A Vida Como Ela É

26 Capítulo 26


Notas iniciais
Tenho que parar de falar que vou postar no dia certo u.u sempre demoro duas semanas para postar e escrevo o capitulo em um dia kkk. Espero que gostem, esse capitulo da raiva kkkk Cuidem de comentar. estou carente de comentarios =(

Bjinhos
Ate a proxima =D

Vi uma fresta de luz branca entre os meus olhos e pisquei, minhas pálpebras estavam pesadas, repirei fundo e forcei minha vista a ficar limpa. Encarei um teto branco acima de mim, olhei para o lado e vi um cabide de soro. Respirei fundo e pisquei meus olhos novamente, meu corpo estava doendo, virei minha cabeça para o outro lado, alguém estava sentado em uma cadeira, e logo atrás havia outra cama.

Foquei minha visão na pessoa que estava na cadeira e reconheci os traços da mãe de Amanda, ela estava com as duas mãos no rosto, olhei para ela sem entender, senti meu peito se apertar, olhei para a outra cama e vi Amanda inconsciente. Arranquei o soro do meu braço e me levantei com o resto de forças que eu tinha.

— Mas que...

Escutei Tina dizendo, me apoiei na cama de Amanda e olhei para ela, seu rosto estava normal, sem nenhum hematoma. Minhas pernas tremeram e eu me senti caindo, braços me seguraram antes de atingir o chão. Olhei para quem tinha me segurado e vi os olhos azuis de Tina.

— Calma, vem, deixa eu te colocar na cama — Disse, ela me apoiou nos braços e me colocou na cama cuidadosamente. Eu não consegui parar de encara-la. — Está bem?

— Sim — Sussurrei. Tina se aproximou de Amanda e segurou a sua mão.

— Amanda ela está... — Comecei a perguntar e as palavras escapuliram da minha boca, eu temia que algo grave tivesse acontecido.

— Ela está bem, só está dormindo por causa de um remédio para dor — Disse dando um beijo na testa dela e se sentando ao meu lado. — Ela fraturou algumas costelas, mas ela vai ficar bem em algumas semanas.

Olhei para o teto e lágrimas escorreram pelo meu rosto. Eu não a protegi. Meu peito se apertou, eu deveria ter sido capaz de ter ao menos a protegido, eu lutava para isso, não apenas para competir, mas para proteger quem eu amava, e eu deixei a pessoa que eu mais amava se machucar. Senti uma mão segurar a minha e olhei para o lado surpresa.

— Obrigada — Disse Tina, olhei para ela sem entender, obrigada pelo que? Por deixar a sua filha se machucar? — Se você não estivesse lá, provavelmente agora não estaríamos aqui e sim em um funeral.

— Mas...

— Albert, tem problemas mentais, quando ele parava de tomar os remédios ele fica diferente, mas ele nunca chegou a esse ponto quando estávamos juntos.

— Amanda disse que ele acha que ela era a culpada por terem se separado — Comentei a encarando, ela confirmou com a cabeça e deu um suspiro.

— Sim, deve ter sido isso — Respirou fundo e olhou diretamente nos meus olhos.

— Eu não a protegi — Falei desviando o olhar para o teto.

— Mas se você não estivesse lá eu não sei o que poderia acontecer. Então obrigada — Ela apertou a minha mão e respirei fundo. Não sabia se aquilo era bom ou ruim. Fechei meus olhos e relaxei sobre a cama, meu corpo parecia que nunca iria parar de doer, provavelmente o efeito do remédio tinha passado. Foi então que depois que me toquei que Tina estava aqui e não em Okinawa, o que pareceu muito idiota da minha parte ter percebido isso depois de vários minutos.

— O que aconteceu? Como chegou aqui? — Perguntei olhando para ela.

— Bem, de acordo com os vizinhos de Albert, acho que era Ricarda o nome da garota — Falou pensando, acenei com a cabeça e ela prosseguiu. — Ela e o seu marido viram você e Amanda no chão, quando abriram a porta depois de varias batidas. O marido dela impediu Albert de fazer mais alguma coisa daí em diante. Chamaram a policia e a ambulância, logo em seguida ligaram para mim.

— Ah sim — Falei piscando para limpar a visão. — Eles estão bem?

— Sim, apenas o marido que está com a mão machucada dos socos que deu — Disse dando um sorriso sem graça nenhuma. — Albert está internado aqui e depois vai para uma clinica.

— Ele, digo Albert praticou alguma luta? Ele sabia como bater — Falei lembrando dos socos que levei.

— Sim, praticou Box quando era mais novo — Respondeu-me dando de ombros, não me admira eu ter apanhado tanto. — Foi antes de nos conhecemos.

— Humm — Eu estava com sede, limpei minha garganta e olhei para ela. — Pode me dar um pouco de água?

— Sim, claro — Ela se levantou e saiu do quarto, voltou com um copo de água nas mãos, se aproximou de mim e me ajudou a ficar sentada. — Beba devagar.

Bebi a água devagar e me senti melhor.

— Obrigada — Agradeci deitando novamente.

— De nada — Disse se sentando na cadeira novamente. Soltou um suspiro e olhou para o chão. — Daí quando eles ligaram para mim, liguei para o seu pai logo em seguida. Compramos as passagens o mais rápido possível e viemos para cá.

— Meu pai está aqui também? — Perguntei surpresa.

— Sim, ele deve estar falando com o médico — Respondeu.

— Quando tempo estamos aqui?

— Não muito tempo, acho que umas 10 horas — Disse olhando para o relógio de pulso.

— Hummm.

Tina ligou a TV e fiquei assistindo um filme, até que a porta se abriu e meu pai entrou no quarto com uma enfermeira atrás. Olhei para ele e um sorriso se formou nos meus lábios, ele correu e segurou minhas mãos com força.

— Ainda bem que está bem, estava tão preocupado — Disse beijando minhas mãos.

— Fico feliz que o senhor esteja aqui — Falei sorrindo e ele beijou minha testa, me deixando sem reação, fazia anos que meu pai não fazia isso.E me senti feliz apesar da situação. — Mamãe deve estar desesperada lá em casa.

— Deve mesmo — Disse sorrindo e se sentou na beira da minha cama. — Vou ligar para ela daqui a pouco. Mas então como se sente?

— Dolorida — Falei sorrindo e senti meu peito doendo.

— Não me admira, o soro está derramando no chão — Disse a enfermeira balançando a cabeça e se aproximou de mim, estava com uma seringa nas mãos. — Remédio para dor.

Ela colocou o soro em mim novamente e depois colocou o remédio. Nunca gostei muito de injeção, mas se fosse para tirar a dor eu não reclamava. Fechei meus olhos por um momento respirei fundo.

— O remédio vai fazer efeito daqui a alguns minutinhos — Disse a enfermeira saindo do quarto.

— Então, Eu estou muito machucada? — Perguntei olhando para o meu pai.

— Não, só uns hematomas por aí, nada que uma maquiagem e gelo não resolvam — Respondeu sorrindo.

— E Amanda? — Perguntei já sabendo a resposta.

— Ela está bem, fraturou duas costelas, mas vai ficar bem alguns dias, pode ir até para a sua competição em Tóquio, não é mesmo Tina?

— Claro — Disse dando um sorriso gentil para mim.

— As passagens...

— Não se preocupe, eu consegui adia-las para daqui a um dia — Disse ele apertando minhas mãos.

— Minhas coisas? — Perguntei pensando no hotel e no Bernhad.

— Bem, o seu amigo, o taxista.

— Benhard? — Perguntei com um sorriso no rosto.

— Este mesmo, trouxe suas coisas para cá — Papai deu um sorriso. — Bom senhor ele, prometeu te visitar amanhã.

— Que bom — Falei fechando os meus olhos, senti o remédio começar a fazer efeito.

— Vou deixar você dormir um pouco — Disse ele dando um beijo no meu rosto e saindo da cama. Fechei os meus olhos e relaxei. Não sabia o que iria acontecer, provavelmente eu iria ir embora para casa, para me preparar para o campeonato que já era nessa semana. E antes que eu percebesse eu apaguei.

Acordei com alguém segurando a minha mão. Olhei para o lado e vi Amanda ao meu lado, tinham juntados as camas. Virei de lado devagar e toquei o seu rosto, olhei em seus olhos cinzas e dei um sorriso gentil.

— Como está se sentindo? — Perguntei, ela parecia bem.

— Doída para dizer a verdade — Respondeu sorrindo. — E você?

— Estou um pouco melhor — Falei, beijei sua mão e respirei fundo.

— Viu que nossos pais estão aqui? — Perguntou, olhei em volta e não os vi no quarto. — Não aqui no quarto boba.

— Ah sim, vi sim. Falei com eles mais cedo — Engoli em seco. — Falando nisso que horas são?

— Está de tarde — Disse me observando. — Você vai ter que voltar para Okinawa não é?

— Aham — Sussurrei e me inclinei beijei sua bochecha.

Amanda e eu ficamos conversando durante horas sobre varias coisas, queríamos não lembrar do que tinha acontecido e de que iríamos nos separar logo logo. Nossos pais conversaram com a gente tão normalmente que até estranhamos. O meu voo era 3 horas da manhã, quando foi 2 horas da manhã comecei a me arrumar. Tomei um banho quente, olhei no espelho e vi os hematomas no rosto, eles não estavam roxos, mas sim em um tom um verde. Meu pai fez questão de colocar gelo enquanto eu dormia, esse era um dos motivos que eu sentia algo gelado no rosto enquanto dormia.

Minhas costas estavam roxas e em volta do meu pescoço estava um pouco também. Me enxuguei e vesti uma calça jeans preta, uma camisa regata preta, por cima uma blusa de manga vermelha, coloquei o cachecol em volta do meu pescoço, tina me ajudou a calçar as botas e passou um pouco de maquiagem no meu rosto. Depois que me arrumei fui ate Amanda que estava sentada me observando.

— Hey — Sussurrei, ela me deu um sorriso triste. Abracei devagar por causa das suas costas e beijei sua testa. — Vou ficar bem.

— Ok — Disse me abraçando de volta. — Se cuide lá. E vença o campeonato.

— Pode deixar — Dei um sorriso e beijei-a nos lábios, Amanda retribuiu o beijo e nos afastamos. Vi ela olhando para o lado, onde os nossos pais estavam e sorri. Beijei sua testa e falei. — Vou te esperar lá.

— Tá bom — Sorriu sem graça para mim.

— Ouviu, vou esperar vocês duas na final do campeonato — Falei indo em direção a Tina. Ela acenou com a cabeça e eu a puxei para um abraço. — Cuide dela, ok?

— Claro — Tina me deu um beijo na testa e se afastou. — Agora vá e faça uma boa viagem.

— Ta bem — Dei um abraço em Amanda novamente, papai pegou minha bagagem e saímos do quarto.

Quando saímos do hospital, Benhard estava parado na frente do seu carro com os braços cruzados, ele olhou para mim e deu um enorme sorriso.

— Charlie — Disse e dei um abraço nele. Pegou meu rosto entre suas mãos e me observou — Como você está?

— Eu estou bem — Falei sorrindo e me afastando dele. — E o senhor como está?

— Eu estou bem, apesar de ter ficado preocupado com você — Disse abrindo o porta- mala e colocando as minhas malas e uma pequena mala de mão que era do meu pai dentro. Entramos no carro e ele ligou o aquecedor. A noite estava fria. — Hoje o tempo esta frio.

— Está mesmo — Disse meu pai esfregando os braços.

— No Japão essa época do ano é fria também?

— Sim — Eu e meu pai respondemos juntos. Benhard sorriu e entramos em uma avenida.

Não demoramos nem 10 minutos e chegamos ao aeroporto de Berlim. Tiramos nossas bagagens e fomos para o desembarque. Despachamos nossas malas e nos dirigimos para a sala de espera.

— Bem, eu acho que nos despedimos aqui — Disse Benhard com um sorriso triste.

— Verdade — Falei me aproximando e o abraçando. — Foi um prazer passar esses dias com o senhor.

— O prazer foi meu — Disse sorrindo, vi os seus olhos se encherem de lágrimas, senti uma tristeza me atingindo.

— Oh, não chora — Abracei-o novamente com força. — Você vai me ver novamente, pode demorar um pouco, mas vai me ver.

— Tudo bem — Disse enxugando as lagrimas, olhou para o meu pai e estendeu a mão. — Foi um prazer conhecer o pai dessa garota maravilhosa.

— Prazer foi meu — Meu pai apertou a sua mão e sorriu. — Ah, e você pode ver Charlie semana que vem na TV.

— Na TV? — Perguntou Benhard e eu ao mesmo tempo.

— Sim, vai me dizer que se esqueceu que o campeonato nacional passa na TV? — Perguntou meu pai para mim.

— Vixe, é verdade — Falei coçando a minha cabeça e lembrando do campeonato do ano passado.

— Coloque no canal 132 daqui a 5 dias, que vai passar — Disse meu pai para Bernhad.

— Tudo bem, então — Benhard sorriu para mim e fez um ok com o polegar. — Irei torcer por você daqui.

— Obrigada — Agradeci. Papai pegou nossas coisas do chão e eu dei meu ultimo abraço no taxista que eu tinha conhecido. — Até mais.

— Até mais! — Disse ele, virei para frente e acompanhei meu pai.

Não tivemos que esperar muito na sala de espera, embarcamos no avião e partimos rumo a nossa casa. A viagem foi tranquila, sem nenhuma turbulência, pelo menos não que eu tenha sentido já que eu dormi a maior parte do tempo. Chegamos 11 horas da manhã no aeroporto de Okinawa, pegamos nossas bagagens e saímos da sala de desembarque. A primeira coisa que vi foi minha mãe parada na frente da porta nos encarando, ela andou rapidamente e me abraçou com força.

— Oh Deus — Se afastou e olhou para mim. — Você está bem?

— Estou sim mãe — Respondi segurando sua mão e dando um sorriso. Me abraçou novamente com força, olhei para trás dela e vi Yoi e vovó sorrindo.

— Nunca mais faça isso.

— Está tudo bem, mãe — Falei sorrindo e me afastando, puxei vovó para um abraço apertado, Ela massageou minhas costas e eu sorri. — Como a senhora está vovó?

— Eu que deveria fazer essa pergunta — Disse me observando e deu um sorriso.

— Você nos mata do coração um dia — Yoi disse cruzando os braços. Sorri e vovó se afastou.

— Eu não tenho culpa — Dei de ombros e sorri, lhe dei um abraço apertado, ela encaixou seu pescoço no meu, percebi que Yoi estava muito preocupada comigo. — Eu estou bem, eu juro — Sussurrei no seu ouvido, ela fungou no meu pescoço e eu sorri involuntariamente.

— Baka! — Me deu um empurrão e esfregou os olhos.

— Baka é você — Devolvi sorrindo. Olhei para os meus pais que estavam se abraçando, Acho que eles estão bem novamente, vovó sorriu e deu uma piscadinha para mim. — Bem, não querendo ser chata, mas vamos? Estou morrendo de fome.

— Diga uma novidade — Disse Yoi passando por mim e andando na frente. Acompanhamos ela e saímos do aeroporto. Vários minutos depois chegamos em casa, Vovó tinha preparado um banquete para o almoço. Tomei um rápido banho e fui almoçar. Nada melhor do que a comida de casa depois de um tempo fora. Quando terminei de comer mal estava conseguindo respirar de tão cheia, nos juntamos e ficamos assistindo um filme na sala durante a tarde, conversamos, contei o que tinha acontecido para vovó, Yoi e mamãe. Elas ficaram revoltadas com o pai de Amanda, mas depois de um tempo se acalmaram.

A noite caiu e os pais de Yoi vieram pegá-la, Papai me fez colocar gelo em todas as partes do meu corpo que estavam doendo, e tenho que dizer que eram muitas. Deitei na cama de costas e coloquei a bolsa de gelo nas minhas costas. Passei um bom tempo assim, depois mudei a bolsa para o rosto, coloquei sobre a minha bochecha e senti minha pele ardendo. Olhei para as minhas mãos que estavam feridas no punho e suspirei, meus lábios estavam cortados, mas não estavam mais inchados para a minha sorte.

Quando o gelo acabou, cobri-me com o lençol e dormi, amanha era quarta e eu teria que ir para a escola. A diretora ficou sabendo sobre o que tinha acontecido e disse que não teria problemas a respeito das faltas. Coloquei um pouco de lençol no pescoço e pensei em Amanda.

— Charlie — Senti alguém me cutucando e abri os olhos, vi mamãe ao meu lado. — Bom dia.

— Humm — Me sentei na cama devagar e bochechei. — Bom dia.

— Já está na hora de se arrumar para ir para o colégio — Balancei a cabeça e ela tocou a minha testa. — Está bem?

— Aham — Sussurrei colocando minhas pernas para fora da cama. Mamãe se afastou e me observou. — Vou tomar meu banho.

— Certo, qualquer coisa só falar.

Peguei minha toalha e fui em direção ao banheiro no corredor, entrei e fechei a porta, olhei para o espelho e vi que meu rosto estava bem melhor. Tirei minhas roupas e entrei na banheira, a água estava quentinha. Alguns minutos depois enxuguei os meus cabelos e fui para o quarto. Vesti meu uniforme, parecia que a anos que não o vestia, passei um pouco de maquiagem no rosto e me olhei no espelho. Estava tão normal quanto podia, penteei meus cabelos e fui tomar café.

Tomei um café da manhã reforçado com direito a ovos, bacon, arroz, peixe e suco de laranja. Fizeram bife com molho para o meu almoço e entregaram o meu obento, coloquei cuidadosamente na minha mochila, peguei meu casaco e calcei minhas botas de couro. O inverno estava se aproximando e os dias estavam ficando cada dias mais frios. Coloquei a mochila nas costas e comecei a andar.

Me encontrei com Yoi no mesmo lugar de sempre, ela estava vestindo botas de couro pretas e um casaco preto por cima. Ela estava bonita, dei um sorrissinho e virei o rosto.

— Que foi? — Perguntou olhando seria para mim.

— Nada — Sorri, ela fez cara feia para mim e eu dei de ombros. — Você tá bonita assim.

— Ah, obrigada — Disse sem graça, sorri com a falta de graça dela e corri, ela correu atrás de mim. Chegamos a estação ofegando, sentamos em um banco e esperamos o trem chegar. Minutos depois embarcamos nele, demorou cerca de 5 minutos até chegarmos na estação, andamos e passamos pelo parque, olhei para as arvores de cerejeira que estavam quase sem folhas e respirei fundo. — Dia hoje está frio.

— Aham — Respondi cruzando os braços. — Acho que não vai demorar muito para começar a nevar.

— Isso é verdade — nós duas olhamos para o céu e sorrimos. — Vai ser bonito.

— Essa é uma das minhas coisas favoritas do Japão — Falei, Yoi segurou a minha mão e concordou com a cabeça.

— Isso e o natal.

— Isso e o natal — Repeti. Voltamos a andar e chegamos a próxima estação, depois caminhamos mais um pouco e chegamos ao colégio. Vi varias garotas entrando no prédio principal e fizemos o mesmo. Algumas garotas que passavam pela gente davam um sorriso e bom dia e nos a cumprimentamos gentilmente.

Quando entramos no prédio principal Fuji pulou em cima de mim quase fazendo nos duas cair. Ela me abraçou com força, olhei para o lado e vi Rieko e Sato sorrindo. Coloquei meus braços em volta de Fuji e a abracei com força, senti-a ficar sem jeito e a soltei.

— Tudo bem? — Perguntei dando um sorriso, ela ficou vermelha, mas concordou com a cabeça. Abracei Rieko e depois Sato que me abraçou com força. — Tudo bem — Sussurrei no seu ouvido, ela acenou com a cabeça e se afastou de mim. — Como que vocês estão? Nossa parece que faz tempo que não venho para cá!

— Faz um tempinho mesmo — Disse Rieko dando um tapinha no meu ombro. — Fico feliz que esteja bem.

— Haha eu também — Falei sem graça. Abri meu armário e tirei de lá meus sapatos, tirei minhas botas e os coloquei no seu lugar. — Como estão as aulas?

— Chatas — Disse Sato revirando os olhos.

— Estão todos ansiosos pelo Nacional — Disse Rieko se encostando no armário.

— E é? — Perguntei surpresa.

— Sim, acho que todos estão achando que esse ano vai acontecer algo emocionante — Disse Yoi cruzando os braços.

— Bem, esperemos que sim — Sorri terminando de calçar meus sapatos. — Vamos?

Começamos a subir as escadas rumo as nossas salas e a conversar durante o percurso. Encontrei com a diretora no meio do caminho, ela não perguntou nada sobre nada, apenas me deu bom dia e se afastou. Ela com toda certeza tinha falado com meu pai. Coloquei minha mochila sobre a minha mesa e antes que eu me sentasse escutei uma voz familiar me chamando. Virei-me e vi Yuku com um sorriso.

— Yuku — Falei e a abracei, ela me abraçou de volta sorrindo. — Quanto tempo!

— Pois não é! — Disse e se afastou, segurou minhas mãos e me encarou. — O que houve com seu rosto?

— Parece que você eu não consegui enganar — digo sem graça, ela me olhou seria. — Entrei em uma briga na Alemanha.

— Uma briga? Você ta com cara que levou uma surra!

— De fato levei — Cocei a parte de trás da cabeça e sorri. — Mas ai, como estão as meninas?

— Estão ótimas, treinamos muito semana passada, agora estamos treinando menos e descansando para semana que vem — Disse dando uma sacudida de ombros. — E você? Está pronta?

— Não tenho muita certeza, estou proibida de treinar por dois dias — respondi soltando um suspiro. — Me machuquei um pouco, ai tenho que me recuperar.

— Entendo, então quer dizer que não vai para o treino hoje?

— Não.

— Bem, então eu espero que você não esteja enferrujada — Disse dando um sorriso desafiador.

— Claro que não — Sorri de volta e o sino tocou. — Agora vá para a sua turma.

— Tá bom, tá bom — Levantou as mãos se rendendo e saiu da sala. Me sentei na cadeira e a aula começou.

O resto dia e o dia seguinte foram os mesmos, Amanda não respondia nenhuma das minha mensagens o que estava me deixando preocupada e triste. Papai e os outros estavam ficando cada dia mais ansiosos e nervosos, a televisão não parava de falar sobre o campeonato, jornalistas entrevistavam vários jogadores, principalmente a nossa rival a escola de karate Dijang, na verdade a minha maior preocupação era a capitã do time, Watanabe Toku (a morena da foto, de casaco azul), ela era uma fera, ano passado quase que não a derrotava nas finais. Ela tinha cabelos longos castanhos e uma cara feroz quando seria, quando não estava na luta dava até que um sorriso meigo.

E era justamente ela que a repórter Shana estava entrevistando na televisão, papai e eu que estávamos tomando café, corremos para a frente da televisão e sentamos no sofá para ver a entrevista.

— Bom dia — Disse Shana, ela estava vestindo uma camisa branca, jeans e um casaco preto, deu um sorriso para a câmera e se virou para Toku. — Estamos aqui com a lutadora de Karate Watanabe Toku.

— Bom dia Shana — Disse Toku sorrindo para a câmera. — Como você está?

— Estou bem, obrigada — Shana respondeu sem graça. — Bem, então Toku, como você está se sentindo em relação as competições?

— Ah eu estou me sentindo ótima! Ansiosa para ver os novos lutadores.

— Então você está sabendo que esse ano temos vários lutadores novos — Toku concordou com a cabeça.

— Bem, nós temos que ficar de olho nos nossos concorrentes também — Disse ela piscando para a câmera.

— Então, vocês andam observando os outros jogadores? — Perguntou Shana.

— Não claro que não — Disse Toku na defensiva. — Ficamos de olho nas noticias e boatos.

— Então você ficou sabendo que Tanaka Charlie foi para a Alemanha semana passada? — Papai e eu nos entreolhamos surpresos e ele aumentou o volume da televisão.

— Fiquei sabendo sim — A expressão de Toku mudou rapidamente, para uma nenhum pouco bonita.

— Parece que ela não está muito preocupada com a competição para ter tirado uns dias de folga na Alemanha — Disse Shana, mas que palhaçada!

— Bem, eu não sei o que posso dizer a respeito disso. Mas sei o que posso dizer — Toku colocou as mãos na cintura.

— Você tem um recado para Tanaka?

— Pode se dizer que sim — Disse, ela ficou em silencio e eu vi a câmera dando um zoom no rosto dela, eu quase podia ouvir uma musica de suspense no fundo, que claro era minha imaginação. — Quero dizer que enquanto Charlie estava se divertindo na Alemanha, nos estávamos nos preparando fortemente. E que eu espero que ela esteja pronta para o que esta por vim.

— Eu não achou que ela vai estar com tudo — Comentou Shana, Toku olhou para ela sem entender. — Um de nossos fotógrafos fotografou a chegada de Tanaka Charlie no aeroporto de Okinawa, e percebesse claramente que — Foi então que a tela da TV se dividiu e mostrou uma foto minha, podia se ver que eu estava com hematomas no rosto e que minha boca estava cortada. — ela andou brigando ou treinando com alguém enquanto estava na Alemanha.

— Mas que... — Meu pai estava de pé, segurava o controle da TV com força entre uma das mãos. Engoli em seco e encarei com raiva a TV.

— Bem, independentemente do que ela fez lá, parece que ela fez foi levar uma surra! — Toku disse dando uma gargalhada, trinquei meus dentes. — A competição já está ganha, então.

— Terminamos por aqui a entrevista com Watanabe Toku, obrigada pela participação — Disse Shana dando um sorriso para Toku.

— O prazer foi meu — Toku deu um sorriso alegre para a TV e eu senti meu corpo rangendo de raiva.

— Voltamos agora para...

Meu pai desligou a TV e se virou para mim, ele estava serio, engoli em seco e esperei pelo o que ele ia dizer, jogou o controle no sofá e me encarou.

— Ligue para Yoi e diga para ela que você não vai para o colégio hoje — Ele pegou o telefone de casa e jogou para mim. — Irá passar o dia treinando! Quero ver quem está fora de forma! Só o que me faltava isso agora!

Disquei o telefone de Yoi e esperei ela atender. Não demorou muito e a mãe dela que atendeu.

— Bom dia Sra. Matsumoto — Falei.

— Ah, bom dia Charlie, tudo bem? Estavamos vendo a entrevista com aquela tal de Toku. Menina metida!

— De fato ela é, foi por isso que liguei, a senhora pode avisar a Yoi que não vou para a escola hoje?

— Sim claro. Irá passar o dia treinando, certo? — Perguntou adivinhando.

— Acertou em cheio, papai ficou furioso e eu também! — Respondi.

— Tudo bem então, vou avisa-la — A mãe de Yoi era gente fina. — Bom treino!

— Obrigada — E desliguei a ligação. Entrei no meu quarto e tirei a meu uniforme, peguei um top preto, vesti meu quimono e prendi meu cabelo em um rabo de cavalo. Sai do quarto e passei pela a cozinha.

— Seu pai está no Dojo lhe esperando — Falou mamãe.

Fui em direção ao Dojo, abri a porta e entrei no corredor, escutei um barulho vindo da sala onde ficavam os equipamentos, me aproximei e vi meu pai digitando algo no celular rapidamente, havia varias espadas no chão e outras coisas que não eram espadas. Ele levantou o olhar do celular para mim e apontou para as espadas.

— Estava passando mensagem para os alunos, avisando que durante que hoje o Dojo estaria fechado.

— Ah sim — Falei me abaixando e pegando as coisas do chão, que iam desde espadas de bambu a barras de ferro. Eu estava ferrada. Papai me ajudou e fomos para uma das salas de treinamento de kendo. Ela era uma das que eram pouca usadas, o chão era de madeira e uma das paredes podiam se mover, de forma que se você a arrastasse para o lado poderia ver o lago. Papai empurrou a parede e eu vi o lago aparecendo logo atrás. Coloquei as coisas em um canto da sala e peguei a de bambu.

— Não, a barra de ferro primeiro — Disse ele. Soltei a de bambu no chão. — Você pelo menos se alongou?

— Não — Falei rapidamente. Alonguei minhas pernas, braços, costas e pescoço. Peguei uma das barras de ferro do chão, ela era pesada.

— Vamos começar então — Meu pai pegou a outra barra de ferro e nos dirigimos para o meio da sala.

Começamos a treinar. Eu tenho que admitir que eu realmente estava mais lenta, papai não hesitava em me atacar e eu tinha que me defender com a barra que parecia que estava ficando cada vez mais pesada na minha mão. Depois de algum tempo foi que eu me acostumei com o seu peso e passei a atacar. Papai defendia sem problemas, depois me fez pagar algumas flexões e abdominais, e voltamos a lutar novamente agora com a de madeira. Passamos a manha toda assim, fazendo exercício e lutando com as espadas. Eu estava exausta, meu quimono estava ensopado. A ultima espada era a de bambu, segurei ela na mão e encarei o papai.

Parti para cima dele rapidamente e ele se defendeu, tentou bater com a espada na minha cintura e dei um passo para o lado e tentei bater no seu braço, ele desviou e vi sua espada vindo em minha direção, movi meus pés rapidamente para o lado e senti o vento passando ao meu lado. Dei um sorriso e ataquei com tudo, o resultado foi nossas duas espadas se quebrando no meio. Ficamos olhando os pedaços de bambu no chão e sorrimos.

— Bem, acho que a respeito de Kendo você está em forma — Papai disse dando um tapinha no meu ombro.

— Nós também achamos — Olhamos para a porta e vimos mamãe e vovó entrando com alguns pratos de comida nas mãos.

— Ohh, já está na hora do almoço? — Perguntou meu pai animado.

— Eita, nem perceberam a hora passar — Disse mamãe sorrindo, deu um beijo no meu pai e eu sorri. Ajudamos a colocar a comida no chão e fizemos uma espécie de piquenique ali dentro. Comemos observando o lago. Papai e eu comemos muito, eu mesma estava faminta e exausta. Quando terminamos de comer, ajudamos elas na louça e esperamos a comida descer para voltarmos a treinar. O que foi por volta das 1 da tarde, limpamos a sala que estávamos e nos alongamos.

Começamos a treinar karate, papai não dava mole para mim, ele me batia sem me machucar, e eu fazia o mesmo, nos íamos para o chão, chutávamos e dávamos socos um no outro. Meu quimono ficou ensopado novamente e ficava mais difícil de se mexer por causa do peso. Percebi que não era só eu, papai tinha diminuído a velocidade também. Ele tirou a parte de cima do kimono dele, ele estava vestindo uma camiseta branca de manga curta, que por acaso estava colada no seu corpo. Meu pai tinha um corpo bem definido, algo que era difícil de se ver, já que nos treinos ele quase não tirava o quimono. Tirei o meu também, ficando somente de top e voltamos a lutar.

Cansei de contar quantas vezes eu tinha levado chute na cara e nos braços. Percebi que já estava de noite somente quando vi as estrelas no céu. Meu corpo estava cansado, suado e dolorido. Meu pai me encarou serio.

— Já cansou? — Disse relaxando. — Se você for com essa disposição para as nacionais vai perder.

Engoli em seco e senti uma pontada de raiva.

— Fique com raiva, mas não perca o controle — Disse ele, concordei com a cabeça e fui para cima dele.

Ataquei-o rapidamente e o derrubei no chão. Ele sorriu e se levantou. Começamos novamente, ele me atacou e eu me defendi de todas, desviei rapidamente de vários golpes dele. Quando foi a minha vez de ataca-lo ele ficou na defensiva, bati contra o seu peito e costas, e depois dei um chute no seu braço, ele caiu no chão de lado. Se levantou rapidamente e eu o ataquei de novo e de novo. Depois de um tempo, papai e eu estávamos em sintonia, pegamos a espada de madeira e ficamos trocando golpes de kendo e karate ao mesmo tempo.

Finalmente quando terminamos de treinar, senti que eu estava em forma novamente e pronta para lutar. Olhei para fora e vi o céu começando a clarear.Papai me deu um abraço e sorriu.

— Agora sim está pronta.

— Vou acabar com a raça de Toku — Falei fechando as mãos com força.

— Muito bem, agora me pague 50 flexões e 200 abdominais e terminamos por hoje — Disse dando um tapa no ombro.

— O senhor está brincando né? — Eu estava morta, e pela cor do céu, parece que já estava por volta das 6 da manhã. Tínhamos treinado a noite inteira e não percebemos.

— Não — Ele se sentou no chão e enxugou o rosto em uma toalha. — Faça logo para irmos comer e dormir logo.

— Affes — Deitei no chão e comecei a fazer as abdominais. Minutos depois eu termino e viro para o chão, estiquei minhas pernas e coloquei os braços retos abaixo de mim, comecei a fazer as flexões. Papai contava em voz alta para mim, o suor pingava do meu rosto e cai no chão a minha frente, engoli em seco e usei o resto das minhas forças para terminar.

— 48... 49...50 — Contou ele, cai no chão sem forças e respirei fundo. Papai me ajudou a sentar e sorriu. — Prontinho.

— Finalmente — Ofeguei.

— Bem, limpe a sala enquanto eu preparo o seu banho e algo para comer — Disse se levantando e indo em direção a porta.

— Ok — Falei me sentando, olhei para fora de casa, para o lago que estava totalmente escuro e me levantei. Segurei a barra da parede e a empurrei, fechando a parte que dava para o lago. Fechei a trava da porta e peguei o equipamento do chão, levei-os para a outra sala e os guardei. Passei um pano no chão, peguei nossos quimonos molhados e fui para casa. Senti um cheiro de arroz vindo da cozinha e entrei nela. Papai estava colocando-o em dois pratos, sentei a mesa e ele me entregou o prato. Comi sem reclamar, ele pegou uma caixinha de suco de laranja da geladeira e colocou nos copos.

Comemos em silencio, primeiro porque estávamos com tanta fome que falar era o de menos, segundo que estávamos cansados e terceiro porque estava de madrugada. Limpamos a louça rapidamente.

— Eu preparei o seu banho Charlie.

— Tá bom – Falei e fui em direção ao banheiro, abri a porta e não vi nenhuma fumaça da água quente, olhei para a banheira e vi que ela estava cheia de gelo. — Tá de brincadeira, né?

— Não — Dei um pulo para frente com o susto. Papai estava com uma cara divertida no rosto.

— Pelo amor de Deus não me assuste assim — Tirei a mão que estava sobre o meu peito e o encarei seria. — E ta falando serio sobre isso?

— Claro, vai ajudar seu corpo — Disse dando de ombros e saindo do quarto. — Se limpe e entrei na banheira.

— Mas...

— Sem mas — Rebateu e fechou a porta do banheiro. — E se puder, me de o seu quimono logo para eu botar para lavar.

— Ok — Resmunguei e tirei o meu quimono, abri a porta e entreguei para ele. A lavanderia ficava ao lado do banheiro. Abri o chuveiro e lavei meu corpo, depois de alguns minutos encarando a banheira respirei fundo e entrei. Aquilo era loucura, depois de alguns segundos meu corpo todo começou a queimar e a doer, resisti mais um minuto ali e sai rapidamente, envolvi-me na toalha, escovei os meus dentes e sai chutada para dentro do meu quarto. Estava morrendo de frio. Vesti uma camisa de blusa manga e uma calça de lycra, deitei na cama e puxei o cobertor ate o pescoço.

— Charlie? — Perguntou o meu pai.

— O-o-ooi i? — Meu queixo estava batendo.

— Nada, só queria ver se entrou mesmo na banheira, mas pelo jeito que fala sim — Senti que ele estava com um sorriso no rosto quando falou, desligou a luz do quarto e fechou a porta — Boa noite.

— Bo-oo-aa —Falei me tremendo. Puxei o cobertor para mais perto e fechei meus olhos. Não demorei muito para dormir e só acordei depois do almoço. Quebrada.

Levantei da cama lentamente e fui em direção ao banheiro, abri o chuveiro na água quente e fiquei de molho até despertar totalmente. Troquei de roupa por uma bermuda preta e uma camisa de manga comprida verde escura. Saí do quarto e fui ate a cozinha, preparei um sanduiche para comer e um suco de uva, e fui para a sala. Liguei a TV e coloquei no canal de animes. Quando terminei de comer meus pais entraram na sala.

— E ai? — Perguntei por perguntar.

— Whats app girl? — Disse minha mãe em inglês e se sentando ao meu lado. Olhei para ela com as sobrancelhas levantadas e balancei a cabeça.

— Nada, só estava me perguntando onde estavam — Falei dando de ombros.

— Eu estava deitado — Disse meu pai se sentando do meu outro lado e mudando de canal.

— Ei, eu tava assistindo — Resmunguei.

— Tava, falou certo — Disse ele procurando um canal.

— Se tem cara que tá cansada — Disse minha mãe tocando meu braço.

— Mas estou mesmo — Falei suspirando. — Treinamos ate tarde ontem. Mudando de assunto, cadê a vovó?

— Em um Spa — Respondeu meu pai casualmente, olhei para ele surpreso.

— Em um Spa? — Perguntei novamente.

— Sim, a véia tem que relaxar um pouco também — Disse meu pai sorrindo. Não aguentei e sorri também.

— Tá de bom humor, hein? — Perguntei dando um tapa na costa dele.

— Tive uma boa noite — Disse dando uma piscada para mamãe. OKKKKKKKKKKKKK. Tive vontade de me enterrar ali mesmo.

— Vou fingir que não vi essa piscadinha — Falei me levantando e pegando o copo de suco da mesinha de centro.

— Ah sim. Lembrei do que ia falar antes — Papai colocou no canal de jogos de futebol e olhou para mim. — Arrume sua mala. Vamos viajar amanha cedo para Tóquio.

— Tá bom — Sai rapidamente dali e entrei na cozinha. Lavei o copo e fui para o meu quarto. Peguei algumas roupas e os quimonos, que eu levaria uns 2, os mais novos e fechei a mala. Deitei na cama e peguei o meu celular. Não havia nenhuma mensagem. Enrolei -me no lençol e dormi novamente.

Escutei meu telefone tocando e me virei na cama, peguei o celular e atendi.

— Alô?

— Eita, que você ainda está dormindo — Disse Yoi do outro lado.

— Humm, que foi Yoi? — Perguntei esfregando meus olhos.

— Que foi nada. Vá se arrumar rápido não, para você ver se não fica em Okinawa — Ela estava brava. Olhei para as horas do celular e me engasguei, faltava uma hora para o voo para Tóquio, dei um pulo da cama e fui ate o guarda roupa, tirei de lá a roupa que iria usar e fui em direção ao banheiro. Escutei meus pais conversando na cozinha.

— Tá Yoi, jaja te ligo — Desliguei o telefone e voltei ate a cozinha. — Tudo bem ai?

— Sim, estamos procurando a chave da porta de trás — Disse mamãe abrindo a porta dos armários.

— Veja se não está na sala. Eu vou tomar banho! — Falei indo para o banheiro. Tomei um banho rápido e vi meu pai sentando no sofá, vestia uma calça jeans preta, uma camisa branca e uma outra camisa preta de manga comprida por cima, um cachecol cinza em volta do pescoço e um relógio de pulso prateado. — Está bonito.

— Obrigado — Disse dando um sorriso. — Se arrume rápido, sua mãe está terminando de se arrumar.

— Vovó? — Perguntei.

— Já está pronta.

— Acharam a chave? — Falei entrando no quarto.

— Sim.

Vesti minha roupa rapidamente e penteei meus cabelos. Olhei no espelho se tinha ficado legal e tinha. Estava vestindo calças pretas, uma camisa listrada vermelha de manga comprida, peguei uma jaqueta de couro preta e um cachecol vermelho e os vesti. Meu rosto estava totalmente normal, sem hematomas, passei um batom nos lábios e parecia que nem estavam feridos. Coloquei meu celular no bolso e peguei minha mala. Verificamos se estava tudo fechado, calcei minhas botas pretas e saímos de casa. Pegamos um taxi e 10 minutos depois chegamos lá.

Levamos nossas malas para o despacho e fomos para a sala de espera. Vi que estavam todos lá e nos aproximamos.

— Bom dia pessoal — Falei dando um sorriso.

— Bom dia — Responderam.

Quando digo que estavam todos lá, quero dizer todo o clube de kendo, kyudo e karate. Ou seja 20 adolescentes mais um responsável, que era o pai ou a mãe deles. Só eu que estava levando a família toda. Ah, e as treinadoras estavam lá também. O motivo de todos estarem reunidos? É simples. Meu pai junto com as treinadoras e o dinheiro dos pais dos alunos, alugaram uma pousada inteira durante as duas semanas do campeonato.

Sentei em um banco ao lado de Fuji e sorri.

— Preparados para Tóquio? — Perguntei olhando para os três times, eles deram um sorriso animados. O nosso avião não demorou muito para chegar e logo embarcamos. O voo ate Tóquio durava cerca de três horas o que foi até legal. O avião estava basicamente ocupado por toda a nossa equipe, de forma que todo mundo conversava com todo mundo. A minha equipe de Karate começou a se soltar e a conversar com as meninas de kendo, e as de kendo com a de Kyudo. Era divertido vê as novatas rindo e conversando com os veteranos. Logo as três horas passaram e eu olhei para a janela, vi as milhares de luzes de Tóquio brilhando e sorri.

— Charlie — Olhei para a frente e vi minha mãe com um óculos escuro estendido para mim. — Você esqueceu de pegar.

— Valeu mãe — Peguei o óculos e coloquei-o. Olhei para Yoi e sorri, ela estava com óculos de sol também. Ela ficou de pé e acenou para onde todos os lutadores estavam.

— Espero que tenham trago os óculos de sol! — Falou para todos ouvirem, alguns fizeram que sim com a cabeça e sorriram.

— Por qual motivo? — Perguntou Rei sem entender.

— Você vai entender daqui a pouco — Disse Yuku colocando os óculos de sol e sorrindo.

O avião pousou e esperamos poder sair, desembarcamos e fomos para a sala das bagagens, pegamos carrinhos para as malas e esperamos nossas malas aparecerem. Papai pegou nossas malas e esperamos todos pegarem as deles. Quando todos pegaram, saímos da sala. Mal chegamos no meu do caminho para a saída quando eu vi o primeiro fleche de luz aparecendo. Quando me dei conta avia vários repórteres e fotógrafos em nossa volta.

— Eis o motivo — Falei olhando para trás.

— Porque tantos repórteres aqui? — Perguntou o pai de alguém.

— Varias pessoas que vão competir estão chegando hoje aqui nesse aeroporto — Respondeu o meu pai.

— Com licença — Disse um dos repórteres se aproximando de Fuji. — Vocês são do colégio feminino Shinseki, certo?

— Hã, sim — Disse Fuji sem graça. Balancei com a cabeça e respirei fundo. Os fotógrafos ficaram loucos.

— E lascou — Disse Yoi ao meu lado, concordei com a cabeça.

— Equipes de Kendo e Kyudo imagino? — Perguntou o repórter.

— Sim — Disse Amae já se entregando.

Vi um fotografo encarando o meu pai, que estava de óculos escuros e engoli em seco, se ele descobrisse que a equipe de Karate estava aqui, não sairíamos tão cedo.

— Treinador Tanaka? — Perguntou ele para o meu pai.

— Droga — Ouvi Papai sussurrar.

— É você mesmo! — Ele olhou para o lado e seus olhos bateram em mim e em Yoi, deu um sorriso. — A equipe de Karate, Dojo Tanaka também está aqui!

Pronto, foi dito e feito, rapidamente ficamos cercados de mais pessoas.

— Podemos tirar fotos com todas as equipes separadas? — Perguntou o fotografo, vi a logo marca da sua câmera e vi que era a mesma do primeiro repórter, trabalhavam par ao jornal principal de jogos da Tv, o canal 132.

— Claro — Respondeu a treinadora de Kyudo. As meninas de Kyudo se juntaram e bateram uma foto.

— Matsumoto e Tanaka? — Perguntou outro repórter em minha direção. Olhei para Yoi ao meu lado e suspirei. Yoi me abraçou pela cintura e sorriu para as câmeras.

— Somos nós — Disse ela.

— Eu te mato — Resmunguei para ela e dei um sorriso para as câmeras.

— Vocês podem conceder uma entrevista? — Perguntou o repórter.

— Claro — Disse Yoi antes de mim.

Nos afastamos um pouco da equipe, que também estavam sendo fotografados e entrevistados. Yoi e eu olhamos para os repórteres que estavam na nossa frente.

— Vamos começar? — Perguntou um deles. Confirmei com a cabeça. — Bom dia. Meu nome é Kleber Andes, estamos aqui no aeroporto de Tóquio esperando as varias equipes que iram participar do campeonato nacional chegarem, e nos deparamos com a dupla de ouro, Matsumoto Yoi e Tanaka Charlie. Vencedoras do campeonato nacional do ano passado nas modalidades de kendo e kyudo, do Colégio feminino Shinseki e campeãs nacionais de karate pelo Dojo Tanaka, conhecido também como DT.

— Oiee — Disse Yoi dando um aceno para a câmera. Yoi realmente tinha cara de pau. Dei um sorriso sem graça para ele.

— Então, Matsumoto-san, o que você está achando dessa nova fase? — perguntou.

— Eu estou achando ótima — Respondeu ela.

— Você acha que esse ano o nacional pode não ser tão fácil quanto o ano passado?

— Bem, para mim o nacional nunca vai ser fácil — Disse ela. — Por isso que treinamos duro durante o ano todo para tentar fazer com que esse nacional seja fácil. Mas a verdade é que suamos muito a camisa!

— Vocês estão empolgadas, então ?

— Mas é claro! — Os fleches foram aumentando, e eu agradeci mais uma vez minha mãe mentalmente por ter trago meu óculos. — É como você disse, é uma nova fase. E nos estamos preparadas para o que vem.

Yoi deu um sorriso e cruzou os braços fazendo pose de que estava pronta para tudo, os fotógrafos piraram.

— Agora, Tanaka-san — Disse ele para mim, engoli em seco e esperei. — É verdade o que apareceu na Tv a dois dias atrás, que você foi para a Alemanha e que voltou com possíveis hematomas?

Respirei fundo e cocei minha cabeça.

— Olha Kleber, não nego o fato que fui para a Alemanha semana passada. Mas tenho que negar que aquela foto que mostraram não era verdadeira.

— Não? — Perguntou ele surpreso.

— Claro que não — Menti. — Eu não andaria por ai arrumando briga ou muito menos apanhando. Provavelmente eu estava com uma baita de uma olheira, eu vivo dormindo muito e me atrasando paras as coisas, não é mesmo Yoi?

— Isso é verdade — Concordou ela.

— Então o que você foi fazer na Alemanha dias antes do campeonato? Foi tirar uma folga? E porque o seu pai estava com você na volta se ele não foi visto com você na Alemanha? — O repórter disparou perguntas uma atrás da outra, lambi meus lábios e respirei fundo.

— Bem, eu fui visitar uma amiga minha que estava passando por algumas problemas. E bem, meu pai não foi comigo para Alemanha, porem foi me pegar, já que eu acabei perdendo a passagem — Menti o mais normal que eu podia, na verdade eu não queria nem responder, mas tinha que falar alguma coisa para acabar com aqueles boatos. — E bem, eu realmente não sei porque pergunta isso — Tirei o meu óculos e fiz cara de duvida. Os fotógrafos tiraram fotos minhas e eu dei um sorriso para eles.

— Bem, sabe como são boatos — Disse Kleber dando de ombros.

— Espero que tenha explicado o que realmente aconteceu e acabar com esses boatos bobos de mim apanhando ou seja lá o que for — Falei, senti minha paciência indo embora. Respirei fundo e olhei para o repórter. — Mas alguma pergunta?

— Ah, sim, mais uma. A sua concorrente Watanabe Toku em uma entrevista disse que você não estava bem preparada para o que estava por vim, o que você tem a dizer sobre isso?

— Só tenho uma coisa a dizer — Fiz uma pausa de suspense e olhei bem para a câmera que estava filmando. — Toku se prepare para beijar o tatame.

Todos fizeram um UHHHH com a boca, e os que não fizeram ficaram chocados com a minha chamada para guerra. Era guerra.

— Ohh, parece que vamos ter um conflito mais adiante, Toku versus Charlie — Kleber estava empolgadíssimo. — Obrigado meninas pela rápida entrevista.

— De nada — Yoi e eu falamos demos um tchauzinho para a câmera.

— Do aeroporto, Kleber Andes — Disse e então cortaram a filmagem. Coloquei o óculos de volta no rosto — Antes de irem podem tirar uma foto, para o jornal?

— Mais uma? — Disse Yoi brincando. Fizemos uma pose rápida e tiraram fotos nossas. — Prontinho pessoal. Agora precisamos ir.

— Tudo bem, bom campeonato!

Caminhamos rapidamente para onde estava o pessoal e respirei fundo.

— Graças a Deus — Disse Yoi tirando o óculos e esfregando os olhos.

— Dupla de ouro? — Perguntou Yuku sorrindo para nos duas.

— Nem começa — Falei esfregando os meus olhos também. — Vamos logo embora antes que mais gente apareça.

Saímos do aeroporto e encontramos o nosso ônibus estacionado logo na frente. Que nossos pais também tinham alugado. Colocaram as malas no bagageiro e entramos no ônibus, ele era de dois andares. Sentei na primeira cadeira do primeiro andar, Yoi sentou ao meu lado, logo atrás foi Saya e James, do lado foi Tony e Ichi, atrás deles meu pai e minha mãe. Quando todos embarcaram saímos do aeroporto.

Peguei meu celular do bolso e olhei se havia alguma mensagem. Nada. Digitei uma mensagem rápida e envie. Olhei para o lado e vi que Yoi tinha visto. Fiquei em silencio escutando as meninas conversarem.

— Charlie? — Disse meu pai.

— Sim.

— Você sabe que deu uma sentença de guerra né? — Falou olhando para mim.

— Apenas confirmei minha participação — Respondi.

Depois disso não falamos nada. Demoramos uns 20 minutos para chegar a pousada, quando chegamos me surpreendi o quão bonita e simples ela era. Havia um muro na entrada, ai aparecia um jardim bem cuidado, logo em seguida aparecia a pousada de cor azul clara. Os funcionários que não eram muitos, os cinco, dois homens e três mulheres, estavam parados na frente da casa nos esperando. Ajudaram a tirar as malas e a leva-las para dentro. A pousada era bem bonita e simples como eu disse. Havia apenas dois enormes quartos, um feminino e outro masculinos, haviam 4 banheiros e duas termas enormes separadas por um muro.

Havia uma sala com um sofá enorme circulando a parede e almofadas no chão. O chão era todo de madeira. Tinha a lavanderia, a cozinha que era bem grande, dois fogões, uma geladeira grande e vários armários, e ao lado da cozinha tinha a sala de estar, com uma mesa enorme de madeira e vidro. O lugar era bem ventilado. Fomos para o quarto feminino e colocamos nossas malas lá, os meninos foram para os deles. Havia uma televisão enorme na parede do quarto e ar condicionado.

Ficamos conversando por horas e horas, tomamos banho nas termas, comemos e nada de Amanda me responder nenhuma mensagem.

— Posso entrar? — Perguntou meu pai batendo na porta. Olhei em volta e vi que as meninas estavam todas arrumadas.

— Sim — Respondi. Papai entrou no quarto, olhou em volta rapidamente com medo de ver algo impróprio e respirou fundo, quando viu que não. — Algum problema?

— Na verdade não — Disse dando um sorriso. — Quer praticar?

— Não sei onde — Falei pensando em um lugar para treinar.

— Não viu a casa perto das termas? — Perguntou me encarando.

— Não.

— Se troque — Disse saindo do quarto. Fiz o que ele mandou e troquei de roupa, vesti uma bermuda e uma camisa azul escura regata, prendi o cabelo em um rabo de cavalo e sai do quarto. Procurei a casinha que ele tinha citado e a achei depois de uns 5 minutos procurando. Ficava a caminho das termas, mas não era próxima. Papai estava la com suas roupas de treino e duas espadas de madeira nas mãos. Alonguei-me rapidamente e peguei uma das suas espadas. Logo começamos o treino, ficamos reversando entre kendo e karate por diversas vezes. Minha camisa e meu cabelos estavam ensopados, o papai estava na mesma situação. Vi alguém se aproximando de nos dois e olhamos par ao lado. Era James.

— Venham rápido, precisam ver o que esta passando na Tv — Olhei para o papai sem entender e saímos correndo atrás de James. Entramos na sala, quase todos estavam lá. Me arrependi amargamente de ter ido ali. Toku estava falando na Tv.

— O que você tem a dizer sobre a entrevista de Tanaka mais cedo? — Perguntou a repórter.

— Bem, você quer dizer sobre a serie de mentiras que ela contou em rede nacional? — Disse Toku.

— Como assim uma serie de mentiras? — A repórter estava intrigada.

— Bem, Charlie mentiu a respeito de não ter brigado na Alemanha — Disse ela, engoli em seco e olhei para o meu pai. Ele estava com uma expressão nenhum pouco feliz. — Tivemos informações de várias pessoas que Charlie estive envolvida em uma briga com um Homem adulto, por isso que o pai dela foi busca-la na Alemanha. E convenhamos, aquela jogada de tirar o óculos em um entrevista para mostrar que o rosto esta bem é muito antiga. Qualquer boa maquiadora consegue driblar alguns hematomas.

— Como você sabe que a Charlie estava mentindo?

— Temos nossas fontes. Mas enfim, apenas respondi a sua resposta, não que eu tenha nada a ver com a vida pessoal dela, só acho que ela não deveria mentir para os milhares de fãs dela — Disse Toku dando de ombros.

— Mas que filha da puta! — Falei em voz alta.

— Mas enfim, o que achou do convite de luta dela? — Perguntou a repórter.

— Bem, eu só acho que ela vai beijar primeiro o tatame — Disse dando de ombros e com um sorriso no rosto.

— Você só tem isso a dizer para Tanaka?

— Não, tenho mais uma coisinha — Disse Toku, vi seu olhar mudando e vi que não iria vim nada que prestasse de lá. — Não se preocupe Charlie, a sua amiga está bem, apenas perdeu o celular.

A repórter ficou sem o que dizer e eu paralisei. A filmagem mudou e apareceu uma propaganda. Toquei minha bermuda e percebi que estava sem o meu celular. Sai dali correndo e entrei no quarto, as meninas que estavam no quarto me encararam, Yoi estava lá.

— Charlie...

Passei por ela e fui em direção as minhas coisas, procurei meu celular por toda parte e não achei.

— Cadê o meu celular? — Falei, eu estava com raiva e medo. Como diabos Toku sabe a respeito de Amanda, será que ela fez alguma coisa com ela? Para me prejudicar? Ou será que foi apenas coincidência ela saber de Amanda? Minha mente estava a mil. Vi a mão de alguém estendida com o meu celular nas mãos, o peguei sem cerimônia e disquei o numero de Amanda, fora da área. Disquei o numero de Tina fora da área. Liguei novamente e deu fora de área. Olhei para a tela do meu celular e meu corpo começou a tremer. Não, tem algumas coisa acontecendo. Tem alguma coisa errada.

— Charlie... — Escutei alguem dizendo.

— Droga! — Fechei minha mão com força e taquei o meu celular na parede. Vi ele se desmontar em pedaços pelo chão e não me senti nenhum pouco triste. Senti muita raiva, se tivesse acontecido alguma coisa com Amanda e Toku estivesse envolvida, eu a faria beijar o chão muito antes de ela se quer pensar em tatame. Fechei minhas mãos em punhos e sai do quarto batendo o pé.

Notas finais
Então o que acharam? Toku é muito vaca msm. ç.ç o que será q está acontecendo. fiquem ligados no proximo capitulo de A VIDA COMO ELA É. até hj não sei pq escolhi esse titulo , acho q nem combina kkkkkkkk