. Se você tem tanta certeza do que quer fazer, já deve ter pesquisado uma clínica, preços, médicos especializados…

— Na verdade, não.

— Então como tá me dizendo que está pronta?

— Talvez você tenha razão nisso, mas eu sei que eu quero fazer. E eu não tenho tanto tempo para pensar, pelas minhas contas devo estar com quase 2 meses.

— Ainda tem muito para pensar. E acho que deveria falar com sua mãe. Até com o Bruno você deveria falar. Não vou muito com a cara dele, mas ele é uma pessoa sensata, as vezes.

— Eu e Bruno não nos falamos mais. Acho que tive uma crise emocional e briguei com ele, pedi distância.

— Sempre essa graça de vocês.

— Não, agora foi sério. Ele fez uma declaração fajuta para mim, mas não acreditei muito e resolvi meter o pé.

— Então resolvam o drama adolescente de vocês. Não é porque não deu certo que não podem ser amigos.

— E agora que notei uma coisa, você disse que ele tava namorando, mas não parecia quando nos beijamos.

— Eu disse para testar você… calma ai. Vocês se beijaram? Eu perdi mais o que?

Contei toda a história daquela noite a Maelle, e pela primeira vez não levei um conselho dela a sério. Não conseguiria ficar de boa com o Bruno, só de imaginar ter que sentar todos os dias na mesma mesa, conversar como se nada tivesse acontecido, isso me mata. Então segui a minha vida sem ele.

Foi fácil não pensar nele tendo que lidar com problemas maiores, começando por contar para minha mãe, como e quando eu faria isso? Será que ela vai me matar quando souber? Por que eu e o garoto fomos ser tão idiotas a esse ponto? E acaba que só eu sofro por saber, ele vai seguir a vida dele sem nem nunca saber que iria ser pai de um bebê meu. Como é complicado ser mulher.

**

Mais um dia havia se passado e recebia milhares de mensagens da Maelle. Ela perguntava se eu já havia contado, se queria minha presença no momento que eu contasse, se eu iria contar ou ela teria que vir aqui para fazer isso no meu lugar.

E eu só pensava na demora que tudo isso estava sendo. Resolvi então pesquisar na internet sobre. Vi tantas coisas assustadoras, mas também vi muitas tranquilizantes. Depoimentos de mulheres que passaram por isso. Mas isso só me deixava mais confusa. Mulheres que tiveram maior apoio não tiveram problemas após o aborto, mas algumas sim e isso se encaixava as que não tiveram apoio também, então o que me garantiria ficar bem ou não? Cada vez me enchia mais de dúvidas e não sabia o que fazer. Talvez eu deveria mesmo falar com minha mãe, mesmo já tendo noção do seu posicionamento sobre isso. Mas e se nada fosse como eu estou planejando. E se eu tivesse o bebê? Eu saberia ser mãe? Eu conseguiria isso?

Ter que acordar nas madrugadas, alimentar, dar banho, trocar, levar ao médico. Isso não me parecia a melhor coisa da vida. Mas e se eu nunca mais conseguisse ser mãe? Se eu fosse castigada por uma força maior? Nada disso saia da minha cabeça. Mais e mais eu pesquisava na internet, em como mulheres eram obrigadas a seguir com a gestação em outros países, e em outros que eram obrigadas a abortar por terem mais de dois filhos. Isso tudo me assustava tanto.

— Filha, você está bem? Vem jantar. — minha mãe aparece na porta e fecho o notebook com pressa.

— Jantar? Já são que horas? — eu não tinha percebido o tempo passar.

— Oito horas, você não saiu da frente desse computador o dia inteiro. O que estava fazendo?

— Desculpa, eu me perdi na hora. Estava fazendo um trabalho de biologia.

— Ah, sim. Pelo tempo que ficou ai, ele vai ser ótimo! Mas desce, estamos te esperando para comer.

— Já vou indo.

Sentia que estava chegando o momento de contar tudo para minha mãe. Mas o medo e ansiedade iam me matando aos poucos. Tentei dar um jeito no meu rosto e mal enxergava pelas longas horas na frente do notebook.

Desci as escadas e vi Luca e minha mãe me esperando para comer. Será que deveria contar agora ou esperaria Maelle vir aqui para ter testemunhas e minha mãe não me matar?

Me sentei a mesa e coloquei minha comida. Parecia ser o jantar mais longo que eu havia participado em toda a história da minha vida.

— Como está indo o trabalho?

— É… bem. — dei uma garfada na comida. — Só falta alguns detalhes, uma outra opinião sobre o assunto. Quase acabado.

— E eu poderia te ajudar nessa opinião? — comecei a tremer e suar de nervoso, mas era uma ótima oportunidade.

— Claro, por que não?

— Então me diga sobre o que é.

— É sobre… aborto. A sua opinião sobre o assunto, se é contra ou a favor, o que faria no caso de alguém próximo querer fazer.

— Nossa, pesado esse tema. Mas… eu sou contra. Não faria, nem quero que ninguém faça. Na minha época eramos ensinados a viver com nossos erros, não que um filho seja um erro, mas ser irresponsável é.

— Oh, okay.

— E se alguém próximo de mim resolvesse fazer, eu tentaria impedir. Buscaria outros meios. A pessoa poderia ter o bebê e criar, ou dar para a adoção ou doar diretamente para alguma família. Mas acho que isso não é da minha conta quando não é comigo. — Ufa – ou com alguém da minha família. — merda.

— Ah sim, obrigada pela opinião… sincera.

— E o que você acha? — ela me olhou séria.

— Acho que isso não condiz só ao meio respeito, cada um é livre para fazer o que bem entender com seu corpo, não importando religião, família, nada.

— Você faria um aborto?

Eu gelei nesse momento, será que ela já sabia e estava me testando? Será que a vaca da Maelle tinha contado para ela? Ou o Bruno contou?

— Depende muito da situação que eu estivesse.

— E que situação você faria?

— Primeira, a que eu não quisesse, apenas. Segunda, a que eu não tivesse nenhum tipo de apoio ou preparo emocional e financeiro.

— Ainda bem que sabe que sempre terá apoio dentro dessa casa. Único motivo de abortar seria sua própria vontade.

— Verdade.

— Vocês falam muito, por que não comem? — Disse Lucas.

— Acho que ele está certo. — disse tentando fugir do assunto.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.