Notas iniciais
Sim, essa parte tá uma coisa totalmente surtada.

Cazeaje narrava:


Graças aos poderes que ganhei ao me unir a Cazeaje, fui capaz de viajar entre as dimensões. Buscava em Elyos mais poder e subordinados e lá conheci o circo dos pesadelos. Fui imediatamente reconhecida como rainha das trevas de Ernas. Ziddler, o mestre do circo, foi bastante cordial comigo e me convidou para seu espetáculo.

A apresentação em si não me entreteve, mantive uma expressão de tédio durante todo o show. Esperava ir embora durante a troca de atos então saí de lá, mas algo me chamou atenção. Ouvi a voz de Ziddler do outro lado da lona. “Não adianta se fazer de morto, pirralho” ele disse e depois ouvi um baque “você irá se apresentar querendo ou não”. Fui até lá, mas quando cheguei, ele já não estava mais. Naquele lugar havia apenas uma jaula às moscas com o que parecia ser um cadáver dentro. Um corpo pequeno e acinzentado, cercado de manchas de sangue no chão da jaula. Ao soprar de uma brisa gélida, o pequeno gemeu tremendo, revelando ainda estar vivo, tentando se encolher ainda mais dentro da veste imunda.

– Criança – chamei, sem receber resposta. Elevei a voz e voltei a chamá-lo – Responda!

Ele virou um pouco o rosto, revelando estranhas marcas no rosto e olhos azuis muito brilhantes. Um azul estranhamente poderoso.

–Responda criança, o que faz aí?

–Eu... Moro aqui... Com o circo... – respondeu com a voz baixa, apavorado, sem sequer levantar o olhar, Tremendo de frio.

–Como se chama?

– “Aberração”

– Humpf, tenho certeza de que este não é o seu nome.

– Meu nome é Lass, mas como só me chamam de aberração ou mestiço, achei melhor...

– Mestiço?

Passei algum tempo conversando com aquele menino. Estava realmente interessada na forte energia emanada do azul de seus olhos, e não apenas isso, perguntava-me porque a fonte de tal poder se permitia viver daquela forma. “Talvez por ser apenas uma criança, ele não tivesse consciência disso” pensei.

Depois de um tempo, ele já não tinha mais tanto medo de mim, já tinha até se sentado para me responder, e só assim pude ver quantos hematomas o pequeno corpo carregava em si. Ziddler apareceu pouco depois, com seu típico sorriso macabro.

– Oh, majestade, vejo que conheceu nossa atração principal desta noite.

– Atração principal?- ri irônica — Humpf, não vejo como esta criança franzina pode entreter sua platéia.

–Acompanhe-me de volta e se surpreenderá.


Olhei para a criança uma última vez antes de sair e do jeito como ele correspondeu meu olhar era como se me implorasse para não deixá-lo ali. Algo realmente me interessava em Lass.

De volta ao meu lugar de honra na platéia, esperei o ato seguinte. Um único feixe de luz, que iluminava o palco escuro, apresentava a domadora ladeada de seu leão. Mais um feixe de luz surgiu, este iluminando a pequena criatura: Lass.

O espetáculo consistia apenas em maltratar a criança que sequer podia fugir por estar acorrentado pelo pescoço a uma bola de chumbo. Ele era chicoteado o tempo inteiro, forçado a se arrastar pelo palco, se queimando em argolas de fogo quais não conseguia atravessar saltando, atacado pelos leões da domadora. A platéia ria sem parar, gritando “aberração” há todo momento, jogando frutas e outros objetos contra Lass.

Tais cenas me deixavam enjoada. Embora fosse comum para um demônio como eu presenciar tais atrocidades, o fato de ser Lass ali me corroia profundamente. Não só eu prezava pelo menino, como Cazeaje em si desejava o poder contido nele. Ao fim do espetáculo, tomei Lass para mim, não sem antes fazer os membros de aquele circo imundo sofrerem o que causaram àquela criança através das mãos daquele quem chamavam “aberração”.


– E então vocêadotou o jovem mestiço como o filho que nunca chegara a ter. Quanta nobreza de sua parte, majestade.

– Nada lhe escapa mesmo, caçador. Sim, antes de se tornar Cazeaje, Karina esperava um filho, mas por ser tachada de bruxa em sua terra natal, a criança foi considerada “filha do diabo” e morta antes do nascimento.

– Daí Karina fugiu e se uniu ao verdadeiro diabo.


Cazeaje ficou calada por um tempo, ainda com o olhar doloroso perdido no vão a sua frente. O caçador esperava que ela continuasse a falar enquanto girava aquela chama azul, cada vez menor, em sua mão.


– Eu nunca quis usar Lass daquela maneira...

– Eu vejo – não tirava os olhos escarlates da chama – Em suas memórias consta que você realmente tratava–o como um filho e durante a estada com ele, já não causava tantos problemas em Vermécia como de costume. Mas este capítulo ainda não terminou. Prossiga.


Como você mesmo disse, tratei Lass como se fosse o filho que havia perdido. Eduquei-o, tratei de suas feridas, deixei que aprendesse a lutar, tudo isso camuflando o desejo que Cazeaje possuía por seus poderes adormecidos. Desde que provara deles durante a fuga do circo, ela o queria cada vez mais.

Alguns anos depois, fui enfrentada e fatalmente ferida por um descendente de Sieghart. Safei-me a tempo, o lançando em outra dimensão, mas meu corpo já não resistiria muito tempo. Ao fim da batalha, teletransportei-me para o hall de meu castelo, onde já era aguardada por Lass. Ele veio até mim correndo, perturbado com minhas feridas.

– Cazeaje!

– Oh, Lass, querido...

– Seu corpo está se desintegrando... O que aconteceu?

– Me perdoe meu querido, mas este corpo não irá durar muito mais. E eu realmente não queria fazê-lo...

–Fazer o que? – respirei fundo, não conseguia formular a frase – Cazeaje?

– Eu não queria ter que me apossar de seu corpo.

Lass arregalou os olhos, surpreso, recuando alguns passos para trás. Tombei meu rosto para o lado, para vê-lo, e sorri compreensiva. Ele ainda era uma criança e isso certamente o assustava.

– Então – pos uma das mãos em punho no peito, olhando para ela e em seguida para mim – tome meu corpo – ele disse tão determinado que até me assustei.

– Lass?

Ele voltou a estar do meu lado e se ajoelhou, segurando uma de minhas mãos com suas duas.

– Só você cuidou de mim, Cazeaje. Se não fosse por você eu ainda estaria no circo, ou pior, talvez nem estivesse mais vivo.

– Lass, você sabe o que vai acontecer se eu o fizer?

– N-não – abaixou o olhar momentaneamente – mas não tenho medo.


Cazeaje se deliciava com a idéia de finalmente fazer uso total de Lass. Ela sempre o quis e eu sempre lutei contra isso. Já não havia mais saída, se meu corpo desaparecesse por completo como ameaçava acontecer naquele momento, Lass se tornaria seu hospedeiro querendo ou não. Eu implorava mentalmente para que ele fugisse, mas o garoto estava muito apegado a mim para me deixar para trás.

– Se eu me apossar de seu corpo, você nunca mais será “Lass”. Está mesmo disposto a jogar sua vida fora desta maneira?

– Desde o início você falava que havia um poder em mim que você desejava. Eu quero dá-lo a você como agradecimento por todo que fez por mim até hoje – ele disse olhando fixamente em meus olhos, apertando firme a mão que segurava.

– La... – tentei se apertar a mão dele também, mas já não me movia.

Cazeaje não se conteve mais nenhum um segundo, e eu já não podia mais controlá-la dentro de mim. Sem sequer me deixar me despedir de Lass, sua alma fluía para dentro do garoto.


Durante a possessão de Lass, Cazeaje estava totalmente no controle. O garoto era muito jovem e não tinha forças para manter sua consciência viva como eu fazia. Minha alma estava fundida à dela, então éramos as duas fazendo uso daquele corpo.

Notas finais
como eu disse, completamente surtado