A Teoria das Cores
60 Azul Céu I
INFINITO
(Protagonista secundário: Andreas)
Um amor não correspondido pode afetar muito a vida de alguém. Isso é notório em vários aspectos físicos e mentais — nos tornamos (em alguns casos) tristes, solitários, agressivos… Nem mesmo realizar pequenas tarefas que outrora eram tão interessantes a ponto de nos despertar alegria são capazes de assim fazê-lo. E toda vez que Andreas era obrigado a ver seu primo Ian — talvez a pessoa que mais amava na vida — se sujeitando aos caprichos de Daniel, sentia seu coração apertar e seus punhos estremecerem. Seu maior desejo era surrar tanto a cara do mais novo até que ele percebesse o quão infantil conseguia ser, ao magoar e ferir todos a sua volta simplesmente por ser turrão. Conseguiu dar uma amostra de sua raiva no aniversário de Micael, porém achava aquilo pouco. No entanto, as longas conversas e tentativas dos primos em acalentar sua fúria pareciam estar fazendo efeito.Estava superando, ou assim gostava de pensar.
Noite de sábado, o último daquele mês de Julho. Estava frio — como de costume — mas não ao ponto de desanimar qualquer um dos garotos a fazer um programa de despedida para Ian. Era o mais querido entre os primos, isso era inquestionável. Fez com que todos se amassem e vissem de maneira além dos carinhos fraternos. Despertou-lhes o desejo, a ânsia pelo insaciável, a busca pelo prazer em corpos tão semelhantes aos seus, o amor por um homem. Assim era Ian e seu êxtase hipnotizador. Como agradecer alguém tão especial simplesmente por sua existência? A resposta surgiu pela boca de Micael: Parque de diversão. O lugar, segundo o rapaz, parecia agregar todas as características do segundo entre os mais velhos dos primos. Agitado, animado, divertido, audacioso, instintivo… De fato, parecia mesmo servir bem. Marcaram para se encontrar às 19 horas na casa do garoto, porém acabaram chegando cedo. exceto por Andreas.
O mais velho não tinha muita certeza se deveria ir ou não, afinal ter de se despedir de seu primo amado nunca era fácil. Doía menos quando este voltava a Nova Petrópolis sem lhe dar qualquer tipo de satisfação. O incomodo da dor constante ficava, mas não existiam as últimas lembranças de felicidade antes da volta do breu que era a vida sem Ian. Tinha dentro de si um sentimento tão profundo que arranjar ficantes em festas não supria a necessidade de tê-lo para si. Egoísta? Talvez, mas seu coração não sabia amar pela metade. Por essas e tantas outras razões que chegou 19h19min. Foi Micael quem atendeu.
— A Cinderela chegou, gente! — O humor era característica de seu charme — Entra aí, mano véio! A gente tava te esperando faz tempo.
— O Andreas sempre teve problemas com horários. É fato — Levi complementou.
— Mas dessa vez foi especial… — A voz de seu amado ecoou pelo corredor da casa, fazendo-o soar frio e deixando sua boca seca — Ele tava vindo me ver.
Admirou o menino como quem apreciava o mar em um dia sereno. Ian vestia uma calça skinny preta, rasgada nos joelhos, um casaco xadrez preto e vermelho, além de um sapatenis preto. O cabelo arrepiado com gel um perfume inconfundível espalhado por seu pescoço. O sorriso, como sempre, fiel em seu lábios, como se nada no mundo fosse capaz de abalá-los. Os olhos azuis cintilantes como esmeraldas a encarar o mais velho davam a impressão de serem suas flechas acertando seu coração. Cada vez mais amava Ian, e cada vez mais se odiava por isso. Ele veio em sua direção, fazendo um cumprimento com as mãos e, em seguida, lhe abraçou, como simples pretexto para apalpar sua comissão traseira. Riu com o ato travesso. Nem a possibilidade dos pais flagrarem a “pouca vergonha” deixava-o inquieto.
— Que bom que tu veio. Achava que ia fazer c* doce — Sua voz aveludada sussurrou no ouvido esquerdo de Drê.
— Eu ia, mas resolvi vir. Não faça eu me arrepender — Provocou, com um sorriso malicioso.
No mesmo instante, Clara surgiu com o celular em mãos ordenando que os primos se unissem para “tirar uma fotinho”, nas palavras dela. Os garotos fizeram pose, gestos e acenos que arrancaram risadas da mãe de Ian. Adorava quando tinha a oportunidade de ter todos (ou, como no caso, a maioria) deles reunida. Eram felizes e unidos, e isso é o que contava para toda família.
— Já vão sequestrar o meu bebê, né? — Brincou a mulher.
— Que bebê, tia? Um marmanjo desses! — Mica rebateu, rindo da expressão da tia.
— Pra uma mãe, o filho sempre vai ser um bebezinho — Clara ajeitou a gola do casaco do filho, enquanto o admirava — Ainda mais quando o filho parece que não cresce nunca!
— Valeu, mãe — Seu tom era irônico, mas o riso era constante.
— Se cuidem, guris — Deu um beijo na testa de cada um.
E assim o grupo saiu em direção ao tal parque que havia chegado em Porto Alegre. Pelas ruas, pessoas alvoroçadas e caminhando de um lado para o outro para gozar ao máximo da vida noturna da cidade. O que não faltavam eram programas a se fazer — tanto que foi difícil para os cinco decidirem qual atividade realizar — e aproveitar tudo em um período tão curto de tempo era complicado. Durante as duas semanas de estadia de Ian, procuraram realizar tudo que tinham vontade. Algumas com mais entusiasmos que outras — como a pequena “reunião” dos primos — mas o sentido e o objetivo eram os mesmos.
Enquanto caminhavam, Andreas encarava o rosto sorridente de Ian enquanto aprontava das suas. Já começava a sentir sua falta desde aquele momento, como se seu coração fosse apaixonado pelo sofrimento antecedente aos fatos, mas não podia deixar de sentir. Seus olhos ficavam cabisbaixos com a dor inevitável. Sempre perdia o primo para algo, e detestava isso. Videogames, brincadeiras, festas, ficantes, Daniel… Tudo parecia criar um abismo entre eles tão grande que mal conseguia saltar para o lado oposto sem se ferir. Perguntava-se quando sua chance viria, e se iria aproveitá-la com todo ardor. Sua mente podia imaginar os dias de praia, Ian descamisado, correndo de dentro do mar com a água salgada grudada em seu corpo esguio e definido, a alcançá-lo para que se abraçassem e se beijassem sem preocupações mundanas, cujo único objetivo é afundá-los no lamaçal da infelicidade. Queria poder esperar pelo primo nú em cima de sua cama após um dia exaustivo para que este lhe cobrisse de amor e carinho como julgava merecer, que lhe fizesse sentir o homem mais feliz do mundo. O dito pecado blasfêmico da união de dois rapazes, a ameaçava que representavam aos valores de uma sociedade provinciana, nem isso faria deter a chama intensa que o preenchia as madrugadas em que se tocou imaginando tal cena. Desejava-o querendo desejar.
A chegada ao parque demorou alguns minutos devido a espera do motorista por um aplicativo famoso (Que foi decidido após Micael insistir estar cansado de caminhar ao ponto de ônibus localizado na quadra atrás do prédio onde moravam). Quando lá entraram, se viam como crianças ao ganhar seu primeiro presente de Natal. Raras foram as vezes em que não perdiam a seriedade diante de um lugar como aquele, com luzes, música (devido a um dos brinquedos mais cobiçados), diversão em todos os cantos possíveis. Como resistir a isso? Andreas conseguia manter-se o mais sóbrio diante da tentação do divertimento, melhorando um pouco quando Ian puxou sua mão para dentro do parque. Ali conseguiu de fato sentir a diversão lhe sucumbir. Ficaram um bom tempo assim: De mãos dadas a vasculhar qual brinquedo iriam primeiro. Para Drê, qualquer um bastava, mas era lógico o quão exigente o garoto de olhos azuis conseguia ser dentro do “templo sagrado”. Tentaram a fila de alguns, mas logo mudavam, tudo porque o mais novo achava algo que, em seu julgamento, era mais importante e mais divertido.
Foi em uma das filas — em um brinquedo do túnel do amor — que a situação ficou estranha. Devia ser o quarto ou quinto brinquedo que paravam para tentar embarcar. Conversavam e riam de coisas banais, fúteis, mas que deixavam tudo com uma atmosfera mais leve e tranquila. Então, duas garotas atrás deles, começaram a cochichar e a ficarem vermelhas quando Ian as encarou, com um sorriso maldoso nos lábios. Andreas não curtiu nada, sabendo com convicção o que aquilo significava.
— Elas tão querendo — Falou discreto ao primo.
— Essas v*dias aqui de trás? — Alfinetou, sem temor que estas ouvissem.
— Ah, velho, por favor. Não vai dar chilique, né?
— Guria oferecida pra ti é o quê? Hein?
— Ousada e livre — Respondeu com a maior calma do planeta — Para de ser machista.
— Não sou machista, tô protegendo o que é meu.
Ian mal conseguiu conter a leve gargalhada que se formou em sua garganta.
— O que exatamente é teu, Drê? — Cruzou os braços enquanto aguardava a respostas.
— Tu — Foi direto, como se não fosse óbvia a resposta — Afinal tu é meu primo.
— É verdade, mas… sou só isso?
— Não. E tu sabe disso.
— C*r*lho, Drê. A gente já conversou sobre isso milhões de vezes.
— Por isso mesmo tu devia pensar antes de dizer que tá a fim de comer essas vagabundas aqui de trás.
— Já te avisei pra largar de ser machista — Alertou, com um tom mais severo — P*rra, Drê. Vive um pouco e para de se enfiar nessa amargura. Desse jeito tu vai afastar as pessoas que te querem bem.
— Se tu fizer menção em ficar com qualquer uma delas, eu te agarro aqui mesmo. Daí quero ver elas darem bola pra “viado” — Ignorou a fala do primo, insistindo com a birra.
Ian tornou a encará-lo, de forma surpresa. Sabia que Drê não conseguiria fazer aquilo, mas a audácia do desafio era interessante. Quem sabe poderia se surpreender? Era um risco a se correr.
— Muito bem — Concordou com a cabeça — Eu. Vou. Ficar. Com. Uma. Das. Gurias.
Drê encarou seco enquanto o primo se divertia. Suas mãos suaram frio com o afronte, sua boca ficou seca. Era certo que ele não engoliria o medo por causa de uma simples ameaça, mas aquilo pesava mais do que uma manada de elefantes pisando sob seu orgulho. Tentou ir em frente e cumprir o que disse, mas, no meio do caminho, recuou, encarando todos os lados possíveis, com os olhos arregalados e temerosos.
— E-e se um conhecido dos nossos pais nos vêem? Tá maluco?! Aqui não!
O mais novo suspirou, colocando sua mão direita sobre o ombro do mais velho.
— Desculpa, Drê, mas eu não posso parar a minha vida por causa do teu medo.
— M-mas, Ian—
Virou-se então para trás, falando primeiro com uma menina loira, de estatura mediana, que o observava com um pimentão se formando no rosto.
— Fala aí — Disse com simpatia.
— O-oi — Ambas responderam enquanto riam. Riam tão tímidas que pareciam chihuahuas histéricos tendo um ataque.
— Vocês… Precisam de alguma coisa?
Formou-se um silêncio incomodativo ali. Foi então que a ruivinha, levemente mais alta que loira, se intrometeu.
— Toma atitude, Pamela — Ordenou.
O menino encarou a figura da menina. Parecia acanhada, com medo, tinha olhos castanhos bem claros, vestindo um casaco de lã roxo com botões pretos que a cobriam quase que por inteiro, mostrando apenas as pernas cobertas por uma legging preta e botas de couro da mesma cor. Era bonita, sem dúvidas, e parecia tão delicada que Ian cogitou não insistir se a moça não quisesse. Quando estava por fazê-lo, a menina, com voz tão rouca que parecia morrer ao pronunciar qualquer coisa, manifestou o interesse.
— Eu quero ficar contigo… Pode ser?
Tentando limpar um pouco da barra da amiga, a ruiva argumentou.
— É que ela tá meio que… sabe… com vergonha — Seu sorriso deixou claro sua vergonha alheia.
— Tranquilo — Riu da fala — Vamos fazer assim. Drê, vai com a menina ruiva que eu vou com a loira no túnel. Dá pra ser?
— Prefiro que mil vacas me atropelem — Foi ríspido na resposta.
— Qual é, Drê? Vai sacanear agora?
— Não tô sacaneando, só tô dizendo que—
— Próximo, por favor — O vigia do brinquedo solicitou.
Estavam tão distraídos que nem perceberam quando a vez já tinha chegado. Era agora ou nunca: Ou Drê ajudava ou seguia firme na teimosia. Ian sabia que o primo jamais cederia de boa vontade, mas ainda sim sua boa índole insistia em dar uma chance para a redenção do mais velho.
— E… então? — Ian pressionou.
— Não, não vou trocar de lugar com ela.
— Drê—
— Somos primos, Ian! PRIMOS! Tu vai mesmo querer trocar de lugar comigo por causa dela?
— Se não vão entrar, deixem o pessoal passar — O vigia pediu.
Drê suspirou, saindo da fila e indo se sentar em qualquer lugar que tivesse apoio para tal. Queria entender porquê o menor não conseguia enxergar a si como ele o fazia. Seria tão impossível perceber o quanto aquelas atitudes o machucavam? Faziam abrir ainda mais a ferida que, a duras penas, cicatrizava? Lutou com todas as forças que tinha para não chorar, por achar que isso seria, de fato, se humilhar por pouca coisa. Ian estava sendo Ian, nada demais… Ainda que doesse e cravasse um punhal em seu coração, nada de novo sob o sol. O jeito era aguardá-lo retornar da conquista.
Demorou dois minutos, mas logo ele estava de volta e com um belo sorriso. Encarou a figura séria de Andreas com temor e preocupação. Ás vezes, a impressão que o garoto passava era de que Ian só o humilhava e desprezava, deixando o primo por muitas vezes constrangido de fazer qualquer coisa em sua frente. Sabia que não era verdade, mas Drê acreditava tanto nisso que acabava respingando nas próprias atitudes com relação a eles dois. Respeitava muito os sentimentos do maior e fazia o que podia para deixá-lo mais a vontade, mesmo com o mesmo incomodando e insistindo em forçar uma situação difícil, como fizera momentos antes. Porém, de novo, era hora de trazê-lo de volta a realidade.
— Drê? — Chamou por ele.
— Que foi? — Não o encarou. Seguiu com seu olhar frio a encarar qualquer ponto.
— Vai parar de birra pra gente conversar?
— Birra, birra… É sempre isso, né? Sou sempre o errado, o egoísta, enquanto tu é um anjo que caiu do céu.
— Não tô dizendo isso.
— Mas age como se fosse. Até teu rosto… — Limpou uma pequena lágrima que escorreu — Tão bonito, tão perfeito, parece que gosta de afirmar isso.
— É meu último dia antes de voltar pra Nova Petrópolis, Drê. Quer mesmo gastar ele assim?
— Queria ficar contigo hoje. Sozinhos, no teu quarto. E não aqui comigo sendo obrigado a te ver ficando com uma vagabundinha qualquer.
— Não fala assim dela, por favor.
— Falo! É claro que falo! — Alterou-se — Quando Ian que tu vai perceber que isso é horrível pra mim? É um saco ter que competir com todo mundo pra ter tua atenção!
— Tu tem a minha atenção. Sempre que tu precisou, eu estive do teu lado — Deslizou suas mãos pelo rosto cheio de sardinhas marrons do mais velho — O problema é que tu tá indo longe demais. Quer que eu fique quieto esperando tu tomar dianteira?
— Mas eu tomo dianteira!
— Não, tu apenas diz que me quer. Mas dizer, Drê, é muito diferente de fazer. Eu, por exemplo, quero o Daniel e faço questão de demonstrar isso pra ele. Só que eu RESPEITO a decisão dele de não querer nada comigo.
— Tanto que ele te beijou, né? Nossa, grande respeito — Revirou os olhos.
— Me beijou porque quis, não por chantagens emocionais…
— Espera aí — Só então encarou o primo, com um olhar de fúria sob seus olhos — Tu tá tendo a cara de pau de dizer que eu sou chantagista? É isso mesmo?!
Micael, então junto aos demais primos, foi até onde ambos estavam. Notou o clima tenso que se formava.
— Gente, o que deu aqui? — Perguntou com o tom mais ameno possível.
— Eu peguei uma guria e o Drê ficou com ciúmes.
— Pegou?! — Exclamou o garoto — Mesmo depois do que rolou, tu pegou ela?!
— Peguei, Drê. Peguei. Qual o problema, c*r*lho?!
— Andreas, pega leve, cara! — Ponderou Mica — Precisa esse alvoroço por causa de uns beijos? Tu nunca beijou outra pessoa, de certo? Então!
— Mais do que eu já tentei explicar é difícil, Mica — Ian lamentava — Mas o Drê só escuta a mente perturbada dele. C*r*lho mesmo.
— Ele vai se comportar agora, Ian. Fica tranquilo — Virou-se para o primo — Né, Drê?
— Pro inferno — Deu de ombros — Volta lá e pega ela mais umas duzentas vezes, vai.
— Beleza! ‘Bora que tem muito mais coisas pra se fazer! — Exclamou, animado.
O clima entre todos ficou mais leve a medida em que Mica tentava interagir e integrar todos de todas as atividade que o parque possuía. Nem sempre foi possível — já que tratou de lembrar um pouco de si e do seu ego, jogando seu charme para cima de algumas colegiais que estavam por ali. Andreas seguia com sua cara amarrada, dirigindo a palavra poucas vezes a seu “eterno flerte”. Não se conformava com as atitudes imponderadas do mesmo e não seria naquele dia que iria começar. Odiava-se por brigar com Ian, mas odiava mais ainda ser acusado daquela maneira.
O tempo passou e logo eram 20h00min. O clima tinha sido amenizado e os primos já estavam com os ânimos animados — por outras razões, é claro. Andreas aproveitou o túnel do terror para fingir medo e correr para os braços de Ian que, com mais paciência, se entregava aos mimos do maior; foram juntos no carrinho bate-bate — mais levando batidas que distribuindo-as, já que Luan e Levi eram craques naquele brinquedo; Cama elástica, “Toca disco” (Tratava-se de um brinquedo que ficava girando em alta velocidade enquanto tocava uma música qualquer); Kami-Kase, montanha russa... E tudo mais que pudesse ser aproveitado. Foi no último, porém, que novamente Drê perdeu o controle sobre seus ciúmes. Quando estavam a caminho da roda gigante, alguém tocou o ombro de Ian. O rapaz não pôde deixar de conter a animação ao ver de quem se tratava.
— Grande Jonathan! — Exclamou, feliz. Posicionou-se bem a frente do garoto para que ele compreendesse o que dizia — Tudo bem?
— Sim — Respondeu no mesmo tom — Vim com meus pais.
— Sério?
— Aham. Foram na máquina de bichos.
— Eu perdi uma fichinha minha naquela p*rra.
— Azarado — Debochou.
— Nem tanto — Malicioso, levou suas mãos a cintura magra do menino, sempre com o sorriso travesso — Se eu fosse, não teríamos sido namorados.
— Hum… Se acha sortudo porque me namorou?
— Claro. Tu foi o primeiro guri que eu achei improvável de pegar, e olha só onde estamos nós.
Jonathan deu um gargalhada gostosa, daquelas que se dá quando presencia (com a visão, a audição , o que quer que seja) algo que gosta. Certamente, o menino gostava de ver Ian e seu jeito levado. Viveram muitos momentos felizes juntos. Mesmo agora, já separados, parecia que nunca iam se afastar definitivamente. Sempre estariam por perto. Não pôde segurar a vontade de beijá-lo ali, naquele momento, arrancando olhares maliciosos dos primos. Com exceção de um: O mais velho deles. Andreas tentou se controlar, se manter de cabeça fria para não haver irritações e discussões. Assim que saiu, acreditou que havia acabado. Mas não, Jonathan retornara mais animado, desta vez comprimentando o restante do pessoal. Ian, para piorar, grudou-se nele como geléia no pão, ficando abraçado a ele como se já tivessem voltado a serem namorados.
Foi demais. Em dado momento, Drê mentiu ao avisar Micael que lhe deu uma azia repentina e que retornaria para casa. Despediu-se só deste, deixando os demais para dar explicações outra hora. Considerava uma humilhação sem tamanho ter de ver aquilo sem poder reagir ou se expressar, apenas aturar. Como alguém poderia suportar aquilo? Quem gosta de ver o amor de sua vida de braços com outro e se conformar? Era incabível em seu jovem coração ter de sufocar seus sentimentos, seus impulsos e desejos, só porque o mais novo não tinha capacidade de se controlar, de ponderar suas ações para que não o ferissem mais.
Chegou em casa aos prantos, perguntando-se se a vida era aquilo: Sofrer, sofrer e sofrer mais. Quando sua felicidade iria chegar? Os dias de glória estavam tão escassos assim? Merecia ele algum minuto de paz interior para poder degustar da doce sensação de amar? Deixou que as lágrimas corressem por seu rosto como um rio percorrendo seu trajeto. Como este lhe caracterizava bem: Um rio, revolto, que só buscava a calmaria da natureza e não o tumulto das grandes cidades. Queria alguém que pudesse domá-lo, enfrentar suas águas turbulentas e fazer delas suas amigas, companheiras de todas as horas. No entanto, os marinheiros que tentavam nele viajar, se afogavam com sua fúria inexplicável. Sentia-se horrível com isso, Era triste se sentir incapaz de ser amado por alguém. Amor próprio? Hipótese boa para aqueles que se conformam com a dor e a perda, não para ele, um jovem que sonhava em transbordar de amor. A única pessoa que lhe proporcionou isso era, por ironia, a única que parecia não estar disposta a fazê-lo. Isso corria sua alma, deixando-a obscura, triste. Os primos já se preocupavam demais com seus atos e gestos tão frios e possessivos. Estaria doente? Sua mente já não funcionava tão bem? Talvez fosse o caso… Talvez tivesse chegado a hora de enfrentar seus demônios interiores para poder seguir em frente. Só não queria mais aquela amargura destruir toda sua existência.
21 horas exatas no relógio, foi quando de dentro de seu quarto preenchido pelo breu, ouviu a campainha tocar. Logo soube, pela voz da mãe, que era Ian. Revirou seus olhos inchados com aquela atitude. O que ele queria afinal? Notou que ele não foi de imediato em direção a seu quarto, permaneceu na sala conversando com sua mãe. O que conversavam? Estaria ele abrindo o jogo sobre tudo? Sua barriga gelou e suas mãos tremeram com a possibilidade. Permaneceu ali, imóvel, mudo, tentando afastar com toda força aqueles pensamentos. A voz de Nita, sua mãe, na porta, foi o que o fez se apavorar ainda mais. Ela chamou mais uma vez ameaçando arrombar a porta se ele não tratasse de abri-lá na mesma hora. Conhecia-a bem, sabia que não era improvável acontecer aquilo. Abriu a porta e viu ambos de braços cruzados a encará-lo.
— Qual o problema? — Questionou, com o rosto sério.
— Preciso levar um papo contigo, primo — Ian repetiu o mesmo tom.
— Sobre?
— Sobre tu ter vindo embora usando uma desculpa ridícula daquelas.
— Eu estava com azia. Queria que eu fizesse o quê? Me c*g*sse perna baixo pra provar?
— Para de bancar o engraçadinho que a gente não comeu nada lá pra tu passar mal!
— Bom, guris, entrem aí no quarto e conversem o quanto precisar. E, Andreas — Nita encarou-o com um olhar severo — Nós dois vamos conversar sobre isso ainda. Espera.
A mulher retornou pelo corredor de onde veio, indo provavelmente para a cozinha. Drê revirou os olhos. Agora tinha mais um problema nas mãos. Ian seguia parado em frente a porta lhe observando.
— Virei obra de museu pra ser admirado? — Ironizou.
— Vai deixar eu entrar pra trocarmos uma ideia ou prefere aqui no corredor mesmo?
Suspirou alto.
— Tá, Ian. Entra aí.
Assim o menino o fez. Entrou e procurou o melhor local para se sentar. Escolheu a cama do mesmo, era macia e boa de dormir, como fizera várias e várias vezes quando dormia ali. Agarrava-se com o primo a noite toda, entre carícias e o tesão do momento. Infelizmente, naquele momento, as circunstâncias eram outras. Sentou com as pernas em cima da cama, sugerindo que Andreas fizesse o mesmo. Contrariado, acabou por acatar. Ajeitaram-se de forma a ficar um de frente para outro, encarando-se nos olhos, sem mentiras ou escapes. Era a hora da verdade.
— Os guris já foram pra suas casas. Nos divertimos muito lá — Comentou.
— Que bom pra vocês — Drê não parecia feliz.
— Andreas, olha pra mim, por favor — Assim o maior o fez — O que tem de errado contigo? Tu anda emburrado, mal humorado, agressivo… Parece que virou um bicho enjaulado! Tu não consegue mais ver as pessoas felizes do teu lado que já fica amargo, desdenhando tudo. Pô, velho, cadê o Drê, meu parceiro, meu amigo, meu amante? O que tu fez com ele?
— Eu fiz? Tu que fez, né? — Revidou.
— E o que eu fiz, Drê? Me fala.
— Tu parece que faz as coisas de propósito pra eu sofrer, Ian. C*r*lho mesmo! Será que tão difícil pra ti ver a dor que tu me causa quando resolve se agarrar com alguém na minha frente?
— Drê, na boa, tu tá precisando de um psicólogo. Sério, não é possível que tu esteja tão alucinado a ponto de achar que eu virei teu escravo e que só posso ser feliz do teu lado.
— Então pra que me dar esperanças? — Não fez questão de impedir as lágrimas de caírem — Pra que agir como se eu fosse mais um casinho a parte na tua vida?
— Ei, eu nunca te tratei assim. Sempre fui muito claro. Aliás, eu só aceitei sair contigo de novo porque tu me prometeu que ia mudar. Tô vendo que foi só promessa mesmo.
Andreas chorou por alguns minutos, como se sua alma estivesse sendo lavada. Chorou, muito, sem medo de estar exagerando ou não. Ian permitiu que este lidasse com sua dor sozinho. Talvez fosse justamente aquilo que precisasse naquele momento: Sentir sua dor e colocá-la para fora. Depois de chorar tudo que seus canais lacrimais permitiram, suspirou alto.
— Eu tentei mudar, Ian… Tentei mudar por ti. Aliás, sempre foi assim, desde a praia no Cassino. Lembra? — O mais novo sorriu com a lembrança — Desde lá que eu vivo me modificando, me aceitando, pra ver se a gente consegue ser felizes juntos. O problema é que sempre tem uma p*rra entre a gente! Ou é Daniel, ou é Gil, Jonathan, Ágata e o c*r*lho a quatro! E eu tenho que lidar com isso sem teu apoio, carinho, porque quem os recebe não os merece — Referia-se a Dan.
— Tu fala tanto do Daniel e acabou ficando pior que ele. Sabia? Ele ainda entende as coisas algum dia, mas tu… parece que entrou no teu mundo e não deixa nada entrar.
— Eu só não aguento mais ser humilhado desse jeito. Só isso — O choro fazia menção em retornar.
— Mas isso não vai mais acontecer, Drê — Levou suas mãos ao rosto do maior, que o encarou — Porque, a partir de hoje, não vou ter mais nada contigo. E dessa vez não tem volta.
— Tu tá mentindo — Limpou uma lágrima — É só tu aparecer aqui nas férias de Janeiro que nem se lembra mais.
— Não, Drê. Eu vou me lembrar. Sabe por que? — Aproximou-se dele — Porque eu vou me lembrar dessa figura triste que tá aqui na minha frente. Alguém que perdeu a alegria de viver, a vontade de se permitir, tudo pra ficar comigo. Eu acredito sim que existem amores que exigem sacrifícios sim. Mas quando foi que eu exigi algum de ti? Quando começamos a ficar, eu te curtia horrores! Tu era legal, bacana, divertido, mimado às vezes, mas com um coração bom. E agora, Drê? Tu consegue se ver assim? — Fez sinal negativo com a cabeça — Pois é. Esse foi o teu erro. Começar a se sacrificar por si próprio e sem que eu pudesse fazer algo pra impedir. Eu lamento muito, mas não posso continuar te amando e te desejando enquanto tu viver com essa amargura dentro de si. Vou te ajudar a sair disso como eu puder, mas não será com o meu corpo, e sim, com a minha alma.
Ambos ficaram em silêncio por alguns minutos, até que Andreas o puxou para um abraço. Precisava daquilo, unir todos os pedaços destroçados de dentro de si para, quem sabe, conseguir se reerguer.
— Me desculpa, Ian — Suplicou — Desculpa....
— Tu sabe que eu te desculpo — Sorriu — Mas tu vai ter que se cuidar.
— Eu… — Engoliu seco — Vou tentar.
— Promete?
— Sim — Apertou ainda mais o ato.
Ficaram assim por alguns segundos, curtindo a companhia um do outro. Era tão bom poder se sentir reconfortado e amado pelo primo, nem que fosse por meros momentos. Por si, ficariam ali para sempre, mas os planos eram outros.
Quando se separaram, o mais novo pediu para que fossem até sua casa. Falou ter algo importante a mostrar. Andreas foi até o banheiro, passou uma água em seu rosto, e só então lá foram até dois andares acima para averiguar do que se tratava. Drê sentou-se no sofá, onde Ian pediu que ficasse, enquanto ia procurar o objeto. O garoto de sardas aproveitou para observar uma foto do primo, quando pequeno, em cima de um cavalo de porte. Sorriu ao lembrar da data. Na ocasião, um churrasco numa antiga chácara de um amigo dos pais do menino, ele e o primo se divertiram aprontando das suas, correndo pelo pátio, de algumas ovelhas mal encaradas que implicaram com eles, e, perto do meio dia, Ian pediu ao pai que lhe colocasse em cima daquele “Bicho enorme” como denominou. Sentiu-se um verdadeiro guerrilheiro com seu cavalo, arrancando risadas dos presentes, até de Drê, então com seis anos. Uma tarde maravilhosa, inesquecível, que nem o tempo e nem sua amargura o fizeram esquecer.
Por coincidência, Ian retornara justamente com um livro em suas mãos. Deduziu ser um álbum de fotografias, já que havia uma foto dos pais dele na capa. O garoto de olhos azuis parecia animado com a ação, pedindo apressado que abrisse logo o álbum. A primeira foto que vê é a do nascimento dele. Fora um bebê agitado, tanto que algumas fotos saíram tremidas, arrancando risos do maior. Passando para as próximas páginas, mais emoção: lembranças da infância, de brincadeiras e reuniões familiares (muito frequentes naquela época), onde a confraternização e a amizade reinavam e tudo era tão bom. As lágrimas tornaram a incomodá-lo assim que viu uma foto sua dando um beijo na bochecha de Ian. Deviam ter seus nove ou dez anos, enquanto omais novo fazia uma careta lambuzada por sorvete que lembrava bem o sabor: maracujá. Fora a primeira vez que ambos provaram dele, compartilhando na mesma colher. Também naquela ocasião que Andreas se sentiu diferente com relação ao primo. Estranho definia bem a sensação que invadiu seu peito. Demorou a acontecer de novo, mas lembrava-se dela como se tivesse ocorrido há poucos minutos. Momentos únicos, histórias domésticas que uniram a família toda, fazendo tudo valer a pena.
— Descobri esse álbum hoje meio dia. Minha mãe me mostrou — Comentava — Quando vi, pensei em te mostrar na hora, pra ver se a gente conseguia se entender de novo, sabe?
— A gente sempre se entendeu muito bem — Pela primeira vez no dia, conseguiu rir de maneira sincera, do fundo de seu coração — Claro que brigávamos, mas a melhor parte era fazer as pazes.
— Verdade — Imitou o gesto — Espero que tu tenha conseguido entender o que eu quis dizer com isso.
— Pra voltarmos a ser como esses dois aqui —Apontou para a mesma foto do sorvete — Primos e amigos em primeiro lugar. O resto é resto.
— Isso aí — Foi ao encontro do primo para lhe dar um abraço — Mas eu não posso ir embora sem fazer uma coisa.
— O quê?
— Ir na roda gigante contigo — Ficou animado.
— Como assim? Olha a hora que é!
— Dá sim! — Exclamou, animado — ‘Bora lá!
— Tá, tá. Se tu tá dizendo. Não adianta negar mesmo.
O outro riu. E então lá foram os meninos esperar de novo o motorista do aplicativo para conduzi-los até o parque. Esperaram pouco entre o tempo de embarcarem e o de chegada ao local. Resolveram que iriam direto até o brinquedo citado por Ian, sem perder muito tempo, afinal em meia hora o parque fecharia. Haviam, na fila, além deles próprios, outros três casais, todos héteros, mas felizes. Ver aquilo aqueceu um pouco o coração amargurado de Andreas, desejando com toda força que um dia conseguisse realizar aquilo — com o garoto a seu lado então seria como viver em um sonho.
Entraram no brinquedo, e sentiram-o levar para o ponto mais alto possível, a ponto de ver boa parte da cidade de lá de cima: visão privilegiada da capital gaúcha, tão bela e tão cheia de afazeres, que por horas passavam batido pelo cotidiano corrido de Andreas. Os olhos brilharam com a cena que vivia. Era um filme passando ao vivo e a cores para quem quisesse ver. A luminosidade em contraponto com os olhos cintilantes e azuis de Ian o fizeram aproximar suas bocas, unindo-as de forma frágil e delicada tal como aquela sensação. Por mais que quebrasse a promessa que fizera momentos antes, Ian não recuou, deixou que o primo o beijasse pela última vez. Dizem que é o beijo que nunca se esquece, pois era isso mesmo que queria: Que tudo o que viveram não fosse esquecido jamais.
CONTINUA
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