A Song of Kyber and Beskar
22 Capítulo XXI - Cabeças a prêmio
Notas iniciais
– E para onde estamos indo?
Mergulhado no hiperespaço ao lado de Cad Bane no cockpit do caçador de recompensas emergente, Hoovar viajava às cegas pela galáxia, sem ter ciência alguma de seu destino.
– Se você vai atrás da Duquesa de Mandalore, independentemente do seu contrato com o Olho da Morte, você vai precisar de um exército – explicou Cad Bane. – Cada vez mais os Jedi se infiltram nessa operação e nós estamos vendo que o governo mandaloriano está reagindo. A contenção da revolta em Botajef foi uma mensagem clara que eles não vão se manter tão pacíficos assim. E, nesse tabuleiro, você é, atualmente, o jogador mais desfavorecido, sem soldado nenhum.
Hoovar precisou conter seus impulsos para não avançar no pescoço de Cab Bane e matá-lo naquele exato instante. Ele não precisava, a cada instante, lembrá-lo que havia destruído todo o seu império e a Guilda por um movimento juvenilmente arquitetado. Aquilo deixava Hoovar furioso.
– A questão é que eu sei onde encontrar um exército – completou Cad Bane. – Já ouviu falar em Geonosis?
– Aquele fim de mundo na Orla Exterior?
Cad Bane confirmou com a cabeça antes de prosseguir.
– Eu não sei o que a Federação de Comércio está planejando – disse. – Mas é algo grande. Um movimento bem ousado que eles têm tentado manter em segredo. Da noite para o dia, as fábricas de droides de combate no planeta foram reativadas. Os droides das linhas antigas pararam de ser produzidos e eles estão fabricando novos, mais modernos.
– E acha que vamos conseguir roubar esses droides mais modernos como? – questionou Hoovar. – Se eles estão produzindo isso em grande escala, como você sugeriu, deve haver uma segurança maior.
Cad Bane riu por um segundo.
– Nós não vamos roubar os novos – ele se explicou. – Vamos roubar o estoque de droides do modelo anterior. Que estão esquecidos em algum galpão no planeta. Esses sim devem estar sem segurança quase nenhuma. Esses nós vamos conseguir roubar.
------------------------------------
Sozinho na nave, não era difícil conseguir um pouco de silêncio. Ainda mais, em meio a uma viagem no hiperespaço. Até mesmo R3 havia lhe dado uma trégua e feito um pouco de silêncio, deixando-o a sós com seus pensamentos e angústias.
Sentado no chão, ao centro de uma pequena antecâmara nos fundos da nave, Qui-Gon meditava. Sua mente vagava por toda a galáxia, tentando atingir pontos próximos e distantes. Tentando sentir qualquer coisa que pudesse ter acontecido a Obi-Wan e Satine. Mas, eu seu medo, ele estava insensível à Força. Naquele momento, sua percepção falhava porque seu coração falhava.
Um erro. Um erro crasso. Um erro que, apesar de comum, era algo que todo Padawan passava todo o seu treinamento tentando evitar e controlar (e quase todos continuavam tentando, sem nunca ter pleno sucesso, durante toda a vida). Deixar que suas inseguranças obnubilassem sua conexão com a Força era um erro infantil e iniciante. Mas Qui-Gon há muito tempo havia aprendido a não se julgar por esse tipo de falha: antes de ser um Jedi, ele era um ser humano e, com isso, sabia que era imperfeito. Sabia que seu treinamento deveria focar em minimizar essas imperfeições, sem nunca eliminá-las. Se assim o fosse, deixaria de lado quem era.
– Eu sei que está aqui – disse o Jedi, que há muitos minutos sentia uma presença maligna com ele, como se tivesse sido atraída pelas suas inseguranças, como se esperasse se alimentar delas. – Apareça.
E, enfim, ele abriu os olhos, mas sem se levantar do chão.
Por um instante, nada se sucedeu. Apenas o silêncio. O mesmo silêncio de antes.
Mas isso logo mudou. Passos lentos e pesados surgiram, vindos do corredor. E, conforme se aproximavam, Qui-Gon sentia aquela presença maligna na Força se tornar cada vez mais forte. Cada célula de seu corpo parecia estar em um estado de alerta desconcertante, prontas para o pior. Um arrepio incessante percorria a sua coluna, quase o paralisando.
E, então, ali estava ele.
Dentro da nave, parado sob o arco da porta, vestindo uma túnica tão escura quanto um buraco negro e com uma máscara mortuária branca sobre o rosto, impossibilitando a visão até mesmo de seus olhos. Uma figura inexpressiva de puro ódio e medo. Darth Nihilus estava à sua frente.
– Eu achei que teríamos nos conhecido um pouco antes – Qui-Gon assumiu.
O Sith permaneceu em silêncio por alguns segundos, olhando fixamente para ele, quase como se penetrasse os olhos do Jedi e pudesse ver a sua alma, consumindo-a lentamente. E, então, ele falou. E o arrepio de Qui-Gon apenas se intensificou: por causa da máscara, o homem sabia que não veria lábios se mexendo, mas a voz que ouviu não vinha da figura tenebrosa à sua frente, mas de dentro da sua própria cabeça.
– Eu precisei esperar o momento certo – respondeu Darth Nihilus.
– Quando eu estou mais fragilizado, perdido em meus pensamentos de preocupação e angústia com o bem-estar do meu aprendiz e da Duquesa? – Qui-Gon rebateu. – Bem conveniente para você.
– Exatamente.
E, nesse momento, o Sith se sentou ao chão, em frente a Qui-Gon, olhando-o calmamente.
– Por que está aqui? – perguntou o Jedi.
– Para que você me enfrente e conclua o seu treinamento – foi a resposta.
– Não estou pronto, e você sabe disso.
– Sei – concordou Darth Nihilus. – Por isso, estou aqui para te instruir. Te ensinar. Te guiar.
Qui-Gon foi pego de surpresa pela resposta.
– Como mestre e aprendiz? – perguntou.
– Exatamente – Darth Nihilus respondeu.
A presença do Sith era maligna. Muito intensa no Lado Sombrio. Mais intensa do que qualquer outra que Qui-Gon jamais sentira na vida. As verdadeiras intenções do Sith eram indecifráveis e, portanto, havia apenas uma forma de descobri-las. Perguntando.
– Por que vai me ajudar? – Qui-Gon questionou. – Se meu trabalho é encontrar aquele que trará equilíbrio à Força, você e os Siths não se beneficiam em nada. O que você ganha com isso?
– Eu não busco glória ou reconhecimento – disse Darth Nihilus. – Não mais. Busco, como você mesmo disse, o equilíbrio.
– Mas você não ganha nada com isso – Qui-Gon insistiu. – Por que vai me ajudar?
– Porque é necessário.
Em meio àquela conversa, Qui-Gon finalmente entendeu. Assim como ele, Darth Nihilus também fora incumbido de uma tarefa pela Força. Não porque queria ou sequer porque entendia o que ela significava, porque compreendia que aqueles eram os desígnios da Força para ele. Assim como Qui-Gon, Darth Nihilus entendia o seu lugar e a sua missão, mesmo sabendo que não era sua função entender os motivos da Força. Sith ou Jedi, os dois eram peças que estavam sendo utilizadas, colocados no lugar certo e na hora certa.
– Você passou pelo treinamento das sacerdotisas, não foi?
– Sim – confirmou Darth Nihilus.
– E você também não conseguiu completá-lo?
E Qui-Gon entendia, finalmente, o que estava acontecendo naquela nave, em algum lugar do hiperespaço. As sacerdotisas haviam dito que, após o treinamento, Qui-Gon poderia personalizar e manifestar fisicamente a própria Força-viva, personalizando-se mesmo após a morte. Mas a figura de Darth Nihilus não era uma materialização da Força-viva que um dia habitou o corpo do Sith. Era apenas um espectro dele, manifestando-se na própria consciência de Qui-Gon.
– Não – a resposta do Sith era óbvia, conforme as novas conclusões de Qui-Gon.
Por um momento de silêncio, os dois homens se olharam fixamente. Apesar de tudo, Qui-Gon finalmente entendia o propósito do Sith para com ele. Quase podia confiar nele.
– Você vai me ajudar a encontrar o Escolhido? – perguntou.
– Vou ajudar à reconhecê-lo quando o encontrar – Darth Nihilus o corrigiu. – Vou te ensinar a percebê-lo tão profundamente que seu próprio Conselho não conseguirá.
E, nesse momento, Qui-Gon se lembrou. Uma das sacerdotisas havia lhe dito algo parecido. Havia lhe dito que o menino que ele encontraria seria desacreditado pelo Conselho Jedi, mas que Qui-Gon deveria ser insistente e garantir que o menino se transformasse em um Jedi.
– Quem é esse menino? – Qui-Gon perguntou diretamente. – Qual o seu nome? Onde vou encontrá-lo?
– Eu não sei – assumiu Darth Nihilus.
E Qui-Gon sentia que ele falava a verdade.
– E como acha que pode me ajudar a reconhecê-lo se você nem mesmo sabe quem ele é?
– O menino é filho do acaso – explicou Darth Nihilus. – Um acaso dos mistérios da Força. Um ponto de ruptura entre o crível e o incrível, entre o real e a ilusão. Um espírito antigo que encontrou no acaso a sua passagem ao mundo material. E, justamente por isso, ele carrega em si a expressão da Força pura. Além de qualquer Jedi, além de qualquer Sith. Uma fonte de poder quase ilimitado que será amado e temido pelo seu Conselho. Eles reconhecerão o potencial do menino, mas temerão que jamais consiga dominar os seus poderes.
– E ele vai?
– Nunca! – Darth Nihilus parecia chocado com essa possibilidade. – Mas ele terá o poder de tirar vidas, e também de criá-las. Você sentirá a Força ao redor dele mais intensa do que jamais sentiu em toda a sua vida. E mais do que sentirá na morte. Mas você ainda não está preparado para sentir um poder dessa magnitude. E é justamente por isso que estou aqui. Para que, quando você encontrá-lo, você não o tema como o seu Conselho irá temer. Para que você possa ser a ponte do menino para o seu destino.
– Mas se o menino é tão poderoso assim, como ele pode ser o equilíbrio? – Qui-Gon estava curioso. – Uma pessoa com tanto poder assim tem um potencial gigantesco de instabilizar ainda mais a Força.
– Mas ninguém disse que o menino é o equilíbrio – rebateu o Sith. – O menino trará o equilíbrio à Força, de uma forma ou de outra. O menino é... o caos.
Cada palavra de Darth Nihilus apenas intensificava o arrepio na espinha de Qui-Gon, apenas lhe confirmando a magnitude a importância de sua missão. Mas, se a energia ao redor do menino era tão caótica assim e se cabia a Qui-Gon trazê-lo para a Ordem Jedi...
– Eu sei o que você está pensando – Darth Nihilus continuou, antes mesmo que Qui-Gon pudesse falar. – Que o menino é perigoso e você estará colocando ele dentro do seu Templo, dentro da sua Ordem. E nós dois sabemos o que isso significa, não é? Dias sombrios se aproximam para a Ordem Jedi e para a galáxia, mas esse período de trevas é necessário para que possamos chegar ao equilíbrio.
Nesse exato instante, Qui-Gon se lembrou da sua conversa com a sacerdotisa, mais uma vez. Pouco antes de desaparecer, ela o havia questionado se ele cumpriria seu dever para com o garoto mesmo se soubesse das coisas que o menino iria fazer.
– Caos para se chegar ao equilíbrio – raciocinou Qui-Gon. – Então... o menino trará destruição para que o novo possa ser constrúido?
À sua frente, Qui-Gon viu Darth Nihilus apenas fazer um movimento de “sim” com a cabeça.
– E quanto ao rapaz que vi? – Qui-Gon perguntou, lembrando-se do fazendeiro que, em suas visões, lutava contra uma “Alteza” e que presenciara a morte de Obi-Wan. – Lutando contra um Sith? O fazendeiro? Quem ele é?
– Ele virá muito depois do seu tempo – Darth Nihilus respondeu. – Quando o pó de seus ossos já tiver se perdido pela galáxia, quando os restos dos seus restos já não mais existirem. Mas ele será a missão de Obi-Wan, não sua. Mas, se você não cumprir a sua, Obi-Wan jamais poderá cumprir a dele. E, para que você cumpra a sua, eu preciso cumprir a minha. Somos todos peças na grande ordem das coisas, Qui-Gon. As ações de um refletem nas do próximo ciclicamente.
Qui-Gon havia compreendido muito bem a resposta. O fazendeiro não era da sua competência.
– E como você vai me treinar? – perguntou.
– Nosso treinamento começará em breve – respondeu Darth Nihilus, levantando-se do chão e se dirigindo para a saída da antesala. – Agora, você deve garantir a segurança de Obi-Wan e de Satine. Essa é a sua prioridade agora. Lembre-se, Obi-Wan tem uma missão a cumprir ainda em vida com o fazendeiro. E ele não poderá cumpri-la se morrer em Mandalore, não é?
Sem dizer mais nada, Darth Nihilus saiu da ante-sala. Qui-Gon ouviu seus passos se afastando pelo corredor até que, enfim, desapareceram. E, nesse exato momento, ele abriu os olhos, finalmente encerrando a sua meditação e, apenas então, chegando à conclusão de que absolutamente tudo o que acontecera nos últimos minutos... toda aquela conversa... havia se desenvolvido em um plano elevado da Força.
No carpete à sua frente, contudo, ainda era possível ver a marca no local em que Darth Nihilus havia se sentado.
------------------------------------
– Mandou nos chamar?
Por mais que Quinlan Vos, em particular tivesse uma persona mais descontraída, ele ainda era muito formal quando em frente ao Conselho. Afinal, ele sabia que, para conseguir uma daquelas poltronas, ele precisava passar a imagem de um Jedi sério e comprometido. Ele sabia muito bem qual máscara usar em cada momento.
E, naquele fim de tarde em Coruscant, quando ele e Aayla Secura foram chamados para a sala de conferências do Conselho Jedi, ele sabia que precisaria usar a sua melhor máscara. As notícias sobre o ataque ao palácio de Keldabe estavam espalhadas em toda a Holonet, bem como boatos de que a Duquesa se encontrava no palácio. E o Jedi sabia que precisaria muito bem (mais uma vez) fingir que não estava nem um pouco metido com aquela questão (embora ele, de fato, não soubesse muito, apesar de saber muito mais do que o Conselho acreditava).
– Creio que já devem ter ouvido falar sobre a batalha no palácio em Keldabe – começou mestre Windu.
– Sim, mestre – Aayla foi a primeira a se manifestar.
– Que a Duquesa estava presente, boatos sugerem – começou mestre Yoda. No coração do Grão-Mestre, ele sabia que não eram apenas boatos, a Força lhe dizia isso. – Contato com Qui-Gon e Obi-Wan estamos tentando, mas sem sucesso.
– O que apenas nos faz pensar que os boatos não sejam tão boatos assim – completou mestre Ki-Adi-Mundi.
– E em que podemos ser úteis? – questionou Quilan.
Houve um breve momento de silêncio antes que mestre Windu retomasse.
– Em suas meditações, mestre Yoda sentiu uma movimentação do lado sombrio dentro da família real.
– Na Duquesa? – questionou Aayla, impressionada.
Aayla havia conhecido a Duquesa Satine. Não havia tido longas e profundas conversas com a líder de Mandalore enquanto planejavam o resgate de Qui-Gon, mas, das poucas interações que haviam tido, a Jedi não havia sentido nenhuma forma de presença do Lado Sombrio na Duquesa. Muito pelo contrário. Apesar de não ser nem um pouco sensitiva à Força, ela tinha uma assinatura muito intensa na Força ao seu redor. Uma assinatura de muita luz, por sinal.
– De uma pessoa só a Casa Real de Mandalore não é feita – explicou mestre Yoda.
– A irmã mais nova da Duquesa, lady Bo-Katan Kryse – continuou mestre Plo Koon. – Algo grande está para acontecer com ela e, por algum motivo, esse combate em Keldabe pareceu expô-la ainda mais ao Lado Sombrio. A princesa ainda tem um grande papel a desempenhar nessa guerra e pode ser que nossos inimigos estejam atrás dela.
– E queremos alguém para fazer a segurança dela – concluiu Quilan.
– Exatamente – confirmou mestre Windu. – Além disso, precisamos de alguém lá para nos passar informações. E para investigar se a Duquesa estava mesmo em Keldabe no momento do combate. Precisamos de respostas para podermos agir, mas sem que Qui-Gon e Obi-Wan retornem nosso contato, estamos às cegas.
Imediatamente, Quilan fez uma reverência para os mestres do Conselho à sua frente.
– Traremos resposta o mais rapidamente o possível – disse.
– Avisaremos o primeiro-ministro de Mandalore que estão à caminho – rebateu mestre Ki-Adi-Mundi, com um gesto simples de cabeça. – Que a Força esteja com vocês.
--------------------------------------
Sua cabeça pulsava de dor e ela conseguia sentir um pouco de sangue escorrendo pela lado esquerdo do seu rosto, caindo pelo seu pescoço e chegando até o seu ombro de forma manchar um pouco o seu vestido. Ainda um pouco zonza e desnorteada, Satine Kryze se levantou do chão do cockpit e tentou se colocar em pé, mas cada um dos músculos de seu corpo parecia gritar de dor. Em toda a sua confusão, ela apenas conseguia ouvir um barulho do lado de fora da nave. Algo estava acontecendo...
– Obi? – ela chamou pelo Padawan, mas não obteve resposta.
Obi-Wan não estava no cockpit.
Com um pouco mais de força do que ela acho que seria necessário, a Duquesa conseguiu se colocar em pé e caminhar para fora do cockpit. Conforme de aproximava da rampa abaixada da nave, mais os sons do lado de fora se tornavam audíveis até que, em algum momento, ela percebeu exatamente o que eram: disparos de blasters.
No exato momento em que atingiu a rampa, Satine viu um soldado do Olho da Morte voando em sua jetpak, atirando contra Obi-Wan que, habilidosamente, conseguia repelir os disparos. Entre os dois, um segundo membro do Olho da Morte estava caído em meio à vegetação da selva de Kalevala, possivelmente morto ou, no mínimo, ferido o suficiente para estar completamente imóvel.
Mas a presença da recém-chegada não passou despercebida. Assim que a viu, o soldado do Olho da Morte recuou, afastando-se no ar e apontando o blaster contra Satine. Obi-Wan, felizmente, foi mais rápido: com um rápido gesto com as mãos, o Jedi conseguiu usar a Forçar para desviar a direção do blaster. O disparo, que inicialmente mirava o coração da Duquesa, atingiu a rampa de metal ao lado dos pés dela, fazendo-a se desequilibrar e cair.
Com mais um gesto das mãos, Obi-Wan conseguiu torcer o braço do soldado mandaloriano que, após um grito de dor, soltou seu blaster. Finalmente, com um último movimento (dessa vez, o mais brusco deles), o Padawan fez o soldado do Olho da Morte disparar em direção ao chão. Ele se chocou violentamente contra o solo e Satine pode ouvir o som de ossos se partindo. Depois disso, ele não se mexeu mais.
Antes que a Duquesa pudesse se mexer, Obi-Wan já a havia alcançado. Estava ajoelhado ao seu lado, olhando para a ferida em sua cabeça.
– Isso aqui está feio – ela o ouviu murmurar.
Instantes depois, Satine sentiu Obi-Wan enrolar algo ao redor de sua cabeça, tentando isolar a ferida. Bastara alguns poucos segundos para que ela percebesse se tratar de um pedaço do tecido das próprias vestes do Jedi.
– Consegue andar? – ele perguntou, ajudando-a a se levantar.
– Acho que sim – Satine respondeu, mas não tinha certeza.
– Ótimo – foi a resposta dele. – Nós precisamos sair daqui.
Ainda um pouco tonta com a pancada na cabeça, Satine deixou que Obi-Wan a conduzisse pela selva, embora ele mesmo não soubesse exatamente para onde estava indo. Era mais do que claro que seu objetivo principal era se afastar da nave: logo, os soldados do Olho da Morte que sobreviveram à batalha no palácio estariam ao lado da nave e, assim que vissem que os corpos de Obi-Wan e Satine não estavam ali, uma caçada seria iniciada. Quando isso acontecesse, era melhor estarem longe.
Ainda um pouco desnorteada com a queda e o trauma na cabeça, Satine deixou que Obi-Wan a conduzisse pela selva de Keldabe sem questionar. Sabia que ele não fazia idéia de para onde estava indo, mas ela não estava nas suas melhores condições de pensar. Na verdade, mal tinha condições de se manter em pé.
Alguns minutos (ou horas... ou dias...) depois, ela percebeu que Obi-Wan estava tentando fazer com que ela se sentasse. Sem oferecer qualquer forma de resistência, Satine o obedeceu e, ao se sentar, encontrou o apoio de uma pedra. Cansada, ela deslizou para o lado, deitando-se sobre uma superfície fria e úmida Obi-Wan se ajoelhou ao lado dela e, pela primeira podendo ver o rosto dele de perto desde a queda, a jovem percebeu que ele também estava ferido, com um corte em seu supercílio direito ainda sangrando ativamente.
– Você está ferido – ela murmurou, ainda sem conseguir focar o olhar nele.
– Eu estou bem – rebateu Obi-Wan, gentilmente, seus lábios se mexendo muito antes que Satine pudesse ouvir suas palavras. – Fique aqui. Eu vou voltar até a nave. Talvez exista alguma coisa dos nossos pertences que eu consiga recuperar.
Ainda lentificada, Satine mal reagiu. Suas palavras de “Por favor, não vá” saíram de sua boca muitos segundos depois, quando Obi-Wan se afastava dela, perdendo-se novamente em meio à floresta, incapaz de ouvir. Exausta e com a cabeça pulsando de dor, ela desistiu de chamar por ele, permitindo-se fechar os olhos e dormir.
Em sua cabeça, apenas um segundo havia se passado. Mas, quando Satine abriu os olhos novamente, não era mais dia. Ela logo percebeu que estava no interior de uma pequena gruta e, de onde estava, podia ver duas das três luas de Keldabe no alto do céu. Mas havia uma outra fonte de luz: uma fogueira (àquela altura, quase apagada) queimando a menos de um metro dela. Encostado à parede da gruta, há poucos centímetros da fogueira, ela encontrou Obi-Wan, encolhido de frio dentro do seu robe Jedi. Ele mantinha os olhos fechados e, por alguns segundos, Satine tentou imaginar se ele estava meditando ou se havia dormido sentado. Em seu supercílio, havia um curativo um pouco mal feito e manchado de sangue, mas que ainda parecia útil.
Apenas no momento em que se levantou foi que a jovem percebeu que estava com um cobertor sobre o seu corpo (provavelmente, resgatado dos destroços da nave por Obi-Wan algumas horas antes). Ela ainda tinha muita dor de cabeça, mas já não estava tão tonta ou desnorteada como antes. Pelo menos, estava suficientemente bem para andar. Ao se levantar, saindo da proteção oferecida pelos cobertores, a Duquesa se lembrou de como as noites em Keldabe eram especialmente frias.
– Obi? – ela o chamou.
Mas o rapaz não respondeu.
Ela, então, lentamente, sentou-se ao seu lado e jogou as cobertas em sua mão de forma a envolver a si mesma e ele. Foi apenas quando ela pousou a cabeça no ombro do Padawan foi que ele acordou.
– Tine? – ele questionou. – Como você está?
– Melhor – ela respondeu. – E você?
– Melhor agora – Obi-Wan sorriu para ela e a abraçou, trazendo-a cada vez mais perto de si.
Satine empurrou o peito de Obi-Wan e o rapaz pôde ouvi-la murmurar um “Deite”. Ele obedeceu e Satine se deitou no chão ao seu lado, de costas para ele. A Duquesa, deixou que ele a abraçasse pela cintura e depositasse um beijo em seu ombro.
– Obrigada – murmurou Satine. – Por salvar a minha vida. Mais uma vez.
– Eu te salvaria mais mil vezes e você não precisaria me agradecer por nenhuma delas – Obi-Wan respondeu quase que imediatamente.
Satine se virou, passando a olhar diretamente para Obi-Wan, no fundo de seus olhos. Ela avançou e depositou um tímido beijo em seus lábios antes se afastar e deitar sobre o braço estendido do rapaz.
Naquele momento, ela se sentia a mulher mais segura de toda a galáxia.
Ela se deixou se perder nos braços de Obi-Wan e... no segundo seguinte, já era dia. Os primeiros raios de sol surgiam no horizonte, tingindo o céu noturno com uma fina faixa de luz alaranjada no horizonte, iluminando o interior da gruta com uma luz fraca e débil e que não permitia vez nada com clareza, apenas distinguir silhuetas próximas.
Como a da fogueira apagada, que já nem mais soltava fumaça e cujo fogo extinto não mais aquecia o ambiente, que estava mergulhado em um frio insuportável. Um frio que logo desapareceria assim que o sol nascesse plenamente, dando lugar ao calor e à vida exuberante da selva de Keldabe.
Nos últimos instantes de escuro daquela manhã, Satine olhou para o contorno do rosto do homem deitado ao seu lado. Por alguns instantes, ele ficou imóvel, observando-o enquanto milhares de pensamentos cruzavam a sua mente. Sobre ele e sobre ela, mas, acima deles, sobre Mandalore. Sobre tudo o que estava acontecendo. Sobre as perguntas para as quais ela não tinha resposta.
– Bom dia – ela sussurrou.
Obi-Wan não respondeu. Aparentemente, ainda muito imerso em seu próprio sono.
Satine resolveu não tentar mais acordá-lo. Em breve, a iluminação e o calor irão fazer isso por ela.
Lentamente, ela se virou, dando as costas para Obi-Wan. Um gasnido escapou de seus lábios quando, nesse exato instante, ela olhou para a saída da gruta. Alí, iluminada pelos quase insignificantes raios de sol da manhã, havia a silhueta de uma pessoas. Estava em pé, parada olhando para eles.
O coração de Satine acelerou e ela só conseguiu pensar em recuar. Levantando-se agitada e aos berros, a jovem acordou Obi-Wan que, em questão de menos de um segundo, também estava em pé, o sabre de luz ativado preso em suas mãos.
Com a pouca luz que emanava da lâmina de plasma, Satine pode ver que aquele que os emboscava era uma mulher. Em reação à movimentação na caverna, a recém-chegada sacou uma pistola de seu cinto, apontando para os dois. Mas ela não atirou. No mesmo movimento em que os ameaçava com a arma, ela levantou o outro braço, estendendo a mão para eles, como se pedisse que parassem.
– Quem é você? – urrou Obi-Wan.
– Você não tem o que temer, Jedi – disse a mulher, uma voz rouca, mas (por algum motivo) amigável. – Eu estou aqui para ajudar.
– Qual o se nome? – Obi-Wan tornou a perguntar.
– Meu nome é Olena Ohnaka – foi a resposta. – Estou aqui à pedido de uma amiga em comum, Maz Kanata. Ele me informou que estavam em perigo e que precisavam de ajuda.
– Aproxime-se – rebateu Obi-Wan.
A passos lentos, mas mantendo a pistola apontada para o rapaz, a mulher se aproximou. Iluminada pela luz azul do sabre, a ela surgiu das trevas, e o que antes era uma silhueta sombria se tornou a figura de uma mulher weequay que se vestia de forma pavorosamente estravagante. Sobre a cabeça, ela usava um turbante discreto e vermelho. Em seu rosto, um tapa-olho de metal ocluía seu olho esquerdo e, em seu pescoço, um dispositivo parecido com uma traqueostomia, colocado sobre uma imensa cicatriz longitudinal (teria alguém... cortado a garganta dela?), permitia que a sua voz saísse sem que ela sequer mexesse os lábios. Ruas roupas eram esfarrapadas, contrastante com o elegante sobretudo de couro de rancor e com as botas inegavelmente novas. Um visual que se completava com um cinto cheio de blasters e adagas.
– Será que podemos abaixar as armas? – ela perguntou.
– Nunca! – Obi-Wan rebateu imediatamente. – Para atirar em nós, nos capturar e nos entregar pela recompensa? Eu reconheço um caçador de recompensas quando vejo um.
A mulher apertou o gatilho e o disparo de luz laranja da pistola explodiu na pedra logo atrás dele.
– Então precisa treinar mais os seus olhos, moleque – a mulher que, até então, parecia calma, assumiu uma postura furiosa. – Eu não sou uma caçadora de recompensas medíocre como os que estão atrás de vocês. Eu sou... uma pirata!
E Olena parecia dizer essa palavra com orgulho.
– Mas, sim, eu entregaria vocês – ela assumiu, enfim, retornando ao tom de voz calmo. – Sua cabeça está sendo vendida no mercado negro por um valor... um pouco mais do que interessante. Mas ela... – Olena apontou para Satine — ... ela tem que ser entregue viva. E o preço é muito maior. Mas vejam só, hoje é o dia de sorte de vocês. Eu tenho algumas dívidas com a Maz e infelizmente não pude negar o pedido que ela me fez.
Um silêncio enorme se instaurou entre os três. Longos segundos que pareceram durar horas.
– Então, como vai ser? – interrogou a pirata. – Vamos abaixar as armas ou vamos ficar nos encarando e nos ameaçando até o dia que esse planetinha miserável seja engolindo por um buraco negro? Sem ofensas, duquesa – ela adicionou, lembrando-se que aquele planetinha miserável era a terra natal de Satine.
– Você primeiro – ordenou Obi-Wan.
– Que seja – Olena respondeu.
Revirando seu único olho na órbita que lhe restava, Olena guardou a pistola em seu cinto.
Imediatamente, Obi-Wan desativou o sabre.
– Doeu? – ela perguntou, irônica. – Foi fácil, não foi? Agora, vamos. Não tenho todo tempo do mundo e preciso entregar vocês com vida para o mestre Qui-Gon antes que algum caçador de recompensa nos encontre.
Sem dizer mais nada, Olena deu meia volta e saiu da gruta.
Por um rápido instante, Obi-Wan e Satine se olharam, pensando se deveriam seguir a mulher.
O grito de “Vamos logo!” de Olena, ecoando à distância, foi o que finalmente os fez se mover.
----------------------------------------
A nave saiu do hiperespaço.
À sua frente, Hoovar via um planeta desértico. E era isso. Apenas isso. Uma planeta de cor alaranjada. Um imenso e interminável deserto. Um local sem prosperidade e sem recursos, sem interesse algum por qualquer forma de governo. Inclusive, a República. Principalmente, a República. E, por isso, o local perfeito para esconder qualquer operação ilegal.
- Bem-vindo a Geonosis – disse Cad Bane, no assento ao seu lado no cockpit.
----------------------------------------
– Será que ela é confiável? – sussurrou Satine, caminhando pela selva de Keldabe lado a lado com Obi-Wan.
– Não faço idéia – o Padawan não conseguir esconder em sua voz o quanto toda aquela situação o deixava apreensivo. – Mas ela poderia muito bem ter nos capturado na gruta e não fez nada. E ela sabia o nome do mestre Qui-Gon. Não devia ser atoa, não é? Então, acho que tudo isso é um ponto favorável a ela.
– Talvez você tenha razão – Satine respondeu, embora ainda estivesse pouco convencida daquilo.
Desde que haviam conhecido Olena Ohnaka, ela deixara claro que a lealdade dela era à Maz, não a eles. E ela era uma pirata: esse tipo de gente não costumava ter uma lealdade fixa por muito tempo, além de terem um código de conduta próprio, individual e sempre muito questionável.
– Para onde está nos levando? – Obi-Wan perguntou.
– Para a minha nave – Olena respondeu, alguns metros à frente deles, sem olhar para trás. – Com sorte, vou conseguir tirar vocês dois do sistema Mandalore e mantê-los em segurança até que o seu mestre nos encontre.
– “Com sorte”? – Satine parecia não se sentir confortável com aquela expressão.
Olena parou de caminhar e se virou para eles enquanto os dois terminavam de percorrer a distância que os separava da mulher.
– A galáxia inteira já sabe do ataque ao palácio, Duquesa – ela explicou. – Até então, apenas Hoovar estava te caçando. Mas como o Olho da Morte não fez nenhuma transmissão sobre a sua captura, todo o submundo da galáxia sabe que você escapou. O preço pela sua cabeça explodiu e todos os caçadores de recompensa que você já ouviu falar na sua vida estão, nesse exato momento, vindo para o sistema Mandalore atrás de você, todos querendo te capturar e barganhar com o Olho da Morte. E não pense que você está livre disso, Jedi – Olena apontou para Obi-Wan. – O preço pela sua cabeça é bem menor do que o preço pela Duquesa, mas Hoovar aproveitou a mobilização de caçadores e piratas por ela e colocou você e seu mestre a prêmio também. Quem achar um, acha o outro e automaticamente leva a maior bolada já oferecida na história da galáxia.
Ao ouvir tudo aquilo, Satine e Obi-Wan sentiram seus corações disparar. Por fim, Olena concluiu sua explicação com a verdade que os dois já tinham acabado de aceitar:
– Não existe mais lugar seguro pra vocês. Principalmente, aqui. Agora, venham! Chega de enrolação! – Olena retomou o seu caminho. – Minha nave não está muito longe. Quanto mais rápido chegarmos a ela, mais rápido saímos daqui e mais rápido vocês vão se encontrar com Qui-Gon.
Por algum motivo, a pirata que os conduzia parecia ser confiável. Obi-Wan sentia o conflito nela: a vontade de entregá-los ao mesmo tempo em que era leal a Maz. O Padawan sentia que estavam seguros com ela, apesar de essa segurança ser delicada.
Olena os conduziu até um vale. Ali, no centro de uma clareira, havia uma nave. Não muito maior do que a nave que usaram para deixar Mandalore, tantos meses antes, mas visivelmente mais desgatadas. Como se já tivesse sobrevivido a muitas entregas de produtos ilícitos e (por que não?) batalhas.
– Chegamos – anunciou Olena, satisfeita, parando diante da sua nave e se voltando para os dois.
Satine parou de caminhar a alguns metros da nave para observá-la. De fato, ninguém jamais acreditaria que a Duquesa de Mandalore deixaria o próprio sistema a bordo daquela banheira. Era o lugar perfeito para se esconder.
Mas sua segurança se desfez muito rápido.
O disparo veio do meio da folhagem: dois círculos luminosos que atingiram Obi-Wan pelas costas. No instante seguinte, o Padawan caiu inconsciente sobre a grama. Satine avançou até ele no momento em que a expressão no rosto de Olena mudou completamente da alegria de ter chegado à sua nave para a apreensão de estar sendo atacada. A pirata, em um gesto de auto-defesa, levou a mão ao seu cinto, agarrando o seu blaster.
Antes de pudesse sacá-lo, no entanto, Olena também foi atingida pelo disparo atordoante. Mais uma que caia inconsciente ao chão.
Sem conseguir ver de onde seu agressor disparava, Satine foi a terceira a ser atingida.
Fale com o autor