A Sombra
1 A SOMBRA
O primeiro pensar é sobre a estética. Não dá pra entregar algo feio. Não quero falar sobre ela, mas ela vem e se faz primeiro pensamento, primeiro assunto e pronto. O que escrever, como começar, como falar, sobre o quê, manter a coesão. Tenho muito a dizer e pouca coesão. Planejo ingenuamente dialogar com os povos longínquos sem aprender a língua deles, sem saber de sua cultura e de seus costumes. Mas do que eu falaria se não do que de alguma forma sou eu? Espera, eu sei. Da estética.
A estética não sou eu com um ato de "não ser" de extrema violência. Eu deságuo de alguma nascente aleatória do mundo, que esguicha torto, pra todo lado. As vezes eu nem nasço e às vezes nasço arrebentando tudo. Os melhores momentos pra me ver jorrar são os que eu não deveria de forma alguma fazê-lo. E então vem esta sombra de estética e me faz ir pintar-me a imagem do que eu deveria ser. Uma sombra porque seria desumilde demais eu achar que a vejo e a entendo, que a vejo vindo e sei que é ela quem vem, ela não se identificou como estética, eu a nomeei. A sombra vem e primeiramente se coloca a minha frente, diante dos transeuntes que aconteceram por misterioso motivo de ver a grande cachoeira torta do meu ser. Como ela não é só estética, como bem sabe o mundo, mas sombra que me pertence, ela eventualmente se direciona a mim. Daí ela e eu nos tornamos um só, possuímos agora a mesma mão e a mesma mente. Analisamo-nos e desfazemo-nos e reanalisamo-nos e redesfazemo-nos. E de repente sou lido. Lido e visto. Assim sem muita compreensão mas digamos que talvez com um bocado de admiração (ou vice-versa). Não é tarefa da estética prezar pela humildade, embora esta última caia em suas garras vez ou outra. E de repente sou aqueles vários seres de variantes similaridades. O poeta, o engenheiro, o cobrador. Eu os vejo enquanto voo e me pergunto: o poeta que escreve sobre a poesia é poeta?
É inquietante. Eu sei que com a ajuda dessa entidade sombria eu posso transitar aí pelas ruas sem que me xinguem, sem que me prendam ou que me aplaudam, sabe, como aplaudem o palhaço num circo. Mas também sou agora a chuva que nunca chega ao chão. Mal posso imaginar o prazer de me espatifar contra a pedra, mesmo assim enquanto caio, imagino vários. Certo, a minha ajudante aqui está dizendo que estou abstraindo demais já. E pra falar a verdade, quando comecei a escrever eu tinha um objetivo de criar um texto bem mais palpável mesmo. Eu acho. Eu já não lembro. Lembro que eu queria muito falar sobre alguma coisa específica, talvez sobre a minha jornada, a queda da grande gota d'água, mas comecei a devanear na melhor forma de fazer isso e como era isso que estava na minha cabeça eu escrevi isso mesmo. Este texto pode até parecer uma grande reclamação, mas no fundo sei que me agrado imensamente destas prolixidades. Talvez porque elas me dão um senso de rumo fácil onde já não há nenhum. Se, por exemplo, eu saio de casa caminhando a esmo por aí, a não ser que eu destrua as casas pelo caminho e passe por cima delas, eu vou parar aonde quer a estrada quiser me levar, nada além disso. Dito isso, sinto que preciso praticar chegar a algum destino menos aleatoriamente fixo.
Certo. Definirei um objetivo que fuja do objetivo que me é imposto toda santa vez que abro uma página em branco e o cumprirei aqui. Mas como farei isso?, surge a questão. Sei, pra início de conversa, que quero ser o contador de histórias ideal pelo menos uma vez. Creio que isso implica evitar começar a falar o que eu quero tanto contar pelo fim do conto, pra que meu ouvinte não morra de tédio enquanto eu desenvolvo a história de trás pra frente. Sei que quero falar sobre o que eu ia falar mesmo, assim bem direto, mas sem que eu confunda o dizer com a entrega de informação. Lembrar que o direto pode ser verborrágico. Quero falar sobre algo que não seja o como eu vou falar este algo e...
Sinto que quanto mais eu me expresso neste desejo, mais longe estou de concretizá-lo. É como naquela breve crônica onde Bastião diz para Sebastiana "quero construir um navio" e ela diz "então constrói, ué" e resta a Bastião apenas olhá-la repleto de desprezo e rancor. Ela não entende que navio só é navio depois que sai por aí e desbrava todos os mares, que navio só é navio depois de estar equipados com os melhores canhões, que navio só é navio se tiver uma tripulação de marujos leais, que navio só é navio se a gente sobe nele e ele não afunda. Ou talvez ela entenda, sim, e Bastião goste de pensar que não, talvez por não ter motivos pra pensar que sim ou por achar que tem muito bons pra pensar que não. Quão profundos precisam ser Bastião e Sebastiana afinal?
Eu imagino então a coleira elástica que puxa o macaco de volta ao toco no centro. E o macaco me diz "você precisa entregar isso hoje". Este texto tem que sair hoje. A estética pensa em enlouquecer quando percebe que vou é fazer isso mesmo, mas como ela sabe que ela na verdade é só prima da prima da prima da verdadeira estética, resolve no fim que não vale a pena enlouquecer. Afinal ela só tem a mim pra se preocupar genuinamente com ela, seus parentes de verdade estão pra lá de Bagdá. Isso claro, não faz dela menos estética. Ela é apenas vencida por essa nova sombra que já não sei de quem é prima. Ou talvez ela só não seja tão fácil de falar como é falar da sombra da estética. É uma musa que não pula na frente dos fotógrafos e portanto não é capturada. Talvez seja aquela galera do fundão que não quer mesmo os holofotes e pronto. É possível que eles estejam muito bem lá, mesmo que acreditem que não. Se o objetivo deles é ficar bem eu não sei, mas também não sei se objetivo de todo mundo é alcançar algum objetivo.
Chegou o fim e eu não cumpri minha missão. Eu vou encerrar mesmo assim porque sinto que já cheguei ao ápice e depois do ápice nada mais é tão legal. Talvez eu cole este texto no início do próximo texto como uma introdução e a partir dali escreva qualquer coisa. É. Pode ser.
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