Abri meus olhos lentamente, esperando que eles se acostumassem com a claridade do amanhecer. O teto do meu quarto estava tão distante que parecia se igualar a altura do próprio céu. Lentamente levantei-me. Analisei ao redor. Sua simplicidade era certamente o que o deixava mais bonito. As paredes em tons pastéis bem claros davam um ar de limpeza. O chão branco era brilhoso e imaculado. A cama arredondada ficava no centro do cômodo, com um belo dorsel cujos panos – que tinham uma forte coloração vermelha com bordados delicados feitos á mão de cor dourada, fios de ouro- repousavam graciosamente, tudo em seu devido lugar. As belas almofadas, de tons alaranjados, avermelhados, rosados e brancos repousavam sobre cocha alva do móvel. A cama sem dúvida era o maior foco de atenção do cômodo. No entanto, os demais móveis eram de uma beleza e delicadeza singular, encantadora e apaixonante.

Uma poltrona francesa com estofado floral rosado e de fundo branco, com o encosto listrado e uma armação detalhada e branda repousavam em um dos cantos do quarto, na companhia de um pequeno encosto para os és com o mesmo estofado, detalhes e cores semelhantes. Era um belíssimo conjunto. Ali havia também um armarinho de três gavetas, seus puxadores eram belas rosas brancas, e bem no centro de cada uma delas, um entalhe de caracóis e flores fora feito.

No quarto também havia uma penteadeira. Esta era rosadinha, um charme. Seu grande espelho levemente quadriculado era achatado no meio dos lados verticais, formando ondas suaves e charmosas no lugar do que deveriam ser suas quatro pontas. A moldura, ricamente decorada com caracóis e curvilíneas recebiam o suporte de dois pedaços de madeira entalhados e pintados com o mesmo padrão, quase como se fossem um só, e se fundia na mesa em que estava postos pentes, um livro e mais um conjunto de coisas que nem me dei ao trabalho de observar. Sua infinidade de coisas estava alí. Tantas que seria possível ficar observando o seu quarto e descobrindo novos detalhes durante todo o dia por ser ele ricamente trabalhado.

Sem muitas delongas, me troquei rapidamente, colocando um leve vestido vinho, sem alças, feito de um pano delicado, meio transparente, sobre um vinho mais escuro, no entanto, igualmente leve e fluido. Sua parte de cima era levemente apertado, nada muito desconfortável, como se o pano se transformasse em faixas e culminasse em um encontro á minha direita onde se formava uma bela flor, e então, fluísse de encontro ao chão.

Minha dama de companhia, uma moça jovem chamada Isabel, logo se fez presente. Seus cabelos presos em um coque discreto, com um vestido verde claro simples a deixava bela, porém não chamava muita atenção.

-Bom dia Majestade. – disse ela com sua voz doce.

-Nada de Majestade Isabel. Apenas Ariel está bom para mim. – respondi tentando ser o mais delicada possível, pois não gostava que as pessoas mais próximas me chamassem de Majestade. Era muito formal e desnecessário.

-O desjejum está pronto. Deseja descer agora?

-Claro. – respondi sucintamente.

O belo salão de jantar fazia o som de meus passos se espalharem como um eco ressoando sobre o seu formato oval, de paredes claras, porém ricas em detalhes dourados e piso amadeirado. As cortinas, hoje de cor azul claro, que pendiam do teto até o chão, tendo aproximadamente três metros de altura, reluziam um sutil brilho dourado. Fios de ouro.

A grande mesa de madeira policromada e com suas pernas e beiradas ricamente trabalhadas estava coberta de bolos, sucos, pães, doces, biscoitos, cremes e geleias, que exalavam um cheiro cativante e me despertava uma fome voraz antes inexistente. Sentei-me á cadeira, fiz meus comprimentos a minha mãe e pai que já lá estavam assentados e esperei a criada começar a me servir, logo sendo seguida por Bernard, meu irmão caçula que acabara de passar pelos portões de madeira esculpida.

Bernard era alto, loiro, de olhos escuros como carvão e pele alva e macia como plumas. Entretanto, sua aparência encantadora cai por terra assim que se trocassem três palavras com ele. Sua arrogância e prepotência, assim como a agressividade adquirida nos infinitos treinos de batalhas o deixavam incrivelmente difícil de ser suportado. Ter seu ego alimentado todos os dias com os elogios de meu pai, Júlio Clawns I, também não era de grande ajuda.

A fim de evitar aborrecimentos, fizemos o que aprendemos a fazer durante os anos e ainda praticávamos, comemos em silencio, sem trocar palavra alguma uns com os outros.

Após o Café da manha, retirei-me e fui à biblioteca, onde me pus ler “Os contos de um coração partido”, enquanto intercalava com “Estratégia de batalha”. Livros de assuntos totalmente adversos, mas indubitavelmente necessários. A final, como futura rainha, eu deveria obter o máximo de todos os conhecimentos não apenas necessários para o cargo, mas que estiverem disponíveis para que eu realize o meu papel com excelência.

Ao entardecer, Isabel veio me avisar para descer ao salão de recepção. Havíamos recebido uma das visitas íntimas de papai, e ele iria sentar á mesa conosco para jantar esta noite.

Como seria um convidado de honra, aparentemente um general, pedia a etiqueta que eu me vestisse com um grande vestido armado. Assim o fiz. Escolhi um azul claro, estreito até o quadril, com um corpete justo, e costurado de forma que o pano azul delicado parecia abraçar minha cintura, e então se abria criando uma fenda de corte arredondado, sobrepondo-se ao pana de fundo da saia. O corpete e a saia superior eram encrustados e bordados com muitos cristais, especialmente na barra do vestido e no corpete do mesmo. O sapato branco era simples, pois não iria aparecer. Coloquei o pequeno bolero azul do mesmo tom do vestido, também incrustado de cristais, penteei os cabelos colocando-os para trás e prendendo-os de forma que lá ficassem, permitindo, porém, que caíssem em cachos sobre meus ombros. Olhei-me no espelho. Sorri. Estava bela. Desci então, acompanhada de minha amiga e dama de companhia, Isabel, a fofocar no pé de meu ouvido sobre a vida das pessoas da corte.

Notas finais
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