A Trindade Mágica
11 Capítulo 11 - A polícia de Duamontana
De repente um homem de pele branca cai do céu, no centro da cidade, de frente para a delegacia, deixando todos os policiais parados, surpresos, com aquela cena. Ele pousou com os joelhos dobrados, um deles encostando no chão, e a mão também no chão. O delegado também ficou paralisado com a cena, porém, devido a seu tempo de experiência no ramo, foi o primeiro a despertar de sua inerência, já questionando aquele homem:
— Quem é você? O que que você quer?
Quando o homem se levantou, endireitando a postura para ficar ereto, pode-se notar bem a sua aparência: longos cabelos pretos e um bigode que se unia a barba, tão longa e escura quanto sua cabeleira, e seu porte físico era superior ao de qualquer morador de Duamontana. Ele começou a olhar em volta, ignorando as perguntas do agente da lei, como se estivesse analisando o lugar onde estava.
— Vocês aí… — O delegado apontou para alguns policiais que estavam mais próximos do desconhecido. — …prendam ele. O restante vá para o lado leste da cidade. Eu mesmo vou investigar o ocorrido no lado oeste.
Os guardas começaram a se aproximar do invasor. Um deles pegou as algemas pressas na cintura e deixou-as bem visível, sem esconder que as usaria para prender aquele homem e talvez tenha sido isso o que gerou o comportamento daquele anônimo. O grandão rapidamente esticou seus braços, com a palma das mãos abertas na direção dos policiais, e com isso uma forte rajada de vento empurrou aqueles homens para atrás, distanciando-os bastante do brutamontes.
— ELE É UM MAGO! — Gritou o delegado com a intenção de avisar a todos próximos do local que tomassem cuidado. Seja os que o enfrentariam ou os cidadãos da cidade.
Após o aviso do chefe, alguns policiais se afastaram daquele homem enquanto que outros se aproximaram, formando uma espécie de cerco de duas linhas. O invasor mudou sua pose para uma mais confrontativa, mostrando que de fato estava ali para brigar. Depois disso ele mal se mexeu, porém isso não ocorreu com seus olhos que passavam por cada guarda que se aproximava dele, tentando perceber a hora exata que o primeiro fosse ataca-lo.
— Elementais, ataquem! — Ordenou o delegado.
Após o mando, justamente os três policiais mais próximos do cabeludo, na primeira linha de cerco, atacaram usando magias naturais. Um que estava do lado esquerdo do invasor esticou seu braço direito com o punho fechado, lançando assim uma chama contínua. Outro que estava de frente para o invasor fez o mesmo movimento, mas ao invés de uma labareda flamejante, o mago policial criou uma rajada de vento também constante. O último mago do primeiro cerco, que estava à direita do brutamontes cabeludo, fez dois movimentos onde o primeiro foi uma pisada forte no chão com o pé esquerdo, fazendo assim levantar um enorme bloco de pedra do chão, e depois repetiu o movimento dos colegas, empurrando assim aquele pedregulho na direção do invasor.
“Com esses ataques vindos de direções diferentes e ao mesmo tempo é quase que certo que ele sofra algum dano ou crie uma defesa pouco durável fazendo-o se entregar para que as investidas parem.”
Era isso o que o delegado e alguns duamontanenses que assistiam tudo, de uma distância segura, pensaram e para surpresa deles não foi o que realmente ocorreu. O forasteiro percebendo a proximidade dos ataques agiu com calmaria: esticando seu braço direito e esquerdo com a palma das mãos viradas para tais direções ao mesmo tempo que sugou um pouco de ar com a boca. Faltando centímetros de distância para os ataques atingirem o alvo, fortes correntes de ar saíram das mãos do homem e de sua boca — com um sopro — contra-atacando com mais força o primeiro cerco policial: desfazendo o fogo, o vento e empurrando para longe a grande pedra além de cada agente da lei.
O delegado ficou notoriamente irritado com aquele ato, mas ele já havia se precavido para possíveis falhas no primeiro cerco.
— Se preparem homens! — Ordenou a maior autoridade policial da cidade, retirando seu quepe, afrouxando a gravata e com um sorriso sarcástico no rosto.
Como os subordinados já trabalhavam naquela delegacia a anos, alguns mais que outros, conheciam bem os sinais corporais e verbais de seu chefe, bastando uma diferença no tom de voz, um olhar ou uma expressão que eles logo entenderam o que deveria ser feito. A frase dita daquela forma e com tais atitudes fizeram os guardas do segundo cerco e demais se posicionarem como se fossem os próximos a atacar. O mago misterioso percebeu essa nova movimentação dos guardas e se preparou para o que poderia vir: se curvou levemente para frente, com os braços e mãos meio abertos como se quisesse agarrar o primeiro que se aproximasse, enquanto olhava atentamente para os policiais.
Depois de poucos segundos de uma forte tensão na inercia de todos ali, o comandante dá a sua ordem.
— Agora!
Quase que no mesmo instante o invasor sorriu, tendo a certeza que venceria mais algumas pessoas, porém ele foi enganado o que o fez trocar o sorriso por uma cara confusa. Todos os guardas do segundo cerco sacaram uma faca de suas bainhas, presas cintura, e fizeram um corte em suas mãos. O mago desconhecido ficou novamente ereto, ainda confuso com o que aqueles guardas estavam fazendo: “Por que eles estão se ferindo?”. Provavelmente era isso o que ele pensava e a resposta veio a seguir: os policiais feridos soltaram suas armas enquanto aumentavam seus músculos e tamanho, ficando da mesma altura do invasor, embora que visivelmente mais fortes.
Ver todos aqueles aspirantes a fisiculturistas causou novamente um sorriso no mago natural do ar — talvez pelo mesmo motivo de antes, talvez por um novo — que repetiu sua posição anterior e esperou. Os guardas transformados vendo que o homem não avançou decidiram então iniciar a investida de ataque, correndo em direção a ele. Quando alcançado ele começou a ser agarrado por todos aqueles brutamontes que mesmo sendo socados, chutados e atacados com golpes mágicos não desistiam de imobilizá-lo com suas próprias forças corporais agora aumentadas.
Após um pouco de resistência, finalmente o mago natural é contido, o que facilitou a aproximação do capitão e de outros policiais com roupas mais sérias que haviam ficado para trás do cerco. Todas essas autoridades levaram suas mãos até a cabeça do invasor e o olharam fixamente, como se estivessem querendo ver por dentro e/ou através dele.
— Senhor. Não consigo entrar na mente dele. — Disse uma agente para seu chefe.
Logo os outros subordinados relataram ter o mesmo problema e com isso novamente o capitão percebe o inesperado acontecendo: seus agentes não conseguiam usar suas magias espirituais para invadir a mente daquele homem.
— Merda! Ele deve ter treinado também pra resistir a ataques de magos espirituais. — Disse o comandante, mais irritado que antes.
Um mago de sangue ficou surpreso ao ouvir aquilo, relaxando por um breve estante a sua força para manter o invasor preso e bastou isso para que o mesmo conseguisse se mexer, livrando-se da prisão, batendo e arremessando os fortões para longe de si. Golpes e corpos arremessados atingiram alguns policiais magos espirituais, afastando-os também do mago natural do ar, mas sem receber nenhum ferimento grave. O capitão e outros agentes conseguiram se esquivar dos contra-ataques, mas no processo se distanciaram do briguento.
— E agora chefe? — Perguntou uma das autoridades, próxima ao delegado, que havia conseguido sair ilesa.
— Eu não sei… — Respondeu o capitão, agora visivelmente preocupado com aquele homem e o que ele poderia fazer.
O invasor percebeu que a maioria dos policiais estavam no chão, machucados demais para levantarem, até mesmo aqueles brutamontes, agora com suas aparências retornando a como eram antes do uso da Magia de Sangue. Toda a análise feita desde a sua chegada na cidade deu a ele o entendimento de que toda a força policial e militar da cidade se resumia a aquilo ali, além de que os policiais restantes não deviam ser magos ou eram apenas do tipo espirituais. Ele então começou a caminhar na direção das autoridades ainda de pé com um leve sorriso no rosto.
Os policiais restantes entraram na frente do seu capitão, formando uma espécie de frente de defesa para protege-lo. O chefe da delegacia sorriu com aquela atitude de seus subordinados, colocou a mão no ombro de dois deles e depois forçou uma passagem ficando assim entre eles, como se fosse um igual e não um superior a ser protegido.
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