A Sombra do Arco-Íris
1 Capitulo Único
Notas iniciais
É legal ouvir essas histórias de heróis, aonde são feitos de coragem e astúcia, e, após sua morte, já logo são tornados heróis pelo Homem da Lua. Mas e a minha história? Eu fui feita uma vilã. Eu não tinha um nome específico, apesar de gostar de Sombra. As pessoas me chamavam assim porque nunca conseguiam ver quem eu era. Mas irei lhe contar. Eu possuia cabelos e olhos negros como o céu noturno. Erapálida como um lençol branco, e usava uma roupa justa e preta, que ia de meu pescoço até meus tornozelos e pulsos, aonde se tornava sapato e luva. Não, não passava calor com ela. Eu tenho o poder da telecinese. Meu trabalho era, simplesmente, manipular as sombras para o formato das pessoas. Chato e entediante, eu sei.
Exatamente por isso, em um dia de verão, cansei. Resolvi andar um pouco na praia. Chutando areia e pedras, percebi que não eram só sombras que eu podia controlar. Com um gesto, a água do mar subiu suavemente, a alguns centímetros do solo. "Fantástico." me ouvi murmurar. Quem olhasse, veria apenas um pouco de água flutuando. Ninguém poderia me ver. Pois ninguém acreditava em mim.
Mulher da Noite? Sombra? História pra boi dormir. Eu estava cansada. Sabe, seres como nós, também possuem sentimentos. Também sofrem. Também sonham. E também se apaixonam. Sim, naquele momento eu estava apaixonada. Por um mortal. Moreno, olhos castanhos, lindo. Vivia no campo. Está certo que já haviam se passados anos desde a primeira vez que o vi, mas esse sentimento não me deixava escapar.
Sempre o observei de longe. Moldava sua sombra e de sua família com toda perfeição que me cabia. Ele nunca me notou. Eu fiz isso, eu o observei, até que ele me atravessou. Ele não me via. Mesmo com o meu "Oi" tímido quando ele se aproximou... Ele não me via. Eu não sei qual dor foi maior. A do coração partido, ou a de não existir. Foi nesse momento que me tornei uma vilã. Simplesmente por perceber que ninguém nunca poderia me ver. Então, nunca poderiam me punir. Porém, eu continuei o observando. O observei até sua morte. Até vê-lo cair. Eu vi o gelo se romper, tentei avisar, tentei gritar, mas ninguém ouvia.
A dor daquele sentimento voltou a mim naquela hora, e, fora de mim, puxei uma onda gigantesca para fora do mar. A água flutuava. Sobrevoei a cidade, usando a telecinese em mim, algo que nunca ousei fazer antes, e encobri parte da cidade com a água. Pessoas gritavam. Desmaiavam. Abandonavam seus carros e corriam em desespero. Mas tudo o que eu conseguia ver era aquele rapaz, sorrindo em minha direção, e me atravessando. "Eu não existo." disse, num sussurro. Senti meus olhos se tornarem opacos e completamente negros no momento que os fechava. "Que diferença faz, então?"
No momento que iria soltar minha onda de desespero na cidade, ouvi um grito ao meu lado, e o movimento no prédio a minha direita. Guardiões. Os idiotas que, só pelo fato de serem acreditados pelas crianças, achavam que podiam mandar em tudo. Francamente.
"Sombra!" Ouvi uma voz grossa pronunciar meu nome com desgosto. Abri meus olhos e soltei uma risada seca, virando para a direção do gordo e enorme Papai Noel.
"Noel. Que prazer receber sua visita. Acho que não o vejo desde que eu era viva. Aliás, alguma vez você já me visitou?" vi seus ombros encolherem. "Acho que não." O meu sorriso irônico ainda estava lá quando me voltei para o grande Coelho da Páscoa. "Coelhão! Deus, minha data comemorativa sempre foi a Páscoa. Uma pena que, mesmo quando eu era viva, não tive a felicidade de encontrar ovos escondidos pela casa." ele desviou o olhar. Fiz o mesmo, mas agora olhando para a Fada do Dente. Tão perfeitinha, com seus olhos turquesa e sorriso bonito. "Fada. Eu tinha, e tenho, dentes perfeitos. Cuidava deles com todo orgulho, e os esperava cair, apenas para colocar debaixo do travesseiro. Você não sabe a decepção que sofri ao levantar o travesseiro na manhã seguinte e ver que ele ainda estava lá." seu olhar raivoso murchou, e ela olhou para o chão. Sandman agora era o dono do meu olhar. "Sandie! Wow, acho que com você posso contar. Mesmo que tenham sido poucas vezes, eu sonhei. Você foi o único que se importou em me trazer algum tipo de alegria. Uma pena que todos os sonhos que eu pude ter, envolviam sair daquele orfanato o qual fui confiscada até a minha morte. Todos os sonhos que eu tinha..." minha voz falhou "Todos os sonhos que eu tinha, me destruíam." pude me ouvir rosnar ao final da frase, e me afastei, olhando para os quatro. "Vocês. Todos vocês. Dizem se importar com as crianças, dizem levar alegria a elas. Mas fazem isso apenas para aquelas que tem casa. Que já tem um cobertor quente para voltar. E aquelas que estavam lá, esperando a boa vontade de uma família os levar para casa? Vocês não se importam! Nunca se importaram. E mesmo com todas essas desilusões, todas essas decepções, eu não deixei de acreditar em vocês." um gosto amargo tomou conta de minha boca. Eu não poderia chorar. "Eu continuei acreditando em cada um. Quão idiota eu era. Mas não mais. Não agora." respirei fundo. "Toda a minha vida, eu fui ignorada. Pelas pessoas, por vocês, pelo Homem da Lua. Mas já chega. Eu estou farta. Eu voltei a vida com esses poderes por um motivo. E o motivo é es....." uma voz, atrás de mim, interrompeu minha fala.
"Esse não é o motivo de você ter voltado, Sombra." eu conhecia essa voz. Todo o meu corpo perdeu a força. Me virei para ele. Os olhos dele também pareciam surpresos. Ele parecia não saber mais o que fazer quando olhou para mim. O silencio predominou naquele momento. O vento brincava com meus longos cabelos negros, e fazia o mesmo com os cabelos brancos dele. Era ele. O garoto do campo. A minha paixão platônica. Eu o reconhecia. E, por algum motivo, ele parecia me reconhecer também. "Você..." eu não o ouvi terminar a frase. Sufoquei um grito e joguei toda a água de volta ao mar. Enquanto os guardiões observavam a água voltando, voei o mais rápido que pude para um beco escuro próximo. Não podia ser. Não era para ser. Sentei naquele beco imundo e abracei minhas pernas. De volta para a escuridão solitária, não é mesmo, Alice? Era assim que eu me chamava. Quando era viva, eu digo. Fechei os olhos e engoli o choro num soluço. Senti a movimentação ao meu lado, e o cheiro da brisa invernal entrou em minhas narinas. Jack.
"O que você está fazendo aqui?" perguntei, com os olhos fechados. Ele soprou o ar pelo nariz.
"Sabe. A pouco tempo, eu pude me lembrar de quando era vivo. Foi uma lembrança ligeira, eu sei. Mas, logo depois, tive a oportunidade de ver todas as lembranças que eu tive com mais atenção do que quando as vivi. E pude ver que você estava em todas." Sufoquei o ar pela garganta e abri os olhos em pânico. Droga. Olhei para ele, estupefata, e ele riu. "Você estava lá. Cuidando de mim e de minha família. Cuidou de minha irmã depois que eu... Bem. Eu não poderia ser mais grato." Gratidão? Pff. Eu era grata, sim, mas por ele existir e me lembrar o que é sentir algo. Respirei fundo, e ele continuou. "Quando eu era vivo, tinha sonhos." o vi desviar o olhar para o céu. "Com uma garota. Uma bela garota de cabelos loiros e olhos claros. Em todos os sonhos, fazíamos algo diferente. Jogávamos bolas de neve, fazíamos piqueniques, brincávamos de pique-esconde." talvez, ele tenha corado superficialmente. Ou talvez tenha sido loucura minha. "Mas, no fim de todos os sonhos, ela dizia a mesma coisa. 'Eu não posso ficar, Jack'. Eu sempre supliquei para que ela ficasse. Fazia juras de amor, prometia procurar por ela quando acordasse." ele soltou um riso longo, como quem está se sentindo patético. Com o braço por cima de um joelho, e a outra perna dobrada por baixo do mesmo, ele tombou a cabeça suavemente para meu lado com um sorriso de canto. Ajeitei a postura por instinto, e logo me encolhi mais. "Mas ela nunca aceitava." continuou, olhando diretamente para mim. "Não. Ela sempre dizia 'Não poderemos nos ver mais, Jack. É errado'. Mas, se era errado, por que eu sempre senti que era tão certo? Por que, tudo perto dela, parecia tão correto?" um sorriso divertido brincou em seus lábios. "Sempre dizendo que eu não a veria mais nos meus sonhos... Mas você sempre voltava, não é?" minhas bochechas tomaram um tom avermelhado. Abri a boca, numa tentativa de dizer algo, mas fui interrompida pela sua risada, que mais parecia uma melodia de inverno. "Alice. Você não voltou após a morte por causa do seu ódio. Você voltou por causa do seu cerne." ele me ofereceu a mão após levantar, e eu aceitei.
Ele olhou para o vento e me puxou protetoramente pela cintura, quando começamos a voar. Meu rosto poderia estar em chamas naquele momento, se eu não estivesse estupefata pelo que via. Após a minha onda, havia um arco cinza no céu. Pisquei algumas vezes, sem entender. "Você voltou por causa da sua esperança." sua voz calma pronunciou, quando estávamos perto o suficiente do arco para que pudéssemos toca-lo. Ele puxou minha mão, com uma delicadeza que não cabia a Jack Frost, e a colocou numa linha do arco, a retirando após alguns segundos. Aonde eu havia tocado, estava vermelho. Eu estava, com certeza, mais surpresa que ele. "Wow." ele disse. "Parece que a sombra tem mais cor do que pensávamos." pude ouvir ele dizer para os guardiões que se aproximavam, subindo pelas nuvens, mas seus olhos ainda estavam presos nos meus, com um sorriso divertido delineando seus lábios. Consegui sorrir, e voltei meus olhos para o arco, o tocando novamente, agora, em outra linha, que se tornou violeta. Comecei, então, a colori-lo. Avançava, sem olhar para trás. Ria e rodopiava, com meus olhos fixos naquele arco, o colorindo a cada hora numa cor. Azul, amarelo, laranja. Antes que eu percebesse, o cinza já possuía cor. Sorri, e, pela primeria vez em anos, me senti mais radiante que o sol. Só percebi que estava do outro lado do arco-íris, quando ouvi a Fada me chamar.
Olhei na direção dos guardiões, e todos me encaravam, estupefatos. Mas não por causa do arco colorido. Eles realmente ME encaravam. Olhei para baixo, e vi que aquela roupa negra já não era mais a minha. Pisquei algumas vezes, incrédula. Um vestido até os joelhos, idêntico ao arco na minha frente, com todas as cores na diagonal. Me mexi, e percebi que ele mudava. Era como se eu estivesse passando um espelho na frente do arco. As cores mudavam. Nos meus pés, suaves sapatilhas, do mesmo material que o vestido, refletindo as cores do arco. Sem entender muito o que acontecia, puxei um pouco de água para minha mão, e assim que olhei meu reflexo, a soltei, num grito sem som.
Meus olhos. Minha íris. Colorida. A cada olhar, uma cor diferente. Meus cabelos loiros haviam voltado. Toquei suavemente uma mecha, e ela se tornou vermelha. Toquei outra, e ela agora era anil. Fiz isso com várias mechas finas, até obter todas as cores do arco mescladas ao meu loiro. Trancei meu cabelo longo suavemente, deixando a trança cair pelo meu ombro direito, e caminhei pelo arco até os guardiões, que estavam tão estupefatos quanto eu.
"Seu cabelo..." murmurou a Fada.
"Seus poderes..." tossiu o Noel. Sandie fez um vestido com sua areia, tão estupefato quanto os outros.
"Que fome..." resmungou o Coelho, levando uma cotovelada da Fada. "O que? É sério, eu estou com fome."
"Linda..." ouvi Jack pronunciar, e logo em seguida desviar o olhar. Sorri de canto, envergonhada, e olhei para o arco. Os guardiões vieram ao meu lado, na ponta do mesmo.
"É.... vermelho..." começou o Noel, com o orgulho na voz ao dizer 'vermelho'. Bendita seja essa alma natalina.
"Laranja..." continuou o Coelho.
"Amarelo, verde, azul, anil..." cantarolou a Fada, rindo e sobrevoando o arco.
"...e violeta." Jack estava ao meu lado, e sorriu de canto, voltando os olhos aos meus ao pronunciar a ultima cor.
"É lindo!" A Fada anunciou, voando do começo ao fim do arco.
"É. Lindo." Jack disse, mas, por algum motivo, quando ele sorriu pra mim, pude sentir que ele não estava falando sobre o arco. Noel soltou sua risada típica.
"É magnífico!" passou a mão sobre o arco. O Coelho, que havia descido para o solo, voltou para a nuvem num pulo gigantesco.
"As pessoas... Esse arco motiva as pessoas." ele disse, estupefato. "Motiva as pessoas a continuar, diz a elas que tem algo de bom lá na frente!"
"É o meu cerne." pronunciei lentamente e olhei para Jack, sorrindo de canto. Noel, ao ouvir isso, se virou para mim e sorriu suavemente.
"O que é o seu cerne, querida?"
"Esperança." disse instantaneamente. Agora eu sabia. Ele balançou a cabeça afirmativamente.
"Acho que deveríamos dar um nome." ele disse, após algum tempo olhando ao céu, se referindo ao arco, e a mim. Me emburrei.
"Ei baixinha, você não pode se chamar Sombra. Sombras não são tão coloridas e radiantes assim." Jack riu e bagunçou meu cabelo, me fazendo apenas desviar o olhar.
"Você vai ver a baixinha do soco que vou te dar." murmurei, baixo, apenas o fazendo soltar outra risada, num tom divertido.
"Acho que deveria se chamar Arco Celeste." disse a Fada, voltando para perto.
"Não, deveria se chamar Arco da Aliança." disse o Coelho, satisfeito consigo mesmo.
"Arco-da-chuva!" disse o Noel, rindo.
"Nossa, que criativo, Norte." Coelho revirou os olhos, e todos começaram a discutir, inclusive Sandie, que desenhava coisas numa rapidez ilegível. Eu ri.
"Pessoal, pessoal." Jack chamou a atenção de todos com uma risada leve. "Não acham que deveriam deixar ela escolher?" ele me indicou e sorriu de canto. Todos voaram em cima de mim.
"E então, qual vai ser?" disse a Fada com um sorriso enorme. "Arco Celeste, né?"
"Não, ela vai escolher Arco-da-aliança." O Coelho disse, convicto, até ser empurrado por Sandie, que fez uma seta para si mesmo, indicando que era para eu escolhê-lo. A esperança que emanava de cada um deles me enchia de energia. Era impressionante. Era mágico.
"Bem... Ele pode se chamar todos. Arco-celeste. Arco-da-aliança. Arco-da-chuva. Arco-da-velha." sorri para Sandie. "Mas, ele será mais conhecido como... Arco-Iris." pronunciei, convicta. Todos eles se afastaram, pensativos.
"Por que?" Coelho disse, levantando a sobrancelha esquerda.
"Porque ele é feito da esperança que está no olhar de cada um." respondi, com uma calma que não me era típica. "A esperança de cada pessoa é que me tornou capaz de colorir esse arco."
"Eu gosto de Arco-Íris." a Fada foi a primeira a se pronunciar.
"Sim! Arco-Íris. Genial." Noel balançou a cabeça.
"É isso aí, Íris!" disse o Coelho para mim. Íris? É. Eu gostei disso. Sorri suavemente. Após tudo isso, todos os cumprimentos, pedidos de desculpas de ambas as partes, e a convocação de comparecer no polo norte no dia seguinte, sobraram-se apenas eu e Jack, sentados numa nuvem, observando o meu arco desaparecer no por do sol.
"E aí..." ele disse, após um longo silêncio. "Como se sente depois de ter recebido tantos elogios dos grandes guardiões?" ele engrossou sua voz nas ultimas duas palavras e riu um pouco depois. "É difícil fazê-los se desculparem. Tem que merecer muito." sorri de canto ao ouví-lo.
"Eu não sei." suspirei. "Eu ainda não consigo acreditar que tudo isso aconteceu. Encontrar você, ME encontrar... Não sei ao certo. É difícil de acreditar que toda minha vida mudou em uma tarde."
"E então...?" ele questionou, colocando o braço sobre o joelho do mesmo modo que ele havia feito no beco há poucas horas antes.
"Não sei. Talvez tenha mesmo acontecido. Talvez tenha sido só um sonho."
"Um sonho bom?" ele perguntou, virando para olhar para mim.
"É... O melhor deles." sorri de canto, me levantando.
"Daqueles que você não quer acordar?" ele também se levantava.
"Daqueles que fazem você se sentir vivo." disse, olhando para o céu.
"Você se sente viva agora?" ele se aproximava de mim. Como ele conseguia ficar mais bonito ao por do sol, eu não sei. Voltei meus olhos para ele.
"Mais do que nunca." sorri de canto, e, após um tempo de silêncio, puxei um pouco de nuvem, atirando nele como uma bola de neve e correndo sobre a mesma. Ele riu, tirando nuvem do cabelo, enquanto eu fazia outra bola.
"O que está fazendo?" perguntou, com um sorriso de canto.
"Me divertindo." disse, sorrindo suavemente.
"Como nos velhos tempos?" pronunciou, e, após algum tempo me olhando, um sorriso se desenhou nos seus lábios, enquanto ele jogava uma bola de nuvem do pé para a mão, se apoiando em seu cajado.
"É. Como nos velhos tempos."
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