A Tempestade
2 Capítulo 2 - Decisão
Notas iniciais
Glove é o líder do grupo de Vampiros locados em Nova York, e suas histórias serão desenvolvidas posteriormente ao longo da fic.
“When your day is long
And the night The night is yours alone
When you\'re sure you\'ve had enough of this life
Hang on
Don\'t let yourself go
‘Cause everybody cries
and everybody hurts, sometimes
Sometimes everything is wrong
Now it\'s time to sing along
When your day is night alone (hold on, hold on)
If you feel like letting go (hold on)
If you think you\'ve had too much of this life
To hang on”
Everybody hurts – R.E.M.
Quando o sol nasceu minha mente estava entorpecida. Eu havia passado a noite pensando em todas as coisas que haviam me acontecido desde que Bella havia entrado em minha vida, e em tudo que havia acontecido a ela. O desequilíbrio era extremamente injusto. Ela havia se tornado a razão da minha existência, o motivo pelo qual eu continuava andando todos os dias. Eu pensava nela o tempo todo, eu respirava Bella, eu vivia Bella, eu estava totalmente entregue ao amor que sentia por ela. Ela me trouxera luz, calor, beleza, vontade. E o que eu trouxera a ela? Feridas físicas e emocionais, uma hospitalização por lesões bastante graves após ela ter sido atacada por James, sem falar que Victoria ainda estava à solta; ela havia sido mordida por um vampiro, eu tivera que beber seu sangue contaminado, e agora ela quase fora morta mais uma vez. Visto de fora, aquilo tudo devia parecer um circo de horrores.
Como eu podia exigir dela que continuasse comigo? Como ela ainda conseguia ficar? Ela me amava. Eu acreditava nisso, mas como exigir que ela se sacrificasse dessa forma? Por mim, ela queria deixar tudo para trás – sua família, sua mortalidade, sua vida. Ela doaria o melhor que ela tinha por minha causa. Eu não podia permitir que isso acontecesse, seria monstruoso demais.
Ela ficaria mal a princípio, claro. Ninguém encara de forma casual uma rejeição, ainda mais depois de tudo que passamos juntos, e muito menos Bella. Mas os humanos, com suas vidas efêmeras, tinham uma capacidade de superação e adaptação muito diferente da nossa. As coisas para nós estavam presas no tempo, atemporais, solidificadas. Ela iria esquecer com o tempo, encontrar outro namorado, alguém que pudesse ter uma vida normal com ela, e talvez, eventualmente, ela até mesmo se esquecesse de mim.
Mas antes de conversar com ela eu precisava conversar com Carlisle, e decisões tinham que ser tomadas. E até aquilo acontecer, eu podia aproveitar meus últimos minutos com ela. O que eu precisava era ser forte o suficiente para só deixar que ela soubesse da decisão no último instante.
Me arrumei rapidamente e saí da casa silenciosa. Alice me avisara, um pouco antes do sol nascer, que iria se encontrar com Jasper e os outros. Eles estavam reunidos na floresta, caçando, e Alice tentaria convencê-lo a voltar para Denali por uns tempos com ela. Eles ficariam na floresta esperando minha decisão. Notei, com um certo desconforto, que eu não conseguia pensar em Jasper da forma que eu pensaria antes. Antes eu estaria preocupado, querendo estar com ele durante aquele momento difícil. Sabia que ele devia estar mortificado, cheio de culpa, mas eu não conseguia sentir nada. Eu sentia apenas um grande vazio, porque tudo que eu conseguia sentir dizia respeito a Isabella Swan. O que havia acontecido comigo?
Quando estacionei na frente da casa de Bella, bem mais cedo do que o necessário, Charlie já havia saído. Fiquei parado dentro do carro, ouvindo como ela se movia, os ruídos que fazia pela casa. Me concentrei em ouvi-la, e pude perceber os suspiros de dor que deixou escapar quando se vestiu após o banho, e quando fazia algum movimento brusco. A angústia ameaçou me invadir novamente, e lutei contra ela. Eu tinha que permanecer calmo. Eu tinha que passar por aquilo da forma menos catastrófica possível.
Minha vontade? Levá-la para longe de tudo, para uma cabana no meio do mato, onde eu pudesse ficar para sempre com ela, mantendo-a a salvo, olhando-a, tocando-a, sentindo seu cheiro, conversando com ela, rindo com ela. Ela acalmava meu coração. Mas a realidade era bem diferente. Ela nunca estaria a salvo enquanto eu estivesse a seu lado. E ela merecia uma vida própria. Ela tinha energia, sonhos, vida demais para virar o brinquedinho particular de um vampiro alucinado.
Quando ela finalmente ficou pronta e desceu, pude perceber seu grau de perturbação. Os olhos traíam a noite mal dormida e a ansiedade. Ela sabia que algo estava errado, mas ficou em silêncio. Talvez tivesse medo de descobrir o que era, e ela estava certa. Eu também tinha medo de como ela ficaria, mas eu precisava de forças para ir até o fim. E a única coisa que me dava essa força era pensar que ela enfim estaria segura.
Aquele dia se passou de forma irreal para mim. Quem estava ao lado de Bella era o outro Edward, o Edward que aprendera a se socializar com humanos, mantendo sempre a distância, uma certa frieza. O verdadeiro estava escondido profundamente dentro do meu peito, gritando, mordendo o ar, enquanto toneladas e toneladas de sentimentos o afogavam em silêncio. Consegui manter minimamente as aparências, abrindo a porta para ela entrar no carro, perguntando sobre seu braço, tentando não mostrar nenhuma revolta quando ela mentia para mim dizendo que estava se sentindo bem, para diminuir a minha própria culpa. Quando ela perguntou sobre a ausência de Alice eu disse a verdade, e pude ver a agonia em seus olhos. Seu corpo todo gritava sua sensação de culpa e desespero, e aquilo só piorou as coisas. Mas eu ainda queria ser sempre verdadeiro com ela, reflexo das decisões que eu tinha tomado em março, naquela noite em Port Angeles, ao decidir que não conseguia mais viver sem ela. E agora era setembro, e tudo aquilo parecia ter acontecido há muitos anos. Em outra vida. De qualquer forma ela não estava perguntando nada, e isso facilitava as coisas para mim. Eu era um covarde mesmo.
Quase não conversamos. Conversar era doloroso, fingir que nada estava acontecendo era doloroso, olhar seus olhos, sua expressão. As perguntas silenciosas de Bella flutuavam ao nosso redor, mas eu não podia dizer o que ela queria ouvir, que estava tudo bem, e que as coisas iriam voltar ao normal, porque não era verdade. Nada ia voltar ao normal, e a culpa era completamente minha. Com o passar do tempo ela ficou um pouco agressiva. A fúria de gato que ela sempre demonstrava ao se sentir ameaçada, e que tanto me encantava, mas dessa vez era diferente. A fúria não era mais tão inofensiva, era real e me machucava. Minha boca ficou completamente seca quando eu pensei que nunca mais iria ver qualquer reação dela. Ou seu sorriso, ou suas lágrimas. Ela estava ao meu lado e eu já sentia falta dela, dolorosamente. Queria abraça-la, encostar sua cabeça em meu ombro, deixar que ela chorasse suas angústias, tocar seus lábios. Mesmo em meio à crise aqueles impulsos não me abandonavam, e não me abandonariam nunca, eu tinha certeza.
Fiquei um pouco aliviado quando vi que ela precisaria trabalhar com os Newton. Era o tempo que eu precisava para conversar com Carlisle. Corri até a mansão, o chão voando sob os pneus do Volvo, estacionei de qualquer jeito na frente da casa, e me dirigi até o escritório. Ele estava sozinho. Esme provavelmente se juntara aos outros na floresta. Ela possuía uma capacidade rara de amor e doação, e sei que devia ter lhe custado muito me deixar sozinho com Carlisle. Ela, entre todos, era provavelmente quem mais entenderia a profundidade da dor que eu estava sentindo. Exceto Jasper, claro, mas Jazz não estava aqui. Nenhum deles estava. Por minha culpa.
Bati suavemente na porta, e entrei. Carlisle estava debruçado sobre um livro antigo de medicina, fazendo anotações numa folha de papel ao lado.
Sentei-me em uma das cadeiras de mogno, sentindo um pouco de paz ao estar ali. Carlisle sempre irradiava paz, e os lugares onde ele passava mais tempo tinham uma vibração parecida. Ele fechou o livro com todo o cuidado, deixou o papel e a caneta arrumados sobre a mesa, e se recostou na cadeira, olhos presos nos meus. Sua expressão era tranqüila e generosa. Mas ele estava preocupado.
“Como você está, Edward?” A voz era serena, apaziguadora. Eu quase esqueci o que estava acontecendo por um instante. Mas aquele não era momento de esquecer.
“Ah, Carlisle. Como pudemos ser tão ingênuos?” Deixei toda a angústia transparecer em meus olhos. “Ela nunca vai estar a salvo ao nosso lado.”
Ele sorriu levemente. “Você está certo, Edward. A menos que ela se torne um vampiro, ela nunca estará a salvo de nós. Mas nem mesmo isso poderá salvá-la do mundo. E você também não pode. O mundo segue suas próprias regras, e nós não temos controle sobre elas. De certa forma você está tentando controlar as regras, e isso é impossível.”
Fiquei em silêncio. A sabedoria de Carlisle sempre me deixava um pouco tonto.
“O importante aqui, Edward, é que você está tentando negar a ela um bem precioso: o amor. A ela, e a você mesmo. O amor que existe entre vocês é raro e profundo. Nenhum dos dois vai sair ileso se você se afastar, e eu temo que as feridas que esse afastamento irá causar são infinitamente maiores do que o benefício de segurança que você quer infligir a ela.”
“Carlisle, você fala como se eu quisesse castigá-la, e não é esse o ponto. Eu não quero que ela morra num acidente estúpido. E é isso que vai acabar acontecendo.”
“Eu compreendo, Edward. Seus medos não são injustificados. Mas você aparenta ter esquecido que estar com você e conosco é uma escolha dela. Ela resolveu assumir os riscos, em nome do amor. E em nome do amor você quer tirar dela o direito de escolha, e negar a vocês esse mesmo amor. Não é um pouco egoísta da sua parte?”
Fiquei chocado e sem palavras. Como Carlisle podia me acusar de egoísmo quando tudo que eu queria era que ela estivesse bem, viva, e em segurança?
“Edward. Você é meu filho, e não há nada neste mundo que eu queira com mais intensidade do que vê-lo feliz. A felicidade, para nós, nunca vem a custos baixos. E no seu caso, isso é ainda mais difícil. Se apaixonar por uma humana... Não é a coisa mais simples, e nós sabíamos desde o início. Mas todos pagamos para ver, ao estarmos ao seu lado, porque sua felicidade é importante. O amor é importante, através dele podemos alcançar coisas maiores do que nós mesmos. De muitas formas você é o mais brilhante de nós, Edward, e não é a primeira vez que eu te digo isso. Você não quer pagar o preço, quando ela mesma está disposta a pagar. Vai deixar que ela seja mais corajosa do que você?”
As palavras dele me feriam como agulhas. Ao mesmo tempo em que eu queria reconhecer a verdade delas, imagens de Bella ferida em várias ocasiões reais e irreais vinham à minha mente e apagavam todo o resto. Me apeguei ao que pude; eu não podia deixar que ela morresse, que sofresse mais ainda. Eu não podia viver num mundo onde ela não existia. Eu preferia morrer também.
“Carlisle. Como poderemos viver se um dia algum de nós se descontrolar? E se um de nós matá-la? E... e se eu matá-la?” Eu sabia que aquilo era um argumento indefectível. Porque a verdade tinha que ser reconhecida.
“Edward... Nada disso está fora de cogitação. Mas não é esse o ponto. Ela resolveu assumir esse risco. Por. Amor. A. Você.”
Ele pontuou cada palavra com uma ênfase que me machucava acima de qualquer coisa.
O mundo pesou sobre meu peito. Eu não iria conseguir apoio dele. Então precisaria ser uma decisão minha.
“Edward. Claro que eu vou apoiar você em qualquer circunstância. Mas eu preciso ajudar você a enxergar a situação de fora dela. De outras perspectivas.”
Em um piscar de olhos, ele estava com as mãos em meus ombros, segurando-os com força. Carlisle não precisava ler meus pensamentos para saber o que se passava em minha mente.
“Se for seu desejo, nós nos mudaremos. Eu tenho uma perspectiva de trabalho em Cornell, como professor, e há outros hospitais próximos em Ithaca onde posso trabalhar. Nós podemos conversar com Edward Glove em New York, ele é um velho amigo, então não teremos problemas com os vampiros locais. Nada em nossas vidas irá mudar. Não criamos raízes aqui... Apenas você criou. Se quer realmente deixá-las para trás, eu tenho que apoiar sua decisão. Talvez esse distanciamento o ajude a pensar melhor sobre tudo.”
Meus ombros caíram. Eu me sentia derrotado, como se fosse novamente uma criança. Eu achei que Carlisle tivesse uma opinião mais próxima da minha.
“Vamos colocar as coisas em prática, então. Vou encontrar Esme e os outros, e nós providenciaremos tudo. E você, volte para ela, enquanto há tempo. Dê-lhe algo a que se apegar depois, já que você vai deixá-la apenas com suas lembranças.”
“Ela vai se esquecer, Carlisle.”
“Me desculpe, Edward, mas eu não compartilho dessa sua certeza. Ou devo chamar de otimismo?”
Ergui-me da cadeira, e ele me abraçou. Eu queria chorar. Me afastei do abraço de forma um pouco rude e deixei o escritório. Depois eu tentaria me desculpar; naquele momento eu só queria voltar para ela.
Quando cheguei em sua casa, Bella ainda não tinha chegado. Aguentei a presença silenciosa de Charlie assistindo televisão enquanto eu contava os segundos até que ela voltasse. Era mais fácil fingir para Charlie que estava tudo bem; ele não tinha o grau de percepção que Bella tinha... E não era ele que eu estaria abandonando em algumas horas; não era o coração dele que eu estaria partindo.
Quando Bella chegou eu empurrei mais uma vez o Edward apaixonado para dentro da mente e voltei a assumir a postura distante. Ela era necessária, não só para que eu conseguisse levar aquilo até o fim, mas para que ela acreditasse no que eu iria dizer. Só de pensar naquilo eu me senti sufocar.
A noite foi estranha. Ela começou a agir de forma bizarra, desesperada. Quando ela trouxe a câmera e começou a tirar fotos, eu senti que meu coração poderia explodir de sofrimento. Ela sabia que algo ia acontecer. Em que ela estaria pensando? Será que ela havia percebido que eu pretendia ir embora? Se sim, porque não dizia nada? Porque não se revoltava? Tranquei os dentes para engolir toda a angústia, e tentei permanecer impassível, evitando seu olhar, enquanto fotografava ela junto com Charlie. Quando ele quis tirar uma foto nossa, tive que fazer todo o esforço do mundo para não abraçá-la, não enterrar meu rosto em seus cabelos, não dar a ela o conforto que ela merecia. Carlisle estava certo. Que tipo de pessoa eu estava sendo? A dor escalava limites impossíveis em meu peito, enquanto meu rosto permanecia distante e formal.
De repente eu não aguentei mais ficar ali. Quando ela me perguntou se eu voltaria mais tarde, desejei ardentemente ter estrutura para voltar, mas eu não tinha. Ela não pareceu tão desapontada, já devia estar esperando minha negativa. Como eu podia fazer isso com ela? Me afastei antes que eu desabasse, e entrei no carro enquanto ela permanecia na soleira da porta, na chuva, e eu dava as costas a ela e me afastava. Meus olhos permaneceram em sua figura, pelo retrovisor, até que uma curva me fez sair do seu campo de visão. Quando percebi estava na mansão. As luzes estavam acesas, e todos estavam ocupados preparando nossa mudança.
Corri até as árvores, me sentei em qualquer lugar e deixei a chuva me encharcar, como se ela pudesse, de alguma forma, lavar toda a agonia, o medo, a raiva, a dor, a angústia, o sofrimento, a solidão e qualquer outro sentimento para o qual ainda não existia nome, e que fazia parte da minha miséria. Depois de um tempo, senti que estava ficando entorpecido, e os sentimentos diminuíram gradualmente. Senti que aquilo não era real, no entanto. Ergui os olhos e vi Jasper, em pé próximo de mim, com o olhar também envolto em sofrimento.
“Edward...”
Interrompi suas palavras com um gesto de mão.
“Não há nada para se desculpar, Jasper. Nada mudou entre nós. Você é meu irmão. E essa é nossa natureza. Não é fácil lutar contra ela, e você passou por muito sofrimento. Um sofrimento que a maioria de nós não consegue sequer imaginar.”
“Você consegue, Edward. Não acho que eu jamais tenha sentido esse grau de dor pelo qual você está passando.”
Ele se sentou ao meu lado.
“Você vai melhorar com o tempo. Sua decisão já está tomada, e eu farei tudo ao meu alcance para torná-la menos dolorosa.”
Percebi o que ele estava oferecendo, e recusei. Não parecia justo que apenas Bella sofresse.
“Não, Jasper. Eu preciso dessa dor. Ela tem que me empurrar para frente.”
Ele me olhou, espantado, incrédulo. Depois seu olhar se suavizou.
“É compreensível, Edward. Afinal, seu sofrimento só não é maior do que o amor que sinto dentro de você. É justo que precise de algo quase tão grande para deixá-lo para trás. Respeitarei sua decisão.”
E dizendo isso ele se ergueu e se afastou lentamente.
“Preciso voltar para Alice. Ela não está lidando bem com tudo isso. Diz que não consegue deixar de ver flashes de vocês dois o tempo inteiro, e isso faz com que sua dor também a atinja. Ela gosta muito de Bella, Edward. De uma forma que nunca gostou de nós.”
Acenei com a cabeça. As palavras ficavam sufocadas em minha garganta. Desejei que Jasper pudesse ler meus pensamentos, ao invés do contrário. Eu podia escutar seus pensamentos confusos, seus dilemas, a preocupação comigo, com Alice. Até mesmo com Bella. Além da culpa, claro. Aquilo me deu mais forças. Não era justo continuar expondo todo mundo a culpas, medos, preocupações, por minha causa.
Voltei com ele para a mansão. Evitei o olhar de todos. Passamos a noite trabalhando em silêncio, enquanto o tempo escorria como areia, cada vez mais para perto do fim.
Notas finais
Espero, no entanto, conseguir manter um ritmo mínimo de um capítulo por semana, idealmente dois.
Até breve!
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