Notas iniciais
Queridos leitores, como já andaram me perguntando, vou deixar as coisas bem claras: esse NÃO é o ultimo capítulo da fic, tem muito o que acontecer ainda. Esse capítulo é muito importante, é onde eu quis chegar desde o início, finalmente, agora é que a história realmente começa. Novos rumos pela frente. Espero que gostem!

Chang me acompanhou pelo extenso caminho de pedra que levava até a casa principal. A aldeia era semelhante a uma vila comum e se não fossem alguns prédios em ruínas e a vegetação que dividia a paisagem com a população local, eu diria que a Iméria, pelo menos naquele espaço, continuava a mesma de antes da guerra. Era como se o tempo não tivesse passado por ali, como se a guerra nunca tivesse acontecido e como se não existisse ameaça alguma no mundo. Tudo muito diferente da Fortaleza.

Enquanto caminhávamos, rostos curiosos apareciam e desapareciam nas janelas. Levou um momento até que eu percebesse o motivo daquele interesse todo, eu devia estar sendo uma novidade e tanto, conjecturei. Estranhei um pouco a atitude desses imeros, as pessoas ali eram livres e pareciam felizes, sem preocupações maiores e medos aparentes. Na Fortaleza, nós estávamos preparados sempre para o pior, vivíamos sobre a constante vigilância e alarmes de aviso. Desde criança erámos treinados para nos defendermos da ameaça permanente dos Iméros. Estando aqui, do lado de fora, toda essa preocupação parecia totalmente desnecessária.

- Com medo? – perguntou Chang ao perceber minha tensão aparente.

- Um pouco – eu respondi – eu não posso se quer imaginar o porquê de tudo isso.

- Não se preocupe com isso. Espere o melhor, prepare-se para o pior e aceite o que vier. Você vai ficar bem Luiza. – ele me garantiu com um sorriso.

- Eu espero que sim – eu disse não muito animada.

- Bom é aqui, a casa principal – ele disse parando – Boa sorte e se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, me encontre na Casa da Cura, eu ficarei feliz em ajuda-la. Coragem senhorita Luiza – me incentivou.

A casa principal era um nome um tanto estranho para aquela construção que se parecia mais com um antigo prédio em ruínas. Quatro andares. Tudo o que restara dele era aqueles quatro andares e uma porta enorme de madeira. Subi os degraus e passei pela entrada principal deixando a porta aberta atrás de mim. Fui tomada por um estranho frio na barriga assim que entrei num grande aposento.

A enorme sala, que já fora a recepção do prédio, estava iluminada pela luz solar que entrava pelas janelas. Do teto pendia um pequeno fogareiro que provavelmente iluminava o ambiente durante as noites mais escuras. No centro da sala, um amontoado de pedras formava uma bancada de escritório e atrás dela, ama mulher estava sentada a minha espera.

Ao notar minha presença, Cássia levantou-se imediatamente e só então eu pude estudar sua aparência. Uma senhora, por volta dos cinquenta anos que provavelmente foi muito bela quando jovem. Cabelos negros caiam em ondas até os ombros, a pele sem rugas marcada apenas pelas expressões do tempo, e os olhos, duas órbitas negras, tudo lhe dava um ar sério e belo. O seu corpo, não era nem magro nem gordo, suas curvas eram bem distribuídas por sua estatura mediana e ela usava um vestido florido verde que, somados com o conjunto da obra, davam a ela uma aparência clássica e romântica. Medo e carinho, uma vontade estranha de pular em seus braços e de sair correndo. Eu era um misto de emoções opostas. Aquela moça era totalmente desconhecida para mim, no entanto, eu tinha uma sensação esquisita de que ela era uma estranha conhecida.

Ela chegou bem perto e num ato inesperado me abraçou forte, como se quisesse me prender eu seus braços para sempre. Eu retribuí sem sequer notar o que eu estava fazendo, apenas seguindo meus instintos que me davam uma inusitada segurança enquanto seus braços me detinham. Depois que me soltou um enorme vazio se apoderou de mim e meu coração me mandava que eu a envolvesse de novo em meus braços.

- Luiza não é? – ela me perguntou com uma comoção contida nos olhos. Assenti com a cabeça e não disse uma palavra, eu estava desorientada demais para pensar em algo que dizer.

- Você não sabe o quanto eu esperei pra ter você aqui de novo – ela continuou claramente abalada — Dezessete longos anos, os piores da minha vida. Você não tem ideia do quanto eu estou feliz.

Continuei em silêncio sem entender nada do que ela dizia. Ela continuou com o monólogo.

- Diga alguma coisa, por favor, me deixe conhecer sua voz – ela implorou – Qualquer coisa – pediu mais uma vez ao ver que eu nada respondia.

- Eu quero saber por que estou aqui, senhora. – perguntei tomando coragem.

- Me chame de Cássia, Luiza. Eu queria deixar esse momento por último, se não se importa. – pediu ela escolhendo as palavras que usaria a seguir — Vai ser algo difícil pra você, eu imagino que não saiba de nada. Conte-me antes, como foi sua vida até hoje na Fortaleza.

- Não mude de assunto – exigi começando a me irritar com aquela enrolação – Dezessete anos não cabem em poucas horas – indaguei com um desejo irracional de feri-la- Por que me mandou sequestrar Cássia?

- Sequestrar você? – ofendeu-se – Eu mandei salvar você.

- Eu não precisava ser salva – declarei esperando que ela me respondesse algo em troca. Uma raiva inexplicável me invadiu ao perceber que ela se manteria em silencio. Quando decidi continuar minha voz saiu mais alta do que eu esperava — se é só isso, estou voltando para casa. – eu disse indo em direção à porta, pronta para fugir dali.

- Espere – ela ordenou, mas eu não me detive.

De repente, a porta a minha frente bateu com a força do vento. Com a força do vento não, com a força de Cassia que usou suas habilidades telecinéticas para me prender ali dentro. Se antes eu estava tentando controlar minhas emoções, agora, deixei que elas viessem com força total:

- Quem você pensa que é pra invadir a Fortaleza, me roubar de lá e agora querer me fazer sua prisioneira. Você não tem esse direito – gritei – Abra já aquela porta- ordenei.

Eu esperava que as palavras que ela diria a seguir anunciariam uma tempestade, mas eu estava errada. Elas anunciariam muito mais que isso, pois elas traziam consigo um furacão.

- Eu sou sua mãe Luiza – revelou ela.

Parei por um momento repetindo a frase várias vezes em minha cabeça pra ter certeza. Minha mãe? Tinha tanta certeza em suas palavras que pensei que ela só podia estar delirando.

-Você é louca – declarei- Minha mãe morreu ...

- Quando você tinha seis meses? – ela adivinhou.

-Bom chute! – era uma coincidência, só um bom palpite, ele não tinha saber disso, tinha? Ela não deixou que eu continuasse:

-Eu me lembro como se fosse ontem. Cada detalhe se parece com um filme em minha memória. Seu avô, Magno Caillet, ainda era vivo, ele não aprovava a decisão de seu pai de largar a Fortaleza e vir morar conosco na Aldeia. – ela parou, tomando forças pra dizer o que ela tinha que contar a seguir e recomeçou a narrativa.

- Quando seu avô descobriu que seu pai tinha fugido pra cá, ele mandou as tropas da guarda vermelha destruir nossa aldeia. Só que seu pai não tinha fugido, ele mudou de ideia no meio do caminho e voltou para a Fortaleza. Quando ele chegou lá, alguns guardas lhe contaram o que seu avô havia ordenado e então ele correu de volta para aldeia. Quando ele chegou, já era tarde demais, tudo estava destruído. Muitos estavam mortos, vários feridos, entre eles eu e a sua irmã. Logo que eu vi o que estava acontecendo, eu peguei vocês no colo e corri pra nos escondermos, só que algo me atingiu no meio do caminho e eu cai derrubando sua irmã no chão. Eu a peguei sujando-a de sangue, e então me arrastei até atrás da casa de cura. Foi lá que ele nos encontrou, ele tirou você de mim. Ele roubou você de mim e eu não pude fazer nada por que eu mal conseguia me lembrar de onde estava.

Então ela se calou e lágrimas começaram a brotar de seus olhos. Eu vi a compaixão começar a se formar em mim, mas eu não podia me deixar levar por aquelas palavras mentirosas, era tudo um teatro e ela era uma excelente atriz.

-Isso daria um bom drama se fosse verdade, mas como não é...

- Essa é a verdade – ela disse suspirando.

- Você não pode insistir com isso – ordenei alterada – Eu fui treinada pra me defender de vocês mesmo todos dizendo que vocês não existiam. Eu nunca tive certeza de que vocês eram reais até vocês invadirem minha casa e me tirarem de lá – cuspi as últimas palavras com ódio – Se ninguém sabe de vocês na Fortaleza, como pode meu pai saber? Por que ele esconderia isso de mim?

- A alienação é a melhor forma de poder.

-Isso é loucura. Eu não sou alienada – gritei – Me diga então como meu pai conheceu você.

- Quando os mavros descobriram que nós tínhamos sobrevivido à Grande Tragédia, eles ficaram curiosos para descobrir como resistimos á radiação. Os cientistas queriam começar a fazer testes com a população –começou ela com uma calma forçada que só me deixava mais aborrecida- Nós éramos frágeis naquela época, não tínhamos uma organização e por isso aceitamos o que nos foi proposto. Você pode falar com Chang se quiser, ele é o habitante mais velho da aldeia, ele vai saber te explicar o que aconteceu. Eu não tinha nascido ainda naquela época. O fato é que, uma vez por mês, a guarda vermelha vinha até a aldeia selecionar os habitantes que eles queriam para fazer os testes. Foi assim desde sempre, e ninguém nunca voltava.

- Onde entra meu pai nessa história? – perguntei impaciente deixando de lado o resto da história.

- O seu pai era um dos soldados da guarda vermelha, ele era um jovem muito bonito naquela época. – um sorriso se formou em seus lábios e rapidamente se esvaiu — Ele veio numa das coletas pra selecionar alguém. Pra cada homem ou mulher que eles levavam, nos recebíamos em troca alimento e todo tipo de coisas necessárias para a nossa manutenção de vida. No dia da coleta eu fui escolhida, mas eu acho que seu pai gostou de mim de alguma maneira, ele sabia o que aconteceria comigo se eu fosse para a fortaleza, então ele me ajudou. No fim eles acabaram levando outros de nós. Foi assim que nos conhecemos. Ele salvou a minha vida. Em pouco tempo nós estávamos apaixonados e logo vocês duas nasceram. Mas aí seu avô descobriu tudo e então o resto eu já contei.

- Isso não é verdade – duvidei desejando estar com a razão – ele teria me contado. Eu não posso ter nascido aqui, este não é o meu lugar a minha vida estava na Fortaleza. Comecei a me desesperar com a ideia –Eu não sou uma imera nojenta – gritei sem pensar nas palavras.

-Pois é o que você é! – ela gritou ofendida.

- Pois prove! – desafiei.

Ela se aproximou de mim e antes que eu pudesse prever seus movimentos, puxou com força a manga esquerda da túnica azul que eu usava. O tecido foi rasgado da gola ao decote, deixando a mostra minha marca de nascença entre meu pescoço e ombro.

-Isso é só uma marca de nascença – esnobei.

Então ela puxou a manga de seu vestido, deixando à mostra uma marca idêntica a minha, a mesma marca que meu pai me proibia de mostrar a alguém. As peças do quebra cabeça começavam a se encaixar, mas ainda tinham muitos espaços em branco. Ok, talvez ela estivesse falando a verdade sobre ser minha mãe, mas e o resto? Se ela era minha mãe, quem era aquela pessoa doce e carinhosa que eu chamei de mãe a vida inteira?

- Isso não é uma marca de nascença – corrigiu Cássia – Isso é uma espiral. Essa é a marca da aldeia, todos os habitantes nascidos aqui tem uma dessas. Assim que um bebê nasce elas são impressas sempre no mesmo lugar do corpo com ferro quente. Essa é só mais uma das regras impostas pelos mavrianos para que pudéssemos viver sem retaliações. Eles nunca desejaram que nos misturássemos a eles. Não há como negar Luiza, você pertence a essa aldeia, você é uma de nós. Uma imera.

Notas finais
Reviews? Me digam, era o que vocês esperavam? Sim, ou não? O que vocês esperavam? Posto o próximo capítulo mais rápido que vocês imaginam . Nilkity Abraços!