A Tempestade

4 Capítulo 4 - Rastros


Notas iniciais
Bom, fiquei meio em dúvida de como eu escreveria esse capítulo, mas acho que gostei, afinal. É interessante entrar num terreno que não foi explorado pela Stephenie, porque isso me dá mais liberdade para criar, e a idéia é essa.

Estou com cada vez menos tempo para escrever, mas agora deve ir mais rápido porque não preciso ficar relendo os livros originais.
Abraços!

\"Some people have to be
Permanently together
Lovers devoted to each other forever
Now I\'ve got things to do
And I\'ve said before
That I know you have too
When I\'m not there
In spirit I\'ll be there
Here is a plea
From my heart to you\"

Hooverphonic — Shake the disease

Mas eu não consegui ir muito longe. Porque ela foi para o lado errado da trilha. Afinal, ela era ninguém menos do que Isabella Swan, ímã de problemas. Não consegui deixar de perceber a ironia, mesmo através de toda a dor que eu estava sentindo. Apesar da vontade de ir embora, de sumir, eu não podia deixá-la sozinha e perdida na floresta, onde coisas ainda mais perigosas do que eu poderiam estar à espreita. Nós não éramos, afinal, os únicos seres sobrenaturais daquela região; os quileutes eram prova viva disso. Nós estávamos longe da reserva, e eles não se atreviam a vir muito longe, por causa do tratado, e do perigo de um confronto acidental, mas eu já havia desafiado a sorte muito além do que seria sábio.

Acabei, portanto, me impondo mais aquele castigo, e fiquei observando Bella de longe, invisível, enquanto ela andava a esmo pela floresta, procurando por pistas que pudessem levá-la até mim. Não era difícil permanecer invisível. Infelizmente a cada passo cego que ela dava adiante, com as mãos estendidas, eu a ouvia chamar meu nome com a voz atormentada pelas lágrimas e a voz quase inaudível, e me sentia afundar, nadando num poço de escuridão densa. Apesar disso eu tinha que permanecer alerta, atento.

Ao nosso redor o clima começou a mudar; a umidade se espessou, e nuvens carregadas de chuva surgiram com uma velocidade espantosa. Ela começou a andar em círculos depois de um tempo, mas sempre se afastando cada vez mais da casa. Perdi a noção do tempo enquanto a seguia de longe, com os sentidos embotados pela tristeza, pensando no que poderia fazer para ajudá-la. Eu não queria aparecer de novo, causar mais um desconforto para ambos. Alguma hora ela teria que parar, e então eu poderia pensar em algo melhor. A única coisa em que consegui pensar foi em retornar à casa de Charlie mais rápido do que um relâmpago, e deixar um bilhete para ele, escrito com a letra dela, para que ele soubesse onde ela estava. Para que ele pudesse procurá-la. Ela já estava perdida mesmo, meu dilema era se eu deveria ajudá-la ou não. Fiquei por alguns segundos na cozinha, olhando ao redor, para o ambiente familiar, me despedindo de tudo. Eu sentiria muita falta das horas passadas ali, flashes de memórias dela fazendo coisas ao redor já inundavam meus olhos. Me afastei da casa meio cego, escondi o carro longe dali, caso Charlie voltasse antes dela, e voltei para a floresta, para perto de Bella, seguindo seus rastros e seu cheiro.

Quando estava próximo dela novamente, já era quase noite. Quando a encontrei ela estava caída no chão, deitada curvada sobre si mesma, em posição fetal. Meu coração, que eu já julgava irremediavelmente partido, se quebrou em mais alguns pedaços. Fiquei de longe, olhando, hipnotizado, a mente fervilhando de questionamentos, de dúvidas e de tristeza. Quando percebi, meus pés tinham me arrastado até muito perto dela. Ela parecia estar dormindo, mas às vezes dizia algo em voz baixa, como em um delírio de febre, que nem mesmo eu conseguia entender, provavelmente porque as palavras não faziam sentido mesmo. E quando as coisas pareciam não poder mais piorar... Começou a chover. E foi nesse momento que eu ouvi o barulho dos grupos de busca. Já estavam procurando por ela.

Como eu poderia fazer para ajudá-los a encontrá-la? Infelizmente eu só conseguia ler pensamentos, e não mandá-los – havia rumores de vampiros que se comunicavam inteiramente através de pensamentos. Me desloquei pela floresta como se ela não existisse, até enxergá-los à distância. Era um grupo de uns dez homens, que estavam começando a se separar em subgrupos de três. Fiquei observando, até ver Charlie ao lado de um homem alto, conversando em voz baixa algo que eu não conseguia distinguir. Fiquei ali, no escuro, encharcado, tentando ouvir o que diziam, pensando em uma forma de levá-los até ela... Quando o vento mudou de direção e eu senti o cheiro.

Lobisomem.

Então um dos quileutes estava entre eles.

Nem aquilo conseguiu desviar meus pensamentos para a preocupação que eu sentia por Bella. Era totalmente secundário. Que fosse para o inferno os quileutes, eu queria tirá-la da chuva, mesmo que isso tivesse que significar expô-la a um deles.. Ou me expôr. De qualquer forma eu não tinha muito o que temer, Charlie tinha uma relação de amizade antiga com os quileutes, isso iria protegê-la. Era um absurdo da minha parte colocar a vida de Bella nas mãos de um daqueles lobos, mas eu não conseguia raciocinar direito, estava com a mente embotada, os pensamentos seguiam em cursos lineares como um rio. Então tive uma idéia.

Circulei o grupo de busca com velocidade, antes que ele se separasse por completo. A floresta iluminada pelas lanternas parecia ainda mais sombria, sob a chuva, com feixes de luz iluminando árvores que assumiam posturas ameaçadoras. A floresta parecia mais viva à noite. Consegui me posicionar de uma forma que o vento levaria meu cheiro até eles e fiquei esperando. Percebi o momento em que o homem alto que ainda conversava com Charlie ergueu a cabeça, atento, e farejou o ar num movimento quase imperceptível.

E então a caçada começou, e só o que sobrou em mim foi o predador. Senti meus músculos todos em prontidão, e os sentidos se aguçarem. Eu não queria entrar em combate com ele, então mantive a cabeça focada no objetivo, que era levá-lo até Bella. Comecei a me afastar do grupo, enquanto mantinha os olhos no homem alto, percebendo sua tensão e impaciência crescentes. Vi que ele ordenou algo às pessoas ao redor, e saiu vagarosamente, em minha direção. Quando ele estava fora da vista dos outros humanos, começou a correr.

Corri pela floresta na direção em que Bella estava, desviando das árvores sem pensar, dando grandes saltos sobre os obstáculo maiores. Aquilo fazia com que eu me sentisse incrivelmente vivo, em meio a toda aquela dor e perturbação. Fazia com que o embotamento sumisse um pouco. Afinal, eu estava fazendo algo por ela. Me permitindo fazer algo por ela. Ao longe eu ouvi o barulho do lobo me seguindo, ainda à distância. Ele provavelmente não se arriscaria a se transformar assim tão próximo de tantas pessoas, e isso me dava uma certa vantagem. Quando cheguei bem perto de onde Bella estava localizei uma arvora alta e densa, subi com um salto ágil e esperei.

Ele havia desligado a lanterna, e por mais silencioso que fosse, minha audição aguçada me mantinha a par de sua localização. Quando ele parou sob a árvore, era apenas um borrão na escuridão. A roupa escura ajudava a camuflar sua silhueta. Mesmo assim resolvi dar o primeiro passo, para mostrar que não era uma ameaça para ele.

Minha voz quase não ecoou na mata fechada. Tentei manter um tom neutro e despreocupado.

“Você está longe de casa, quileute. Devo considerar sua presença neste local como uma ameaça?” Eu mal podia acreditar na calma com que minhas palavras soaram. Se eu fosse vivo estaria pulsando com adrenalina.

Ele olhou para cima – eu consegui perceber o movimento sutil, farejando o ar. A voz era rouca e cautelosa, baixa.

“Eu vim ajudar com as buscas. Nada mais do que isso. Vim em paz, movido pela necessidade de ajudar um velho amigo. Devo imaginar que seja um dos Cullen?”

Consegui captar em seus pensamentos impressionantemente rápidos — e mesclados com impressões sensoriais — que ele não pretendia me atacar, até descobrir se eu era um inimigo.

Avisei antes. “Vou descer, não se assuste.” Desci num movimento suave e perfeito. Nos encaramos no escuro. Ele tinha o cheiro forte, desagradável de animal, de cão, de lobo. Eu nunca tinha estado tão perto de um deles.

“Meu nome é Edward Cullen. Estou aqui para ajudá-lo na busca. Sei onde está a garota Swann.”

Percebi em seus pensamentos que ele estava considerando que eu podia tê-la atacado, e estava se esforçando para não tomar uma atitude precipitada. Suas mãos tremiam de nervosismo, e eu senti a tensão crescente em seu organismo, e no ar ao nosso redor. Se aquilo estourasse, seria feio. Eu também estava com todos os sentidos alertas, caso precisasse entrar em combate. Resolvi tentar quebrar a tensão.

“Não fomos devidamente apresentados. Como se chama?” Minha voz continuava calma, com um mínimo de tensão. Ele pareceu confuso a princípio. Depois relaxou um pouco.

“Oh. Me desculpe. Meu nome é Sam Ulley.”

“Sam. Bem, Sam. Quer saber onde ela está? É noite e está frio, e ela é apenas uma humana.” Dizer aquilo me afundou mais uma vez em sofrimento, mas escondi tudo embaixo da máscara, que estava novamente no lugar. A voz dele traía a culpa que ele já me atribuía.

“O que aconteceu com ela, Cullen?” Senti um misto de ironia na pergunta.

“Ela se perdeu na floresta. Quando a encontrei, ela estava desacordada. Então percebi os grupos de busca e resolvi ajudar.”

“Porque não a acordou? Você a conhece da escola, não? Acho que até um pouco melhor do que isso.” A voz dele era amarga. Charlie devia ter contado algo a ele, ou talvez o velho Billy.

Pensei um pouco antes de responder, e acabei sendo sincero. “Estou indo embora, Sam Ulley. Pretendo sair da vida de Isabella Swan, como se nunca tivesse entrado nela. Pode me ajudar? Eu prefiro que ela nunca saiba que fui eu quem o guiou até aqui.” E dei as costas sem esperar uma resposta, indo até o lugar onde ela estava deitada.

Não me importei que ele visse. Me agachei ao seu lado, delicadamente, e toquei seus lábios com meus dedos uma última vez. Ela estava profundamente adormecida... Ou desmaiada.

Ouvi a voz grave de Sam.

“Não se preocupe. Ela não irá saber. Vou retornar para guiar os outros até aqui. É o tempo que precisa para deixar o lugar despercebido.”

Foi a minha vez de destilar amargura na voz. “Não se preocupe, eles não irão me perceber. Você vai encontrar o lugar com facilidade?”

“Eu vou farejar a trilha para voltar.”

Seguro de que ele conseguiria voltar, dei as costas e corri pela floresta mais uma vez, em direção à casa de Bella.

A casa não estava vazia. Alguns policiais tinham ficado por lá para coletar qualquer informação nova que surgisse e esperar, caso ela aparecesse. Mesmo assim não havia ninguém no quarto dela, e eu consegui subir e pegar as coisas que a fariam se lembrar de mim. O CD com sua canção. As fotos que ela tirara. Pequenas coisas do dia-a-dia. Vasculhei o quarto para recolher tudo. Percebi uma tábua um pouco solta no chão, e antes que eu pudesse pensar, levantei-a e escondi tudo sob a tábua. Fechei-a com cuidado, para que não deixasse nenhuma marca de que eu pudesse ter mexido ali. Não queria deixar as coisas longe dela. Eu não queria estar longe dela. Mas eu tinha que fazer alguma coisa.

Quando tudo estava pronto, dei uma última olhada para o quarto, inspirando profundamente o cheiro familiar que ela deixara. Eu não me cansava daquilo, e ainda naquele momento me perguntava se conseguiria realmente partir.

Fui até o carro com relutância. Cheguei ao Volvo escondido, e me sentei atrás do volante.

Eu estava perdido. Não sabia o que fazer. Peguei o celular e liguei para Carlisle. A conversa foi breve. Dez minutos depois eu estava na estrada, rumo ao extremo leste do país. Seriam setenta horas de viagem até New York, tempo suficiente para pensar no que eu tinha feito. E provavelmente, pensei, enquanto acelerava o carro, me arrepender de tudo.

Notas finais
Apesar de revisar duas vezes esse capítulo, não estou plenamente satisfeita, fico com a sensação de que algo está faltando. Por favor, comentem!

Beijos