Notas iniciais
Por enquanto será um capitulo único.

Meu caro diário…

Já faz um tempo desde o último registro, né? Ultimamente não tenho tido tempo sobrando para nada, na verdade estou deixando de almoçar para escrever esse registro. Bom, não é como se eu fosse conseguir comer de qualquer jeito, sendo sincera, nem dormir consigo mais.

Espero que eu consiga tirar essa agonia do meu sistema após esse desabafo com você.


Nas férias viajei com o meu namorado para a Espanha, e por qualquer razão ele cismou que queria ir ver uma tourada (corrida de touros como é conhecida por lá) e depois de muita discussão (e vários beijos) ele conseguiu me convencer a ir junto.

Meus instintos (minha intuição) já estavam me alertando de que nada de bom viria daquela visita, dito e feito.

Quando chegamos na entrada da arena comecei a passar mal; tive náuseas e dor no peito. Aquele lugar possuía uma energia tão ruim, que a sensação era de que algo te estava esmagando. Quase desmaiei. Meu namorado percebeu o meu mal estar e me levou até um bando de madeira que tinha lá perto e nos sentamos por um tempo.

— Você está bem querida? — e me pergunta, sua voz estava carregada de preocupação. E tinha que está mesmo! Quase tive um “treco”.

— Vou ficar bem, mas… — tive problemas para formular uma frase um arrepio desceu pela minha espinha. Fiquei sem fala por alguns momentos. — Tenho um mau pressentimento. — consegui enfim dizer meio sem fôlego.

Bernardo ficou me encarando com uma expressão preocupada e pensativa por um tempinho e depois ele me deu um dos seus sorrisos mais gentis e me acalmou dizendo:

— Não vai acontecer nada de mal com você meu amor, mas realmente precisamos entrar lá. E tem que ser logo! — ele me disse calmamente.

Esse cara tava prestando atenção no que ele estava falando? Porquê “cargas d'água” ele acha que algo ruim vai acontecer comigo lá dentro? E qual é a urgência de ir ver um evento como esse?

Desculpa, sou uma pessoa um tanto paranoica pessoas demonstrando zelo do nada me deixa desconfiada. O mais legal é que meu namorado sabe disso.

Algo na minha expressão deve ter denunciado o horror que senti ao ouvir isso, porque ele continuou:

— Por favor! É importante! — e me deu o seu melhor olhar de cachorrinho.

Uma coisa que eu amo no Bernardo é que ele é um péssimo mentiroso e o que mais me irrita nele é que ele é um péssimo mentiroso. Claro que tinha algo mais profundo nesse súbito interesse em touradas e nessa impaciência de querer entrar logo.

— O que de tão importante tem num lugar horrível como esse? — eu queria muito espremer algumas respostas dele, mas por experiências anteriores eu sabia melhor, era trabalho perdido ou ele dizia por vontade própria ou não falava.

Ele suspirou e disse: — Preciso confirmar uma coisa, por favor!

Deixei o assunto cair, respirei fundo e pegando a mão dele entramos.

As pessoas que foram assistir à tourada estavam eufóricas de jovens a idosos. Meu estado de saúde não estava melhorando, na verdade o ar opressivo estava piorando. A plateia silenciou-se por alguns instantes antes da explosão de aplausos me assustar. A motivação dos aplausos estava no centro da arena vestida de preto com um chapéu de abas retas cujas tiras passavam pelo queixo. A toureira havia entrado na arena.

— Ela é linda! — comentou Bernardo. Um comentário que poderia ter me ofendido se eu não concordasse plenamente com ele.

Pequena, esguia, elegante, loira. Seus olhos pareciam ser feitos de larimar e seus lábios pequenos e finos eram rosados e delicados. Montada num cavalo toda vestida de preto a toureira parecia uma espécie de deusa gótica, ela era realmente linda.

Após agradecer a plateia, ela desceu do cavalo e se posicionou de frente a uma portinhola de madeira. A plateia caiu num silêncio profundo quando a mesma abriu se revelando um enorme touro de pelo preto igual petróleo. O animal foi atiçado e começou a atacar mais confuso do que furioso.

E foi aí que começou o show, belo e macabro, mais macabro do que belo se você me perguntar. Adagas eram jogadas e cravaram no corpo do touro que agora tentava acertar a fonte do seu flagelo a todo custo. Mas ela era boa no que fazia, a toureira sabia onde cravar as pequenas facas. Na plateia alguns dos que assistiam o duelo macabro vibravam, outros estavam congelados e atentos a cada movimento de ambas as partes, outros haviam desmaiado e estavam sendo ajudados a deixar a arena.

Eu estava aguentando até que bem, apesar da ânsia de vômito não ter ido embora, estava sob controle, mas eu precisava desviar o olhar constantemente daquela cena. Bernardo agarrou a minha mão e começou a apertar. Pensei em brigar com ele, pois estava me machucando, até que vi sua expressão. Podia parecer estoico, porém seus olhos eram frenéticos como os de um gato perseguindo sua presa. Ele estava vendo o que ele veio procurar; seja lá o que for. Bati no braço dele com a minha mão livre então o aperto sobre a que estava sob seu domínio suavizou e seu olhar continuou fixo na arena.

Aquela altura a areia já estava mudando para a cor vermelho-escuro. As feridas infligidas ao touro jorravam como pequenas fontes. Ele já estava mostrando sinais de exaustão, o grande final se aproximava. O animal sem forças parou de se mexer e abaixou a cabeça, como se soubesse que tudo havia acabado, só faltava o golpe de misericórdia.

A toureira desceu do cavalo, ergueu a espada e aproximou-se do touro. A arena estava em silêncio, meu namorado continuou segurando firmemente minha mão, enquanto eu fechei os olhos e os mantive assim até eu ouvir as palmas e os gritos dos espectadores à minha volta, uma confirmação de que aquele terrível espetáculo chegaria ao fim.

O aperto em minha mão aumentou de novo. Olhei para Bernardo, estava pálido, mas, seus olhos tinham um brilho sanguinário.

Voltando minha atenção para a arena… Eu não sei se consigo descrever o que vi sem sentir uma terrível náusea e não era por causa do cheiro pesado e metálico de sangue que emanava da arena, mas o resultado final.

As trilhas de sangue pelo chão pareciam ter sido pintadas lá de propósito, começavam finas e delicadas e iam engrossando à medida que se aproximavam da fonte, o grande touro morto no centro. As inúmeras feridas ainda jorravam sangue fresco. As pessoas que ainda permaneciam jogavam rosas vermelhas, suas cores vermelho e verde se misturavam a cor da areia do chão quase como um quadro e então tinha a toureira. Ela estava para ao lado do corpo do touro, ela quase brilhava de tão loira e branca que ficava os seus olhos pareciam que estavam mais claros e brilhantes do que antes, quase hipnóticos focados em um ponto em particular da arena, especificamente ao meu lado.

O olhar daquela mulher estava travado no Bernardo!

Meu namorado estreitou os olhos e apertou de novo a minha mão enquanto encarava de maneira bastante hostil toureira. Durou no máximo um minuto só que pareceu uma eternidade até que ele puxasse minha mão e finalmente se movesse em direção à saída.

— Vem Úrsula, vamos embora. — disse sem desviar o olhar da mulher.

— Você descobriu o que você queria?

— Sim, tenho todas as informações de que preciso.

Finalmente dando as costas para a arena e me conduzindo junto. Um pouco antes (momentos antes) de alcançar-nos a saída olhei por cima do ombro, a toureira ainda nos encarava fixamente. O mal estar e o ar opressor do lugar deviam estar me afetando mais do que imaginava, pois, eu podia jurar que os olhos de água marinha mudaram para dois rubis cintilantes junto com o meio sorriso malicioso que decorava suas belas feições.

Não consigo esquecer aquele sorriso assustador da minha memória e nem o brilho daqueles olhos. Fico pensando se o meu medo é desconforto naquele dia não me fez ver coisas, pois eu juro que aquele par de águas marinhas por um instante, se tornaram vermelhas como granadas.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!