A Viagem de Sara

1 Parte 1 - Uma Garota à Porta


Notas iniciais
Boa leitura :3

O vapor que desprendia do copo quente de chá tinha um cheiro muito suave e aconchegante, mas ela não gostava de chá. Na realidade, detestava bebidas quentes no geral e sabia que nenhuma boa história começava com chá. Só segurava aquele copo nas mãos brancas de frio pois seu médico havia recomendado para sua insônia. Com uma careta resignada, Sara começou a beber o conteúdo esverdeado e fumegante do seu copo enquanto a televisão mostrava cenas de um filme que ela já havia visto muitas vezes. Impaciente, trocou para um canal de culinária. O vento fustigava as janelas enquanto ela se encolhia nas cobertas e bebia cada vez mais rápido o chá na tentativa de se esquentar. As luzes natalinas penduradas acima da porta oscilaram por um segundo antes de três toques quase inaudíveis desviarem sua atenção para a entrada. Toques que só se fizeram ouvir pois o vento havia parado totalmente. Não havia som do lado de fora da casa, porém a mulher não havia reparado nisso. Estava muito preocupada com quem poderia estar batendo à sua porta tão tardiamente.

Franzindo as sobrancelhas, Sara colocou o copo vazio em cima da mesa de centro, saiu com relutância de baixo das cobertas e, sem se importar com seu pijama e chinelos, abriu a porta para encarar a cena mais estranha de sua vida.

— Posso ajudá-la? — a garotinha perguntou. Ela não devia ter mais que 12 anos e seus cabelos roxos batiam exatamente na linha do maxilar. Usava uma pesada jaqueta preta e botas.

— Como? — perguntou Sara confusa, retirando a franja dos olhos. — Você está perdida? — em resposta, a garota simplesmente soltou uma risada e saiu andando pela rua. — Ei! — Sara gritou, mas a menina não parou. Pisou para fora de casa com um medo inexplicável de que algum mal pudesse acontecer à menina, tão surpresa estava que nem se preocupou em bater a porta. A garota a esperava parada na rua e no momento que Sara pisou na calçada, a menina começou a andar e, sem ver outra alternativa, Sara a seguiu.

Ao mirar o céu, viu cores e estrelas que jamais havia visto antes. A rua estava silenciosa e coberta de neve, porém surpreendentemente ela não sentia frio algum. As casas de seus vizinhos eram todas exatamente iguais: brancas, uma porta, duas janelas, uma placa de boas festas na frente e pareciam não ter fim enquanto ela ia seguindo à distância a estranha menininha de cabelos roxos, que não parava de andar em despeito à todos os pedidos de Sara para que ela voltasse e lhe explicasse o que acontecia. Sara sentia-se numa esteira, andando e andando sem sair do lugar, mais das mesmas casas iguais. No céu, as estrelas brilhavam, giravam e cometas rasgavam a noite fazendo leves sons de velas sendo apagadas com dedos úmidos de saliva. Estranhamente, se sentia confortável com a situação, apesar de um pouco receosa. Seu nariz estava levemente adormecido, porém esse era o único indício de que realmente estava frio e ela não saberia dizer quanto tempo andou atrás da menina sem nunca a conseguir alcançar quando ela parou de súbito no final da rua, frente a um muro de concreto enorme do qual Sara não recordava a existência.

— Você está pronta? — perguntou a menina enquanto a mulher mais velha corria os olhos da esquerda para a direta sem ver fim no extenso muro cinza. Ao olhar para trás, viu sua rua silenciosa e coberta de neve.

— Quem é você? — foi tudo o que Sara conseguiu perguntar. — Você está perdida?

— Você está pronta? — a menina repetiu a pergunta, batendo a bota preta impaciente no asfalto duro a seus pés.

— Pronta para que? — perguntou Sara mas a menina não respondeu. Ao invés disso, ela sorriu e simplesmente puxou uma maçaneta abrindo uma porta no muro sólido, como se aquela pergunta fosse uma senha secreta. A menina entrou pela porta e Sara a seguiu sem pensar duas vezes.

O primeiro pensamento de Sara foi que o chá havia lhe dado alucinações. O outro lado do muro era cheio de ruas tortíssimas ladeadas por muros de diversos tamanhos que davam voltas e mais voltas. Parecia um verdadeiro labirinto e ao mesmo tempo uma caixa, pois não havia som, não havia cheiro, não havia um céu. Somente ruas distorcidas de uma cor cinza pálida e estranha. O ar era úmido e pequenos clarões brancos piscavam ocasionalmente no que deveria ser o céu acima de sua cabeça, porém ela não fazia ideia de onde estava.

— Onde estamos? — perguntou.

A menina não respondeu. Simplesmente puxou Sara pela mão e as duas começaram a serpentear pelas ruas tortas que não pareciam ter um fim nem chegar em algum lugar. Agora, em movimento, conseguia perceber um leve zumbido, como o de eletricidade fazendo um aparelho analógico ligar, a seguindo por onde passava. A menina, muito soturna, somente a conduzia pelo labirinto infinito.

— Estamos chegando — afirmou a pequena.

— Chegando onde? — quis saber Sara.

— Você pergunta demais. É engraçado — a menina sorriu sem parar de andar. Sara se sentiu com nove anos, na casa de seus avós no interior, querendo saber tudo sobre a natureza e os animais, enchendo seu avô de perguntas no caminho para o pesqueiro. Ele, em determinado ponto, havia parado, lhe segurado os ombros, olhado no fundo de seus olhos brilhantes e dado essa mesma resposta. Depois daquele dia, Sara parara de fazer tantas perguntas e se restringia apenas ao necessário: “Que horas são?”, “Qual seu nome?”, “O que você vai querer jantar?”, e etc. Ela sentia que algo dentro dela havia se tornado mais fosco desde então.

As ruas eram todas iguais, e ela já se encontrava confusa. Sara não fazia ideia de como sair dali e estava começando a ficar assustada. A sua percepção de tempo se encontrava um pouco bagunçada, então jamais saberia dizer por quantos minutos ou horas elas andaram pelos caminhos de pedra sob aquelas estranhas explosões de luz no céu. O percurso parecia durar uma eternidade, até que a menina então parou na frente da única casa que haviam encontrado o caminho todo e sara constatou que haviam chegado. A menina moraria ali? Sinceramente, ela esperava que não, pois a casa era de madeira corroída e desbotada, com pregos enferrujados, janelas quebradas e só metade da porta da frente. A garota libertou a mão da mulher e a encarou olhos nos olhos.

— Meu nome é Milena — disse somente. — Quero te mostrar minha casa.

Nesse momento, Sara viu nos olhos castanhos da menina mais maturidade do que já vira em qualquer outro par de olhos. Sentiu uma convicção que sabia não ser sua percorrer seu corpo e, sem dizer palavra, estendeu sua mão para Milena em um sinal de confiança. Milena sorriu, pegou sua mão e a puxou para dentro da casa, cruzando a soleira da porta pela metade.

Ao cruzar o portal, Sara quase caiu para trás, pois não parecia em nada o interior de uma casa decrépita. Era ensolarado e verde. Muito, muito bonito e colorido. O cheiro de grama molhada e flores lhe invadiu os sentidos e ela fechou os olhos para apreciar e quando os abriu novamente e olhou para trás, a porta pela metade, a casa decrépita e as ruas tortas haviam desaparecido e ela só via mais do mesmo campo verde e ensolarado.

Milena já avançava pela relva fofa. Sara estava num estado de espírito onde todo o seu medo já havia desaparecido. Sentia-se feliz e calma de uma forma que não se recordava de já ter sentido antes. Uma macieira enorme abrigava uma casa em seu tronco. Uma casa que exalava um cheiro delicioso de chocolate sendo derretido e um calor chamativo, porém Sara não sabia de quem era aquela casa, onde luzes tremeluzentes de velas escapavam pelas janelas circulares abertas no tronco grosso da macieira. Milena fez um gesto abrangente, a instigando a explorar o ambiente enquanto comia uma maçã e se sentava em um galho da árvore que parecia ter se abaixado apenas para acomodá-la. Tudo ao redor parecia saudar a chegada de Sara e Milena no local e ela se sentia muito confortável e bem vinda.

Tudo o que via pelo caminho a agradava: as flores, os animais, até mesmo os insetos. Não viu nenhuma outra árvore pelo caminho, apenas pequenos arbustos e plantas rasteiras. Parecia ser um lugar completamente desabitado e tudo estava calmo. Um laguinho cercado de pequenas flores parecia chamar por Sara, então ela se encaminhou para lá e se sentou à margem. Seus dedos se esticaram para tocar a água que deveria estar em uma temperatura perfeita quando, de súbito, uma voz feminina grave a surpreendeu.

— Não toque na água! — foi tudo o que foi dito. Na mesma hora, Sara puxou a mão de volta.

Notas finais
O que acharam? Gostaram? Querem mais um capitulo? Deixe seu comentário, sempre gosto de saber o que as pessoas acham do que eu escrevo c: Obrigada por ler ♥