A Traidora
7 Meu Outro Lado
Notas iniciais
Valquíria, Brenda e Ian.
Eu sabia que eram eles, mesmo de longe e também sabia que minha vida viraria um inferno a partir da chegada deles. Eu era orgulhosa demais para pedir ajuda ainda mais para esses três.
Sobre Ian, nem preciso dizer nada, vai aprontar algo comigo com certeza.
Os cabelos repicados de Brenda pareciam até penas de corvo, ela era praticamente como um corvo, esperta, trapaceira, embora muito bela. Já Valquíria era mais sombria, conservada, juntamente com aquele sorriso cínico, maníaco, ela era de assustar.
Quando perceberam que eu olhava, mesmo que discretamente, fizeram cara de dor e andaram um pouco mais largados, fazendo barulho com o arrastar dos sapatos sobre as pedras do lugar, o que chamou a atenção dos pilotos ao meu redor. Soluço se levantou e foi seguido por mim e pelos outros, indo em direção aos três, tentando disfarçar os olhos vermelhos com uma cara de “coragem”. Eu queria sair correndo ou simplesmente enfiar uma adaga na cabeça de cada um a minha frente. Pensei que Ian iria falar com Soluço, em vez disso ele veio a minha direção com um abraço que foi claramente não retribuído.
–Astrid! – ele fingiu alivio e animação. – Caia na minha conversa, linda, vai ser o melhor, depois tenho um aviso de Drago para você. – Ele sussurrou no meu ouvido, tão baixo que se eu estivesse a cinco centímetros de distância não ouviria. Ele se separou de mim. – Pensávamos que tinha morrido! – disse agora mais alto. Ouvi Soluço pigarrear, incomodado.
–E você quem é?
–Ah, desculpe-me. Sou Ian e estas são minhas belíssimas amigas, as gêmeas Brenda e Valquíria. – Ele apontou para cada uma, respectivamente. – E deve estar se perguntando como conheço Astrid. Bem, ela deve ter dito que Drago atacou sua ilha natal e que matou todos, mas não. Ele capturou a mim e as gêmeas e hoje nos trouxe nesse ataque, com a esperança que atacaríamos vocês, já que fomos “treinados”, mas achamos uma chance de sermos livres.
–E graças a Thor conseguimos escapar! Era horrível viver trancafiada lá! – Brenda falou pela primeira vez, sua voz mortalmente dócil. – Bom, espero que aceite-nos aqui...
–Claro, claro – Soluço disse – Vou ver se tem alguns quartos sobrando, venham.
Bom, nunca disse o porquê de eu não me dar bem com as gêmeas. Simplesmente por serem irônicas e falsas demais. Se não acha isso motivo, simplesmente também não preciso de motivo para odiar alguém.
–Então... – começou Soluço – Vocês eram o que de Astrid? – perguntou mais a Ian que a Brenda ou Valquíria, que permaneceu calada até agora.
–Bem Astrid era minha... – ele me olhou rapidamente malicioso e desejei que ele não dissesse o que estava pensando – namorada.
–Ex. – eu disse seca. Como ele tivera coragem de dizer isso? Bom, tinha que ser o Ian. – Mas hoje somos amigos, afinal tínhamos oito anos, era uma paixonite boba. – ele fez cara de dúvida depois lembrou-se, o tal “ataque” foi há onze anos. – Valquíria e Brenda são minhas amigas. – infelizmente eu não poderia dizer nada ao contrário disso se não a missão estaria acabada.
–Hm... Bom, chegamos. – ele disse. Os pilotos já tinham ido embora, provavelmente iriam pegar os arco e flechas para o “velório” dos poucos mortos.
Entramos na casa de Stoico, sendo bem recebidos pelo mesmo. A casa parecia pequena, mas haviam quartos de hóspedes o bastante para todos. Bom, mais ou menos. Brenda e Valquíria ficariam em um e Ian em outro. Pelo menos eu não teria que dividir um quarto com elas.
–Astrid – Soluço colocou a mão em meu ombro – Vamos queimar os barcos, você quer vir? – eu apenas neguei, não queria ver os poucos corpos dos mortos sendo queimados, que pelo que Soluço havia dito era apenas quatro. – Está bem. Volto depois. – ele disse meio decepcionado.
Voltei a meu quarto, tirei apenas minha armadura, as peças de metal, e me deitei na cama, fechando os olhos levemente.
Fui interrompida de meus pensamentos aleatórios com um peso sobre mim e uma respiração quente. Muito leve para ser Tempestade e muito pesado para ser Medo, então abri os olhos na hora, tentando me safar de qualquer emboscada, mas meus pulsos foram segurados acima de minha cabeça e uma mão tapou minha boca.
–Oi, lindinha. – disse a voz tão enjoativa para meus ouvidos. – Drago tem uma mensagem para você. – mordi sua mão que foi imediatamente retirada de meus lábios. – Ai, Astrid! Eu só queria conversar!
–Diga logo o que Drago pediu e irei ponderar se é verdade ou uma de suas jogadas! – falei alto para que qualquer um que estivesse no andar de cima ouvisse, mas infelizmente só haviam mais duas pessoas na casa.
–Irá duvidar de mim, mas se quiser mande uma carta para Drago, que foi orgulhosa de mais para receber ajuda ou ao menos receber uma ordem de um amigo. – eu ia respondê-lo, mas ele foi mais rápido. – Então, vou ser direto. Na Guerra, Drago quer que você mate alguém, mais especificamente, o filho do líder dos Hooligan, como sinal que você era a Traidora, que se orgulha de seu povo e que não tem medo de Berk. Mas percebi as trocas de olhares entre você e o Soluço e não estou nada feliz, lindinha. – ele disse tão rápido que mal deu tempo de processar tudo. — E se Drago descobrisse? – ele disse provocativo.
–Você não ousaria... – ameacei.
–Ah eu ousaria sim! E eu também poderia te expor. – ele abriu a gaveta da cômoda e pegou a carta, balançando-a em frente a meus olhos.
–O que você quer? – falei e ele me olhou confuso, guardando a carta em sua armadura, após eu tentar pegá-la. – O que você quer, Ian? Não quero fracassar nessa missão por sua culpa.
–A culpa é sua por se apaixonar. – ele deu de ombros. – Mas bom, o que eu quero e ter-te como minha. Namorada ou quem sabe esposa?
–Isso é pedir de mais. – eu falei indignada, eu não via um futuro com ninguém. Pelo menos não até agora. – Algo justo, Haase!
–É justo, mas não se preocupe, é só quando voltarmos para casa. – ele sorriu malicioso, tanto no sentido de malvado como de safado, e se dirigiu a porta.
Se voltarmos para casa, Ian, eu pensei, e se eu voltar para casa não quero você nem as gêmeas comigo.
Quando ele pegou na maçaneta, o chamei.
–Ah, mas eu tenho provas, Ian. – ele se virou e arqueou uma sobrancelha. – Haase. Seu sobrenome. A família mais fiel a Drago juntamente com a família Ecker, que seria então a família de Brenda e Valquíria. – ele riu, como se esperasse isso.
–Acha que não sei? Temos sobrenomes falsos, lindinha. Feurig e Goetze, a partir de agora. – sério? Pelo menos um sobrenome melhorzinho. — Você não é tão esperta quanto parece. – lancei-lhe um olhar mortal. – Tá, você é, mas se deu mal em achar que já não tínhamos pensado em tudo. Então... Você não tem provas. Eu tenho. – ele bateu em sua armadura, onde a carta estava guardada e olhou para mim uma última vez, piscou e saiu, batendo a porta com tudo.
Eu deveria estar vermelha, muito vermelha, mas não de vergonha por não ter ganhado a discussão, mas de raiva por não ter como tirar Ian, Brenda e Valquíria da minha missão – talvez por não ter ganho a discussão também -. Soquei a parede e me joguei na cama, sentindo novamente algo sobre mim, mas dessa vez era Medo, que se aconchegava em meus braços. Fiz carinho em seu pescoço, que emitia um tremor de ronrono e acabei cochilando.
***
Acordei poucas horas depois com alguns barulhos abafados e sai de meu cantinho quente, por curiosidade. Não era do quarto de Ian, o ronco dele era baixo, mas perceptível. Se eu andasse em direção ao quarto das morenas, o piso de madeira estufado iria emitir algum som estridente, alto o bastante para alertá-las, então decidi me virar para o quarto de Soluço. Passei pelo de Stoico ligeiramente e cheguei ao quarto do moreno com os olhos esmeraldas que me fascinavam. E de lá vinha o barulho.
Era como um gemido fraco, um choro abafado. Era totalmente invasão de privacidade, mas mesmo assim empurrei sua porta de leve, assustando o garoto. Ele quase deu um pulo, mas se conteve e eu tive de segurar a vontade de rir, que logo se foi quando vi seus olhos avermelhados.
–O quê houve? – eu perguntei me sentando ao seu lado na cama, que era de solteiro, mas grande o bastante para duas pessoas com nosso tamanho.
–Nada – ele fungou baixo.
–Diga, Soluço. O que está te incomodando? – eu olhei para seus cabelos ruivos amarronzados que continham pequenas tranças mal feitas. Mordi o lábio, mas não me contive e comecei a refazê-las. – Nem as tranças do cabelo faz direito, Strondus, já tem quase vinte anos! – ele riu baixinho – Mas agora responda minha pergunta.
–Morte, Astrid. A morte de Perna de Peixe, a morte da mãe de Cabeça-Dura e Cabeça-Quente, a morte de dois companheiros de meu pai. Um deixou dois filhos pequenos, Agatha e Raul... Não me lembro.
–Ágda e Ruan? – minha boca abriu em um perfeito “O”. Se uma pré-Guerra havia levado grandes vikings e um grande amigo, imagine a Guerra. Não é momento de desconcentrar!
–Isso, como sabe? – ele questionou.
–Podemos dizer que salvei Ágda e Ruan me encontrou para buscá-la. – Lembrei-me da felicidade do ruivo ao pegar a pequena de madeixas negras e essa felicidade provavelmente diminuiu ao não encontrarem o pai são e salvo em casa. – Mas pense que eles estão em um lugar melhor, Soluço. – eu disse com um tom de arrependimento imperceptível e ele apenas balançou a cabeça.
Após trançar os fios de sua nuca, empurrei suas costas de leve, para que ele se deitasse em meu colo. De sua nuca, minhas mãos foram para o topo de sua cabeça, fazendo carinho nos cabelos dali.
–Durma, está de madrugada. – sussurrei em seu ouvido. – Não se preocupe, eu saio do seu quarto antes de qualquer um acordar, ninguém saberá que estive aqui.
Ai você deve se perguntar: Astrid Hofferson fazendo carinho em alguém? Se preocupando? Consolando?
Essa é uma parte cuidadosa, maternal e sentimental minha, que tento ao máximo esconder, meu outro lado. Mas esse lado “escapa” de mim em certas situações ou mesmo quando estou perto de alguém que gosto muito – a segunda opção é mais rara -.
Continuei com os carinhos no cabelo de Soluço até perceber que ele adormeceu. Com cuidado sai de sua cama e fui até meu quarto, com cuidado. Quando abri a porta, me senti observada. Virei, procurando algo atrás de mim, mas não havia nada. Dei de ombros, Deve ser algo de minha cabeça, estou morrendo de cansaço.
Fechei a porta sem ao menos dar uma segunda olhada.
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