A Traidora
5 Voo Romântico
Notas iniciais
POV Soluço
A ideia de Astrid era genial, mas não queria ela no ataque, ela acabou de chegar à Academia, a melhor coisa que pude fazer foi deixa-la com Perna De Peixe distraindo Bocão, Baldão e Estrume. E foi fácil até demais destruir as catapultas que achei que outras iriam surgir. Mas não.
Voltei para onde Perna de Peixe e Astrid estavam e só encontrei o loiro olhando desesperado para as árvores e Tempestade voando para lá e para cá sem rumo, parecendo procurar algo. Ou alguém. Com isso, percebi...
–Onde está Astrid? – perguntei a Perna de Peixe.
–Ela se distraiu e uma pedra quase a acertou, a Nadder Mortal dela desviou, mas Astrid não estava sem segurando nas rédeas e caiu. – apontou para baixo – E nossos dragões não tem o porte certo para ir a uma busca entre as árvores além do... – ele me olhou – Banguela.
Demorei alguns segundos para entender e depois já estava mergulhando em meio às árvores com Banguela. Voamos um pouco até que vimos um vulto loiro escorregando de um galho.
–Vamos, amigão, rápido! – falei para Banguela que foi o mais rápido que podia.
Astrid bateu em um galho, mas logo depois já estava em meus braços. Sua blusa e sua calça, ambas pretas, estavam um pouco rasgadas. Seus braços tinham alguns leves arranhões e o que me preocupou foi o corte profundo em sua têmpora. Ela abriu os olhos e me encarou com os olhos azuis brilhantes, mas que agora tentavam esconder a dor. Não consegui encara-los muito porque ela desmaiou, simplesmente apagou em meus braços. Banguela subiu, saindo do meio das árvores.
–Ela desmaiou – falei – Aula encerrada, até amanhã, vou levá-la para casa. Vem Tempestade. – falei a dragão-fêmea que me seguiu sem hesitar ao ver sua dona apagada.
***
Abri a porta e a fechei com o pé após Banguela entrar, já que Tempestade é muito grande ela ficou com a cabeça na janela do quarto de Astrid. Limpei e tratei dos ferimentos dela e fiquei a observando. Era um momento ruim para falar que ela tinha um corpo lindo? Sim, Soluço, é. E você a conheceu há um dia, aquieta ai.
Desci as escadas e procurei algo para comer. Achei alguns restos de bacalhau da janta de ontem e um peixe para Banguela e fiquei pensando que algo em Astrid me intrigava. As palavras dela eram ditas com firmeza e um toque de orgulho, do que suspeitar?
O silêncio era bom, mas foi interrompido por um ranger no alto da escada. Vi Astrid, que ao invés de cabelos soltos e vestes pretas, usava uma trança lateral junto com um aro de aço fino sob sua franja, blusa vermelha e uma calça azul. Mas continuava com as mesmas botas, capuz, ombreiras e saia (esta sob uma saia marrom de malha, dois palmos acima do joelho) de metal com espinhos também de metal. Os ferimentos estavam um pouco melhores e seu corte na testa não estava visível por causa de sua franja.
–Finalmente acordou, Milady. – falei risonho.
–Não me chame assim. – ela falou ao andar pela sala.
–É um apelido... — carinhoso? – respeitoso.
–Tá bom. – ela revirou os olhos e roubou um bacalhau do meu prato, que eu já havia deixado de lado faz tempo. – Por quanto tempo fiquei desacordada? – olhei pela janela e me surpreendi com o sol quase se pondo.
–Umas boas horas – arregalei os olhos – Estávamos na aula e agora já está acabando o dia. – ela me olhou surpresa e ri – Além de rasgar as roupas, rasgou a testa também, han? – ri e percebi que não era uma boa hora para piadas.
–Muito engraçado – ela disse irônica e seca, e eu realmente não ligava para essas coisas. – Acho que vou dar uma saída...
–Opa, opa! Você mal se recuperou, mal comeu! – disse me levantando – Vai ficar aqui.
Ela ia protestar, mas acho que ela percebeu rápido que se fosse fazê-lo eu iria discutir até ela se cansar, e se deu por vencida, com uma careta.
–Ta, mas o que vamos ficar fazendo aqui?
–É uma boa pergunta – respondi – Que tal conversar, sei lá, nos conhecer?
–Então, diga-me sobre você, além do que já me contou.
–Hm... Não tenho nada para contar, então. Conte-me sobre você.
–Também... Ah, qual é, vamos sair logo! – ela voltou à discussão que eu pensei estar encerrada.
–Vamos? Eu e você?
–Hm... Erm... Pode ser. – então eu tive uma ideia genial, pelo menos para passar um tempo com ela.
–Tá. Eu fiquei de te mostrar Berk e é isso que vamos fazer. – falei sorrindo.
–Perfeito! Melhor que ficar em casa, não? Vou buscar Tempestade e...
–Não, não, Milady. Eu vou mostrar-lhe Berk e acho que então eu decido como vamos. — ela revirou os olhos e fez um gesto com a mão para que eu continuasse. – Vamos no Banguela. – ao ouvir seu nome, Banguela se juntou a nós, exibindo um sorriso, com a boca aberta, mas sem os dentes.
–Pode ser – ela sorriu confiante e me seguiu.
POV Astrid
O segui até a frente da casa e vi Tempestade, que parecia aliviada em me ver.
–Oi, amiga – falei ao me aproximar dela e acariciar seu queixo – Vou dar uma volta e você fica aqui, tá bom? Qualquer coisa vá para a Academia. – voltei para perto de Soluço após acariciá-la novamente. – Vamos?
–Claro – ele disse com uma cara marota.
Não sabia muito o que fazer então montei em Banguela, meio hesitante, após Soluço. Ver um Fúria da Noite é novidade para mim, montar em um... Nem sei o que dizer, mesmo que eu não fosse a piloto do dragão.
Coloquei minhas mãos no ombro de Soluço e Banguela deu impulso. Berk vista de cima era linda, mesmo sendo pequena. Ele me apontou cada lugar, disse-me sobre cada morador e isso é muito bom para o relatório que irei enviar a Drago.
–Acho que já, acabamos... Vamos para casa Banguela – Soluço disse, mas com um tom suspeito, de quem não queria voltar já.
Olhei o sol que já estava quase inteiramente se posto ao horizonte, mas ao invés de Banguela retornar, ele foi mais alto e se curvou, indo rapidamente em direção a água. Minha única reação foi gritar e descer minhas mãos do ombro de Soluço até sua cintura. Eu costumava fazer coisas perigosas com Tempestade, mas não um suposto suicídio. Banguela mergulhou e parecia se divertir com isso, voltou à superfície e quando chegou a uma certa altura começou a girar.
–Banguela, assim ela não vai gostar da gente! – ouvi Soluço gritar entre meus gritos. – Obrigado por nada, réptil inútil!
A essa hora eu já estava até com as pernas entrelaçadas na cintura de Soluço. Banguela continuou fazendo piruetas no ar, por diversão, mas eu não achei graça e acho que já tinha deixado Soluço surdo.
–Para, por favor... – sussurrei para Banguela, mas no ouvido de Soluço, que pareceu se arrepiar. Pelo menos não estava surdo. Eu não estava com medo, só assustada pensando que iria vomitar ou morrer a qualquer instante. Eu não podia demonstrar fraqueza, mas o modo que eu falei já me entregava um pouco.
Banguela abriu as asas e começou a planar calmamente, ainda parecendo sorrir. Abri meus olhos lentamente e logo depois fiquei boquiaberta também.
O céu estava maravilhoso, a vista era perfeita, o jeito de Banguela voava dava um ar... Romântico. Por que não aproveitar? Tirei minhas pernas da cintura de Soluço e voltei minhas mãos aos seus ombros, mas não me contive e as levantei até as nuvens para poder senti-las, que iam se desfazendo entre meus dedos.
Eu me sentia livre. Sem pensamentos. Sem missão. Sem preocupações.
Banguela virou-se, mais lentamente, fazendo ficarmos acima das nuvens e a aurora estava visível. Contra minha vontade – talvez – passei meus braços novamente pela cintura de Soluço e coloquei meu queixo em seu ombro.
–Isso é incrível – sussurrei em seu ouvido e pude vê-lo dar um sorriso de canto.
Banguela voou um pouco mais baixo até chegar em uma clareira e foi direto tomar um pouco d’água num laguinho ali, após eu e Soluço descermos do mesmo. O moreno colocou uma mão na nuca, como se estivesse nervoso.
–Eu não tinha planejado que ele fizesse tudo aquilo e...
–Não tem problema – ele sorriu, mas o sorriso se desfez quando soquei seu braço. – Isso foi por me assustar.
–Mas foi o Banguela que... – o interrompi com um abraço.
–E isso foi por todo o resto. – era raro eu abraçar alguém, quando me afastei de Soluço ele estava com uma cara de quem não era muito abraçado também e até um pouco corado. Qual é, foi só um abraço. – Acho que já vou indo.
–Quer carona, Milady? – ele se aproximou, mas coloquei a mão em seu peito, o parando.
–Não. Obrigada, de verdade. Mas vou andando.
Ele apenas assentiu e se sentou ao lado de Banguela. Me virei e caminhei para fora da clareira, olhando uma única vez para trás. É possível se apaixonar em apenas uma tarde? Não, respondi seca para mim mesma, você tem uma missão e isso inclui não se apaixonar.
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