A Traição de Ariel Clowns
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Depois daquele fatídico dia, a casa se transformou em um lugar quieto, não conversávamos nada além do essencial. Não gostava da situação em que nos encontrávamos, era de certo muito desagradável e realmente me doía a forma em que estávamos nos tratando, no entanto, nenhum dos lados abriria mão das ideias opostas que tínhamos a respeito de meu futuro. Edmund não voltou a nos visitar novamente desde então, e não esperava que ele o fizesse pois entendia completamente o seu lado. Esperava apenas que algum dia, pudéssemos conversar novamente.
Hoje seria um grande dia, e para começá-lo bem, logo pela manhã comecei a tocar violino. Musica é uma grande parte da minha vida. Sempre a amei e desde cedo aprendi a tocar piano, flauta transversal e violino. As primeiras notas soaram tímidas na sala dos instrumentos, mas logo se tornaram ambiciosas, se juntando em uma melodia deliciosa que adulava minha pele, fazendo-me arrepiar. A introdução termina e a melodia se estabelece, ritmada e contagiante. Fecho meus olhos e deixo-me ser levada pelo doce som das cordas sendo arranhadas, meu corpo começa a se mover no ritmo ditado elas sequências de notas que pareciam beijar no ar. O fim da musica chega, como se disse-se Até logo.
Abri meus olhos. Eles estavam lá me observando, toda a minha família. Minha mãe com olhar presunçoso, meu pai orgulhoso e meu irmão, inexpressivo.
–Prepare-se, hoje é um grande dia filha. Comemoraremos enfim seu aniversário de maior idade e tenho um belo presente para você. — disse meu pai sorridente.
–Sim, mal posso esperar para enfim assumir meu lugar como sua sucessora papai. — Disse concordando. Minha mãe imediatamente ficou séria e raivosa. Antes que ela pudesse dizer algo, me virei e me retirei para o meu quarto.
Albert, o cocheiro, havia ido buscar meu vestido na costureira e logo deveria chegar, portanto separei todos os assessórios que usaria nessa noite e o par de sapatos que havia comprado especialmente para a ocasião. Mal terminei de separar tudo quando ouço uma batida na porta.
–Entre. — disse.
–Senhorita! O seu vestido. — disse Albert entrando no comodo.
–Ponha em cima da cama, sim?
–Claro.
E então ele se foi. Não precisei esperar cinco minutos para que meu quarto fosse invadido por uma avalanche de empregadas, todas conversando sobre como deveriam me arrumar para aquela noite. Minha pele foi esfregada, esfoliada, limpa com o melhor sabonete, depois hidratada e perfumada. Minhas unhas foram cutucadas, lixadas, aparadas, pintadas e enfeitadas. Por fim, meu cabelo foi lavado, puxado, penteado, enrolado, esquentado, desconstruído, esfriado e no fim, refeito. Quando estava, na opinião delas, perfeita, fui jogada no closet, onde o pacote com o vestido repousava ao lado dos sapatos pré selecionados e dos acessórios.
Respirei fundo. Estava nervosa, com as mão tremendo e suando frio. Eu era capaz, lutei por isso, lutei para isso e faria direito. Hoje assumiria o posto de herdeira que me é merecido e então todas as noites em claro pensando em como melhorar a vida das pessoas, o sistema agropecuário e o lucro das empresas da família, todo o tempo investido valeria a pena, e faria todos os que duvidaram de mim verem só que sou capaz. Especialmente minha família. Mostrarei ao meu pai e em especial a minha mãe que eu levarei todos os nossos negócios a outro patamar, e sei que ficarão orgulhosos de mim dessa vez.
Lentamente me vesti. Primeiro a saia e depois o corpete, tendo que ser ajudada neste momento por Isabel, que apertou as fitas nas minhas costas se retirando logo depois.
Quando todos estavam fora do cômodo, tranquei as portas e entrei calmamente no cofre de joias. Já havia escolhido os brincos e o colar que usaria, mas eu teria que escolher a coroa que seria usada hoje. Seria a primeira coroa de tamanho médio que poderia usar e já estava ansiosa por esse momento. Até hoje, só podia usar as menores, pois ainda não havia sido pronunciada como a descendente que sucederia o papai, pois apesar de ser a primogênita eu era mulher e possuía um irmão, então ele deveria escolher se desejava que seu sucessor fosse a primogênita, ou o primeiro filho varão.
Esse foi o motivo central das brigas dentro de minha família por tanto tempo. Minha mãe não aceitava uma filha mulher que não só trabalhava, mas governava todo um povo sozinha. Para ela, isso significa não ter netos tão cedo, logo correndo o risco de não conseguir um marido descente e bonito, ou de não gerar herdeiros tão rápido quanto possível para que ela pudesse estragá-los com suas ideias absurdas e ultrapassadas como tentou fazer comigo. Só que ela não conseguiu me convencer a desistir ou a meu pai a escolher o Bernard em meu lugar. Meu pai tinha juízo afinal. Jamais colocaria alguém que pensa exclusivamente em sí para comendar outras pessoas, seria um desastre, ele sendo homem ou não. Sexo não define capacidade ou intelectualidade, e no fim das contas, meu irmão não possuía nenhuma dessas coisas.
Minha linha de pensamento foi interrompida quando, ao analisar as coroas a minha frente, encontrei a que seria perfeita para essa noite. Agarrei-a com o máximo de delicadeza que pude. Era linda, mas pesada, e eu a usaria hoje. Seu peso me lembraria de minhas responsabilidades, não me deixaria esquecer que o que está em minha cabeça significa cuidar dos outros, dos meus súditos, e não apenas de mim. A coloquei em uma caixa aveludada. Depois, escolhi a que usaria até a Acensão e a coloquei no topo da cabeça, logo a frente do coque que as empregadas haviam feito mais sedo.
Olhei-me no espelho e analisei a figura que via dos pés até a cabeça.
Sapato salto alto azul ultramarino, a mesma cor da faixa que seria me dada nesta noite e da barra das extremidades do vestido. A saia era verde bebê, linda e de textura gostosa, com algumas pedrarias prateadas e azuladas na parte inferior da frente, bordadas até a altura do joelho acompanhando o formato rodado da mesma. E então tinha o corpete. Como era lindo! Do mesmo tecido da saia, com as mesmas pedrarias, dessa vez descendo do topo até a altura do peito, acompanhando o formato do meu corpo, com decote coração bem sutil, no meio já haviam poucas pedrinhas, que voltavam a se acumular na minha cintura. Tudo extremamente delicado. Um trabalho impecável que levou semanas para se completar, mas valeu a pena.
Então vinha o cabelo, que caia no meu ombro cobrindo-o como cascatas cacheadas, e no topo da cabeça, um coque modesto feito com tranças e a pequena coroa preteada reluzente.
Era hora.
Desci as escadarias e antes mesmo de terminar meu caminho até o corredor já ouvia o fervilhar dentro do salão, o aroma de vinhos, chocolates, carnes e pães que estavam sendo servidos nas mesas e pelos criados.
O tinir das taças, os sons dos risos abafados e dos cochichos femininos.
Posicionei-me atrás das portas duplas do salão e esperei ser anunciada.
–A Senhorita Ariel Clawns, Herdeira de Júlio Primeiro, o Pacificador! — Berrou Josef, e as portas foram abertas.
O silêncio que se instalou no ambiente foi corrompido por suspiros de admiração, inveja e descaso. Todos da alta sociedade estavam ali. Inclusive, surpreendentemente, Edmund.
Caminhei até a escadaria e deci calmamente, me concentrando em não cair e não parar de sorrir. Olhei nos olhos de cada um dos presentes para que sentissem que eu os via, mesmo embora eu não soubesse o nome de metade deles.
–Músicos, por favor! Presenciem a dança de abertura do baile desta noite, o Rei Júlio e sua filha e a homenageada, Ariel Clowns! — Josef voltou a berrar assim que terminei de descer a escadaria, parando ao lado de papai.
Júlio estendeu sua mão, a qual peguei imediatamente e o acompanhei até o centro da pista de dança. Logo uma musica clássica começou a tocar. Nos cumprimentamos e começamos a deslizar pelo piso de mármore.
–Está nervosa querida. — afirmou ele.
–Estou papai. -Ele sorriu -Esperei por isso por anos, finalmente não serei vista como a filha mais velha esquisitona que ainda não se casou. Serei vista pelo que sou, alguém que se importa com o futuro de todos aqui, e fora daqui. Alguém que estudou anos para saber gerenciar tudo isso. Alguém merecedor de respeito, e não apenas uma mulher que, como tal serve apenas para parir e comandar uma casa. Lhe deixarei orgulhoso papai. — com o decorrer da minha fala, vi seu sorriso murchar e ele ficar sério.
–Prometa-me filha. Prometa-me que não deixará a ideia desse cargo lhe subir a cabeça e se tornar a coisa mais importante para você. Não digo que é incapaz de seguir com meu trabalho, mas você merece uma vida. Algo que seja mais que isso. Me prometa que nunca romperá com a família por conta de um posto político. Família é a coisa mais importante nessa vida minha filha.
Não poderia deixar de fazer essa promessa porque sempre estaria com minha família. Mas não podia prometer passar a mão em suas cabeças ou concordar com eles sempre. Eu não faria nada disso. E quando fosse por um motivo justo, iria me impor a minha mãe e irmãos se preciso. Então, pesei minhas palavras antes de proferi-las.
–Pai, prometo que farei tudo com sensatez.
E então, a musica se esvaiu, dando lugar aos aplausos de nossos telespectadores.
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