A Taça de Vinho
1 Noite atordoada X Vinho X Abandonada
Notas iniciais
Era uma daquelas noites.
Sabendo disso, a mulher caminha até a cozinha e retira uma taça de vinho juntamente de uma garrafa. O líquido é despejado sem limite; a quantidade chega quase no bocal. Mito se acomoda numa cadeira e degusta o vinho adocicado, enquanto sente o gosto ardido do álcool descer goela a baixo.
Poucas goladas são suficientes para deixa-la bêbada, se notava pelas risadas descontraídas e sem um motivo aparente. Momentos agradáveis do passado eram lembrados com auxílio da bebida, que além de tudo melhorava seu humor.
É desse modo que a mulher lida com noites solitárias como esta. Em que não podia mais vislumbrar a figura de um doce garotinho correndo pela casa, ou buscando aventuras naquela ilha pacífica. Anos preciosos que jamais retornarão e que a seu ver, passaram muito rápido. Mito tentou seu melhor para mantê-lo longe de tudo, porque ela era egoísta e não queria dividir Gon com o resto do mundo.
Porém de repente, a casa se tornou tão vazia e silenciosa...
O quarto dele permanece intacto desde sua partida. Mito nem ousava adentrar o cômodo. Os dias... Ah, tão monótonos. Não tinha mais alguém para dar simples ordens:
Vá tomar banho, lave as mãos, tire os sapatos antes de entrar.
Costumes que gostaria de recuperar. Agora, a mulher apenas se preocupa consigo, lava suas roupas, prepara sua própria comida.
Não queria se lamentar desta maneira, ele estava feliz em sua jornada. Mito gostaria muito de dizer que se alegrava também, mas suportar aquela rotina sem sua voz infantil pedindo-lhe abraços, era desagradável. Ela sentia-se fria, necessitava de seu calor. Sentia falta do aconchego daquele que outrora foi um filho.
Sendo assim, ela recorre ao vinho vermelho. Seu corpo experimentava um tipo diferente de calor. Não exatamente o que remetia aos tempos passados, era uma quentura inebriante. Não fosse pela bebida, já estaria aos prantos, consumida de tristeza, raiva, indignação. Infelizmente seu refúgio não queria mais a acolher. Aquela sensação de falsa felicidade custava a aparecer e quando surgia, desaparecia com extrema rapidez.
Vinha a frustração.
Mito larga a taça, agora amaldiçoada por não lhe estender mais ajuda. E sai para sentir a brisa refrescante de verão. Um ruído de algo se estilhaçando é ouvido, contudo pouco lhe importa. Enquanto o chão é cingido de carmesim, a mulher busca consolo na natureza.
Uma fagulha de esperança insiste em mantê-la com fé no amanhã. Pois uma surpresa em forma de carta, ou até mesmo a silhueta do garoto vindo em sua direção, trazia aqueles tempos de volta. Pena que por um curtíssimo período.
Pior é vê-lo partir de novo e de novo todas as vezes. Ela não queria isso e sim que Gon ficasse para sempre. Mito se questionava onde tinha errado. No entanto, ela sempre soube que era inútil amarrar as asas de pássaro que está destinado a voar longe.
Seu maior medo não é a distância que Gon alcançará. Ela teme que um dia, jamais possa vê-lo chegar através do horizonte.
Tanto faz, pois a única opção de Mito é esperar. Sempre esperançosa em ter ao menos, um resquício daqueles tempos. Tempos em que ela cuidava de um garotinho. Tempos em que ela acordava na manhã seguinte, feliz por ver ele ali debaixo de suas asas.
Tempos em que ela podia ser mãe.
Fale com o autor