A Trindade Mágica

8 Capítulo 8 - Magia de Sangue Primordial


Mais oito anos se passaram. Hemógues agora já é um rapaz, um adolescente, não muito diferente do que era na infância quando ainda era um garotinho. Um garoto provocativo, aventureiro, destemido e quando irritado age por impulso. Graças aos seus pais e crescimento pessoal a sua paciência e seriedade aumentaram então os momentos de fúria eram menos frequentes, mas ainda aconteciam, pois fazem parte do que ele é.

O tempo passou, o garoto cresceu e envelheceu, mas seus pais não pareciam ter envelhecido durante esses dezesseis anos. Eles estavam muito bem para a provável idade que tinham. Isso poderia ter relação com a magia que eles utilizavam deixando-os continuarem com suas aparências jovens, e a praticar as atividades do dia a dia além de cuidar do filho.

Em um certo dia, Hemógues estava treinando sua magia em meio as rochas, em uma das montanhas próxima de sua cidade. Ele estava de frente para uma pedra. A maior de todas ali. Pelo tamanho dela devia pesar no mínimo uma tonelada.

Enquanto olhava para o mineral o jovem pegou uma de suas adagas que guardava na bainha na lateral de sua cintura, fez um corte em seu braço esquerdo e guardou a arma. Quando o sangue começou a escorrer, o garoto respirou fundo e depois, com determinação em seus olhos, segurou o pedregulho e o levantou sobre sua cabeça como se não pesasse nada.

— Há! Isso é mole.

Hemógues abaixou a pedra no chão, causando uma pequena vibração no solo e depois pensou em praticar outro tipo de treino. O garoto pegou a outra adaga que guardava do outro lado da cintura com seu braço direito — intacto —, fez um corte em sua perna direita e guardou a arma. Novamente só depois que sua perna começou a sangrar o jovem agiu. Ele se posicionou, respirou calmamente três vezes e depois começou a correr.

Poderia ser um treino de atletismo ou uma corrida normal, em uma tentativa de bater um recorde de alguém… se fosse esse o caso então o “alguém” seriam os velocistas das histórias em quadrinhos, animações filmes, séries. Hemógues estava correndo muito rápido e não só em linha reta. O garoto fazia curvas em algumas pedras, buracos, arbustos, animais. O que aparecia na sua frente, ele rapidamente desviava.

Durante seu percurso, sem uma razão específica, o corredor virou seu rosto para olhar para o lado e em uma fração de milissegundos ele viu homens estranhos próximos a uma das minas da montanha. Um grupo com dois homens grandes e fortes e um fraco usando óculos, vestiam camisetas e calças jeans, seguravam coisas pequenas em suas mãos e se encaminhavam para a entrada daquela caverna.

Hemógues parou de correr e olhou fixamente naquela direção distante.

— Quem são esses caras?

O garoto começou a se aproximar daquele grupo, se esgueirando pelas rochas próximas, até que parou escondido atrás de uma e tentou escutar algo dos homens, mas não conseguiu.

— Deixa eu tentar isso.

Hemógues pegou novamente uma de suas armas e a usou para fazer um corte na orelha. Dessa vez ele gemeu com a dor do ato e depois fechou os olhos por alguns segundos, abrindo-os somente quando começou a escutar o que os homens falavam:

— Precisamos fazer explosões pequenas. O chefe só quer que a gente destrua algumas minas dessa cidade então depois dessa procuraremos mais duas e aí vamos embora, receber o pagamento.

— Tá. Vou ajustar o nível desses explosivos aqui no celular — disse o menos forte realocando seus óculos na posição anterior devido a uma leve descida no nariz.

— Anda logo. Isso aqui já é um saco. Se você ainda for demorar… não quero ficar aqui o dia todo.

Hemógues arregalou os olhos ao escutar aquilo. Primeiro ele ficou surpreso por ter gente querendo destruir parte da fonte de sobrevivência de sua cidade. Depois o jovem franziu a testa com o olhar de raiva naqueles caras e então, sem pensar, ele simplesmente saiu de trás da rocha onde se escondia e caminhou com passos pesados em direção aos demolidores.

— Aí. Vocês não vão explodir nada! — Gritou Hemógues em um tom de voz enraivecido.

— Quem é aquele garoto? — Disse um dos homens que segurava os explosivos.

— Não sei. É uma montanha quase sem vida. Não deveria ter ninguém aqui. A cidade fica a uns dois quilômetros de distância — disse o que segurava o celular, ajeitando seus óculos.

— Ai que saco. Mais uma coisa pra atrasar o trabalho. A gente pode pegar ele, prendê-lo dentro da mina e aí sim explodi-la? Assim ele morre e vai parecer acidente — perguntou o terceiro homem, ainda tedioso.

— Acho que sim. Ninguém podia saber mesmo que estávamos aqui fazendo isso — respondeu aquele que segurava o aparelho telefônico.

Depois ele direcionou a fala para aquele que segurava alguns dispositivos:

— Você! Deixa os explosivos aí no canto e pega ele.

— Eles não vão explodir? — Perguntou o companheiro.

— Não. Eu ainda não defini o nível da explosão e nem ativei ela. Pega logo o garoto.

O homem jogou os acessórios no chão e correu para cima do garoto.

“Eles não explodiram. O cara ali atrás não deve ter ativado ainda.” — pensou Hemógues, olhando rapidamente para os explosivos.

O brutamontes correu para cima de Hemógues que olhou para suas feridas no corpo ainda sangrando e sorriu. Quando o homem estava prestes a agarrar aquele que atrapalhou seu serviço foi parado com uma mão pelo mesmo e depois levantado no ar com as duas, como se fosse uma bola de futebol e então arremessado contra seus companheiros que, com medo de serem atingidos, correram do local da queda.

— Ahgr — gemeu o caído no chão.

— Merda! Como ele fez isso? — Questionou o outro grandão.

— Só pode ser magia — respondeu o terceiro homem fazendo uma pequena pausa para ajeitando seus óculos para olhar com atenção o jovem. — Olha só a perna e o braço dele. Estão sangrando. Deve ser a Magia de Sangue.

— Merda.

Ambos pareciam nervosos com a situação em que se encontravam: precisavam destruir as minas da cidade sem que os descobrissem, mas alguém os viu, interrompeu sua atividade criminosa e já havia derrotado um dos seus, mostrando ser um mago. Agora todo o plano parecia perdido, mas um deles ainda não queria desistir e disse para seu companheiro de óculos:

— Regula os explosivos.

— Que?

— Eu vou pegar os explosivos e jogar no garoto. Já estamos na entrada da mina então com todos explodindo juntos ao mesmo tempo e em uma potência maior, vão eliminar a entrada da mina junto com o garoto mesmo nessa distância.

— É, e parte do terreno em volta também. Além de chamar muito mais atenção. E se você usar todos eles, não poderemos destruir as outras minas.

— Mas é melhor que não destruir nada e ainda sermos descobertos. Anda logo.

O homem de óculos mesmo relutante sobre a ideia acatou a ordem e com o celular em mãos começou a mexer em um app e depois fez o sinal de positivo com a cabeça para o comparsa. O outro homem vendo o aviso agiu rápido: pegou os três aparelhos que estavam no chão e os arremessou contra o jovem invasor — que estava a poucos metros de distância deles — seguindo depois com uma corrida insana junto com o parceiro para tentarem escapar do raio de explosão.

Hemógues estava vendo tudo, parado em seu lugar, mas não fez questão de fazer nada contra os outros dois pois sua confiança dava a ele a crença que ambos se entregariam. Até mesmo quando os viu cochicharem entre si nada fez, achando que poderia ser um meio de se renderem.

Todo aquele pensamento mudou quando viu os aparatos explosivos voando em sua direção e os criminosos fugindo. Hemógues rapidamente sacou suas adagas, criou novos cortes em seus braços e não teve mais tempo para agir pois os artefatos já estavam a menos de um braço de distância de seu corpo e então eles explodiram.

Por serem três dispositivos com uma possível potência para destruir uma mina inteira e um pouco mais, o raio da explosão foi grande. O suficiente para pegar Hemógues, a entrada da mina, o homem que estava caído no chão com dor, parte do terreno ao redor e por pouco não acertou os outros dois que só conseguiram escapar porque correram desesperadamente para longe antes da detonação.

Com a poeira baixando os criminosos olharam para trás para ver o estrago que haviam feito.

— Bem mais ninguém vai conseguir entrar nessa mina aí até conseguirem liberar a entrada ou criarem outra.

— É, e perdemos um dos nossos.

— Ah ele parecia bem disposto ao trabalho. Provavelmente daria o máximo para concluir isso. Ele deu a vida pelo emprego — o homem deu uma risadinha no fim de sua frase.

Os dois homens se viraram e se afastavam cada vez mais da área que destruíram. De certa forma eles haviam feito o que disseram terem sido pagos para fazer: destruir a mina para que os moradores da cidade perdessem parte de sua economia e de seus empregos.

De repente os criminosos ouviram um som de pedras se mexendo. Isso os surpreendeu, fazendo-os voltarem seus olhares para o local destruído pela explosão. Naquela área soterrada de fato as rochas estavam se mexendo, como se ainda houvesse algo — ou alguém — embaixo delas, querendo sair dali.

Alguns segundos depois, pedregulhos são lançados para longe do local, alguns até voando por cima dos malfeitores, que se curvam, cobrindo seus rostos, em uma reação típica de alto proteção. Quando os homens percebem que não estão feridos e retomam suas posições eretas, eles vêm Hemógues, em pé, todo sujo de terra, exatamente da onde as rochas foram arremessadas.

Era como se o garoto tivesse sido coberto apenas por um lençol extremamente sujo, pois não tinha nenhuma ferida extra em seu corpo como hematomas, traumatismos ou fraturas expostas. Nada. Tudo o que estava visível no rapaz eram as marcas de cortes em suas pernas, orelha e braços que agora estavam sujas pela terra.

— Esse nível de magia… não é normal! Esse garoto não é um simples mago — exclamou o cara de óculos, muito espantado com o que via.

O outro homem não conseguia falar nada. Apenas expressava sua preocupação e raiva em sua face para com o garoto diante dele.

Hemógues olhou para suas mãos e viu que suas adagas estavam com as lâminas sujas, e parcialmente quebradas. Depois olhou para o chão, onde antes havia o comparsa caído, ferido: agora o que se via ali eram pedras e terra, provavelmente esmagando o corpo, se é que ainda restava algo para chamar de corpo devido a explosão. Por último, Hemógues olhou para a entrada da mina: a passagem que havia ali sumiu e agora em seu lugar tinha um amontoado de rochas aparentemente bem pesadas.

O mais forte da dupla acompanhou o último olhar do garoto e ao ver que seu trabalho havia sido feito ele gargalhou e depois respirou mais tranquilo falando com seu comparsa:

— Olha lá. Conseguimos.

O homem de óculos viu a mina, agora impossibilitada de ser adentrada por alguém e também ficou feliz, mostrando um sorriso em seu rosto.

Hemógues processando tudo o que aconteceu e vendo a reação daqueles bandidos, não conseguiu se controlar e decidiu agir novamente, mas antes ele disse:

— Vocês vieram aqui pra nos prejudicar e ainda por cima quebraram as minhas adagas?! — Hemógues estava notoriamente irritado. — Elas estão comigo desde que eu era criança.

Os bandidos ouvindo o garoto dizer aquilo e vendo a expressão de raiva em seu rosto sujo ficaram tão preocupados e temerosos por si que sequer conseguiam mover seus corpos.

Hemógues largou as adagas com lâminas quebradas, deixando-as caírem no chão, levou seu braço direito até sua boca e mordeu seu membro com tanta força e raiva que saiu sangue do local da mordida. Notando o gosto de sangue em sua boca ele parou de se ferir, abaixou o braço e então começou a caminhar em direção aos homens com um sorriso amedrontador em sua face.

Quando os mercenários viram que o garoto havia novamente provocado um sangramento em seu corpo, souberam que o mago logo faria algo para prejudica-los então como reação de proteção e defesa eles começaram a recuar lentamente, mas algo os fez parar com isso. Algo na frente deles causou ainda mais espanto que eles não conseguiram mais andar de tanto medo. O criminoso tecnológico, que usava óculos, foi quem mais se assustou, dando um grito de pavor enquanto caia no chão, sentado, olhando na direção do jovem mago. Já o segundo criminoso mais forte, e o mais sádico, do grupo não conseguia segurar seus fluidos corporais: ele soava muito, na cabeça e nas axilas, além de se urinar enquanto mantinha seu olhar fixo a sua frente.