A Teia de Sangue
6 A Teia de Sangue: Capítulo 06 — Proteus
Notas iniciais
A Teia de Sangue
Capítulo 06: Proteus
O suor escorria pela face avermelhada de Josh, respingando em sua camisa verde. O adolescente não conseguia disfarçar tamanha apreensão que estava sentindo. Seus olhos claros estavam inquietos, arregalados, fitando todo o ambiente como se buscasse um perigo iminente. Tudo que havia acontecido nas últimas semanas foi o suficiente para deixá-lo desolado, degastado emocionalmente. Joshua ia, aos poucos, perdendo seu equilíbrio.
— Estou preocupado com você, Josh — a voz de Tommy ecoou pelo pequeno quarto de forma rígida e potente. O filho único dos Langerak estava sentado na própria cama ao lado do seu amigo de infância, Joshua. — Minha mãe ficou muito assustada quando você entregou aqui em casa daquele jeito... nunca mais faça isso, ok?
Joshua permanecia cabisbaixo, cruzando os dedos das mãos. Um silêncio estranho prevaleceu no cômodo. Tommy sabia que o companheiro de classe estava passando por problemas pessoais, principalmente depois de tudo que aconteceu no Instituto. O último encontro que tivera com Josh comprovava os pensamentos duvidosos que Josh estava tendo, pensamentos horrendo e, de certo modo, perturbantes.
— Hey — Tommy o chamou, dando um tapa de leve no ombro direito do amigo — Você sabe que pode contar comigo caso precise de alguma ajuda, certo? — Josh meneou a cabeça, ignorando as palavras de Tommy.
— Sua ajuda não vai fazer diferença se você continuar evitando os fatos, Tommy.
— Cara... — Tommy recolheu o braço esquerdo, erguendo-se na frente de Josh — Você continua com essa ideia maluca? Isso não está te fazendo bem, Josh. Acredite em mim, você tem que parar de confiar em tudo que um desconhecido te fala!
— Não! — a exclamação de Herdman fez com que Tommy recuasse surpreso com a explosão do companheiro — Você não viu o noticiário local? O que o agente funerário me disse está acontecendo, Tommy! E eu preciso que você e todos os outros estejam preparados!
— O que? Do que você está falando? — Tommy franziu o cenho, estranhando a fala de Josh.
— Droga — a fala de Joshua é interrompida por um suspiro longínquo, preparando-se para dizer tais notícias sombrias — Emma Morris morreu em um acidente de carro com o trem de Pretty Lake.
O jovem de cabelos negros arregalou seus olhos de mesma coloração. A notícia que Josh dissera fez seu coração palpitar levemente. Tommy conhecia Emma, chegou, inclusive, a manter um breve e antigo relacionamento com a loira. Langerak sente um frio embrulhar sua barriga, sentando-se na cadeira de sua escrivaninha.
— E não foi só ela, Tommy — o garoto continuou, engolindo em seco — Nosso professor de história, George, também sofreu um grave acidente. Não temos a confirmação, mas acreditamos que ele já esteja morto.
— Isso... — a voz de Tommy saiu cortada pela angustia que exalava de seu corpo.
— Duas mortes em um único dia! — bradou Josh, pondo-se imediatamente em pé. Suas pernas ainda estavam bambas, nervoso com tudo que descobriu. — Emma e George foram salvos pela minha visão e agora estão mortos! Você não vê, Tommy? O que Willian disse faz sentido! A morte está buscando quem sobreviveu naquele maldito acidente!
— Então você, a Kara e eu... todos nós vamos morrer de alguma maneira? — Tommy finalmente conseguiu proferir uma frase completa, ainda estagnado pelas duas mortes.
— Se não nos unirmos para combater isso... sim, nós iremos morrer! — Tommy sentiu um calafrio estranho assim que Joshua proferiu tais palavras. Aquele choque de realidade o deixou profundamente abismado. — É uma pena que duas pessoas tiveram que morrer para que você pudesse entender isso, Tommy.
— Mas como podemos impedir algo que transcende a matéria? — o jovem Langerak olhou para Joshua, fitando-o com um olhar confuso e desnorteado — Isso é insano, Josh! É impossível evitar algo tão onipresente!
— Nós daremos um jeito, acredite. Só preciso que você convença Scott e Kara a entenderem que todos estão correndo perigo — sibilou Josh. O jovem demonstrava uma confiança incomum em sua voz, Josh precisava do apoio de seu melhor amigo para que pudesse seguir em frente. — Nós vamos conseguir.
Ao contrário de Josh Herdman, Tommy aparentava sentir uma aflição tomar conta de seu corpo aos poucos, envolvendo-o em um turbilhão de sentimentos confusos e inéditos. Pela primeira vez sentia medo.
A verdade é que, desde a morte de seu pai, Tommy sempre buscou evitar tocar em tal assunto. Nunca foi o mesmo depois do acontecido, e isso se repercutia quando qualquer outra pessoa vinha a falecer. O jovem jogador de basebol se mantinha afastado de qualquer cerimonial, velórios e afins, sempre querendo correr de algo tão fúnebre e melancólico. Mas o fato de saber que ele próprio poderia morrer a qualquer momento era perturbante. Tommy finalmente entendeu o que Joshua estava sentindo.
...
Um clima estranho e desconfortante tomava conta do luxuoso casarão. O silêncio já havia se tornado algo intrínseco ao cotidiano da jovem garota, mas a quietude daquele momento lhe deixava profundamente irritada. Como poderia estar tudo tranquilo e normal com algo tão tenebroso acontecendo na pequena Pretty Lake?
Amélia Wheeler nunca imaginou que pudesse vivenciar os piores dias de sua vida na cidade que morava há exatos seis anos. Tudo em Pretty Lake soava pacífico e sereno para Amélia, distante dos holofotes e da agitação da capital. Sentia-se livre da preocupação excessiva que seus pais tinham quando moravam em Raleigh, podendo, finalmente, respirar.
O fato de estar prestes a morrer mexeu completamente com a jovem Wheeler. Agora, Pretty Lake exalava um ar misterioso, inseguro e agonizante. A pequena cidade poderia ser o local de sua própria morte.
— Alguém? — indagou enquanto caminhava pelo piso recém-polido da casa. — Mãe? Pai?
Ninguém respondeu. A garota de cabelos castanhos escuro subiu as escadas lentamente, fitando de relance os quadros de seus antepassados pendurados na parede clara. Por um momento deixou-se levar pelas lembranças de sua falecida avó, cujo carinho sempre reconfortava Amélia em momentos de aflição, algo que Amara e Elliot Wheeler nunca fizeram.
Contornando o corredor do local, Amélia logo avista sua irmã gêmea, Aurora, sentando no fundo de sua extensa cama, apoiando-se na parede do cômodo. Sua perna esquerda estava recolhida e evolvida pelos dois braços esguios da loira, que soluçava em intervalos irregulares, sem, porém, derramei qualquer gota de lágrima.
— Aurora? — Amélia adentrou lentamente no quarto deslumbrante da irmã, estranhando o comportamento da loira.
— Melie — Aurora ergueu a cabeça, sussurrando o apelido da irmã em um tom de voz quase inaudível.
Amélia estranha, de imediato, o fato de sua irmã gêmea chamá-la pelo apelido de infância; um nome que há tempos não ouvia sair da boca de Aurora. Uma angustia logo tomou conta de Amélia, que tratou de sentar ao lado da irmã, notando alguns cartões de créditos jogados pela cama.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou, tocando no ombro de Aurora — Onde estão nossos pais? Ninguém me respondeu quando entrei.
Aurora esboça um sorriso lateral, colocando uma mecha de seus cabelos loiros por detrás de sua orelha direita. A Wheeler mais esnobe gesticula um sinal negativo com a cabeça, ainda olhando para a irmã.
— Eles nunca estão aqui quando realmente precisamos, não é? — ralhou Aurora, desviando o olhar por alguns segundos — Já devíamos nos acostumar. — A voz da loira saiu rouca e seca, como se estivesse gritado à esmas nas últimas horas.
Amélia continua em silêncio, olhando para a pobre irmã. De fato, Melie já havia aceitado o fato de seus pais estarem estritamente voltados à questão financeira e social da família, preocupando-se mais com os resultados de suas empresas do que com as próprias filhas. Contudo, nunca os culpou por isso, mantendo sempre sua compostura educada e gentil. Amélia sabia que tinha uma vida estável devido aos esforços que seus pais tiveram, mas isso não impedia que a jovem ficasse desolada nos momentos em que eles estavam ausentes.
— Eu fui falar com a mamãe... — Aurora tornou a proferir, reacomodando-se na cama — Estava com medo, abatida. Tudo que precisava era de um apoio, um suporte. E sabe o que ele me mandou fazer? — a loira meneia a cabeça, arregalando seus orbes azuis — Ir às compras, Amélia! Nossa mãe não quis nem cumprir com o papel dela nessa casa!
— Aurora... — sibilou lentamente, surpresa com o desabafo da irmã. As duas herdeiras dos Wheeler sempre viveram em mundos opostos, deixando de serem próximas quando atingiram certa idade. Por isso, vê-la daquele jeito fez o coração de Amélia disparar momentaneamente.
— Acabei de ver no celular, você também deve ter visto. — Aurora entrega o celular para a irmã, mostrando uma homenagem que fizeram à Emma Morris em uma rede social — Emma está morta.
— George, nosso professor de história, também morreu hoje cedo. — Amélia relevou, fazendo a irmã ficar boquiaberta com a notícia. Aurora já não consegue esconder as lágrimas que escorriam pelas suas bochechas claras.
— O que diabos está acontecendo, Amélia? — a indagação de Aurora ecoou pelo ambiente com um tom potente de voz. A loira estava assustada com tudo que aconteceu nos últimos dias, temendo que o pior viesse a acontecer consigo mesma. — O que irá acontecer com nós duas? Você também sente isso, não é? Um medo descomunal domar seu corpo, fazendo com que suas pernas travem, seu coração acelere e que você sinta que não está segura!
Aurora fez uma pausa, enxugando as lágrimas de seu rosto. Amélia permaneceu estagnada.
— Eu estou tão assustada, Melie... — a loira continuou. Seu olhar demonstrava o quão amedrontada a garota estava, implorando por uma ajuda, seja ela qual for. — Sinto como se estivesse sufocada, sem poder pedir ajuda a alguém.
— Você não está sozinha, Aurora. — Amélia respondeu, aproximando-se um pouco mais da irmã — Eu estou aqui com você, nós estamos juntas. Não importa o que aconteça. — A jovem abraça a loira, envolvendo-a por completo.
Aurora apoia a cabeça no ombro esquerdo de Amélia, imergindo-se nas próprias lágrimas que respingavam na blusa da irmã. Amélia, por sua vez, acariciava lentamente as madeixas douradas de Aurora, sentindo sua respiração ficar cada vez mais pesada.
— Nós vamos ficar bem, eu prometo.
A voz de Amélia saiu em um sussurro ameno, como se a própria garota não acreditasse em tais palavras. Wheeler queria poder garantir tal segurança à irmã, mas, naquele momento, compartilhava o mesmo medo e temor que Aurora sentia, remoendo-se em seus pensamentos temorosos. Elas nunca estariam seguras até que a morte as buscasse, e Amélia sabia disso.
...
Havia acabado de chegar em casa. Estava exausta, abatida, chocada com o dia difícil que tivera. Tudo que mais queria era tomar um bom banho gelado, fechar os olhos, acordar no dia seguinte e ver que tudo não passou de um terrível pesadelo. Celina era positiva demais para aceitar o fato de ter um destino final certo e horrendo. Ela queria lutar contra isso, queria reverter os planos da morte.
Isso soava algo tão absurdo para Celina que, às vezes, a ruiva pensava se era realmente possível interromper a morte mais de uma vez. Celina Prescott sempre foi uma jovem que aproveitava ao máximo seus dias, vivendo de forma intensa e adorável cada segundo de sua vida. Sua personalidade e sua determinação também eram marcas registradas da garota; trejeitos herdados de sua mãe.
A ruiva foi criada sozinha pela mãe — com certa ajuda dos avós — após seu pai ser assassinado antes mesmo de Celina nascer. Talvez fosse a partir desse acontecimento que Celina buscou viver da melhor forma possível os seus dias. Moira Prescott, mãe da ruiva, batalhou muito poder dar a Celina uma vida confortável, repleta de saúde e atenção, trabalhando desde garçonete à atendente de posto de fast-food. Sempre com seu largo sorriso à mostra.
Celina caminhou pela casa de poucos cômodos, mas o suficiente para comportar quatro pessoas, com suas mãos soando frio. A ruiva mordeu o canto lateral do lábio inferior ao notar a ausência da própria mãe. Seu peito estava anelante, arfando intensamente. Lembrava-se de George embaixo do manto escuro. Morto. Sem chances de desfrutar da própria vida.
Seu coração apertou ao passo que se recordava do último diálogo que tivera com Emma, no clube do Instituto, e que agora a mesma tivera uma morte trágica e torturante. Uma garota tão jovial e espontânea, assim como Celina.
Um sonido baixo e abafado pelas paredes grossas da casa começa a chamar a atenção da ruiva. Prescott acaba sendo guiada pelo som que parecia ter origem no lado exterior da casa. Quanto mais se aproximava, mais nítido ficava para Celina do que se tratava; sua mãe.
— One of these days letters are gonna fall from the sky, telling us all to go free.. — os primeiros versos da música cantarolada por Moira Prescott são facilmente ouvidos por Celina, que logo surge na porta que dá acesso ao quintal. — But until that day, i’ill find a way to let everybony know that you’re coming back...
Os olhos de Celina tornam-se imediatamente marejados. A imagem de sua mãe regando as flores de seu pequeno jardim, enquanto cantarolava uma de suas melodias preferidas, fez o coração de Celina desacelerar por alguns segundos. Vê-la viva, feliz e contente era o suficiente para deixar a ruiva em paz consigo mesma.
Aquela poderia ser a última vez que Celina ouvira a voz de sua mãe. Por isso, decidiu não interromper, vislumbrando cada detalhe e ação de sua mãe.
— You’re coming back for me. — a doce e delicada voz de Moira conclui os últimos versos da canção. A mãe de Celina, também de cabelos ruivos escuros, agacha-se em frente de uma flor, cheirando-a com os olhos fechados.
Celina sorri, descruzando os braços. A ruiva decide caminhar lentamente em direção à Moira, surpreendendo-a assim que se aproximou o suficiente para ser notada. Mãe e filha se entreolham, ambas esboçando um esbelto sorriso em face.
— Você está uma graça, mãe. — ditou Celina, agachando-se ao lado da mãe.
— Celina! — Moira exclama surpresa, abraçando a ruiva. Ambas se sentam na grama úmida do quintal, contemplando o pequeno jardim que Moira regava. — Você demorou, achei que fosse dormir na casa de algum namorado.
Moira brincou, arrancando um sorriso de Celina que era um misto de tristeza e cumplicidade. A ruiva sentirá falta do bom senso de humor da mãe, assim como de momentos singelos que passou ao lado dela. Celina, aos poucos, aceitava o fato de que estava prestes a morrer.
— Aconteceu alguma coisa que você queira me contar? — Moira sentia que algo afetava o emocional de Celina, que nega com a cabeça, abraçando-a mais uma vez. — Tem certeza?
— Sim, estou bem — não, Celina não estava bem. A ruiva permanece abraçada à mãe, segurando as próprias lágrimas. Sentiu o cheiro perfumado de Moira, ouvindo sua respiração leve e serena acompanhada de um afeto único. — Eu te amo, mãe.
...
Já estava de noite quando Anne Herdman chegou em casa. Uma chuva fina pairava sob Pretty Lake, deixando-a levemente molhada. Aquele fora o seu último dia de plantão no hospital de Raleigh, devido a troca de folgas que fizera com uma amiga do trabalho.
Anne estava nervosa, aflita com o telefonema que recebeu mais cedo de Caterina Langerak, mãe de Tommy. Precisou antecipar as folgas para ficar perto de Joshua em um momento tão delicado e complexo. Sua cabeça doía diante do estresse do trabalho, mas seus pensamentos estavam focados em apenas uma pessoa; seu filho.
Assim que adentrou em casa, Anne lança sua bolsa preta no primeiro sofá que vê, andejando rapidamente em direção ao banheiro. A enfermeira fica estagnada em frente ao espelho por alguns segundos. Seus olhos fitam o vazio, relembrando algo que Anne queria evitar.
Anne abre a torneira da pia, levando a corrente de água gelada até seu rosto exausto, molhando-o repetidas vezes. O ato é intercalado com suspiros longos, relevando o cansaço e a preocupação de Anne com o que estava prestes a fazer. A mulher de cabelos escuros, presos em um rabo de cavalo mediano, sobe as escadas, indo em direção ao quarto de Josh.
— Filho? — a enfermeira queria ter certeza que Josh estava acordado — Você está bem?
— Oi, mãe — Josh respondeu. O garoto estava deitado na cama, mas não havia conseguido adormecer, não depois de tudo que aconteceu. — Estou.
— Escute, eu soube o que aconteceu com Emma e George. — Anne adentra no quarto do filho, acendendo a lâmpada que iluminava todo o cômodo — Sinto muito, Josh. — O tom de voz de Anne demonstrava a preocupação da mulher.
— O cerimonial de Emma será amanhã. — Foi tudo o que Josh respondeu, desviando o olhar.
— Josh... — Anne sibilou, fazendo-o olhá-la novamente — Nós precisamos conversar, preciso te contar algumas coisas. — A mulher concluiu, puxando uma cadeira do quarto, colocando-a ao lado da cama de Josh.
Anne sentou-se na cadeira, sem tirar seus olhos de Joshua. As mãos da enfermeira estavam trémulas e inquietas. Sabia que o que estava prestes a fazer poderia comprometer ainda mais a situação de Josh. Mas Anne não aguentava o fato de ver seu filho sofrendo, desesperado, e não poder ajudá-lo. A sensação de impotência remoía Anne aos poucos.
— Você deve saber que, antes mesmo de estudar para me tornar uma enfermeira, eu era completamente apaixonada por história, certo? — começou a proferir, fazendo Josh franzir o cenho, estranhando a fala da mãe. — Adorava estudar história, mas algo em especial me fascinava mais do que tudo: a mitologia grega.
— Sim...? — Josh ergue uma de suas sobrancelhas, sem entender onde sua mãe queria chegar.
— Sempre ficava lendo sobre os gregos, as divindades. Cada história me encantava de uma forma impressionante. — Anne ergue a cabeça, perdendo-se em suas lembranças. — Mas tinha uma história em especial que me chamou muita atenção e quero que você também saiba sobre ela.
A enfermeira fez uma pausa, voltando-se novamente para Joshua. Anne inspira e expira vagarosamente antes de continuar com o diálogo. Parecia estar se preparando para o que estava prestes a dizer.
— O mito de Proteus. — ditou calmamente. Tais palavras, de alguma forma, traziam um peso enorme em Anne — Caso você não saiba, Proteus era um dos filhos de Tétis, sendo ele uma divindade que trabalhava protegendo os rebanhos de Netuno. Certo dia, Proteus foi recompensado por Netuno com o dom do conhecimento do presente, passado e futuro. O dom da profecia.
Joshua ergue o tronco assim que Anne terminou sua frase. A mãe de Josh parecia querer contar algo ao filho que, para isso, precisou recorrer à mitologia grega.
— Mas esse dom atraia os interesses de muitos que queriam entender as artimanhas do poderoso destino. Só que Proteus não gostava disso — Anne faz uma pequena pausa, olhando fixamente para o filho — Ele fugia e, sempre que podia, assumia a forma de seres assustadores para afastar quem lhe incomodava. Proteus ignorou seus dons, prejudicando a muitos e a si mesmo. Ele só queria ficar livre de tudo aquilo e poder respirar em paz.
— Mãe — Josh sussurrou, sendo interrompido por Anne, que continuou com o discurso.
— Certo dia, Proteus acabou sendo cercado pelos interessados em suas visões proféticas. Não havia escapatória, ele teria que ver o futuro de todos, caso contrário, seria morto brutalmente. Proteus não cedeu à pressão, tinha medo do que podia ver... tinha medo de enxergar o futuro. Ele acabou morto antes de enxergar o futuro e avistar uma praga maligna se aproximando do vilarejo onde morava. Proteus poderia ter avisado a todos, mas o medo fez com que o desastre acontecesse.
— Mãe! — Joshua exclamou, exaltado, atraindo a atenção de Anne. — Onde a senhora pretende chegar com essa história? O que quer dizer com tudo isso? — Josh Herdman foi ríspido e direto com sua pergunta. Um silêncio torturante tomou conta de mãe e filho, que trocaram olhares por longos segundos.
— Não seja um Proteus, filho — Anne cochichou, como se tivesse medo de ditar tais palavras. O olhar da enfermeira estava quase a lacrimejar, mas Anne mantivera sua postura firme frente a Josh. — Não tenha medo de ver o futuro.
Anne conclui, beijando a testa do filho enquanto se dirigia para o exterior do quarto. Joshua permanece simplesmente parado, olhando-a sair de forma estranha. Aquela conversa deixou inúmeras perguntas na mente do garoto, que ainda mais problemas para dormir.
No lado de fora do quarto, Anne já se imergia em lágrimas sufocantes. Como mãe, toda a conversa que tivera com Josh foi dolorosa. A mulher estava sentada no chão, apoiada na parede do cômodo com suas mãos enxugando as lágrimas que escorriam pelo seu resto. Tentava fazer o mínimo de barulho possível para não atrair a atenção de Josh, e isso era torturante para Anne.
Ela esperava que Joshua entendesse o aviso que quis dar, caso contrário, seu filho poderia repetir o mesmo mito de Proteus.
‘’ Cause even though you left me here
I have nothing left to fear
These are only walls that hold me here
Hold me here, hold me here. ‘’
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