A Traição de Ariel Clowns
4 Capítulo 4
As semanas seguintes foram reveladoras por dois motivos. Edmund se mostrou um rapaz muito divertido, honesto, românico, e principalmente, não era o que eu pensava que fosse. Ele não compactuava com as ideologias que sua família tanto amava. Edmund era diferente. Não era um príncipe em um cavalo branco cujo coração havia sido feito para completar o meu, essas coisas só existem nos velhos livros da biblioteca, mas sua gentileza e sorriso torto me encantavam, e eu não poderia exigir dele algo fantasioso quando eu mesma não me encontro e nunca me encontrarei neste patamar.
Nunca serei a princesa que espera seu amado marido fielmente todos os dias por anos enquanto este não aparece nunca e sei que não irá faze-lo. Nunca serei o tipo que, estando presa em uma torre se põe a esperar por um homem com um alazão, perfeito e heroico a me salvar. Antes, eu arrumaria um jeito de pular da torre e salvar-me eu mesma. Ao invés de esperar olhando pela janela, fecharia as cortinas e voltaria a viver como sempre fiz antes. Viver um amor cuja chama nunca se apaga é o sonho de todas, inclusive o meu, mas isso não me transportava para dentro de um livro de contos ou coisa do tipo.
Entretanto, Edmund conquistava aos poucos minha confiança. Era de costume sairmos para passear no jardim por algumas horas umas vezes na semana. Meu pai, que já fantasiava uma união, via prazeroso como nos dávamos bem. Hoje, pela segunda vez ele iria sentar há nossa mesa para almoçar e eu estava contente com isso, já fazia alguns dias que não nos víamos.
Fui violentamente retirada de meus pensamentos quando mamãe violentamente abre as portas de meu aposento dizendo coisas sem sentido, sendo logo seguida por três criadas, uma delas sendo Isabel, que logo veio até mim dizendo as palavras que logo explicaram tudo.
–Ele virá hoje!
Não se precisava ser um gênio para, com base na euforia e agitação de todos, saber que “ele” não era ninguém menos que Edmund, afinal, era sempre assim quando descobriam que iriamos nos encontrar.
Logo me colocaram na tina, me esfregaram por todos os cantos, passaram cremes e perfumes em minha pele, enfiando-me logo depois em um vestido não muito cheio, longo, com a parte do busto brilhante com pedras incrustadas, e o restante do tecido era da cor rosa claro. Eu não gostei muito da escolha, apesar do vestido ser lindo, não parecia muito adequado para um jantar, e sim para algo mais importante, como uma festa, um baile ou algo do tipo, mas decidi que não importava. Antes de descer olhei-me mais uma vez no espelho. Meus cabelos caiam cacheados por cima dos ombros.
Como sempre, havia em minha cabeça uma pequena e discreta coroa que era usada quando algum convidado costumeiro era recebido. Afinal, a realeza nunca poderia ser vista sem uma coroa por alguém que não seja um membro da própria família ou por seus empregados, como um lembrete de que esta deve ser respeitada, mesmo quando fosse para se encontrar com amigos próximos caso estes não sejam do circulo intimo, e apesar de minha família já considerar Edmund como parte deste, e talvez até como um membro da família, eu sempre teria uma pulga atrás da orelha, mesmo depois de nos tornarmos amigos.
Logo desci a escadaria e me dirigi ao salão. Cumprimentei Edmund com verdadeira felicidade em vê-lo e um sorriso discreto no rosto. Logo ele viu que eu era a única da sala que usava uma coroa, pois os outros não usavam nem mesmo uma tiara. Seu sorriso fraquejou por um segundo, mas logo esteve de volta. Sentamo-nos e logo o jantar foi servido. Todos estavam muito estranhos. De olhares e sorrisos contidos. Meus pais pareciam empolgados com algo. Apesar disso, tentei ignorar tudo o que acontecia, aproveitei-me que meu pai mantilha o convidado entretido e comi em silencio.
Em algum momento, Edmund se levantou da mesa, chamando a atenção de todos, que imediatamente se calaram. Ele caminhou até mim, me estendeu sua mão e me disse:
–Por favor Majestade, poderia se levantar?
–Claro.- respondi já me pondo de pé.
Edmund se ajoelhou em minha frente. Senti meu coração acelerar e prendi o ar de meus pulmões. não acredito no que ele iria fazer!
–Edmund, levante-se! – disse com necessidade em minha voz, e de forma um pouco desesperada.
–Não Ariel. Eu preciso fazer isso. Majestade, depois de maravilhosos dias e tardes perfeitas ao seu lado, eu não poderia mais negar o que sinto por vossa pessoa! E mesmo que tenhamos passado tão pouco tempo juntos, foi o suficiente para que eu me encantasse não apenas com sua beleza, mas com cada detalhe seu. Portanto, Ariel Clawns II, me daria a imensa honra de chama-la de minha esposa pele resto de nossas vidas?
Ainda estática, olhei para as pessoas a minha volta. Ninguém mais estava surpreso. Claro, eles haviam armado isso. O jantar riquíssimo, o vestido inadequado para uma simples visita, a animação e felicidade que tentaram tanto lutar para esconder, era por esse motivo. Eles sabiam. Não pude deixar de encarar meus pais, que sorriram mais ainda, um sorriso que poderia lhes rasgar a face se fosse apenas um pouco maior. Não acredito que eles não o impediram mesmo sabendo de seus planos!
Há... Claro, eles estavam loucos para que eu me casasse, assim não haveria discórdia quanto aos negócios da família que, por direito eram meus. Um homem continuaria no poder sem precisar romper a família meu irmão mais novo em meu lugar, pois sabia que eu não permitiria.
–Já pedi a sua mão aos seus pais, os reis concordaram com nosso matrimonio. – disse ele sorrindo. Como se eu estivesse procurando a aprovação deles.
A fala dele só confirmou minhas suspeitas. Determinada, me virei e olhei em seus olhos.
–Edmund, eu tenho muito apreço por você e sua atitude que demonstrou sua coragem. No entanto, não posso e nem irei aceitar o seu pedido. Se desejar, poderá continuar no castelo como meu amigo, no entanto, caso isso não seja o suficiente, peço que se retire.
–Como? Por quê? – disse perplexo.
Na verdade todos me olhavam com perplexidade e incredulidade.
–Edmund, sinto muito, realmente sinto, mas não posso aceitar o seu convite. Entenderei perfeitamente se desejar se retirar.
Ele apenas assentiu e se retirou cabisbaixo, de forma lenta, com certeza sem acreditar no que havia acontecido. Eu o entendia, eu também mal acreditava no episódio que todos testemunharam.
–Ariel! – exclamou minha mãe se levantando imediatamente. Ela estava claramente indignada e irritada. –Como ousa recusar tal pedido? – disse após o rapaz ter saído do salão.
–Simples. Eu mal o conheço e não me casarei com um estranho, ou com alguém que não amo verdadeiramente. –respirei fundo- Bom, se me derem licença, irei voltar aos meus aposentos, essa confusão me deixou sem apetite. –me virei e antes que desse o primeiro passo castelo adentro, ouço minha mãe me chamar.
–Ariel! Você não está dispensada dessa mesa! Sente-se já! Resolveremos isso agora mesmo! – disse já vermelha.
Suspirei.
–Pois irei me retirar mesmo assim. – disse firme- Não há nada a ser resolvido. Se este constrangimento ocorreu, foi por única e exclusivamente culpa de vocês que permitiram tal ousadia sem fundamentos! Mal consigo acreditar que nem se quer tiveram a consideração de se dirigirem a mim e perguntar se o aceitaria como esposo.
–Mas deveria tê-lo aceito! É um excelente partido! Jovem, belo, general, um rapaz respeitável e inteligente! Ariel, não se esqueça de sua obrigação com este país de casar-se com um honrado e capacitado a levar isso á frente, e então gerar herdeiros! –finalmente, ela soltou o verdadeiro motivo disto tudo.
Sem me aguentar, despejei o que sentia.
–Pois saibam que por hora, não aceitarei nenhum que apareça por essas portas como marido. Assumirei primeiro os negócios da família, eu mesma, e depois me preocuparei em casar-me e gerar herdeiros a este país como sei que devo. Mas também gestarei nossas riquezas e negócios, pois este sim é o meu dever e direito primordial como a Primeira filha, e herdeira de tudo isto aqui! E nem precisam se apressar, já que a cerimonia de posse é a apensa duas semanas. – disse de forma calma, e firme, mas sem resistir de jogar ironia na ultima frase. Logo depois me retirei.
Ainda pude ouvir, no entanto, os gritos ao fundo.
–Ariel! – gritou minha mãe.
–Volte aqui Ariel. –disse meu pai firme. Normalmente, eu estacaria ao ouvir sua voz, mas não hoje, hoje me daria ao luxo de ignorar e fazer o que realmente desejo, deitar-me e dormir.
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