A Teoria do Big Bang
2 Ápice de uma religião - discrição
Notas iniciais
Observei-a. Seu rosto, seu cabelo, seu corpo. Seus lábios suaves e
levemente descascados. O modo como mexia a mão. A tranquilidade e despretensão que havia nela. Se nirvana, o estado de paz e tranquilidade, tivesse uma personificação, seria ela. Ela era um ponto médio em uma linha infinita. Ela era maravilhosa. Em todas as formas. Circulares ou quadradas.
Seus olhos, que mostravam a clareza de sua mente, que estavam concentrados em um livro amarelado, desprenderam das páginas antigas e olharam em minha direção. Um olhar rápido e imperceptível, se eu não estivesse a observando. Poderia ser o acaso, mas ela olhou para mim mais uma vez quando seu pudim de passas chegou. O destino tem um sagacidade imensa, e adora brincar com a ironia. Lembrei-me de minha mãe, que quando eu tinha os meus quatorze anos e o anseio de saber mais e mais, contou-me, depois de eu tanto insistir, sua história com meu pai. Eles se conheceram na fila do supermercado. Ele estava comprando camisinhas e cervejas. Ela, absorventes e chocolates. Por que comigo seria diferente?
Aquela mulher suave. Entretida demais com seus pensamentos densos, provavelmente sobre o tal livro que lia. Balançou a cabeça devagar, afim de evitar comer pudim com cabelo. Eu deveria estar a encarando por um bom tempo, por que, ela, enfim, ofereceu-me pudim. Eu ri. Ela riu. Nós rimos. O tempo todo. Ela conseguia fazer do riso algo mais vital que o oxigênio.
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