A Teoria das Cores
97 Pêssego III
ÍNTIMO
A chegada do domingo veio com ares de cochilo eterno na opinião de Ian. Quando pensou em levantar, pôde ouvir os barulhos vindos de fora da janela dos pingos da chuva daquele dia 03 de setembro de 2017. O doce som era um alento para a alma e o coração. Tinham quase um toque terapêutico, fazendo-o querer sair e se molhar por inteiro, na esperança de levar embora todas as dores pelas quais estava passando e ainda havia de passar.
A conversa com Diógenes no dia anterior foi definitiva para entender que os planos do destino não impediam de sentir um pulsar forte dentro do peito cada vez necessário em se ver diante de Daniel. Era humano, afinal, feito da mesma matéria com a qual o próprio aprendiz, tendo de enfrentar os mesmos males e benefícios de ter alguém a quem amar. Por mais explicações que tivesse, razão nenhuma filtrava o sentimento humano. Naquele terreno, a lógica não fazia morada. Sabia bem disso, ainda que, por vezes, fosse difícil aceitar.
Desceu às escadas sentindo o cheiro de café passando. Por um momento pensou até ser o primo, mas logo viu que se tratava da mãe deste, sua tia Isabel. Ela colocava os complementos matinais na mesa, dando ‘bom dia’ ao sobrinho ao perceber sua presença. Ian terminou de ajudá-la, indo em direção ao armário e tirando de lá as xícaras, pires; depois, já nas gavetas, os talheres necessários para poderem sentar sem levantar a cada dois minutos para pegar algo.
Quando o café passou, ambos serviram em suas respectivas xícaras a quantidade desejada e sentaram à mesa para degustação. O sobrinho notou, após alguns minutos, um certo ar de maré agitada nos olhos da tia. Conhecendo-a tão bem, apostou que Dan havia aprontado das suas, e agora fugia para não enfrentar a fúria da mãe.
— Problemas, tia? — questionou, intrigado.
— Ai, querido… O maior deles: ter filhos — suspirou — É um compromisso pra vida toda e eles não se tocam disso. Vivem como bem entendem, não dão satisfação… Esperam que a gente receba notícias por pombo correio.
O menor riu.
— Não tenho muita propriedade pra falar sobre filhos, mas sobre o Dan eu me garanto — disse, depois de beber um gole de café — Não deu notícias?
— Desde que foi pra festa de aniversário de um amigo sexta feira eu mal ponho o olho em cima dele. Dois dias e o querido acha que é normal deixar uma mãe aflita.
— Eu entendo. Mas assim, tia, o Dan é esperto. Deve ter ido curtir com o pessoal da escola ontem e se prolongou. Logo ele dá às caras.
E o rapaz estava coberto de razão, pois, mal fechara a boca, ouviu-se a chave girando na porta. Daniel havia retornado ao lar e, para espanto dos presentes, com vestes diferentes das suas, uma sacola plástica (deduziram conter suas roupas), uma expressão aérea e zumbilesca. Como notou que o filho estava bem corado, Isabel se sentiu menos culpada em lhe chamar a atenção. Havia voltado são e salvo, então aguentaria o puxão de orelha.
— É ótimo morar numa pensão, né Daniel?! Não se avisa ninguém de nada, não tira o sono de ninguém… Não é maravilhoso?! — ironizou enquanto o menino subia às escadas em direção ao quarto.
— Desculpa… — o pedido ecoou entre os dentes, parecendo um resmungo. Não deu mais satisfação, afinal só estava interessado em sua cama. Dormir colado em alguém não era tão rotineiro em sua vida nem nos tempos de Vanessa, então permitia-se mais algumas horas de sono.
Sua mãe, no entanto, não gostou nada da atitude, dando a volta ao mundo com os olhos. Era inacreditável o fato de seu filho chegar naquelas condições e não lhe dar uma explicação decente.
— Viu isso? ‘Desculpa’ e vai saindo de cena no mesmo piscar de olhos que entrou… Olha, é dose!
Ian não aguentou e riu. Achou cômica a forma como a situação se conduziu, afinal de contas se viu fazendo a mesma coisa com sua mãe tantas e tantas vezes… perdera a conta! A única diferença se dava na desenvoltura: não era raro exagerar nos goles de bebida alcoolizada e chegar cambaleando pelos cantos procurando sua cama. Ficou curioso para saber se algo parecido não havia atingido seu primo e não iria dormir à noite com aquela dúvida martelando.
Terminado o café minutos mais tarde, Isabel foi para a lavanderia colocar as roupas para lavar, aproveitando-se para extravasar do descaso do filho, deixando a cargo do sobrinho organizar a mesa e a louça. Como Bruno, seu tio, chegou em seguida, esperou-lhe tomar seu café sossegado e depois, sim, organizou tudo. Foi para seu quarto depois, já mandando mensagem a Micael se estava vivo ou fora engolido por Ágata.
Passou pelo quarto de Dan e percebeu-lhe atirado a cama como uma roupa amassada. Riu, pois nem nas melhores noitadas o menor havia caído em tentação a ponto de voltar exausto. A hipótese de coisas interessantes terem acontecido começava a ganhar força em seu coração, ora ansioso pela história, ora temeroso pelas ações dela.
Perto das 13 horas foi o momento em que Ian ouviu o barulho da cama no quarto dele e tornou a ir lá para saber de tudo, tal qual melhores amigas do colegial. Aquela altura Mica já havia dado sinal de vida e prometera ir até lá com Ágata para curtirem juntos, então poderia concentrar suas forças no primo. Entrou batendo na porta, recebendo o aval em seguida. Fechou-lhe para terem mais privacidade — por menor que fosse — e conseguir todos os detalhes possíveis do final de semana. Dan ainda estava sintonizando a terra, coçando os olhos com frequência e fazendo certa força para manter a cabeça erguida.
— Pode abrindo a boca. Pra ter demorado a voltar a história deve ser boa — deduziu, sentado na cadeira frente a escrivaninha — Caso contrário, não te deixo dormir por 48 horas até aprender a voltar com novidades quentíssimas.
— Tu parece uma tia velha fofoqueira. Já te contaram isso? — ironizou — Pode trazer o energético, então. Não rolou nada demais.
— A tia velha fofoqueira te conhece o suficiente pra saber quando rola e quando não rola algo que mexa contigo.
— Ah, é?! Virou vidente?
— Até podia pôr essa na conta da dedução, mas é que tu é previsível mesmo. Nesse sentido, pelo menos.
— Seu p*u no c*! — atirou uma almofada no maior, arrancando um sorriso arteiro de seus lábios — Se é realmente do teu interesse, teve… uma coisa ou outra, sim.
Ian começou a encará-lo atentamente, ansiando pela novidade com a qual já contava há muito tempo. Seu coração bombeava tão rápido quanto suas mãos ficaram úmidas. O corpo parecia pressentir o peso das informações que viriam na sequência, uma vez que não tinha dúvidas sobre a natureza delas. Pediu que começasse a contar de uma vez e assim o menor o fez.
Quando os fatos começaram a serem postos à mesa, conseguia sentir a mente perdendo o fio da meada, embaralhando os fatos e tentando organizá-los de maneira muito rápida, perdendo assim certas arestas e só deixando o principal. O problema se dava justamente nisso, na incoerência do formato daquelas ações e de sucessividade.
Imaginar Dan se entregando a outro rapaz foi como receber um punhado de areia seca nos olhos, pouco sendo eficaz a tentativa de seu cérebro em assimilar aquilo como algo natural. Não era. Ao menos, não em seu coração. Tinha perfeita noção do egoísmo daquele pensamento, só que a tentativa de negar era pior. Teve de admitir o quão ardente era a paixão pelo primo, para, quem sabe, tornar a dor um pouco mais tolerável.
Ao terminar o relato, o filho de Isabel já tinha tomado ciência da estranha expressão perdida do mais velho. Encarou-lhe por alguns segundos na esperança de se recompor, ou ao menos comentar sobre tesão ou coisas do gênero. Como nada teve, obrigou-se a arrancar dele uma resposta, tirando-o do marasmo onde se encontrava para a luz no fim do túnel. Ainda um pouco balançado, piscou os olhos algumas vezes antes do primo questionar se estava bem.
—Tô sim — limitou-se a responder, tentando forçar um sorriso — Bem, pelo visto foi intenso. E transa? Rolou?
— Ainda não, né? E nem sei se quero que aconteça — confessou — Vai ser estranho pacas ter relações com um cara. Me dá calafrios só de pensar!
— Olha, eu até acredito que amor sobreviva sem sexo. Mas duvido muito que tu e o Alisson cheguem a um consenso sobre.
— Amor? Tipo… tu acredita que eu esteja… amando?
Ficou surpreso com tal pergunta.
— Ué. Chamaria isso como?
— Sei lá. De… — tentou formular alguma coisa, porém, antes que o fizesse, o mais velho foi mais rápido.
— Dan, qual medo que tu tem de se apaixonar? Não é crime nenhum, nem arranca pedaço de ninguém. Tu agiu assim com a Vanessa e deu no que deu. Vai repetir a dose pra ter certeza?
Tornou-se difícil argumentar ante os termos tão poderosos do mais velho. Via ali a fragilidade de suas bases, sempre tão frágeis e construídas sob solo arenoso. Por mais profundo que fosse, precisava assumir seus erros. Ian tinha razão e sabia disso. Não poderia mais bancar a avestruz quando fosse conveniente. Era hora de ir à luta tal qual o próprio Alisson havia pedido.
— Ok. Tu venceu — bufou — Eu só… tô com medo do que virá daqui pra frente. Tudo vai ser bem mais estranho do que já era antes mesmo de decidirmos levar esse sentimento adiante. Como vai ser?
— Depende de como vocês articularem isso — esclareceu — Dan, sempre vai existir metade de chance de dar certo e outra de não dar. Vocês são quem vão tateando os caminhos, vendo onde caminham melhor, até onde conseguem suportar. Receita pronta não existe. O que existe é a vontade de ser feliz e de lutar pelo que acredita. Se tiver essas duas coisas, não tem erro.
As palavras de Ian pareciam um remédio para os sintomas, porém não as causas de suas aflições. Apesar do conforto delas, havia uma parte não preenchida, um vazio mal articulado incapaz de ter algo tão sólido e verdadeiro a ponto de estampar aquele ponto cego em sua vida. Sabia dos riscos da relação, não era ingênuo ou desinformado, apenas gostaria de ter certeza se estes riscos valeriam a pena, e se a dor que eles poderiam causar a terceiros era suportável.
— Então agora é ir em frente e pronto?
— Isso aí — sorriu — Fica tranquilo. Tu não tá sozinho nessa. Além do Alisson, tu sempre vai ter o velho primo aqui pra te amparar. Não esqueça disso, ok?
Foi a vez de brotar um sorriso na boca de Daniel. Levantou-se para abraçá-lo, afinal era aquele que jamais perdeu a esperança de vê-lo melhorar e tornar-se alguém mais iluminado. Haviam passos a serem dados, contudo, tê-lo por perto dava certeza de que, em algum momento, todas as suas angústias seriam carregadas pelo tempo. Mais do que isso: era certeza de que o amor existia em mil e uma faces e de mil e uma maneiras. A dele, sem dúvida, era a mais especial.
***
Tirar Daniel de sua casa foi ao mesmo tempo um suplício e uma tortura. A primeira noite com um corpo de rapaz seminu colado ao seu foi um desafio, o maior com o qual havia se deparado na vida. No entanto, quando estava prestes a culminar, quis voltar ao início da tarde do dia anterior e começar tudo de novo. Nem mesmo a saia justa com Edu tirava a alegria de ter visto um Daniel mais brando, aberto aos toques e carícias que já se sentia disposto a oferecer. Ao acordar cedo e ajudá-lo a ser “despachado” de sua casa, o coração apertou e uma estranha sensação de nó na garganta prevaleceu.
As inúmeras tentativas de pegar no sono ficavam cada vez mais vãs à medida em que cresciam. O espaço da cama, antes tão apertado, agora parecia microscópio. Por um momento se julgou Branca de Neve deitando na cama dos sete anões. Uma parte dela parecia ter ido embora junto a Dan, então ficar ali, sentindo o aroma de sua pele preso aos lençóis e ao travesseiro, era torturante demais. Socou o colchão de raiva. De si próprio, aliás: estava de quatro pelo amor de Daniel e nem acreditava naquela cena que julgou o cúmulo da idiotice.
Tantas moças haviam passado por aquela mesma cama, deixado as mesmas impressões e a primeira coisa feita sempre era levar os lençóis a máquina e tirar seus perfumes deles: diga-se de passagem mais por implicância dos sermões de Marisa do que por aversão a eles. Daquela vez sentia a diferença. Não queria ninguém tocando naqueles tecidos até que o menor voltasse e preenchesse os vazios os quais deixara para retornar a seu lar. Começou até a ter dúvidas se o deixaria partir de novo, algo capaz de deixá-lo assustado.
Nunca foi o melhor dos seres em quesito de amor. Sabia flertar, encantar, jogar a isca para a presa cair, satisfazer a seus desejos mais primitivos… Mas dar e receber amor era território completamente novo em sua vida. Estava aprendendo conforme tudo ia acontecendo. Ao sentir o corpo de Dan nú embaixo do chuveiro tão íntimo ao seu, aprendeu o que era desejar alguém por inteiro, não só a parte que lhe convinha. Quando dividiram a cama à noite, aprendeu a querer dar cafunés e selinhos compulsivamente, a tal ponto que Dan precisou pedir para dormir senão entrariam até o meio dia realizando aquilo. Pequenos gestos, tão humildes, mas capazes de transmitir um novo olhar em sua vida. Olhar esse cheio de luz, cor e alegria. Os dias de chuva limitavam-se ao tempo daquele domingo, pois o sol se tornara eterno em seus sentimentos.
Só teve coragem de largá-los ao perceber que Marisa e Edu acordaram e desceram para tomar café. Dadas as circunstâncias, Alisson julgou nada mais como importante ou tão traumatizante quanto o que, sem querer, havia provocado ao namorado da mãe. Podia fazer o sacrifício de aguentá-lo em um simples café da manhã sem causar maiores atritos.
Vestiu-se e desceu sete minutos depois, deparando-se com uma mesa de café há muito não vista por si. Seus olhos mesmo demoraram a crer no que viam: torta, bolo, pães sanduíche, três tipos de sucos naturais, além de leite, café, achocolatado e as misturas para pão. Encontrou a mãe no fogão fritando ovos, dando-lhe ‘bom dia’ ao notar sua presença. Edu sentava à sua frente, tomando uma xícara de café enquanto lhe era cordial. Vendo aquele cenário de comercial de manteiga, não resistiu à tirada básica com a mãe.
— Se a intenção é agradar alguém pelo estômago, meus parabéns, mãe. A senhora tá mandando bem.
— Alisson, filhote, só não te mando pra onde tu merece pelo simples fato de ser tua mãe. Sendo assim, caso o fizesse, iria me ofender de graça. Entendeu ou preciso ser mais explícita? — respondeu no mesmo tom, arrancando risos dos rapazes sentados.
— De minha parte, posso garantir que Marisa me conquistou por seu charme de mulher bem resolvida. Seu lado cozinheira e mãe tô conhecendo agora.
Aproveitando-se do ovo ter terminado de fritar no exato momento em que terminou a frase, a mulher levou o último ovo frito ao prato colocado em cima da mesa com os outros dois, devolveu a frigideira a pia e correu para apertar as bochechas do filho, dando-se por vitoriosa. Gostava quando tinha de ver o filho engolindo alguns sapos depois de distribuir outros tantos.
Alisson, apesar do “fracasso” na peleja, sentiu um clima mais ameno entre os presentes. Muito se devia ao fato da intimidade entre o homem e o filho de Marisa ter sido um tanto quanto imposta, onde precisaram encontrar um meio termo a fim de estabelecer o mínimo de diálogo possível entre pessoas civilizadas. Não tornou-se um grande fã, tampouco fazia questão de manter a ojeriza tida até o dia anterior. Nem razões haviam mais para tanto.
Depois de alguns assuntos aleatórios, onde até um diálogo normal Edu e Alisson conseguiram manter, o mais velho arriscou-se levantando a possibilidade de darem um passeio apenas os dois. Pego de surpresa, o rapaz quis saber maiores detalhes, mas Edu afirmou contar apenas se aceitasse. Mesmo com a pulga atrás da orelha, aceitou. Não fazia ideia de que interesse ele teria em lhe dar uma surpresa, mas, caso fosse algo absurdo, nem teria direito à segunda chance. Colocaria-o para fora de sua vida e da mãe sem hesitar um único minuto.
Marisa também não fez uma expressão entusiasmada. Sabia das divergências do filho quanto a seu namoro e, conhecendo-o tão bem, a probabilidade de tragédia era alta demais para deixar passar em brancas nuvens. Tentando fisgar alguma coisa, afinal não sabia do que se tratava, questionou a probabilidade de ir junto. Edu negou, afirmando ser um passeio dos meninos, mas que ela teria sua vez. Seu alerta começou a ligar disparado. Temia por um surto de filho mimado, ou mesmo de um namorado alterado. Jamais vira Edu a perder a paciência nem mesmo com o cliente mais exigente de sua agência, contudo, tudo tinha a primeira vez. E sendo Alisson seu filho, sentiria-se na obrigação de protegê-lo antes de qualquer um. Ainda que qualquer um fosse o homem que acordou um lado seu, há muito adormecido.
Acabado o café da manhã, os meninos ajudaram na louça e no guardar dos comes e bebes, indo se arrumar logo em seguida. Como Al foi o primeiro a concluir, desceu e estava indo esperar na sala quando notou a mãe parada ao pé da escada lhe esperando. Estranhou a atitude, perguntando se precisava de alguma coisa. Marisa foi direta, sem maiores enrolações.
— Preciso sim, filho. Que tu segure a onda o máximo possível. Por favor… Tô quase te implorando de joelhos.
— Não consegui ter um café da manhã com o cara aqui? Não passamos o dia ontem sem um encher o saco do outro? Então, mãe! Relaxa.
— Aí é que tá! Não consigo relaxar! — exclamava, porém baixo, para não alarmar o amado — Conheço teus motivos pra não gostar dele. Tudo bem, é um direito teu, não posso impedir isso. Agora, é fundamental que tu saiba a pessoa especial que ele é, o coração cheio de luz e afeto que ele tem, tanto por mim quanto por ti. A gente pode ser muito feliz se cada um ceder um pouquinho. Ele já tá e eu também, dada a paciência que tenho com teus chiliques. Vê se ajuda a gente nisso, ok?
— Se tudo isso for para garantir que não haverá um homicídio, tudo bem. Prometo que voltaremos inteiros. Pode ser?
— Faz esse imenso favor pela tua mãe, pelo amor de Deus…
Era nítido nos olhos de Marisa o quão latente sua alma estava e, para infelicidade, não era de alegria. Ter ciência de ser um dos pilares de tal inquietude o deixava um tanto pensativo em algumas atitudes e procurando já ir ponderando desde ali qualquer pormenor capaz de lhe tirar do sério. Por outro lado, hipocrisia nunca foi um forte seu. Agiria e trataria tal qual lhe agiria e seria tratado. Uma legítima via de mão dupla.
A mulher ficou observando os rapazes entrarem no carro e saírem disparados rumo ao desconhecido. Sequer arriscava palpitar do que se tratava, uma vez que seu companheiro nada mencionou previamente. Conhecia-o suficiente para ter ideia de como suas surpresas faziam jus ao título. O problema era justo a quem resolvera tentar alegrar. Alisson não era um rapaz ruim, apenas revoltado como julgava ter sido quando adolescente, mas sabia se impor como ninguém, pouco importando as intenções de Edu. Torcia para tudo ocorrer bem e ambos conseguissem se entender por algumas horas.
No carro, o silêncio andou de carona. Depois de falar sobre a importância de voltar ainda pela manhã em virtude do trabalho, Alisson nada mais comentou. Pôs-se a observar a paisagem se modificando à medida em que Nova Petrópolis ficava para trás. Edu tampouco forçou diálogo, mesmo porque teriam tempo para fazê-lo quando o rapaz entendesse do que se tratava. Sorria imaginando sua felicidade, ainda que, no seu lado direito, os olhos revirassem vendo a cena.
Ao perceber a placa de com uma uva gigante e o nome ‘Caxias do Sul’ escrito ao lado, o filho de Marisa se questionou se era intenção de Edu lhe dar o primeiro grande porre de vinho de sua vida, vide o caso da cidade ser referência no assunto. Um grande ponto de interrogação se informou em sua mente, fazendo o máximo de esforço para tentar entender quais os planos envolvidos. Além do tempo chuvoso atrapalhar qualquer iniciativa de conhecer melhor a cidade, havia o fato de qualquer possível festividade estar interrompida, portanto tornava-se inútil a vinda ali. Um diabinho dentro de si bem quis abrir a boca e mostrar seu veneno, mas aquietou-se pela mãe. Viria até onde a suposta insanidade iria parar.
O carro só foi desligado quando, minutos depois, pararam frente um terreno com uma casa de dois andares cor bege, tendo frente a garagem uma camionete a qual Al deduziu ter a idade de um Neandertal. Edu respirou fundo e encarou-o, aguardando um questionamento. Como sacou rápido, tratou de fazê-lo, mas sem perder a boa e velha ironia.
— Se é um motel particular, eu cobro caro — seu sorriso evidenciava o deboche. Edu, entretanto, não se deixou abalar. Seguiu firme no porte.
— Alisson, escuta, por favor — pediu — Nós começamos com o pé esquerdo. Tudo bem, esperava por isso. Claro que o fato de ontem foi um choque, mas o resto já contava.
— E onde que Caxias do Sul entra nessa história toda? É uma cidade muito bonita, mas, caso não tenha percebido, tá chovendo.
— Chuva nenhuma é capaz de levar embora uma história, Alisson. E tenho certeza que nem mesmo o mais pesado dos temporais levou daqui, mais especificamente, desta casa aí, toda a vida e juventude dela.
Foi como um iceberg atingindo seu peito. Só então começou a ligar os pontos enquanto ouvia seu coração começando a aumentar a velocidade dos batimentos. Não podia acreditar que ele estivesse falando sério. Revidou o olhar fixo nele, tentando não esmaecer sua pele, já que o fôlego começava a querer se despedir. Só fugiu do encontro com o olhar do mais velho para encarar a tal casa onde haviam parado.
De repente, uma aresta de sua vida começava a desabar diante de si. O mundo e suas surpreendentes formas de mostrar as respostas para a avidez de nossas perguntas, mais uma vez, havia aprontado das suas. Cada momento vivido desde a terrível descoberta de como foi concebido até ali mostravam-se visivelmente como uma estrada, capaz de mandá-lo para tantas direções quanto fosse possível. A escolhida, nem de longe, parecia a mais provável de acontecer.
Edu desceu do carro com guarda chuva e foi ao encontro do rapaz na porta do carona, abrindo-a para que descesse também em direção ao encontro com sua história, a qual sempre teve tanta ânsia em conhecer. Aquela parte estranha começava a receber a luz necessária para mandar a escuridão da ignorância sobre si mesmo embora.
Quem os recebeu foi uma mulher de cabelos curtos e castanho escuro, de altura semelhante a de Alisson e expressões físicas as quais deixavam claro seu parentesco. O menino deduziu ser sua tia, irmã de sua mãe com quem seu pai se relacionava antes do caos se instaurar. Ela estava visivelmente abalada, como se estivesse vendo alguém voltando da guerra sem um braço, fazendo força para abrir o portão e deixar os “estranhos” entrarem. Al, por educação, deu ‘bom dia’, mas dado o estado da moça, não ficou surpreso por não obter uma resposta imediata.
Esperaram acompanhá-los até o encontro de seus avós, a quem jamais viu um retrato sequer. Subia os degraus em direção ao piso superior com um formigueiro inteiro dentro do peito, afinal os anos de espera haviam acabado, mas de forma tão repentina que perdera o tato. Não tinha ideia de como tratá-los, se abraçavam-lhes ou não. Dúvidas tidas como bobas, contudo, ao coração de Alisson eram tão importantes quanto a descoberta do sentido da vida.
Quando a porta se abriu e uma senhorinha de cabelos tão ralos e da cor da neve encontraram o belo moço a sua frente, reconhecendo nele traços de sua família, não perdeu mais tempo. Correu para abraçá-lo com toda força que seus braços permitiam, mas longe de ser o que seu coração almejava. As lágrimas em seu rosto tão marcado pelas mudanças da vida não tardaram a escorrer e cair sobre seu casaco de lã cinza, quase tão fino e ralo quanto seu porte físico. Preencheu a bochecha do neto com beijos e o corpo com abraços rápidos e apertados, pouco, ante o tamanho de sua saudade.
Alisson, lógico, tentava segurar a emoção ao máximo, mesmo em vão. Seu rosto acabava recebendo algumas lágrimas enquanto sua alma, pela primeira vez, encontrava a serenidade e a tranquilidade ao vivo e a cores. Nem mesmo Daniel lhe trouxera tanta alegria quanto o que o destino — e Edu, ainda que fosse duro admitir em voz alta — estava a fazer. A oportunidade de ver suas origens de perto tornava tudo ainda mais mágico, pois toda uma parte esquecida de sua vida tomava forma diante de seus olhos. Foi impossível não se deixar levar e tocar pelo momento.
A tia foi a segunda a abraçá-lo tão forte quanto conseguiu. Era evidente o quão a falta de contato com o menino havia tornado sua vida tão vazia, preenchida com tão poucas conquistas e histórias a contar. Rever o sobrinho, ou, na realidade, vê-lo pela primeira vez, foi como um feixe de luz que apareceu por entre os presentes para, enfim, dar-lhes um motivo para continuar. Pegou-lhe pela mão após o abraço e logo foi guiando até a sala para se sentarem enquanto preparava o café. A matriarca ficou responsável por fazer companhia às visitas, como também se sentiu na obrigação de falar sobre os precedentes do encontro.
— Outro dia, o Eduardo apareceu aqui com algumas fotos e começou a contar sobre tu e tua mãe — esclareceu a senhora — Não sabe como aquilo nos encheu de orgulho e alegria. Saber que vocês prosperaram mesmo depois de um nascimento tão complicado…
Logo a tia apareceu com uma bandeja e as xícaras de café, entregando a todos os presentes e ficando com a sua ao fim. Sentou-se ao lado da mãe no outro sofá de dois lugares disponível ali para o assento, além do que Al e Edu ocupavam e a poltrona do avô de Al.
— Mas… Não consigo entender o porquê de não terem ido atrás da gente — lamentava o rapaz — Quer dizer, eu entendo o lance de ter sido tudo bem estranho e até um tanto obscuro demais, mas… minha mãe é filha e irmã de vocês… E eu, neto e sobrinho… Será que a mágoa foi maior que o amor que sentiam por nós?
— Filho… — a tia interveio — Como tu pode ver, somos pessoas simples, sem muito estudo, sabendo o pouquinho de cada coisa para manter a nossa vida nos eixos. Se hoje estamos aqui foi porque o tempo nos trouxe várias lições, aprendidas com muito sacrifício, relações estremecidas… Claro, eu entendo a tua pergunta e acho ela justa. Nada justifica essa ausência absurda, mas é que…
Não conseguiu concluir a fala, pois a emoção tomou conta de novo. Coube então a avó tentar concluir o pensamento da filha.
— Foi um choque pra todos ver nossa filha mais velha numa situação tão delicada. Éramos todos ignorantes, com conhecimento limitado da vida e das coisas… Coube ao tempo nos dar essa alegria de te reencontrar.
— E a minha mãe? — questionou o rapaz — Ela já veio aqui?
— É a próxima visita que farei em breve — Edu tratou de esclarecer — Depois da nossa conversa, Alisson, pude notar o cara forte e decidido que tu é. Sabia que deveria vir primeiro, até pela ansiedade de conhecer tua família. Marisa me contou de alguns arranca rabos de vocês sobre isso, o último com direito a uma bofetada, mas mesmo assim senti que deveria ser o primeiro.
— Tudo por culpa nossa, mãe… — a moça lamentava, enquanto secava algumas lágrimas — Olha só o que aconteceu com minha irmã… Tantos anos de sacrifício e luta sem um contato nosso… Devíamos ter ao menos buscado um contato…
— Mas ainda estamos todos vivos e bem de saúde, né? — Edu buscou ser otimista — Dona Eva, Letícia. O erro é uma atitude essencialmente natural. Não sabemos, nem devemos ter a presunção de tudo saber para não errarmos jamais. E se agora, passados dezoito anos, a vida está dando a oportunidade daquele erro ser revisto, é hora de correr atrás.
Tanto a avó quanto a tia acenaram com a cabeça em sinal de confirmação. Muito havia se passado para que as coisas andassem de forma tão lenta tanto tempo depois dos fatos terem acontecido. Além de que a estrutura familiar a qual almejavam dependia muito do sucesso daquela relação. Havia apenas um adendo: o avô de Alisson. Era outra peça fundamental para a conclusão do quebra cabeças.
O garoto pensou muito antes de questionar, pensando na possibilidade de talvez ter acontecido alguma fatalidade. Porém, observando tantas coisas dele dispostas pela casa: ou havia falecido recentemente, ou estava bem vivo. Resolveu arriscar.
— E meu avô? Sabe que eu vim?
— Ah, sim! — exclamou Eva — Ele mal se aguenta de tanta felicidade. Tu só não repara. Ele tem um jeitão meio temperamental, bronco, mas é um bom homem.
— Ele tá em casa?
— Tá sim. Quer que eu chame ele? Tá aqui embaixo na oficina dele. Se enfiou lá de manhã cedo e não saiu até agora — Letícia comentou, limpando as últimas lágrimas de seu rosto inchado pela ação recém cometida.
Alisson negou, afirmando não querer atrapalhar o serviço do avô, alegando que poderia lhe conhecer mais tarde. Eva chamou-lhes para acompanhar o café, enquanto o menino contava um pouco de sua vida e toda história por trás dela. Queriam os mínimos detalhes, imaginando por elas mesmas como deve ter sido a criação dada por Marisa ao belo homem que se formava a sua frente. Edu ouvia tudo sem palpitar, afinal gostaria de ter a visão do enteado sobre a própria vida, mesmo que os fatos em si não lhe fossem desconhecidos.
Enquanto estavam distraídos, sequer viram seu Natanael chegar. Era um homem robusto, de barba branca, com as feições que lembravam seu neto mais velho. Ao notar a presença deste, chamou por seu nome e correu para abraçá-lo tal qual a esposa e filha haviam feito. Tanto tempo de afastamento provocou em si uma saudade que nem sabia ser possível, e um amor por um desconhecido tão vivo dentro de seu peito. Permitiu-se se emocionar pela felicidade de reencontrá-lo e poder, finalmente, esclarecer as coisas e pedir perdão como prometera que faria. Ainda que, no passado, o ego e orgulho tivessem falado mais alto, sabia não ter mais tanto tempo a perder para se dar esse luxo.
Alisson, claro, transbordou de alegria, principalmente quando o senhor arrastou-o até sua oficina. Queria mostrar ao neto o orgulho que tinha de seus dons de velho metalúrgico, conhecedor da arte do aço e ferro. Era um espaço modesto, sem maiores requintes de cuidados estéticos, porém bem organizados para um homem que seguia na aba da profissão mesmo no pós aposentadoria. Haviam poucas máquinas, duas estantes cheias de porcas, parafusos e acessórios do gênero, além de serrotes, martelos, barras de ferro e tudo mais que pudesse imaginar.
— Não repara porque tudo aqui é muito simples, viu meu guri?! Não tem as mordomias e coisas bonitas que, imagino eu, tu veja tão bem — comentou o homem.
— E eu vou lá ligar pra isso estando agora tão perto do resto da família? — era nítido em seu rosto a felicidade esboçada no rosto — O senhor faz o que aqui exatamente?
— Basicamente o que uma serralheria faz, só que sem esse título — brincou o mais velho, rindo — Acho que não consegui me desligar do trabalho. Então resolvi manter a ocupação. Quando Eduardo apareceu aqui falando da Marisa e do meu neto, soube que era o momento de fazer algo com o qual gosto muito de trabalhar…
Natanael foi afoito até uma gaveta de sua bancada de cor vermelha, tirando de lá um objeto com o qual Alisson ficou encantado: Um gaúchinho galopando feito em arame. Lógico que o rapaz adorou de cara, tendo a certeza de que mesmo com tantos percalços, a vida não tornara o coração daquele avô algo rígido e sem valor. Lembrou-se, por um instante, de seu Antero e da proximidade de personalidade que tinham.
Agradeceu-lhe antes de retornar ao piso superior e, já parado à porta, Natanael segurou o ombro de Al e lhe fez um pedido.
— Preciso te pedir algo caso esqueça… Diga pra minha filha que eu me arrependo — via no olhar dele o sofrimento corromper qualquer resquício de um aumento da felicidade tida ali.
— Quem sabe o senhor mesmo não diz isso a ela? — sugeriu o rapaz — Tenho certeza que vocês chegarão em um consenso.
— Tu não sabe as barbaridades que disse a ela, nem como agi quando—
— Vô, o passado não vai mais voltar. Pode ser, sim, que essas feridas não tenham cicatrizado. Mas, se tem uma coisa que minha mãe me ensinou, foi a enfrentar as dificuldades sem medo. Encará-las como obstáculos a serem vencidos e não só como algo complicado de se resolver.
Natanael sorriu.
— Ela sempre foi assim…
— Não se preocupa. Tenho certeza que ainda terão oportunidade de conversarem!
O senhor abraçou o neto uma última vez antes de retornar a mesa, onde Edu contava algum causo de sua vida que arrancava gargalhadas de Eva e Letícia. O clima de chuva e tristeza limitava-se ao exterior. Ali, a quem olhasse, via uma família plena e feliz, como nunca Alisson havia tido oportunidade de conviver.
Passadas 2 horas da estadia dos rapazes, cheia de conversa e muita diversão, foi o momento de dar um ‘até logo’. Abraçou novamente seus novos parentes e disse, convicto, que iriam em sua formatura no fim do ano. Não poderiam ter ficado mais orgulhosos, afirmando respeitar o desejo do sobrinho e neto ao pé da letra. Edu aproveitou a deixa para agradecer e reforçar de que Marisa viria encontrá-los tão logo fosse possível. Em seguida, colocaram o carro para rodar de volta a Nova Petrópolis.
Bem diferente do clima no qual chegaram, Al sentiu uma obrigação moral de falar algo ao namorado de sua mãe, afinal surpresa maior do que aquela nem em cem anos mais, disso tinha certeza.
— Valeu pela surpresa. Nunca na vida que eu ia pensar isso — confessou v Poder conhecer as pessoas que faltavam na minha árvore genealógica. Isso é tão…
— Emocionante? — arriscou.
— Eu diria incrível, mas emocionante tá bom também — riram ambos — Olha, cara, sei que, no embalo desse encontro, devia te pedir desculpas por agir de má fé contigo e—
— Calma, guri! Tem que pedir nada! — tranquilizou — Só de ver esse sorriso de orelha a orelha aí, qualquer coisa que pudesse sentir de mágoa contigo passaria.
O rapaz então lhe encarou.
— E posso saber a razão pelo menos?
— Alisson, quando conheci tua mãe e ela me contou um pouco da história dela e enfatizou que tinha um filho saindo da adolescência, já sabia onde ia me meter. Não entrei pensando que tu ia me amar e querer jogar futebol comigo aos domingos.
— Mesmo porque odeio futebol — mais risos — E por isso tu me aguenta? Por querer continuar com ela?
Edu sorriu.
— Eu sei bem qual o motivo da tua revolta e acho ela justa. Tua mãe fez uma promessa e, pela tua opinião, ela descumpriu isso. Simples. Só te peço que entenda… Não é meu interesse tomar pra mim o lugar de um pai, porque respeito teu direito de querer que só ele—
— Não quero mais — disse, decidido — Depois de hoje, olhar o que esse verme fez pra minha mãe e minha família, não tem espaço pra ele na minha vida. Mas não, isso não vai te dar o direito de ser meu pai. Tu não me criou, não me levou na escola, não me ensinou a andar, falar e tudo mais. Vamos respeitar esse limite, ok?
— Ótimo pra mim! — Edu ficara realmente empolgado com a chance.
O resto do caminho foi envolvido por um silêncio de novo, mas, dessa vez, com um ar menos carregado. Ambos se perdiam por entre seus pensamentos e se deixavam tocar por todas as emoções vividas em uma única manhã. Afinal, a relação deles estava recomeçando.
***
Por mais que muitas vezes o emaranhado de fios do destino parecesse caótico, no fim, sempre fazia sentido. Quando Ian olhava Dan e sua trajetória até ter a ousadia de dividir a cama com outro rapaz e nutrindo por ele um intenso sentimento de carinho e paixão, era observar também a perfeição na qual uma vida pode ser moldada. Tudo começou no dia em que entregou seu desejo por ele meses antes, culminando em uma história confusa, mas com muita vivência para pôr na bagagem.
O mesmo se dava com a experiência com Ágata. Acreditava, na mesma época da confissão a Daniel, que ela seria a garota pela qual estava destinado a passar o resto de seus dias declarando juras de amor. O tempo passou, a água foi sendo separada do óleo e as coisas já começavam a se formar por outras vias. Preparava-se para receber a moça de papo bem amarrado com Micael, seu primo, a quem ela mesma sequer tinha noção da existência até ir no seu aniversário de penetra.
Em momento algum se sentia traído pela vida, ou amargurado por suas decisões. Considerava-a sábia demais para cometer equívocos e esperta o suficiente para envolver pessoas numa mesma redoma para mostrar-lhes outros significados para velhas palavras. É bem verdade seu desamparo quanto a Dan, porém, não se sentia no direito de execrá-la como um verme sem serventia. Aguardava, como sempre fez, pela sua chance de poder brilhar. De preferência, conhecendo alguém na mesma vibe.
O primo e a ex-ficante chegaram cerca de meia hora depois de Dan ir trabalhar, a fim de repor o dia anterior, perdido com farra e pegação. Foram direto para o quarto trocar ideia, papear, ouvir música… aproveitar a sensação de estar no tédio, enfim. Depois de muito pensar e pouco agir, começaram, lá pelas tantas, a jogar “Eu Nunca”, mas com refrigerante, uma vez que a bebida alcoólica estava escassa em casa.
Por ser o mais atrevido, Micael começou, questionando se os demais nunca haviam sido flagrados em público pelado. Para surpresa dos rapazes, Ágata bebeu. Na vez da própria, percebendo que o ar do jogo seria “pesado”, colocou se algum deles havia sido interrompido durante o coito por conta de algum bicho de estimação. Os rapazes beberam, com Ian relembrando a história de um gato siamês que cravou as unhas em seu glúteo certa vez, arrancando gargalhadas espalhafatosas dos demais. Ian seguiu na temática picante, perguntando se algum deles teve a coragem de se masturbar usando mais de três dedos no orifício. Quando Ágata e Ian (os quais beberam) notaram Micael tomando também, quase faleceram de imediato. Lógico que foi cobrado explicações, limitando-se a uma bem prática.
— CUriosidade. Conhecem? — deu de ombros, sorrindo de canto.
— Meu Deus! Que família, hein?! — gargalhou a moça.
— Imagina o tio e a tia ouvindo isso aqui do lado — Ian comentou.
— P*ta que p*riu! Eles tão aí?! — Mica se desesperou, para a alegria do mais velho.
— Pode deixar, mãos de fada. Eles foram com o Dan lá na padaria tomar um chimas e trovar fiado com os tios.
— Ah bom — respirou fundo, aliviado — Tá, agora é a minha vez de novo!
Antes do rapaz pensar em falar, Ian ouviu o barulho de alguém batendo palmas e chamando por Dan. Achou estranho, uma vez que estava chovendo e não havia motivos para alguém se abalar de ir ali por bobagem. Até cogitou, num primeiro momento, ser Vanessa, mas quando Ágata comentou não reconhecer a voz da amiga, optou por ir lá. Colocou seus chinelos e foi atender.
Notou, ao abrir a porta, Jeferson e Sabine, cada qual com um guarda chuva. A menina loira tinha em mãos um envelope amarelo, atraindo sua atenção. Aproximou-se da grade, comprimentando-os, também lhes inteirando sobre a ausência do primo e esclarecendo onde estava.
— Putz! Não sabíamos mesmo! — Jeff lamentou.
— Eu disse pra entregarmos essas fotos amanhã, com calma, na escola. Mas a teimosia em pessoa aí parece que vai morrer se esperar um mísero dia — a loira reclamou.
— Não me julgue por não ser de açúcar como certas pessoas — o affair não deixou por menos, arrancando uma risada de Ian.
— Olha, por mim, podem deixar comigo que entrego pra ele. Ou deixo lá no quarto dele mesmo… Enfim, se quiserem né? Pra não perderem a viagem.
— Tranquilo. Deixamos conti— Jeff ia entregando, quando Sabine lhe interrompeu.
— Jeferson, não seria de maior inteligência entregar essas fotos pro Dan? Afinal, são dele e ele é quem tem que ter acesso. Passar de mão em mão nunca dá bom.
— Que isso, gata? Dan confia mais no primo do que em qualquer um de nós — Jeff assegurou — Além do mais, ele é o guri lá do lance que chegamos aqui e vimos ele no—
— Tá! Já entendi! — exclamou a moça — Se tu acha que tá tranquilo, entrega então. Agora não vem reclamar depois!
Aquela conversa não fazia o mínimo sentido na cabeça do garoto de olhos claros. O que de tão mal tinha em simples fotos para gerar tanta polêmica? Num primeiro momento, sua dedução o levou a pensar que Dan devia ter dado um show gratuito depois de beber tudo o que tinha direito e agora os amigos temiam por si ser pego pelo castigo da mãe. Riu com o pensamento, afirmando não rolar qualquer tipo de estresse em relação às tais fotos.
Questionados se não queriam entrar, o casal negou, com Sabine afirmando precisar voltar logo para casa por conta de alguns problemas particulares. Despediram-se dele e foram em direção ao apartamento dos pais da loira, deixando um Ian com a pulga atrás da orelha. Se por um lado era estranho abrir o envelope e dar uma olhadinha, por outro não havia segredo de Dan que lhe fosse desconhecido. Além do que, o dito cujo estava entreaberto de qualquer jeito, sem qualquer fita capaz de lacrá-lo. Entrou para dentro para não ficar a mercê do guarda chuva e sentou-se no sofá, encarando o papel. Algo em seu coração dizia que havia o dedo de Alisson no meio daquela história e que, talvez por ele, todo o nervosismo foi gerado. Revirou os olhos, rindo do pensamento.
O problema se deu quando o mesmo sorriso que sequer levavam em consideração uma ideia daquelas, sumiu diante do estrondoso beijo acontecido na cabine de fotos da festa de aniversário…
CONTINUA
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