A Valsa de Vênus
2 Capítulo 02
Dez anos.
Rozênia permaneceu doente por três dias após sua mãe ter ido embora do Castelo, junto com as outras Filhas de Vênus, preocupada demais com a irmandade para se deixar atrasar por um mal-estar obviamente causado por nervosismo.
A febre havia baixado logo depois de aparecer, mas Rozênia ainda achava difícil manter qualquer comida no estômago. Marcella vinha cuidando de suas refeições, incitando-a a se animar e conhecer o Castelo, porém Rozênia tinha se recusado, e, em geral, tinha passado os dias em um estupor, entrando e saindo de sonhos onde sua antiga casa era queimada e sua mãe era apunhalada pelas costas.
Quando contou esses sonhos para Marcella, a anciã franziu o cenho e estalou a língua.
— Sua mãe é uma boa mulher, mas ela se esqueceu que você ainda é apenas uma criança e não uma Filha de Vênus. Você não tem idade para metade dos discursos que ela a deixou ouvir — ela muxoxou, provavelmente mais para si mesma do que para Rozênia. Em seguida se aproximou, fazendo um leve carinho em seu cabelo. — Leonora é uma guerreira experiente, ninguém vai acertá-la por trás. Além do mais, somos apenas mulheres, os senhores sempre nos menosprezam por isso, e essa também é nossa força. Podem se passar anos até que o rei volte o olhar para nós de novo.
Rozênia podia ver a lógica da velha, mas isso não a impediu de vomitar sua refeição seguinte. Marcella torceu os lábios, mas não disse nenhuma palavra de repreensão. Em vez disso, saiu do quarto em silêncio, e a quietude fez Rozênia se sentir ainda pior.
Ensaiou um pedido de desculpas para quando Marcella retornasse, mas ela não voltou. Em seu lugar, quem apareceu foi uma figura pequena, algumas dezenas de anos mais nova do que a anciã. Rozênia mudou sua postura, sentando-se na cama. A menina também parou, encarando-a desconfiada logo depois de fechar a porta. Ela tinha formas redondas e um rosto oval, naturalmente corado, que inspirava simpatia. De repente Rozênia sentiu-se muito consciente dos seus cabelos emaranhados — fazia dias que não os penteava. Em comparação, os fios claros e enrolados da menina caiam em uma massa macia por suas costas.
Ela trazia nas mãos uma bandeija com algo de cheiro doce. Tomando coragem, a menina se aproximou com passos rápidos, depositando a bandeija sobre o criado-mudo.
— Sua ama disse que você está doente. Ela disse para eu pedir que você tentasse comer um pouco. É arroz doce, eu ajudei a fazer, está muito bom — a menina falou com certo orgulho.
— Marcella não é minha ama — Rozênia corrigiu, sem saber mais o que dizer. O prato cheirava bem, mas ela estava cansada de vomitar.
— Não? — a outra questionou, surpresa. — Sua avó, então?
Rozênia sacudiu a cabeça. Se já tivesse feito seu juramento, ela e Marcella seriam irmãs, mas ainda não era uma Filha de Vênus e provavelmente nunca seria. Não achava que aquela menina conhecesse as regras da irmandade, no entanto...
— Ela é minha irmã.
A garota arregalou os olhos azuis, saltando a frente e sentando-se ao seu lado na cama sem pedir licença.
—Você é uma Filha de Vênus também? — ela perguntou com admiração.
O olhar de expectativa fez com que Rozênia sentisse a mentira pesar na língua.
— Bem, quase isso. Minha mãe era uma das comandantes, eu faria o juramento quando tivesse meu primeiro sangue, mas ele ainda não veio.
Ao contrário do que esperava, a outra não pareceu decepcionada.
— Eu vi sua mãe, ela foi gentil comigo. Você tem uma espada?
Por um segundo Rozênia se perguntou se a menina estava zombando dela. Todos sabiam que o rei havia decretado que nenhuma mulher podia portar uma espada... Mas então se deu conta de que a menina também era muito nova e nunca devia ter saído daquele Castelo ou visto uma espada senão na mão de um homem. Não lhe dizia respeito nenhuma proibição do tipo para que ela precisasse saber da nova lei.
— Não, mas já treinei com uma. — De madeira, mas omitir esse detalhe não era o mesmo que mentir, então dessa vez Rozênia não se sentiu culpada.
— Quando você melhorar, pode tentar me ensinar — a menina falou em um tom de pedido e, então, pareceu lembrar que estava ali com um objetivo. — Você deveria comer.
Rozênia olhou sem interesse para a comida, em seguida voltou a encarar a menina, um tanto desconfiada. A garota tinha falado com sua mãe, estava bem penteada e usava roupas finas, além de ter achado estranho o fato de ela não possuir uma ama.
— Quem é você? — perguntou, franzindo o cenho.
A outra deu um salto da cama, como se Rozênia tivesse lhe dado um tapa.
— Perdão, perdão! Não conte para minha mãe que eu esqueci de me apresentar! — ela suplicou, para então fazer uma mesura. — Eliza, filha de Lorde Bernard, nascida na Curva do Vento. Que as honras do meu lar também sejam suas.
Rozênia sentiu suas bochechas corarem. Durante todo o caminho até ali tinha remoído a ideia de que sua mãe a estava afastando das Filhas de Vênus para que ela se tornasse a serva de uma Lady, mas, afinal, fora a menina bem nascida quem a servira primero.
Pensou em se levantar e retrubuir o cumprimento como devido, mas Eliza estava muito perto, e Rozênia percebeu que só fariam um papel ridículo caso se erguesse, trombando uma na outra. Assim, limitou-se a baixar o rosto em um gesto respeitoso.
Mas, afinal, eram apenas crianças e não havia ninguém as vigiando. Depois de um instante de silêncio constrangido, Eliza voltou a relaxar, aproximando-se lentamente e sentando-se na cama de novo.
Por sua vez, Rozênia pegou o prato do criado-mudo, em parte para ter com o que se ocupar, em parte porque parecia falta de respeito desperdiçar a comida quando a outra dissera que tinha sido ela mesma a preparar o mingau. Eliza a fitou com expectativa.
— Se estiver ruim, você pode me dizer.
Rozênia assentiu, embora não pretendesse fazer isso realmente. Não precisou mentir, no entanto: o prato estava doce e morno, e Rozênia sentiu o gosto agradável de canela e leite fresco tomar seu paladar.
— Está muito bom — disse, e a menina sorriu. — Você foi mesmo até as cozinhas preparar isso? — Não era um ambiente que garotas bem nascidas costumavam frequentar; bordar, tecer e tocar eram atividades nobres, mas saber cozinhar não era esperado de uma Lady.
Eliza aquiesceu.
— Minha ama não queria deixar. Na verdade, ela não queria que eu visse você — ela confessou, encabulada. — Mas quando meu pai deu eu consentimento pessoalmente quando soube que eu ainda não havia conhecido você por proibição dela. — Eliza sorriu como se aquela lembrança fosse prazerosa. — Mamãe também permitiu que eu fosse para a cozinha com a Senhora Marcella.
— Eu agradeço, Lady Eliza — disse, e o rosto redondo de Eliza suavizou para uma expressão de contentamento.
— Papai também deixou que fôssemos ao côrrego quando você melhorar! E andar a cavalo — ela falou e fez uma pausa. — Não sou muito boa cavalgando, mas Marcella disse que você é.
Oh, ela era. De repente ansiou estar lá fora, a liberdade de andar a cavalo, o sol e o cheiro da grama. Eliza tinha pedido para que ela a ensinasse a usar uma espada, quem sabe não poderiam surrupiar uma...
Pela primeira vez em dias, manteve a refeição no estômago.
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