A Viagem de Sara

3 Parte 3 - As Palafitas!


Notas iniciais
Boa leitura c:

(No capítulo anterior...)

Sara estreitou os olhos assim que passou pelo portal, com toda aquela claridade machucando suas retinas habituadas à opacidade do ambiente anterior. Por falar no ambiente anterior, esse era o total oposto: cheio de cores vibrantes e sons, porém tudo muito excessivo. Ela já não sentia o bolo em sua garganta e o ambiente era cheio porém não era confortável, muito menos aconchegante. Não havia paz, porém também não era o caos. Era só um lugar turbulento.

***

Ao ver a árvore da qual haviam saído, viu galhos frágeis e tremeluzentes, quase como se oscilassem entre a realidade e a irrealidade. Suas folhas tinham cores berrantes que variavam a cada poucos segundos entre verde, amarelo, vermelho, laranja, rosa choque e um azul agudo.

Pensou que, como nos outros locais, ela e Milena sairiam andando até encontrar alguma casinha ou qualquer coisa parecida, porém uma moça baixinha e com cabelos cortados à exata altura das orelhas apareceu. Seus olhos eram esbugalhados e muito verdes. Suas roupas eram laranjas e roxas e suas mãos se mexiam nervosamente, ora estralando os dedos, ora correndo pelos cabelos, ora agarrando a barra da camiseta.

— Olá — disse animadamente com um sorriso um pouco forçado demais e depois, começou a falar muito rápido, como se ela não tivesse tempo para falar tudo o que precisava ser dito. — Se vocês seguirem o caminho da esquerda, vocês acham a minha casa. Vocês querem ir até a minha casa? Não sei se vocês vão gostar, na realidade nem sei quem são vocês. O que fazem aqui? Quem foi...

— Ei, calma ai — Milena pediu. A moça respirou fundo e uniu as mãos sobre a barriga, as olhando com expectativa. — Pode nos levar até sua casa.

— Ótimo! — a moça exclamou e as puxou pelas mãos pelo caminho da direita.

— Achei que o caminho da sua casa fosse pela esquerda — comentou Sara de forma displicente, um pouco assustada com a agitação da menina.

A menina parou do nada e a olhou como se Sara houvesse atirado uma pedra em sua cabeça e começou a murmurar baixinho algo sobre seus malditos erros enquanto as arrastava para o caminho da esquerda. Elas seguiram por uma estrada arenosa. O chão era duro e queimava os pés de Sara mesmo através dos chinelos. Ninguém mais ousou dizer nada antes de chegarem à casa, que era simples porém muito bem cuidada e se elevava perigosamente sobre cinco palafitas encimando um rio com correnteza forte que escorria até ser perdido de vista entre as montanhas longínquas. A torrente do rio era forte e era surpreendente como não havia arrebentado as palafitas ainda.

Sara olhou para Milena que parecia calma e familiarizada com o cenário. Não havia desistido de entender quem era aquela menina, porém se encontrava tão entretida com todos os cenários que já haviam visitado que essa pergunta havia despencado em sua lista de prioridades.

Uma escadinha perigosa era o que permitiria a entrada na casa. Com um perceptível tremor nas mãos, a dona da casa subiu rapidamente, parando em frente à uma porta azul, a abrindo para que as outras que estavam um pouco atrás pudessem entrar. O interior tinha cores tão vibrantes como todo o resto que haviam visto até ali. Estantes enormes cheias de livros empoeirados cobriam uma parede. Sara se pegou lendo os títulos.

— Não consegui ler nenhum até o final — confessou a moça, que ainda não havia dito seu nome, ao perceber o interesse da mulher. Agora que Sara havia parado para pensar, não sabia o nome de nenhuma das figuras que havia interagido o caminho todo, à exceção de Milena.

As três se sentaram em um silêncio desconfortável no sofá, olhando umas para as outras. O sofá era macio demais, parecia a puxar para dentro. A moça de olhos verdes não parava de mexer as pernas de um modo nervoso e se remexia como se estivesse desconfortável. O ambiente era preenchido pelos estranhos sons sem origem que ocupavam o espaço do lado de fora e de dentro da casa. Antes que Sara pudesse pensar em algo para falar e quebrar o silêncio que se abatia sobre elas, um barulho alto que diferia de todos os outros as sobressaltou.

— Meu Deus, as palafitas! — a mulher de olhos verdes gritou em desespero, sacudindo os braços e muito agitada. Correu para a porta para ver o que acontecia enquanto Milena e Sara trocaram um olhar receoso e viram a porta ser aberta e fechada rapidamente pela moça. — Ah, não. Eu preferia que fossem as palafitas. As palafitas! Queria que elas se dissolvessem e a casa desabasse antes de eu ter que enfrentar isso, meu senhor amado, destrua minhas palafitas agora! — disse em um visível desespero, fechando os olhos com força e fincando as unhas no couro cabeludo entre os fios ralos de seus cabelos.

— O que houve? — Sara perguntou receosa.

— Ele! Parado! À beira da minha casa! Quer entrar! E conversar! — explicou aos gritos como se essa fosse a situação mais desesperadora do universo. — Nunca sei o que dizer! O que fazer! Ele vai sair daqui me odiando e com mais rejeição eu não posso lidar, ah!, mas não posso mesmo!

Seus olhos estavam mais arregalados do que antes e sua respiração estava rascante, saindo de si com dificuldade. Sara não sabia a quem ela se referia, porém podia dizer que conhecia a sensação de alguma forma: um peso na boca do estômago, mãos suadas e uma mente flertando com todos os desastres que poderiam ser resultados dessa situação. Com isso, ela se sentiu paralisar e se lembrou dos cenários terríveis que seu cérebro já havia criado apenas para se divertir. Se colocou no lugar da moça. Não soube a aconselhar e então sentiu refletida em si toda a ansiedade da mulher.

Percebendo isso, Milena se posicionou na frente de Sara e disse algo que os ouvidos não captaram. Seus olhos vidrados gritavam em pânico sem motivo aparente, porém por dentro, ela se sentia ruindo como a mulher desejou que as palafitas ruíssem. À sua frente, imagens das casas destruídas e do laço de forca apareceram. Um estalo alto e a ardência em sua bochecha a trouxeram de volta à casa colorida e barulhenta em excesso. Agora, a mulher dos olhos verdes chorava de forma desesperada, encostada na porta que era esmurrada sem dó do outro lado. Sara havia ficado fora do ar por quanto tempo? Não sabia. Tudo relacionado a tempo era bagunçado em sua mente desde que abandonara a segurana de sua casa. Milena a olhou preocupada enquanto puxava suas mãos que haviam se fechado em punho sem que Sara percebesse. A sensação das unhas desgrudando da carne suada era estranha, mas foi o suficiente para fazê-la se recuperar da pequena crise. Limpou o suor frio da testa com as costas da mão e se levantou do sofá sendo empurrada por Milena.

— Quebrem as palafitas! Quebrem todas as palafitas! — gritava repetidamente a mulher escorada na porta. Milena as guiou para a janela. Uma queda de uns quinze metros separava a janela da água.

— Não quero pular — disse Sara. Milena a olhou e sorriu, passando as pernas pelo beiral e se jogando. Sara arregalou os olhos e olhou ao redor antes de imitar Milena, que agora fluía de forma segura pelo riacho. Alguns segundos de queda não a prepararam para o impacto violento na água agitada, porém mal se sentiu afundar e já estava de volta à superfície, boiando. Foi impelida pelo caminho sendo arranhada por pedras e galhos logo atrás de Milena que parecia relaxada em meio ao turbilhão que as carregava para longe. Sara tentou relaxar e então sentiu a água de repente gentil. Entre momentos de relaxamento e tensão, a água se alterava entre agressiva e delicada na condução de Sara por aquele lugar. Acima de sua cabeça, via o céu de um azul muito forte e a silhueta escura de alguns pássaros voando. Via árvores coloridas e pontes e algumas outras construções de madeira sustentadas por palafitas, algumas grossas e firmes e outras até enevoadas, como se nem sempre fossem reais. Se sentiu preocupada com a mulher que haviam abandonado na casa em meio a uma crise forte, porém agora, sendo levada para longe pela água que ainda oscilava entre gentil e agressiva, não havia muito que pudesse fazer.

Não sabia para onde estava indo, somente era levada pelo rio logo atrás de Milena. Agora, via muitas árvores fechando quase totalmente a passagem de luz, formando arcos ao se juntar. As sombras eram frescas e a água ali era mais gelada. A torrente se acalmou para um fluxo contido e então, Sara não sentia mais nada abaixo de si, tampouco sentia suas roupas molhadas.