A Trindade Mágica
9 Capítulo 9 - Magia Espiritual Primordial
Mais oito anos se passaram. O espírito transcendente não parecia ter envelhecido, mas também não havia rejuvenescido. Sua aparência não mudou nada. Uma alma calma, bem controlada em suas poucas ações, e ainda um pouco ingênua, mas agora possuía uma grande quantidade de sabedoria graças a ajuda que teve de um outro espírito, este sendo de um ancião. Seu comportamento, conhecimento e comunicação melhoraram bastante então os momentos de confusão e incompreensão eram menos frequentes, quase raros, de acontecerem.
O tempo passou, mas nem nenhum outro espírito ali presente naquele plano havia envelhecido. Suas aparências se mantinham intactas, mas seus comportamentos ainda variavam um pouco. Talvez a explicação para isso seja de que por eles serem as almas dos seres pensantes que eram em vida, isso os permitiam permanecer assim, com seus aspectos físicos imutáveis. A mudança de comportamento poderia ser pelo fato de que eles estavam no plano espiritual, onde a Magia Espiritual reside, os permitindo ver, ouvir e sentir as coisas que se passavam com os vivos que os mencionavam ou solicitavam de algum tipo de ajuda espiritual.
Em um certo dia, o espírito transcendente estava caminhando pelo plano espiritual enquanto conversava mais com o espírito ancião quando ele sentiu algo. Ele não soube o que era exatamente, mas a alma mais velha percebeu que seu companheiro havia mudado de comportamento:
— O que houve meu jovem?
— Eu… não sei exatamente. Estou sentindo uma agitação e coisas negativas vindas de lá. Parece ser preocupação e ansiedade, mas também discórdia e acho que ganância também.
— Hum. Realmente essas coisas são negativas. Alguém no mundo terreno pode estar fazendo algo de errado ou prestes a fazer. Vamos dar uma olhada nisso.
O espírito transcendente concordou com o velho e então ambos abaixaram suas cabeças, direcionando seus olhares para baixo como se quisessem observar o chão do plano em que residiam, mas ao invés disso eles começaram a ver o que se passava na Terra.
Em um lugar do plano terreno havia um grande templo, branco e cinza, o que fez o espírito superior se lembrar do que o velho lhe disse tempos atrás: que aquele lugar era sagrado para pessoas religiosas, espirituais, e que provavelmente ele — o espírito transcendente — havia sido formado pela união das almas dessas pessoas dentro de um lugar como aquele. Enquanto a alma sem detalhes físicos recordava desse ensinamento, ela e a que continha feição envelhecida viram que dois homens, fortes, que carregavam objetos com hastes longas com algo preso na ponta entravam na casa sagrada.
— Foram deles que eu senti aquelas coisas — disse a alma superior.
— É. Eles estão segurando marretas e com certeza não irão fazer algo de bom com elas. — Exclamou a alma do senhor.
— O que podemos fazer?
— Eu nada, mas você poderia ir lá e intervir no que quer que eles fossem fazer.
O ser espiritual se curvou, mostrando que iria imediatamente para a Terra, mas sua ação foi impedida pelo ancião que lhe disse:
— Espera! Vamos ver se é realmente isso que suspeitamos. Tenha um pouco mais de paciência e continue observando.
O transcendente pareceu aceitar o pedido e voltou a ficar ereto, observando o que acontecia naquele templo.
Após adentrarem na catedral, os homens corpulentos caminharam diretamente para uma coluna de sustentação no canto esquerdo, próxima a entrada. Ali ninguém de fora conseguiria vê-los já que a porta dava vista somente para frente onde tinha o púlpito.
— Você sabe o que fazer. Eu fico com essa pilastra aqui e você vai praquela ali — um dos brutamontes apontou para o pilar localizado no canto direito do local. — Cada um com o seu lado. Depois a gente vai pros bancos e termina com aquele espaço ali do padre. Precisamos fazer isso logo pra não correr o risco de ninguém ver a gente.
— Beleza! — concordou o outro homem forte.
Com os dois homens em seus pontos eles se olharam, acenaram com a cabeça um para o outro e então mostraram o que vieram fazer. Ambos ergueram os braços, segurando as marretas até um pouco acima dos ombros, enquanto giravam levemente seus troncos para trás. Depois de um segundo — ou talvez menos — viraram de volta para suas posições originais rapidamente e usando os músculos de seus braços aplicaram uma tremenda força junto com a meia rotação do corpo para desferir um poderoso golpe com a ferramenta. A pancada foi tão forte, em ambas as colunas, que destruiu parte da estrutura. O local da martelada estava quebrado e rachado com pedaços de mármore pelo no chão, além de poeira pelo ar.
A dupla repetiu o ato mais três vezes em pontos diferentes das pilastras e depois foram para as próximas de seus respectivos lados fazer o mesmo e assim continuar com seu cronograma destrutivo.
Com as suspeitas confirmadas o espírito transcendente olhou para o espírito ancião como se esperasse uma permissão para agir. O velho acenou positivamente com a cabeça e assim o transcendente se curvou para baixo e rumou nessa direção, a caminho da Terra, como se caísse de um avião em um salto de paraquedas ou estivesse praticando bungee jumping.
Em dois segundos o espírito transcendente chega aterrissando calmamente no centro do templo e logo começa a questionar os destruidores da mesma forma que chegou no local:
— Quem são vocês?
Os homens continuam marretando as pilastras, sem sequer demonstrar alguma reação diferente daquela destrutiva para com a nova presença ali entre eles.
— Por que estão fazendo isso? — Perguntou novamente a alma que continuou sem resposta.
Após a terceira marretada os homens largaram suas ferramentas e foram em direção aos bancos unilaterais que não ficavam exatamente no centro do templo, mas também não tão próximos das paredes. Enquanto socavam e chutavam os assentos, destruindo-os por completo, o espírito ali presente continuava tentando conversar com eles e nada de êxito.
Lá de cima, no plano espiritual, a alma do velho que tanto ajudara a transcendente continuava a observar os acontecimentos.
— Esqueci que nós nunca vimos como interagir com os humanos no plano terreno — disse o ancião jogando a cabeça para trás com os olhos fechados e levando a mão na cara depois de ver as últimas peripécias.
O espírito do senhor voltou a observar os eventos terrenos e chamou pelo espírito transcendente. A alma maior escutou seu nome ser chamado em sua mente e então respondeu da mesma forma ainda com seu humor calmo:
— Me chamou?
— Sim — respondeu o velho. — Esses homens não estão te vendo e nem te escutando. Assim como a gente está usando a magia espiritual para conversarmos a distância, você precisa também usar a magia para conseguir ser visto e se comunicar com eles.
— Entendi. Farei isso então. Obrigado.
Após a conversa mental, o espírito transcendente ficou olhando para os malfeitores que continuavam suas ações destrutivas. De repente ele tentou novamente falar com as pessoas:
— Oi. Com licença.
No mesmo instante, os dois delinquentes pararam suas ações, com pequenos espasmos musculares, contraindo seus membros junto ao corpo e movendo-se para o lado oposto do centro do templo. Eles se assustaram com aquela voz que aparecera do nada e rapidamente procuraram olhar para a direção de onde a haviam escutado e então uma paralisia tomou conta de seus corpos enquanto fitavam para a presença ali no centro da catedral.
Como a alma não tinha uma aparência amedrontadora e nem agia de tal forma os humanos se tranquilizaram um pouco e um deles resolveu contactar com aquele ser incorpóreo.
— Quem é você? — Perguntou aquele primeiro homem que havia dado as ordens de como destruir o templo.
O espírito transcendente respondeu com seu nome, mas como o mesmo era impronunciável a qualquer língua humana os brutamontes não entenderam nada.
— Que? Ah deixa. — Perguntou o outro delinquente que preocupado com a situação atual virou-se para o companheiro e disse-lhe — Cara, vamos embora daqui.
— Por que? Essa coisa não está fazendo nada. É só um espírito. Ele não pode nos impedir.
Após dizer aquilo, o espectro voltou com a sua pergunta anteriormente feita e não respondida, mas que agora ela ao menos seria ouvida:
— Quem são vocês?
— Não te interessa! — Respondeu aquele mesmo homem forte que planejou tudo.
— Mas… se eu perguntei, não é porque isso me interessa? — O espírito maior, ainda calmo, ficou confuso com a resposta dada.
Aquele que respondeu com grosseria revirou os olhos como uma expressão de tédio e depois, olhando para seu companheiro, disse:
— Vamos terminar aqui e depois vamos embora.
O companheiro concordou e ambos voltaram a socar e chutar os últimos bancos restantes.
— Por que vocês estão fazendo isso? — Perguntou novamente o fantasma.
Ao ser ignorado propositalmente por aqueles homens o espírito transcendente resolveu usar novamente de sua magia espiritual primordial para obter respostas. Ele entrou na mente dos depredadores:
“A gente precisa encerrar logo esse serviço pra ir embora e receber o pagamento.”
“Anda logo antes que alguém de verdade apareça e ferre a gente.”
Por causa da frase dita na mente de um dos vândalos o espírito ficou confuso, sem ainda entender do porque eles estavam ali fazendo aquilo, mas também ficou curioso com a parte dita sobre “receber pagamento”. A alma havia aprendido que muitas vezes para se ganhar algo é preciso fazer algo em troca. Então ele decidiu usar da magia mais uma vez para ver o passado dos dois homens e talvez assim entender melhor o verdadeiro motivo daqueles dois homens estarem destruindo o templo.
O espírito transcendente fechou os olhos e se concentrou. Quando ele abriu os olhos novamente ele via uma sala, escura, com uma mesa e uma lâmpada de luz amarelada e fosca que estava posicionada de forma que iluminava mais um lado daquele cômodo do que o outro. Lá também estavam os dois homens que depredavam o santuário, de pé, de um lado da mesa e do outro lado um terceiro. Este mal podia ser visto devido a falta de luz naquela parte da sala, mas foi possível perceber que era um homem mais alto e mais corpulento que os outros dois. Quase como uma fusão de ambos.
A alma conseguiu ouvir a conversa entre eles. De fato, os dois menores foram contratados para destruir o templo na cidade de Duamontana por valores muito altos. Eles apenas precisavam ir até lá, quebrar algumas partes do local e irem embora, tudo sem serem vistos.
Os homens que já haviam destruído todos os bancos agora se encaminhavam para o púlpito e o espectro, após ver tudo aquilo no passado, retorna ao presente e volta a falar:
— Vocês foram pagos por aquele homem para destruírem este templo, mas esse local é importante para várias pessoas da cidade. Vocês não poderiam parar com seus atos e irem embora?
Nesse momento os dois vândalos pararam de andar, surpresos com o que ouviram, e se viraram para o fantasma ainda no centro do santuário.
— Como ele sabe disso? — Perguntou o da direita.
— Essa coisa deve poder usar magia espiritual. Vai logo pra lá e quebra tudo. Eu cuido disso. — Disse o da esquerda que já se virava para o ser no meio da catedral.
O que havia perguntado primeiro agiu, correndo até o púlpito para terminar com o plano destrutivo do templo. Ele pisou forte no chão com o pé direito e magicamente, na sua frente, uma formação rochosa se ergueu do solo. Depois moveu com força seus braços para frente com as mãos abertas e levantadas como se estivesse empurrando algo pesado e nisso aquele bloco de pedra rumou rapidamente até o púlpito destruindo parte do palco de pedra. Assim ficou claro que aquele homem conseguia usar a magia da natureza.
O contratante que havia feito todo o plano e seguido com ele, agora parou suas ações para tentar, de alguma forma, “cuidar” do espírito transcendente. Ele primeiro olhou seriamente para a alma e depois fechou os olhos. De repente aquela pessoa se viu em um lugar enorme, infinito, vazio e com uma claridade que deixava todo o ambiente esbranquiçado, embora que não era forte ao ponto de prejudicar a visão.
“Ué. Essa é a mente dele? Parece até o céu.”
O homem estava impressionado com o que via que na verdade era nada, mas de repente aquela alma aparece naquele mesmo lugar, bem na frente dele:
“Sim. Essa é a minha mente agora. Você quer conhece-la?”
Sem esperar pela resposta o local começa a se modificar. Estantes repletas de livros percorrem todo imenso espaço de um lado ao outro como um trem que passa por uma estação em alta velocidade. Primeiramente aquilo assustou o brutamontes que em seguida passou a tentar se esquivar dos enormes móveis que passavam por ele rapidamente. Depois imagens de diversos acontecimentos terrenos começam a serem exibidas quase como uma tela de cinema mostrando um filme com múltiplas cenas e de múltiplos gêneros. O homem parou seus movimentos para ficar assistindo tudo o que era projetado.
“Esse é o meu conhecimento sobre o mundo de vocês”
Após essa informação dada pelo espírito transcendente as imagens gigantescas somem e o local volta a ficar como antes, o que surpreendeu o antigo destrutor, e começam a aparecer diversos seres vivos — pessoas e animais — com formas físicas um pouco diferente das conhecidas. Parecia mais que aqueles seres eram formados por algum tipo de energia gasosa ou resíduo plasmático. O malfeitor olhava para cada ser no momento em que surgiam, surpreso e curioso com o que via até que um tigre aparece próximo a ele, rosnando e ameaçando atacá-lo. A pessoa começou a recuar de vagar, tentando se afastar daquilo que parecia um animal selvagem enraivecido, mas de nada adiantou pois o tigre saltou em sua direção como se quisesse abater sua presa. O homem só conseguiu colocar os braços na frente do corpo em um ato de auto defesa para se proteger do ataque, mas para a sua surpresa nada aconteceu: o felino atravessou o corpo completamente. Com o susto passado o homem pressupôs de que todos aqueles seres ali presentes eram espíritos e de que ele poderia estar no plano espiritual, onde toda as almas e a magia espiritual reside.
“Mas como esse lugar tá na sua mente?”
De repente, uma alma gigantesca surge em meio a todas as outras. De tão grande que era o visitante daquela mente só conseguia ver a cabeça que já poderia ser comparada ao tamanho de uma montanha.
“Eu nasci aqui. Eu fui formado pelas almas de vários magos espirituais que tinham muita fé na magia espiritual”
Aquela informação passada chocou o brutamonte de uma forma que o mesmo não conseguiu reagir por um momento, mas depois um tempo o mesmo saiu da mente do espírito e correu em direção ao seu companheiro que terminava de destruir o púlpito com sua magia.
— Vamos embora…
— Ué, por que? O que houve? — Questionou o parceiro que parou seu vandalismo para dar atenção ao colega.
— Aquela coisa não é uma simples usuária de magia espiritual. O que ela pode fazer não é normal pra qualquer mago.
O mago da natureza que estava destruindo a área de oratória, rezas e preces ficou abismado com o que ouviu e concordou com a retirada deles do local. Ambos os brutamontes saíram correndo, desviando do espírito transcendente, rumo a entrada do templo que era a única passagem que dava para fora do mesmo.
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