2 — Recomeço ou Retorno? (Thomas)

Já não aguentava mais estar sentado e dirigindo, parece loucura, eu amo viajar… mas aquela viagem não era o sonho pra mim. Jamais imaginei voltar para Pine Hills, sinceramente quando fui embora, pra mim era sem volta. Mas olha eu aqui, irônico, não? Retornando para a cidade da minha infância. Onde a cada esquina existem memórias do passado.

Eu precisava esticar as pernas, mas o destino ainda não chegava. A temperatura lá fora mudava a cada quilômetro; quanto mais eu me aproximava de Pine Hills, mais o frio se intensificava, e a neve começava a se acumular nas laterais da estrada — como se a própria cidade estivesse anunciando minha chegada antes mesmo de eu cruzar a placa de boas-vindas.

Dez anos se passaram. Deixei Pine Hills ainda na adolescência. Meu pai tinha conseguido um trabalho na cidade onde meus irmãos cursavam faculdade, e ele e mamãe acharam que seria a oportunidade perfeita para manter a família unida. A gente só não sabia que, ao chegarmos lá — logo depois do Natal e do Ano Novo — ele teria um mal súbito e faleceria.

Foi tão de repente…

Os médicos disseram que tinha sido um aneurisma cerebral, algo que ele carregava desde o nascimento e que, “do dia pra noite”, rompeu.

Continuar sem ele foi uma das coisas mais difíceis que já vivi. Mamãe passou meses… vazia. Só existindo pela casa. Meus irmãos estavam presos às responsabilidades da faculdade. E eu… eu fiquei sozinho naquela cidade. Sem apoio. Sem amigos. Apenas vivendo um dia de cada vez, tentando não desmoronar.

Mas a vida segue…

Nesses dez anos seguintes, conclui a faculdade, mamãe resolveu começar a trabalhar para ocupar a mente e se encontrou como decoradora, meus irmãos finalizaram a faculdade, casaram e cada um começou a trabalhar em suas respectivas funções.

E alguns meses atrás, meu tio Richard me ofereceu sociedade em seu escritório de advocacia, não havia ninguém para ficar em seu lugar após a aposentadoria e ele não queria fechar o escritório. Mamãe claro que amou a ideia, foi ela que me convenceu a aceitar, ainda estou meio desacreditado da ideia de voltar para Pine Hills, mas talvez, só talvez seja uma ideia promissora ter um lugar para recomeçar.

A placa de “Bem-vindo a Pine Hills” surgiu na beira da estrada como um fantasma do passado. O verde escuro desbotado pelo tempo, a pintura branca levemente descascada… nada tinha mudado. Era quase estranho demais.

Diminuí a velocidade sem nem perceber, como se meu corpo estivesse se preparando para algo que minha mente ainda não tinha alcançado.

As primeiras casas apareceram logo depois da curva — afastadas umas das outras, com quintais grandes, algumas com fumaça subindo das chaminés. Aquela parte sempre foi mais isolada, mais silenciosa. Quando eu era criança, passava por ali imaginando que as casas eram pequenas cabanas perdidas na floresta. Hoje… só consegui pensar no quanto tudo parecia menor do que na minha memória.

Conforme avancei pela estrada principal, as construções começaram a se aproximar. Casas antigas, cercas de madeira, árvores carregadas de neve e luzes piscando, mesmo ainda sendo novembro. Pine Hills levava o Natal a sério — isso eu lembrava bem.

E então surgiram as primeiras fachadas familiares: a padaria com a porta vermelha, o pequeno bistrô da esquina, a loja de artigos de inverno com suas janelas sempre embaçadas. Um por um, os lugares foram se revelando, como páginas de um livro que eu jurava ter fechado para sempre.

Quando dobrei mais uma esquina, avistei o centro.

Mais movimento. Mais luzes. Mais memórias que eu não estava tão preparado assim para encarar.

As ruas pareciam menores, mas ainda tinham aquele charme de cidadezinha que parecia existir fora do mundo real. Lojas alinhadas, cada uma com um toque natalino diferente, guirlandas nas portas, fitas vermelhas presas nos postes. Era impossível não sentir que Pine Hills vivia em seu próprio ritmo — e que, de algum jeito, me puxava de volta para ele.

Engoli seco.

Eu realmente estava aqui. De volta.

Continuei um pouco mais pelas ruas, de relance achei ter visto a livraria da cidade, Página Nevada, a qual pertence à família de Clara… Falando em Clara.

Ela era minha amiga de infância. Minha paixonite silenciosa da adolescência, aquela que eu fingia que não existia, mas que insistia em aparecer sempre que ela sorria para mim como quem não sabia o estrago que causava. Crescemos juntos entre as ruas tranquilas de Pine Hills, entre invernos longos e verões preguiçosos, dividindo segredos, desafios da escola e a sensação constante de que o mundo era pequeno demais para tudo o que queríamos viver.

E então eu parti. Fui embora, deixei tudo — inclusive ela — para trás. Dez anos longe. Uma década inteira sem o som da sua risada ecoando pela cidade, sem a leveza que ela deixava ao passar correndo pela praça, sem o jeito dela de transformar dias comuns em algo que parecia especial. A falta que ela fez… essa eu nunca soube colocar em palavras. Mas existiu. Persistiu. Mesmo quando eu tentei fingir que não.

Respirei fundo, afastando a lembrança antes que tomasse conta demais de mim. Segui dirigindo até que a fachada marrom da Pine Hill Lodge surgiu diante do carro — a mesma de sempre, acolhedora e familiar, como se tivesse ficado ali, me esperando. Estacionei devagar, observando cada detalhe, sentindo aquela estranha combinação de nostalgia e expectativa que me pegava de surpresa.

Entrei pelas portas de madeira e me dirigi até o balcão, lá estava uma senhora sorridente que não me recordava de trabalhar ali.

-Bom dia! O senhor Beaumont, ele se encontra? Queria reservar um quarto! — cumprimentei a senhora.

-Bom dia querido. Não, o senhor Beaumont não é mais o dono. Faz alguns anos que eu e meu marido somos os donos. — ela estendeu a mão para me cumprimentar. — Sou Eleanor, como você se chama?

A forma como ela disse “querido” carregava uma familiaridade que só Pine Hills tinha. Era como se a cidade inteira falasse assim: com gentileza, sem pressa.

-Ah, entendo Eleanor, muito prazer em conhecê-la. Sou Thomas Parker. — sorri. — eu sou um antigo morador de Pine Hills, pelo jeito as coisas mudaram um pouquinho em dez anos longe.

O sorriso que dei escondia o resto do pensamento: e eu também mudei, talvez mais do que devia.

Dez anos… e agora, ali, diante de uma desconhecida que já parecia ter me acolhido, tudo parecia voltar de um jeito desconfortável e bom ao mesmo tempo.

-Sim, dez anos trazem mudanças mesmo. — ela sorriu também — mas, o que pretende fazer em Pine Hills? Veio visitar a família?

A pergunta atingiu exatamente onde eu não queria tocar tão cedo. Família. Perdas. Começos. Retornos.

-Quase… Bom, não posso falar muito, mas queria reservar um quarto por alguns dias. — desconversei.

Senti-me meio culpado por desviar, mas ainda não tinha coragem — ou preparo emocional — para explicar tudo.

-Está certo! Pode responder esse pequeno formulário enquanto olho nossa disponibilidade? — ela respondeu solicita.

Enquanto escrevia no formulário, ela observava o computador. Era nítido o quanto Eleanor era querida — não porque eu a conhecesse, mas porque Pine Hills tinha esse dom de criar pessoas que pareciam carregar aconchego nos olhos. E, mesmo sendo a primeira vez que nos víamos, ela já conversava comigo como se eu fosse alguém esperado. Senti o olhar gentil de Eleanor pousar sobre mim por alguns instantes — não de forma invasiva, só aquela curiosidade natural de quem está conhecendo alguém novo.

— Você comentou que é um antigo morador, não foi? — ela disse com um sorriso leve, enquanto digitava algo no computador. — Pine Hills sempre guarda um espacinho especial para quem volta. Muita gente que cresceu aqui acaba retornando, principalmente nessa época do ano.

Assenti, tentando disfarçar o aperto que cresceu no peito.

— É… cresci aqui. Faz muito tempo que não volto.

— Imagino — ela respondeu, a voz suave. — O Natal de Pine Hills costuma mexer com a gente… Até com quem só veio de passagem. As luzes, o clima, a movimentação… é difícil não sentir algo quando dezembro está chegando.

Ela nem fazia ideia do quanto aquilo fazia sentido pra mim.

— Mas vamos lá — continuou, voltando ao computador com um brilho animado nos olhos. — Seu check-in está quase pronto. Meu marido deve chegar a qualquer momento, ele adora cumprimentar os hóspedes.

E como se tivesse sido chamado, o sino da porta tocou e um senhor entrou, trazendo consigo um aroma forte de café.

Ele tinha aquele ar de homem calmo, seguro de si sem esforço: barba grisalha bem cuidada, olhos azuis tranquilos e o jeito de quem observa antes de falar.

— Ah, querido — Eleanor o chamou — venha conhecer o novo hóspede. Este é Thomas Parker.

— Seja bem-vindo, Thomas, sou Oliver. — Oliver disse, me cumprimentando com firmeza. — Esperamos que sua estadia seja agradável. Pine Hills costuma receber bem quem vem até aqui.

— Obrigado — respondi. — E, na verdade, queria pedir uma indicação. Preciso entrar em contato com um consultor imobiliário. De confiança, se possível.

Oliver e Eleanor trocaram um olhar cúmplice, como quem sabe exatamente quem sugerir.

— Temos sim — disse Oliver. — John Miller. Um dos melhores daqui, e muito honesto. Trabalha com imóveis há alguns anos.

— Vou pegar o cartão dele para você — Eleanor completou. — Ele sempre ajuda quem está começando uma nova fase por aqui.

Agradeci e finalizei tudo com eles. Eleanor me entregou a chave — um chaveiro de madeira com o número 7 gravado à mão.

Subi as escadas com passos lentos, sentindo o piso ranger de forma familiar. Quando abri a porta, um cheiro suave de madeira e sabão invadiu o quarto. Encostei a mala no canto e fiquei parado por alguns segundos, só absorvendo o silêncio.

Era… estranho. E reconfortante. Como se a cidade estivesse me acolhendo antes mesmo de eu entender o motivo de verdade.

Me sentei na pequena poltrona próxima à janela, era surpreendentemente confortável, firme na medida certa. Peguei o telefone no bolso e resolvi ligar para o corretor imobiliário que Eleanor havia indicado. No segundo toque, alguém atendeu.

— Snowpine Imóveis, como posso te ajudar? — perguntou uma voz masculina alegre, quase energética para o meu estado cansado.

— John Miller, ele se encontra? — perguntei, ajeitando-me na poltrona.

— Está falando com ele.

— Sr. Miller, sou Thomas Parker. Acabei de chegar na cidade e estou procurando uma casa para comprar.

Houve um breve silêncio animado do outro lado, como se ele tivesse acabado de ganhar o dia.

— Ah, claro, Parker! Eleanor comentou que talvez você ligasse. Seja bem-vindo de volta a Pine Hills. O que você está procurando exatamente?

Olhei para a janela. A neve fina ainda caía, pintando tudo de branco.

— Nada muito grande — respondi. — Uma casa com três quartos já é suficiente. Sala e cozinha amplas seriam um ótimo diferencial. Estou pensando em ficar uma temporada na cidade… tenho um assunto profissional que pode se estender. E, mesmo que eu não permaneça, vejo como um investimento. Alugar, deixar para a família vir aproveitar a cidade… enfim, quero algo que faça sentido a longo prazo.

— Perfeito — disse ele, animado. — Tenho algumas opções, mas acho melhor conversarmos pessoalmente. Pode vir até a imobiliária? Fica aqui perto do centro, não tem erro.

— Claro, já estou a caminho.

— Ótimo! Estou te esperando, Thomas.

Desliguei e respirei fundo. A decisão parecia cada vez mais real.

Peguei minhas coisas, desci as escadas da pousada e me despedi rapidamente de Eleanor e Oliver, que estavam organizando algo atrás do balcão. Do lado de fora, o frio cortante me recebeu como um velho conhecido. Caminhei até o centro e segui em direção à Snowpine Imóveis.

A imobiliária era pequena, mas acolhedora — típica de Pine Hills. John Miller estava logo na porta, um homem de quarenta e poucos anos, sorriso fácil e olhos atentos.

— Thomas Parker! — cumprimentou, apertando minha mão com entusiasmo. — Bom te conhecer. Vamos ver algumas casas?

— Claro — respondi.

Saímos no carro dele e, ao longo do caminho, conversamos um pouco. Ele era falante, mas de um jeito leve.

A primeira casa ficava numa rua tranquila, cercada por pinheiros altos. Assim que entramos, percebi que era pequena demais.

— Dois quartos — explicou John. — Mas veja só essa cozinha…

E de fato, era enorme. Uma cozinha que parecia pertencer a outra casa, maior.

— É… ampla ela é — admiti, rindo de canto. — Mas acho que preciso de algo com mais espaço geral. Essa fica um pouco… desbalanceada.

— Sem problemas! — disse ele, animado, anotando algo no celular. — Vamos para a próxima.

A segunda casa era o completo oposto: cinco quartos, dois andares, varanda, quintal, preço absurdo.

— Essa aqui — John começou — é um pouco acima da média, mas vale a pena ver…

— John — interrompi com gentileza — é linda. Mas eu não preciso de metade disso. E nem estou disposto a pagar o dobro.

Ele riu, meio sem graça, coçando a nuca.

— Entendi, entendi. Ainda estou pegando o jeito do seu estilo, Parker. Mas vou acertar, prometo.

Voltamos para o carro, e durante o caminho de volta ao centro mencionei meu tio.

— Na verdade, meu tio Richard Frost me chamou para trabalhar no escritório — comentei. — Por isso estou procurando um lugar.

— Richard Frost? — John ergueu as sobrancelhas. — Claro que conheço! Homem respeitado por aqui, todo mundo gosta dele. Então você é o sobrinho que ele vive mencionando?

Soltei um suspiro leve, quase um sorriso.

— Mencionando? — perguntei.

— Sempre fala com orgulho — respondeu John. — Olha, faz sentido então você querer algo estável por aqui. E se vocês vão trabalhar juntos… bom, talvez acabemos nos vendo bastante também.

— Talvez sim — concordei.

Quando estacionamos em frente à imobiliária, ele virou-se para mim com um semblante determinado.

— Thomas, eu prometo — disse, firme — vou encontrar a casa certa para você. Pode deixar isso comigo.

Apertei sua mão em agradecimento.

— Agradeço, John. Aguardo seu contato.

Ele sorriu, confiante, e entrou de volta na imobiliária. Eu fiquei ali por um instante, sentindo o vento frio bater no rosto. Pine Hills estava começando a abrir caminhos de volta para mim — lentamente, mas sem hesitar.

Enquanto voltava para a pousada, meio inquieto com as casas que vi, mas confiante de que algo apareceria, continuei andando e observando o dia, as pessoas, as casas decoradas… tudo em Pine Hills tinha um ar natalino, isso sem dúvida era notável. A cada rua iluminada, um sentimento estranho de familiaridade misturado com distância me atravessava, como se a cidade fosse a mesma — mas eu, não.

Parei quando avistei um pequeno parquinho, onde algumas crianças brincavam no balanço, rindo alto, enquanto mães conversavam entre si nos bancos cobertos de neve fina. Essa visão simples me atingiu de um jeito inesperado; algo no ar frio, no barulho dos risos, no vai e vem dos balanços, puxou uma lembrança que eu não esperava revisitar.

Flashback

Eu tinha uns sete, talvez oito anos. Era uma tarde parecida — frio, mas não o suficiente para nos manter dentro de casa. Lembro do casaco azul-escuro do meu pai, aquele que ele usava por anos, sempre com cheiro de madeira e café. Ele me empurrava no balanço, devagar no começo, depois um pouco mais forte porque eu insistia.

— Mais alto, pai! — eu ria, com toda a coragem que só uma criança acredita que tem.

— Alto demais e você vai voar, filho — ele dizia, rindo também. Aquele riso… calmo, cheio de orgulho. — E sua mãe vai brigar comigo.

Eu gargalhava, sentindo o vento no rosto e o mundo passando em arco.

Depois, quando o balanço parou, ele ajoelhou na minha frente, ajeitou meu cachecol torto e disse:

— Um dia você vai entender… Pine Hills tem um jeito de ficar dentro da gente.

Na época eu não entendi. Hoje a frase parecia ecoar dentro de mim, forte demais.

Fim do flashback

Pisquei algumas vezes, voltando ao presente. As luzes do parquinho, as crianças correndo, o frio queimando a pele… tudo parecia igual. E, ao mesmo tempo, completamente diferente sem ele ali.

Suspirei fundo e voltei a andar. A sensação de saudade se espalhava pelo peito como aquela neve tranquila que ia cobrindo os telhados — silenciosa, constante.

Segui pela rua principal, observando as lojas fechando, alguns moradores se despedindo com acenos calorosos, as luzes acesas nas janelas criando pequenos refúgios dourados no meio do branco e do frio. Pine Hills respirava lentamente, como uma cidade que sabia esperar o tempo certo das coisas.

Quando cheguei à pousada, parei por um instante diante da fachada marrom conhecida e acolhedora. As janelas iluminadas pareciam convidar qualquer um a entrar e se proteger do mundo lá fora.

Empurrei a porta, tirando o frio das costas. Eleanor estava atrás do balcão, arrumando algo numa prancheta. Assim que me viu, abriu um sorriso doce.

— Boa noite, Thomas! — disse, com aquele tom que fazia até o inverno parecer simpático. — O jantar logo será servido. Pode ficar à vontade.

— Obrigado, Eleanor — respondi, sentindo o calor da pousada envolver minhas mãos ainda congeladas. — Vou subir e me ajeitar, logo desço.

E, pela primeira vez desde que cheguei à cidade, senti que talvez — só talvez — voltar tivesse sido a decisão certa.

Subi as escadas devagar, sentindo cada passo acalmar a inquietação que Pine Hills sempre despertava em mim. No quarto, deixei o casaco na poltrona e me permiti um banho quente, longo o suficiente para afrouxar a tensão no pescoço e na mente. Quando saí, vesti uma roupa confortável — uma calça de moletom, uma camiseta simples — algo que combinava com o clima tranquilo da cidade.

Desci para o jantar e encontrei dois casais hospedados, conversando baixinho sobre os eventos de Natal que estavam por vir. Sentei-me com eles, e logo a conversa correu fácil: trocaram impressões sobre a neve, perguntaram de onde eu era, comentaram sobre como Pine Hills parecia uma cidade saída de um cartão-postal. Respondi com simpatia — e até com um certo orgulho silencioso — que, de certa forma, ela realmente era.

O jantar estava delicioso: ensopado quente, pão recém-assado, e aquele chocolate quente que Eleanor serviu que nos abraçava com seu perfume. Ao final, agradeci:

— Obrigado, Eleanor. Estava perfeito.

— Fico tão feliz em ouvir isso — disse ela, tocando meu braço.

Subi novamente para o quarto, sentindo o corpo pesado do cansaço e a mente mais calma do que no início do dia. Sentei-me na poltrona, peguei o celular e enviei uma mensagem para minha mãe. Poucos segundos depois, ela respondeu com uma chamada de vídeo perdida — mas eu preferi ligar só por voz, para não preocupar com minha expressão cansada.

— Mãe… cheguei bem — disse, com o tom relaxado de quem finalmente respira. — Já me instalei na pousada. O mesmo ar de quando estávamos aqui.

— Ah, eu já imagino — ela riu. — E as casas? Encontrou alguma coisa?

— Estou olhando algumas ainda. Amanhã vou passar no escritório do tio Rick para conversar com ele também.

— Está bem, meu amor. Se cuida, tá?

— Certo mãe, pode deixar.

— Então tá bom. Fico mais tranquila. Se precisar de qualquer coisa, me liga.

— Eu sei. Boa noite, mãe.

— Boa noite, filho.

Desliguei e fiquei alguns segundos olhando para o teto, como quem tenta organizar o coração antes de encerrar o dia. Depois larguei o celular no criado, me estiquei na cama e deixei o colchão engolir o peso das pernas, do corpo, da saudade.

O cansaço me alcançou de vez.

E, sem resistência, me rendi ao sono.