A Torre de Babel
7 VI (Metade - Ler notas finais)
Notas iniciais
Foi ótimo quando a ferida começou a cicatrizar e Anya finalmente passou a sentir-se mais forte. Não aguentava mais passar os dias deitada, dormindo ou pensando. Geralmente, os pensamentos eram sobre seus pais; eles ainda não haviam dado notícia. Anya nunca deixou de acreditar que eles viriam, mas a espera a deixava triste. Eles poderiam ter-lhe dado algum sinal. Ela não sabia como nem o quê, mas alguma coisa. Qualquer coisa. Anya não aguentava mais esperá-los.
Algo que ia e voltava em sua mente, também, eram aquelas pessoas… aquelas criaturas que desfilaram pelo pátio, alguns dias antes — não sabia se já fazia muito ou pouco tempo; Anya já havia desistido de tentar contar os dias. Depois de sua aparição, Chiara a deitara de novo, terminando de limpar a ferida, e fora embora sem mais nenhuma palavra. Nem mesmo Anya conseguira sussurrar seu insistente “obrigada” para preencher o vazio. Ela simplesmente não conseguia livrar-se da imagem daqueles tantos meninos e meninas com olhos mortos, estalando os próprios ossos, esticando a própria pele.
Anya às vezes os via em sonhos. Eles nunca atacavam; apenas observavam-na, como se esperassem algo dela. Dormindo ou desperta, Anya em momento algum conseguira pensar em algo que os fizesse ir embora de sua mente.
Dar-lhes seus olhos não eram uma opção.
Nem mesmo em sonhos.
Enquanto ia, lentamente, se recuperando, as visitas de Chiara ficaram menos frequentes. Agora ela vinha dia sim, dia não para ajudá-la a limpar a ferida, que já não sangrava tanto. Nos dias que ela não vinha, Anya aproveitava para conversar — ou tentar conversar — com Shuan. E como esta não era uma tarefa das mais fáceis, tão reclusa e introvertida era aquela menina, Anya acabava conversando com Mono e Iá, os dois "ajudantes" de Shuan. Ela percebeu que aqueles dois eram para Shuan como Anya era para Chiara; exceto pelo aparente ódio que insistia em preencher a relação das últimas duas.
Mono era a primeira criança que Anya encontrara mais nova que seus nove anos. Era um garotinho rechonchudo e emburrado de cabelos escuros, parecendo uma bola. Anya se perguntava por quanto tempo ele manteria aquela forma até que começasse a emagrecer cada vez mais. Não que ela realmente quisesse saber, mas a curiosidade ia e vinha.
Iá, por outro lado, era uma garota um ou dois anos mais velha que Anya, porém mais alta que muitas outras crianças mais velhas do Pátio. Com a pele acobreada, cabelos negros e curtos, bem lisos, e olhos um tanto puxados, era quase como uma segunda versão de Shuan. Anya achava-as bastante parecidas, até mesmo no formato dos lábios — mas não no nariz. Não, seus narizes eram bastante diferentes. E a cor da pele também, é claro. Anya gostava de pensar que, se as pessoas tivessem gostos, o de cada uma seria diferente. O dela mesma ela nunca chegara a pensar… Mas Chiara seria algo amargo, com certeza! Marco seria como água: refrescante, mas sem um gosto definido. Shuan teria gosto de leite, suave. E Iá, de caramelo: doce, muito doce, e dura de doer os dentes. Iá era muito magra. E simpática. E alta. E desengonçada.
E Anya não sabia por que reparava e imaginava essas coisas. Mas era uma forma de entretenimento. Fazia-a esquecer de que estava com fome. Ou quase.
Com quem Anya mais conversava era Mono. Desde o dia em que ela o cumprimentara pela primeira vez — após acordar e dar de cara com dois olhinhos bravos encarando-a de perto —, eles eram amigos. Mono não falava a Língua Comum — a língua de Anya e o dialeto escolhido entre as crianças do Pátio como o meio “oficial” de comunicação —, então era difícil manter conversa com ele.
Difícil, sim; impossível, não. Talvez fosse esse o real motivo de passarem tanto tempo juntos. Apesar de estar com uma expressão desgostosa na maior parte do tempo, Mono sempre se esforçava para entender Anya, que fazia o mesmo. Os dois passavam horas apontando para as pessoas e suas diferentes aparências, um tentando ensinar ao outro o nome de certa característica em suas respectivas línguas. Anya sempre dava risada da dificuldade que Mono tinha para certas palavras — a forma como ele pronunciava seu nome, Anha, era simplesmente adorável — e sempre envergonhava-se quando era ela quem falava algo errado. Mono, ao contrário, não ria muito, nem parecia se divertir. Mas quando sorria era radiantemente, e para Anya era impossível não fazer o mesmo.
Mono ajudava-a a sentar-se quando tinha vontade, comia a seu lado e às vezes, só às vezes, tirava cochilos em seu colo. Nessas ocasiões, Anya recontava as histórias que ouvira de sua mãe, fingindo que Mono conseguia entender o que ela estava dizendo. Fazia-a sentir como uma mulher crescida e madura, como se toda a situação estivesse sob seu controle. Mono nunca reclamara.
E por isso, Anya considerava-o seu amigo. Eles às vezes não se entendiam, mas Mono sempre estava ao seu lado quando acordava. Se aquilo não era, finalmente, uma amizade, então Anya não saberia definir o que é uma.
Quando cruzou-lhe a mente o pensamento de que talvez Shuan tivesse mandado que Mono permanecesse ao seu lado, Anya fez questão de ignorá-lo.
***
A forma como não conseguia mensurar o tempo a incomodava. Anya nunca mais vivera uma noite ou um dia, nunca mais vira a lua ou o sol. Ela fingia que via as estrelas na falhas de sua visão quando era vencida pela tontura, imaginava que os reflexos de luz na água amarelada eram o brilho mágico dos diamantes celestes. Mas ainda assim, bem lá no fundo, ela sabia que estava se enganando. Era tudo muito estranho, muito confuso. Ela não sabia mais o que pensar, em que confiar. Não tinha certeza de mais nada. Apenas de que queria ir embora.
— Você consegue sair daí?
A pergunta a pegou de surpresa. Deitada sobre sua caminha de trapos, Anya abriu lentamente os olhos para uma Chiara de expressão indiferente, encarando-a de braços cruzados. Atrás dela, Mono fazia uma careta não muito agradável.
— Eu… — Anya bocejou, levantando-se (sozinha, pois já estava forte!) e se espreguiçando timidamente, sem esticar demais os braços ou abrir demais o peito para que a ferida não doesse. — Acho que sim.
— Ótimo. — Chiara estendeu-lhe uma das mãos, já fazendo menção de partir. — Vem.
Anya pegou sua mão e foi.
Fale com o autor