A Traidora
2 2º Capítulo - Magia e hipnose
Notas iniciais
O céu estava realmente muito bonito, alternando entre tons de azul, roxo e laranja ele me indicava que o sol já estava para nascer. Era a hora de partir. De algum modo, eu não estava mais com as Caçadoras de Ártemis e, muito menos, utilizando os pálidos e reluzentes trajes delas. Diana mudou completamente a minha aparência, mas eu tinha esquecido deste detalhe até me olhar no espelho de metal que carregava comigo aquela madrugada.
Nita, a loba, não tinha me deixado. Graças aos deuses, eu odeio ficar sozinha! Caminhamos juntas até chegarmos na beira da estrada, e eu não fazia ideia de onde estávamos, muito menos, para qual lado ficava o Acampamento Meio-Sangue. A mochila pesava nas minhas costas e eu não aguentaria caminhar por muito mais tempo. Caso fôssemos andando, certamente seriamos mortas por monstros ou espíritos gregos furiosos. A estrada estava vazia, até que, mais ao longe, avistei um caminhão e fiz sinal para que ele parasse.
O caminhoneiro foi muito gentil comigo e com Nita, porque eu aposto que a névoa forçava-o a enxergar uma cadelinha muito fofa e, aparentemente, enfraquecida.
– Onde nós estamos?
– Pensilvânia, minha querida! Para onde a senhorita pretende ir? – ele perguntou, ajeitando o palito de dentes na boca e voltando a mordê-lo sem muita educação.
– Long Island, acho. Você tem um mapa?
– Não. Conheço os Estados Unidos como se fossem a palma da minha própria mão!
– Eu tenho certeza que você tem um mapa.
Como Caçadora de Ártemis, perdi meus poderes divinos no momento que aceitei o voto para cultuar a deusa, mas, como eu havia quebrado o mesmo voto, não custava nada tentar saber se já tinha recuperado-os. Olhei para o porta-luvas do caminhão e concentrei-me por alguns segundos, fazendo um mapa do país e um GPS de alta qualidade aparecerem ali em cima, como uma legítima filha de Hécate faria.
O motorista do caminhão nem percebeu, apenas continuou dirigindo e, de vez em quando, tomando alguns goles de sua Coca-Cola Diet.
– O que é aquilo? – apontei para o mapa, como se estivesse surpresa.
– Nossa! Eu achava que não tinha um mapa, e olha, um GPS novinho. Alguém deve ter me deixado de presente. Uau, estou sem palavras.
Ele deixou apenas uma das mãos no volante e continuou dirigindo à 130km/h. Jogou o mapa em cima de mim e fisgou o GPS com a mão livre, regulando-o para encontrar a rota mais rápida para chegar em Long Island.
– Pode dormir, menina. Segundo o satélite, iremos demorar aproximadamente 6 horas para chegar lá.
– Claro... – fingi que estava me preparando para dormir e encostei a cabeça na janela. Estalei os dedos 3 vezes e olhei o motorista do caminhão, ele estava me encarando. Os olhos do homem giravam em círculos quase perfeitos, indicando que ele já estava hipnotizado e eu não precisaria tomar piores providências.
– Deixe o caminhão, você precisa voltar para casa agora. Andando.
Sem piscar uma vez, o homem fez o que eu disse. Segurei o volante do automóvel em movimento, enquanto ele abria a porta e se jogava em um asfalto quente e muito mais baixo que a cabine do caminhão. Deslizei até o assento do motorista e enfeiticei o volante para chegarmos em segurança no Acampamento Meio-Sangue. Meu teste para a carteira de motorista foi negado, e isso me indicava que, mesmo com 16 anos, eu não estava lá muito apta para dirigir. Confesso, sou meio desastrada.
Ω
– Para chegar em seu destino final, vire à direita. – sibilou a voz feminina do GPS.
– Eu sei, inútil. – o volante girou sozinho para a direita e eu consegui exergar o pinheiro de Thalia em cima do morro, que aparentava estar a um pouco mais de 500 metros de distância. Freei o caminhão e puxei o freio de mão, seria estranho se me vissem chegando em um caminhão. Eu deveria fingir ser novata e não saber da existência dos deuses. Não até que Diana mandasse.
– Vamos, Nita. Não sei qual desculpa usarei para chegar com uma loba, então... – olhei para minha companheira extremamente esbelta e perfeccionista, imaginando um filhotinho de lobo branco. No mesmo momento, Nita aparentava novamente ser um bebê.
– Não se preocupe, garota. Você vai ter sua forma normal em alguns dias.
Ela assentiu com a cabeça e, juntas, marchamos até o acampamento.
Ω
Passamos pelo enorme arco grego sem nenhuma dificuldade ou desavença, ambas sujas de terra devido ao caminho de árvores e plantas. Tirei a mochila das costas e passei a carrega-la em apenas um dos braços, bagunçando o cabelo com a mão livre para aparentar contratempos em chegar no território grego. Inúmeros olhares voltaram-se para mim, e alguns campistas vieram correndo me ajudar.
– Você está bem? Meu nome é Rachel, vou te ajudar. Venha! – a garota ruiva me puxou para o centro do acampamento e segurou minha bolsa, tentando ajudar.
Eu sentia falta desse lugar, tinha deixado-o 6 anos antes, quando fui escalada para me tornar uma Caçadora de Ártemis, com apenas 10 anos. Ainda criança, a deusa já tinha percebido o meu valor. A única coisa que eu não podia esquecer era que eu me chamaria Kiara Howlett, não mais Madison Lowell.
O conjunto de chalés era incrível, mas eu não me arrependo de ter virado devota de Ártemis. Aprendi e cresci muito com minhas ex-irmãs caçadoras, e com a própria deusa. A filhote Nita nos acompanhava pelo passeio e era seguida por uma quantidade incrível de campistas, das mais diversas aparências e nacionalidades.
– Rachel.
– Sim? Ah, quase ia me esquecendo. Qual o seu nome?
– Madi... Kiara Howlett, desculpe.
– Tudo bem, Kiara. Você sabe onde está? – a ruivinha perguntou, tentando disfarçar a empolgação de receber uma nova semideusa ali.
– Não faço ideia. Eu estava sonhando noite passada e uma mulher surgiu no meu sonho... Ela dizia ser Hera, uma deusa grega.
– Era um sonho, Kiara. Mas não deixa de ser verdade, sabe. A deusa grega existe, e ela realmente estava falando com você. Não se assuste!
– Entendi... É muita informação para a minha cabeça, Rachel. E o que é esse lug...
Olhei para o lado e a garota ruiva estava jogada no chão, com os olhos pretos. Uma fumaça esverdeada saía de sua boca e de seu nariz. Eu já devia saber. Rachel era o Oráculo.
A representante do místico está a caminho...
Trazendo consigo um encantamento divino.
Semideuses serão testados e recompensados,
Enquanto os traidores, jogados no Tártaro.
Uma oportunidade para mostrar o valor,
Poderes e magias, sejam usados sem temor.
Ficaram todos em silêncio por algum tempo e eu fingi uma cara de assustada, embora realmente estivesse um pouco e, em alguns segundos, todos os olhares voltaram-se para mim.
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