A Trágica Vida De Kinberlly
1 Capítulo 1 - Escola
Notas iniciais
Afundei minha cabeça entre os braços, aturando as bolinhas de papel que Carlos Alberto Nakamura e Gabriel Nakamura jogavam em mim. Sim, eles são meus irmãos, e eles acham que já não basta eles me infernizarem em casa, tem que infernizar ainda mais na escola. Não sou sociável para algumas pessoas, todas dizem que eu sou estranha, que eu sou esquisita, que eu pareço um monstro assassino, mas o que tem de assassino e estranho numa garota de cabelos castanhos claros, olhos azuis que gosta de usar casaco branco e calça jeans negras com sapatos all star brancos? Só se for meu olhar que os congela.
Ah, desculpe-me por não me apresentar, eu sou Kinberlly Nakamura. Gosto de ser chamada de Kin, apenas de Kin, mas os outros para zoarem comigo, me chamam de “Kin Impossible”, por mais que eu não goste. Tenho 13 anos e aturo uma escola horrível e irmãos horríveis. O diretor da minha escola nem liga para seus alunos, apenas para o dinheiro que ganha com eles. Bom, como podemos dizer, tenho dois irmãos nada parecidos comigo. Um é meio esbranquiçado, loiro e de olhos verdes, o outro é moreno, de cabelos castanhos e olhos castanhos, ambos são musculosos. Em vez de ficar irritando a vida de outro, irritam a de sua irmã, a biológica ainda.
Já quis perguntar para minha mãe se eu era filha biológica dela, mas ela sempre respondia:
–- Que pergunta é essa? Claro que sim! Trate de fazer suas tarefas!
E enfim, não respondia mais nada meu durante o dia todo. Eu sei que minha família me odiava, por mais que eu lesse toda vez nos projetos dos pequenos que "família deve amar seus integrantes", a minha vida parece ser o contrário do que eles diziam. Já tentaram me assustar saindo do lixo com uma mascara horrorosa e gritando, mas eu sempre respondia isso, sem medo nem susto algum:
–- Saiu do lixo? Porque? Não era ai que deveria ficar?
Por mais que eu não quisesse, eu esculhambava a pessoa. Elas saiam do lugar onde se escondiam falando pragas para mim baixinho. Pensam que eu não ouço? Claro que sim, mas eu não gosto de contra dizer, sabe, eu não brigo com pessoas que eu não gosto. Bom, é ruim aturar tudo isso, mas fazer o quê? Seria normal se eu fosse igual a todo mundo. Amigos? Nenhum, só um garoto que é minha dupla que me acha bonita e é um dos MBDS (Mais Bonitos Da Sala). As meninas falavam que ele não me merecia e nem eu merecia ele, mas, dane-se, eu não me importo com ele.
Assim que o sinal tocou, fui andando pelo corredor, até receber uma bolinha de papel cuspida na lateral direita da minha face.
–- Eae, esquisitona, vai fazer o quê? Da a bunda pra algum cara?
–- Sai daqui, Gabriel.
–- Opa, isso não foi nada gentil. Ta na hora de ensinar para a Kinberlly a respeitar os seus superiores.
Eu ri um pouco. Ele? Superior a mim? Só em imaginação que pode ser.
–- Hehe, não deve estar falando de você.
–- Como ousa falar assim comigo? Sua fedelha!
Senti o formigamento no corpo de novo. Derrubei sem querer meu estojo, e quando me abaixei para pegá-lo, evitei um soco na nuca que Gabriel queria dar em mim. Carlos Alberto se aproximou dele e disse:
–- Deixa essa puta ai, ela não é nada especial como nós.
–- É verdade, ela não é nada especial.
E os dois foram para o carro do time de futebol americano. Sabe? É ruim até ter irmãos desse tipo. Eu iria perguntar novamente para minha mãe se eu era filha biológica dela, pois, ser tratada assim, eu não podia ser da família, até porque, eu sou diferente de todos os familiares que eu vi, na Árvore Genealógica.
Fui caminhando pela calçada, na direção de minha casa, que passava por um beco que era assustador de noite. Subi as escadas, abri a porta e entrei. Minha mãe disse:
–- Carlos Alberto? Gabriel? São vocês? Que ótimo! Eu queria falar com vocês dois a respeito de Kinber...
Quando ela me viu, se posicionou na porta em maneira imperativa e perguntou:
–- Cadê seus irmãos?
–- Foram jogar futebol americano.
–- E quando eles voltam?
–- Não sei, mas o horário de sempre é chegar as 19:00 horas, as vezes eles chegam as 20:30.
–- Hum... Muito bem, creio que você fale a verdade, mas ainda irei falar com eles.
Dei alguns passos a frente para impedi-la de andar mais, segurei seu braço e perguntei, séria:
–- Eu vou repetir a pergunta, eu sou sua filha biológica ou não?
–- Que tipo de pergunta é essa, Kinber...
–- EU TENHO O DIREITO DE SABER!
–- ...
–- Ia falar disso para eles, né? Porque não pode dizer para mim?
Olhei com raiva para ela, mas não sei porque, ela pareceu congelar. Soltou minha mão de seu braço e disse:
–- É claro que deve saber, mas não agora.
–- ...
–- Bom, vá tomar banho, não quero que a família Nakamura pegue a fama de ser suja. E vista aquele vestido que eu coloquei pra você lá.
–- É de rendas?
–- Recomendado para famílias nobres.
–- Se for aqueles de 1900 e adiante...
–- Kinberlly Nakamura! Você vai usar! Não é um pedido, é uma ordem!
Subi as escadas. Odeio aquela vida, odeio todo mundo. Vi o vestido rosa de redinhas enorme estendido na minha cama. Peguei-o e joguei no lixo. Em seguida, peguei uma toalha, uma muda de roupas e estendi tudo sobre a cama. Depois, assim, peguei a toalha e fui ao banheiro. Mesmo com a porta fechada, senti o formigamento no corpo de novo. O formigamento era do lado esquerdo, fazendo-me inclinar para o lado direito e me encostar-se à parede, evitando um soco de Carlos Alberto, que me esperava no banheiro.
–- Olá sua puta, vejo que ainda não perdeu os reflexos. Quero saber seu segredo, como você pode desviar sem olhar?
–- Eu não sei, mesmo se eu soubesse, não contaria para alguém como você.
–- Que vadiazinha eu tive pra ser minha irmã, sujando o nome da família.
–- Se eu pudesse mudar de família, eu fazia isso sempre que possível.
–- A mamãe falou uma coisa pra gente sobre você. Adivinhe o que é. Fiquei morto de felicidade.
–- É sobre meu nascimento? Pois não tem eu nascendo nos álbuns de fotos.
–- Isso mesmo, você é ADOTADA, ou seja, não merece estar na família Nakamura.
–- Kinberlly? Já vestiu? – soou a voz da mamãe no corredor.
Carlos Alberto congelou. Abriu a porta do banheiro e saiu, e depois saiu assim que a mamãe abriu a porta.
–- O que deu nele...Kinberlly! Você não vestiu ainda.
–- Com Carlos Alberto me irritando, foi difícil.
–- Toma logo seu banho e desça. O inspetor está aqui e sabe como é, santinha com seus irmãos, família feliz.
–- ...
–- Anda logo! – ela fechou a porta.
Que droga! Queria planejar uma morte para essa família toda morrer! GRRR! Liguei a torneira da banheira, enchendo-a de água quente. Tirei minhas roupas nesse tempo e me observei. “Eu sou Kinberlly. Jamais serei uma Nakamura. Meu nome agora será Kin. Mudei para que não me chamem de um nome que minha mãe me deu!”. Entrei na banheira, sentindo a água quente tocar minha pele. Depois de uns 4 minutos, tomei meu banho, me sequei e fui até o quarto, onde não tinha mais a minha muda de roupas, apenas um outro vestido de rendas. “Que droga...” – pensei. Mesmo assim, não tive escolha. Vesti as roupas de baixo e o vestido também e desci. Encontrei Carlos e Gabriel entretendo o inspetor, que era um adolescente, pela primeira vez, vejo um inspetor jovem. Sua pele era meio morena, seus olhos eram negros, seu cabelo escuro estava amarrado pra baixo, usava roupas de inspetor. Ele olhou para mim e perguntou:
–- Você deve ser a jovem Kinberlly, meu nome é Jeffrey, sou o inspetor.
–- É um prazer conhecê-lo, senhor Jeffrey. – falei com a minha mais fina voz e educação.
Fiz referencia para ele, igual como ele fez comigo.
–- É sempre bom conhecer todos os integrantes desta maravilhosa casa.
“Maravilhosa, claro.” –pensei. Ele não sabia o quanto horrível era aquela casa. Mas ainda mantive meu sorriso.
–- Senhor Jeffrey, aceita um chá?
–- Oh, não, obrigado, mas me chame de Jeff, me sinto mais a vontade.
–- Certo, Senhor Jeff.
Quando olhei direito, suas pálpebras...pareciam falsas. “Deixe de bobagem, é sua imaginação.”. Ele falou algo com Carlos e logo disse:
–- Senhorita Kinberlly, seu aniversário é daqui a cinco dias, certo?
–- Sim, Senhor Jeff.
–- Ainda bem que carrego algo comigo, aqui. – disse ele, estendendo uma caixa pequena, de 36 cm de comprimento e estava embrulhada. Era grossa, mas eu tinha certeza que era uma besteirinha.
–- Abra apenas um dia depois do aniversário, ok?
–- Ok...
Fui para meu quarto. Era difícil andar com aqueles saltos altos para fazer charme. Eu não gostava disso, nem um pouco. Depois que cheguei lá em cima, guardei o pacote numa gaveta. Só abriria no dia recomendado.
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