Acordei com o barulho insurdecedor do despertador, marcavam 6 horas da manhã, horário de pessoas com responsabilidades nas costas, se levantarem e irem enfrentar o seu dia. Meu ânimo estava neutro, fiquei deitada por alguns segundos, implorando de olhos fechados que os minutos se arrastassem, porém pouco tempo depois uma luz invadio o meu quarto, supuz que um lindo dia de sol nascia na pequena cidade de Golden Beach e contra as minhas forças, obriguei meu corpo a colocar os pés no chão. Meu quarto estava com uma aparência familiar, roupas jogadas por cima da cadeira de balanço, alguns posters descolados da parede devido à cola gasta, e sentada na janela de modo distraído, estava Serafina, minha gata. Esbocei um sorriso pelo modo com que ela encarava um passarinho, seus instintos de caçadora o seguiam à cada pequeno passo que dava, caminhei até a janela e a tomei em meus braços, seus olhos encontraram os meus e sua expressão, foi de ameaça à carinho em menos de meio segundo.
— Está com fome, não é? — disse acariciando seus pelos embaraçados. Serafina deu seu miado em resposta positiva e permaneceu me olhando, balancei a cabeça e a coloquei no chão. — me espere por 5 minutos, ok? Jaja nós descemos e eu dou seu café da manhã. Serafina seguia os meus passos enquanto eu fazia minhas higiênes matinais, variando entre carinhos nas minhas pernas e miados urgentes. Não se passaram nem quatro minutos e eu estava pronta, não tinha luxo na hora de me vestir, o básico era suficiente para uma temperatura instável, apenas prendi meus cabelos num rabo de cavalo e passei um leve toque de gloss labial, dei uma ultima olhada para minha cama extremamente atrativa e bagunçada e sai do quarto com Serafina, trancando a porta do mesmo para garantir que não voltaria pra lá. O silêncio da manhã era quebrado por um carro de frutas que passava pela rua fazendo suas propagandas e vendas diárias, fui à cozinha e procurei algumas frutas para fazer uma vitamina rápida, enquanto as maças se misturavam com as bananas e o leite dentro do liquidificador, preparei o café da manhã de Serafina, que já implorava com seus olhos suplicantes. Havia um jornal na bancada da cozinha, coloquei minha vitamina num copo grande e me sentei para ler, não havia nada de diferente nas notícias, tirando o fato de um empresário famoso e casado estar na primeira página com uma suposta amante, imaginei o que a Sra. Petterson acharia dessa história. Voltei minha atenção para o relógio, 6h20 min. Meu expediente na mansão Evans começava às 7h, praguejei quando percebi que poderia ter ficado mais tempo deitada. Passei o tempo assistindo tv, não havia nada de interessante, então a única função da tv na sala foi romper o silêncio da casa. Os minutos não passavam, por fim decidi ir mais cedo, antes adiantada do que atrasada. Fiz um ultimo carinho em Serafina, peguei minha mochila e sai. Cumprimentei alguns dos meus vizinhos já acordados e fui em direção ao ponto de ônibus, estava pouco movimentado, por sorte o ônibus não demorou tanto e estava vazio, o que me poupou dor nas pernas. A mansão Evans não ficava tão longe, mas também não era perto. Sentei no banco da janela e como de costume coloquei meus fones de ouvido e fechei os olhos, isso fazia com que os minutos simplesmente voassem, alguém me cutucou.
— Se importa querida? — disse uma velha senhora apontando o meu lugar, supuz que ela queria se sentar, balancei a cabeça negativamente e me levantei olhando a senhora de uma forma simpática, sabia como os idosos sofriam em situações públicas, principalmente em relação ao transporte, ela sorriu e agradeceu. Dois pontos depois, eu desci. Me sentia extremamente confortável quando estava no centro da cidade, os prédios, os carros, tinham um ar familiar pra mim, o cúbiculo vulgarmente chamado de Golden Beatch era apertado demais para os meus sonhos. Caminhei pouco mais de cinco minutos até chegar à mansão Evans, cumprimentei os seguranças nada simpáticos e entrei pela porta da frente, a mansão estava silenciosa, julguei que as crianças estavam dormindo e provavelmente o Sr. e a Sra. Evans, também.
— June? — reconheci a voz de Sheila, a empregada.
— Bom dia Sheila — disse simpática, indo em direção à cozinha, lá estava ela, com seu uniforme e seu velho sorriso radiante, Sheila era a segunda melhor parte de passar quase o dia inteiro trancada dentro da mansão dos arrogantes Evans, a primeira era minha doce Sophia, que devia estar em seus lindos sonhos de príncipes e princesas no andar de cima.
— Bom dia minha querida! Como foi o seu fim de semana? — Sheila parecia ter novidades para me contar, então fiz um breve resumo dos meus dois dias anteriores e a fiz a mesma pergunta.
— O seu deve ter sido maravilhoso, está com uma cara ótima — dei uma leve risada e a cutuquei fazendo-a corar.
— Ah, sim! Eu conheci um homem lindo num barzinho, trocamos telefones e fomos à um jantar no domingo. Ele é tudo o que eu poderia desejar June. — ela sorriu com seus olhos flamejantes.
Sorri ao vê-la tão contente, era bom saber que Sheila estava se interessando em alguém, desde à morte de seu marido, Adalberto, ela havia se fechado para relacionamentos.
— Mas isso é maravilhoso Sheila — minha voz transparecia minha alegria — e como foi o jantar?
— Bom, nós comparamos semelhanças e diferenças, compartilhamos algumas experiências amorosas e rimos na maior parte do tempo, ele é bem humorado, o que me encantou profundamente. Ah June... — ela fez uma longa pausa seguida por um suspiro — acho que quero vê-lo de novo.
Eu ri. Aquele olhar era famoso, o velho olhar distante e ofuscante de alguém que foi infectado pelo virus da paixão.
— Marcaram um reencontro, né? — perguntei animada com o assunto.
— Sim, mas... — um barulho na porta à fez interromper sua frase.
— Muito bonito! Batendo papo em pleno expediente — a Sra. Evans adentrou a cozinha nos fuzilando com um olhar triturador.
— Nós só estavamos convers... — Sheila foi interrompida novamente.
— Não me interessa o que vocês estavam fazendo sua imprestável, só o que me interessa é saber onde diabos está o meu café da manhã? Anda, me sirva algo para comer, rápido — os gritos da Sra. Evans ecoavam pela casa vazia, olhei para baixo, incapaz de contestar.
— Sim senhora! — Sheila assentiu derrotada e cabisbaixa e a Sra. Evans voltou-se à mim.
— E você... posso saber porque não está trabalhando? — eu a olhei.
— As crianças ainda não acordaram, senhora.
— E você quer que eu mesma às acorde? Vá arrumá-las, depressa estrupícil. — outro grito ecoou, fazendo o Sr. Evans surgir.
— Não se pode mais dormir nessa casa? — seu tom era irritado, me levantei — Por que está gritando tanto Valquíria?
O Sr. e a Sra Evans trocaram olhares nervosos, eu me despedi e sai da cozinha, caminhando à passos largos em direção ao quarto de Sophia, o ultimo cômodo do segundo andar. Abri a porta lentamente e a fechei do mesmo modo, sorri involuntariamente ao ver minha pequena princesa dormindo feito um anjo, no mesmo instante me senti um monstro abominável por ter que acordá-la, mas se não fizesse isso, a Sra. Evans o faria da pior maneira possível. Agaixei ao lado da cama e acariciei seus cabelos delicamente.
— Brilha brilha estrelinha, brilha brilha estrelinha, brilha brilha estrelinha que é hora de acordar — cantarolei uma das canções de sua caixinha musical, dei um beijo em sua testa e chamei seu nome algumas vezes, Sophia abriu os olhos e sorriu ao me ver.
— June — sua voz rouca me fez sentir-se feliz, eu era muito apegada à Sophia, era sua baba desde que nascera, Sophia era quase como uma filha para mim. Passar o fim de semana todo longe dela era uma tortura, principalmente conhecendo seus pais como eu conheço.
— Bom dia minha princesa! – abri os braços e um grande sorriso, ela se levantou e me abraçou. Normalmente Sophia fazia dramas na hora de levantar, mas hoje ela estava carente e com saudades. Peguei-a no colo e a levei ao banheiro, enquanto ela deitava em meu ombro e provavelmente recomeçava a dormir, entrei no banheiro e a coloquei sentada na bancada. – e então, me conte como foi o seu fim de semana? – perguntei, tirando sua roupa.
— Foi legal, nós fomos à praia.
— É mesmo? E você fez muitos castelos iguais o da bárbie?
— Fiz, mas um menino chutou e eu comecei a chorar – fechei a cara contracenando.
— Um menino? Mas que príncipe malvado, não pode fazer isso com minha princesa Sophia.
Sim, Sophia acreditava em príncipes e princesas e eu a acompanhava nessa ideia. Liguei o chuveiro e deixei a banheiro enchendo, enquanto ela terminava de me contar.
— Quando ele me viu chorando, ele veio com a mamãe dele me pedir desculpas – arqueei as sombrancelhas.
— E você o desculpou?
— Desculpei, depois nóis fomos brincar com a bola dele.
Sorri imaginando a cena.
— Ah, que bom que se desculparam! No próximo fim de semana, eu prometo que levo você à praia e te ajudo a fazer castelinhos de areia, está bem?
Ela assentiu e caminhou em direção a banheira.
— Nós vamos fazer o que hoje? – perguntou.
Sophia estava de férias, então todos os dias eu precisava formular ideias distintas para ela não ficar entendiada e a Sra. Evans me matar.
— Que tal fizermos um bolo de chocolate? – ela sorriu e começou a brincar com os seus patinhos de borracha. – Vou arrumar suas roupas princesa Sophia, ja volto.
Sai do banheiro e voltei ao quarto, Sophia tinha roupas demais para uma criança de 7 anos, e a missão de vestí-la de acordo com os gostos da Sra. Evans era sempre complicada, mas como o dia estava quente, opitei por algo leve de cores frias. Shortinho branco e blusinha lilás de corações, deixei as roupas na cama e peguei na sapateira, uma das centenas de sandalhas. Voltei ao banheiro.
— Hora de escovar os dentes – disse à Sophia que estava distraida.
— Não quero escovar os dentes June – ela respondeu fazendo bico.
— Ah, então você quer que o monstro das cáries entre na sua boca e te faça ficar sem dente nenhum? – minha expressão era de susto, ela se encolheu.
— Ele vai entrar na minha boca se eu não escovar os dentes?
— Vai e vai arrancar todos os seus dentes se eles não estiverem protegidos pela pasta.
— Ta bom, mas pega a minha pasta de morango.
Eu sorri e peguei a pasta de morango dentro do armário, Sophia tinha certo enjôo para pastas normais, coloquei o creme dental na escova e entreguei a ela, admireia enquanto ela escovava os dentes, sentia orgulho quando Sophia conseguia fazer as coisas sozinha, isso queria dizer que ela estava crescendo e eu me sentia feliz por isso. Ajudei-a a lavar e secar a boca, em seguida os cabelos. Desliguei o chuveiro e a tirei do box.
— Shortinho branco e sua blusinha lilás de corações, o que você acha?
Assim como sua mãe, Sophia também era crítica de moda, mesmo aos 7 anos gostava de combinar as cores e se vestir bem, o que me fez supor que ela seria uma belíssima adolescente estilosa.
— Gostei – ela sorriu e subiu na cama, enquanto eu a trocava. – June... Meu priminho Harry vai vir morar com a gente.
Nunca tinha ouvido falar em nenhum Harry na família Evans, provavelmente seria outra das muitas crianças que faziam parte da família.
— Aé? Então nós vamos ter mais um amiguinho pra jogar bola com a gente, né? – sorri pra ela.
— Não sei se ele vai querer, mas eu posso pedir pra ele.
Terminei de vesti-la e a desci da cama, peguei sua escova de cabelos e comecei a penteá-los.
— Eu tenho certeza que ele vai querer! Somos as melhores, não somos? – fiz uma cara de superior e ela riu.
— Somos – ela começou a pular e eu cai na gargalhada. A porta se abriu.
— Sophia está pronta? – virei-me e a Sra. Evans me encarava com a mesma expressão de minutos atrás.
— Estou terminando de pentear os cabelos dela Sra. Evans.
— Então apronte-a logo, receberemos visitas em menos de uma hora e não quero que Sophia esteja desarrumada.
— Sim senhora! – assenti e a porta se fechou. Deixei os cabelos de Sophia soltos, peguei uma loção perfumada e a passei em seu corpo, me afastei para olha-la e sorri aprovando.
— Estou bonita? – ela perguntou.
— Digna dos filmes. – sorri e caminhei em direção à porta de mão dada com a dela.
Descemos para o primeiro andar e a casa estava com um ar completamente diferente, haviam jarros de flores espalhados pela sala e o cheiro estava mais agradável. Franzi a testa e fui em direção à Sheila que estava concentrada olhando uma janela de vidro.
— O que é tudo isso? – Sheila deu um pulo assustada, eu ri.
— June! – seu olhar era bravo – Não me assuste dessa forma.
— Perdoe-me... Mas, o que esta acontecendo? Por que a casa está tão arrumada?
— Ah, parece que receberemos um novo hóspede, a irmã do Sr. Evans mandou o filho pra passar uns dias conosco e a Sra. Evans exigio que tudo ficasse impecável. Agora deixa eu correr pra cozinha, antes que ela coma meu fígado por estarmos conversando. Eu assenti e fui para o lado de Sophia, que estava vendo desenhos na grande tv da sala principal. A porta se abriu.
— (...) Ele será tratado como um verdadeiro lord Helena, não se preocupe. – espiei por cima do ombro e a Sra. Evans estava com um sorriso inédito no rosto.
— Eu tenho certeza que sim, Valquíria! Mas, me parte o coração ter que ficar longe dele estando na situação que está, porém devemos fazer o certo e o certo é ele ficar aqui, com melhores condições de tratamento.
— Sim, Helena. Nós o cederemos todo o tratamento e assistência, os médicos daqui são os melhores, ele ficará impecável até o próximo Outono. — Ela voltou a sorrir. – Mas, tem certeza que não quer ficar para o almoço? Pedi para meus criados fazer uma comida especial à vocês, não me façam essa desfeita. – Sua voz aveludada me dava a impressão que algum espírito havia entrado no corpo da Sra. Evans.
— Eu adoraria, mas infelizmente não posso querida, nosso vôo parte em alguns minutos, fica para outro dia... Bem, temos que ir, muito obrigada novamente, por tudo o que está fazendo por nós.
— Ah, não há de que, será uma honra para nós poder ajudá-los.
A mulher loira à porta, Helena, sorriu agradecida e deu um longo beijo na bochecha de um garoto de capuz preto, que havia ficado quieto durante o pequeno diálogo das cunhadas. Os familiares despediram-se e a Sra. Evans adentrou a mansão com o garoto e os empregados que levaram as malas do mesmo para o segundo andar.
— Qualquer coisa que precisar, você pode pedir à Sheila ou a Eleanor, são nossas empregadas. – disse a Sra. Evans com o braço ao redor dos ombros do garoto enquanto vinham para a sala, abracei Sophia e voltei a atenção para os desenhos.
— June! – olhei para a Sra. Evans e me levantei no mesmo instante, ela suspirou pesado e voltou a atenção à Sophia, o garoto olhava para a tv, parecendo incrivelmente interessado no desenho. Não pude ver seu rosto devido ao capus e o ângulo em que estava, mas pela altura, deduzi que tinha aproximadamente 18 anos.
— Sim, mamãe –Sophia olhou a Sra. Evans e em seguida olhou para o garoto.
— Se lembra do seu priminho, Harry? – Harry olhou para Sophia um pouco intrigado, como se não estivesse acreditando no que via. Então, eu pude ver seu rosto, Harry era dono de uma beleza ímpar, seus traços lembravam muito os traços dos príncipes das histórias que lia para Sophia, tinha um lindo par de olhos azuis e um sorriso torto que moldava seu rosto numa forma perfeita, o cabelo negro caia sobre a testa numa franja desgrenhada, pude sentir meus olhos petrificados enquanto o olhava.
Fale com o autor