A Vida Secreta Dos Imeros
7 Telecinese
— Você tem mesmo que fazer tantas curvas Victor? Eu já estou ficando tonta – reclamei.
— E você tem mesmo que reclamar tanto? Onde foi parar todo aquele papo de confiança, hein senhorita Luiza? – retrucou.
Era fácil falar sobre confiança quando se tinha a dimensão exata do lugar onde você estava. Naquela manhã, Victor me acordou antes que clareasse, enquanto os outros ainda dormiam, com a desculpa de que tinha que fazer algo que já devia ter feito há muito tempo. Por mais que eu lhe implorasse ele não me disse onde estávamos indo. Vendou meus olhos e começou a me guiar por caminhos os quais eu mal sabia onde pisava. A sensação era um misto de curiosidade, frio na barriga e medo. O que ele ia fazer comigo? Eu não tinha ideia, pensei em algumas possibilidades e não gostei de nenhuma delas.
Algo em seu silêncio me dava à impressão de que ele era proposital, Victor se mantinha calado com o objetivo de me deixar tensa e ansiosa, só me respondia quando julgava necessário e se calava novamente. Se realmente era essa a intenção, ele estava conseguindo. Mistério, lá estava ele de novo, jogando com minhas expectativas e misturando as minhas certezas. Certezas? Minha vida havia se transformado em um grande enigma e cada passo que eu dava, ao mesmo tempo em que era levada para a resolução da charada, era empurrada mais e mais para o desconhecido.
— Victor alguém sabe onde estamos indo?- quis saber.
— Não.
Isso não era nada bom. Eu havia lhe pedido um voto de confiança e ele tinha me dado não só um, mais dois, primeiro entregando-me a minha mochila e depois me deixando passar a noite sozinha ao redor da fogueira. Eu, por outro lado, não era capaz de fazer o mesmo, não enquanto eu tinha meus olhos vendados. Pelo jeito ninguém se quer sabia que havíamos deixado o acampamento, da mesma forma que ninguém viria me salvar se eu precisasse. Eu não podia confiar. Victor me mostrara várias vezes seu temperamento inconstante e agressivo, suas atitudes eram imprevisíveis. Em um segundo, ele te pedia desculpas, no momento seguinte, te arrastava pelo braço rudemente, sem se importar se te machucava ou não. Qual seria o passo seguinte?
Quando paramos, senti sua presença em minhas costas e sua boca bem próxima a minha orelha direita me causava arrepios enquanto ele falava:
— Agora prometa que será uma boa menina – ele esperou por minha resposta.
— Tá bom. Eu serei.
— Prometa! – porque eu tinha a impressão que ele estava se divertindo com tudo aquilo? Não era nada divertido. Era assustador.
— Prometo.
— Ótimo. Você tem que fazer tudo que eu mandar. Agora escute, eu vou tirar sua venda, não abra os olhos até eu mandar. Você entendeu?
— O que vai acontecer se eu abrir?
— Experimente abrir! – Ai meu Deus! Tão misterioso. Diversas sensações se apoderaram de mim.
Senti suas mãos desatando os nós sob meu cabelo, ele retirou a venda e disse:
— Abra! – Tão mandão, pensei.
Assim que abri vi que ele estava à minha frente próximo demais, olhou em meus olhos enquanto continuava:
— Eu te trouxe aqui porque tem algo que eu devia ter feito há muito tempo mais eu tinha que esperar um momento em que estivéssemos a sós, pela oportunidade certa, entende? – Ele não esperou pela minha resposta e prosseguiu — Desde que te tirei da Fortaleza eu tenho vontade de fazer o que eu tenho que fazer... Você me tirou tanto do sério esses dias Luiza, você não imagina.
Eu não estava gostando do rumo dessa conversa. Uma frase me veio à mente, uma em que ele me dizia “se você me causar algum problema, eu acabo com você”. Eu causei algum problema? Não exatamente, mais eu havia contrariado ele várias vezes nos últimos dias, talvez isso fosse um problema afinal. Gelei. Olhei ao redor em busca de uma fuga. Estávamos no que parecia ser uma caverna e a única saída visível estava atrás de Victor. Eu não tinha como sair sem passar por ele. Nada bom.
— Porque você me trouxe aqui Victor? – perguntei tentando soar confiante.
— Para que pudéssemos ficar sozinhos. Estamos quase chegando à aldeia e o que eu tenho que fazer tem que ser feito antes – ele não parecia irritado, mas nervoso, como se tivesse que fazer uma coisa muito difícil.
— Os outros não podem saber? – perguntei tentando ganhar tempo.
— Não, eu não tenho permissão pra fazer isso Luiza – Quando ele ia me dizer o que exatamente “isso” significava? Será que o pânico em meus olhos ainda não era suficiente pra ele?
Analisei o interior da caverna. Ela estava semi-iluminada pela luz solar que vinha da entrada e eu podia ver o chão rochoso coberto por folhas e por pontos brancos que pareciam ser penas, provavelmente, o que restara de uma caça de algum animal. Do teto pendiam estalactites de diferentes tamanhos e em alguns pontos, elas eram tão longas e grossas que chegavam a formar colunas. Em um dos cantos, algumas rochas formavam um balcão que parecia com uma espécie de barreira e pelo som que ecoava do interior, eu poderia jurar que elas formavam uma piscina nas rochas.
— Tem água aqui? – perguntei duvidosa tentando mudar o rumo da conversa.
— Sim. É um dos poucos lugares que ainda tem água potável, mas está cada dia mais seca. Não sei por quanto tempo ela ainda vai durar. Vem! — ele pegou minha mão, me arrastou até os balcões e pude ver que estava quase certa. Não era parecido com uma piscina, mais um pequeno lago de águas cristalinas bem no meio da Iméria. Incrível.
— Você já conhecia esse lugar?
— Já sim. Nós moramos aqui por um tempo, mas não é sobre isso que viemos conversar.
— Conversar? Nós viemos aqui só para conversar? – perguntei aliviada.
— Sim, e pra te mostrar uma coisa também. O que você pensou que fosse?
Confiança. Era tudo questão de confiar no desconhecido. Até agora minhas desconfianças tinham sido inúteis, ninguém me fizera nenhum mal até então. Mas eu poderia continuar confiando?
— Nada – respondi.
— Bom vamos direto ao ponto, não temos muito tempo. Eu espero sinceramente que isso não pire você. O que você sabe sobre telecinese?
— Telecinese? Tipo mover objetos com a mente?
— É mais que isso, é poder influenciar qualquer matéria com a mente.
— Isso não existe Victor. A ciência nunca comprovou.
— A ciência precisa comprovar pra você acreditar? Luiza olhe ao seu redor – ele pediu.
Quando olhei fiquei impressionada. Cada folha seca, cada pena que eu tinha observado no chão agora flutuava sobre nós. Entre nós. Como uma chuva estática de folhas e penas. Em um instante elas começaram a se mover formando um redemoinho horizontal, acima e abaixo em um padrão constante de movimento.
— Você está fazendo isso? – perguntei em descrença. Ele não respondeu em palavras, só deu um sorriso presunçoso. – Mas que... Isso não é possível! Como? O que vocês são? Bruxos? Todos podem fazer isso?
— Bruxos? Pra quem se mostrou tão cética, não é um pouco fantasioso demais? Isso não é mágica Luiza – disse decepcionado.
— O que é então? Que espécie de coisa vocês são e por que eu? Tantas pessoas na Fortaleza, por que roubaram a mim e não qualquer outra pessoa de lá? Fale agora Victor ou eu... — o que eu podia fazer presa naquela caverna? – Pulo nessa piscina e eu n sei nadar — completei.
— Você vai se matar? – ele riu – Ora Luiza você é mais esperta que isso. Duvido que pule, seu sentido de autopreservação é muito forte para tanto.
Droga. Onde eu estava com a cabeça quando disse isso? Tinha coisa mais idiota pra se dizer? Mas o que eu podia fazer? Ele movia as coisas com a mente, sabe-se lá o que ele planejava pra mim. Sabe-se lá o que me esperava na tal aldeia. Mas ele duvidava de mim? Jamais duvide do que eu posso fazer. Corri em direção ao lago e sem pensar me joguei.
Não sei explicar o que aconteceu ou como aconteceu, só sei que quando vi, estava deitada com as costas na rocha da barragem enquanto Victor se apoiava sobre mim com um olhar preocupado. Seus cabelos escorriam a água do lago, pelo visto, ele havia pulado atrás de mim pra me salvar e por mais que eu tentasse, não pude deixar de rir.
— Você ficou louca Luiza? Isso não foi engraçado. Você está bem?
— Eu sei nadar Victor. Eu menti.
Eu juro que pensei que ele fosse ficar irritado por eu ter mentido, mas ao invés disso, olhou em meus olhos como se procurasse ver minha alma e em seguida colou seus lábios nos meus. O beijo dessa vez foi diferente, mas calmo e duradouro. Naquele momento não existia Iméria nem Fortaleza, não havia dúvida nem segredos a serem descobertos. Naquele momento só existiam Victor e eu. Ele se afastou depois de um selinho. Puxou-me pelo braço e me colocou em pé.
— Onde estávamos? Há sim, você tinha me perguntado sobre o que nos somos. Nós somos humanos, simples assim.
— Humanos não movem objetos com a mente Victor.
— Você fala como se eu tivesse saído de uma história em quadrinhos, não é assim Luiza. Eu posso jurar pra você que sou tão humano como você.
— Como é então?
— Bom sua... – de repente ele parou, como se fosse falar algo que não devia – Alguns simplificam dizendo que enquanto vocês desenvolveram a tecnologia, nós da Iméria desenvolvemos a humanidade. A verdade é que desde sempre houve relatos de pessoas que eram capazes de influenciar a matéria ou curar com um simples toque, acho que devido a nossa necessidade, nos não tínhamos toda a sua tecnologia, tivemos que nos virar, tivemos que evoluir de alguma forma, sabe lá, não sei explicar como, sempre foi assim pra mim, desde pequeno.
— Por que você está me mostrando isso agora, por que não antes ou depois?
— Nos proibiram de te falar sobre isso, eles acham que você não tem que saber até chegar à aldeia, mas eu acho que seria mais traumático se você chegasse lá e visse, sem ter um tempo para se acostumar com a ideia, imagine ver uma cadeira voando ou coisa parecida, você não sabe o quanto podemos ser preguiçosos.
— Isso é assustador Victor, todas aquelas lendas, eu fui ensinada a temer vocês mesmo sendo só lenda, de certa forma todas estavam erradas mais ao mesmo tempo certas, eu tenho vontade de sair correndo.
— Não saia. Eu estou quebrando as regras porque quero que você fique. Maicon me contou sobre o acordo entre vocês. Você se acostuma com o tempo, um voto de confiança Luiza, é só o que estou pedindo.
— Mas eu não entendo, por que eu? O que eu tenho haver com tudo isso? Eu nem sei fazer essas coisas com a mente.
— Não tem haver com isso Luiza, isso não é sobre as coisas que podemos fazer com amente, mas tem coisas sobre você que você sequer pode imaginar. Muitas coisas, mas eu já quebrei regras demais, eu não posso quebrar mais uma. Nós temos que voltar, já está tarde.
-Então, já que você não quer quebrar mais umas regras, que tal mais um mergulho? – implorei.
Ele passou por mim como uma flecha e eu o segui. Ambos pulamos na água com a sensação de que uma porta tinha se aberto entre nós. Fazer objetos se moverem não era assim tão diferente quanto às invenções bizarras que existiam na Fortaleza, nós podíamos influenciar maquinas com nossa voz, uma única palavra e as coisas começavam a funcionar. Quão diferente isso era? Talvez não houvesse uma diferença, mas o que realmente me preocupava agora era uma só frase “Tem coisas sobre você que você sequer pode imaginar”.
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