A Sexta Guardiã
6 Capítulo 5 - Não me deixe
Notas iniciais
Capítulo 5 — Não me deixe
E eu senti meu mundo inteiro caindo aos pedaços. Lágrimas já escorriam pelo meu rosto e eu sentia que podia cair de joelhos no chão a qualquer momento. Acho que Jack Frost também percebera, pois segundos depois ele já estava ao meu lado, segurando-me pela cintura.
– Angie, o que foi? — ele perguntou, preocupado.
Mas eu não conseguia ver o seu rosto. Na verdade, eu não conseguia ver muita coisa. Sentia-me tonta, como se pudesse pender meu corpo lateralmente a qualquer segundo, e minha visão estava turvada nas bordas, com poucos focos que realmente faziam sentido. E meu coração batia a mil no meu peito.
– Jack, me tira daqui. — eu disse em uma voz tão rouca e irregular que, se eu não soubesse que fui eu mesma que pensei essa frase, não reconheceria que fosse minha.
Eu não olhei para os outros enquanto guardava meu celular de volta ao bolso do casaco. Jack provavelmente estava ciente que eu não tinha muita coordenação sobre o meu corpo, pois logo me segurou em seus braços e voou pela abertura onde se via a lua cheia brilhando acima de nós. Era um pouco difícil para ele me segurar em seus braços ao mesmo tempo que tinha o cajado em mãos, mas ele conseguiu. Senti o vento frio das nuvens açoitando minha pele e estremeci, abraçando mais forte os ombros de Jack e enterrando meu rosto na curva de seu pescoço. E a temperatura baixa de sua pele como neve parecia entorpecer os meus sentidos e o turbilhão de emoções em meu peito.
– Ei. — Jack chamou minha atenção, virando seu rosto levemente em minha direção, mas eu não tirei o meu de seu pescoço. — O que aconteceu, Angel?
Apesar de tudo, eu ainda consegui sorrir com mais uma variação do meu nome. Mas tão rápido quando veio, o sorriso se desmanchou. Criei coragem e levantei meu rosto para encarar aqueles olhos azuis que me olhavam com preocupação.
– Meu pai. Ele sofreu um acidente. — eu disse, e pude sentir quando Jack me apertou mais contra seu corpo.
– Sabe pra qual hospital ele foi encaminhado?
Comecei a pensar em todos os hospitais entre Ottawa e a cidade da tia Sophie que ficava a poucos minutos de distância.
– Provavelmente para o Hospital de Ottawa. — eu disse por fim.
– Acho melhor se segurar. Vamos acelerar um pouco.
~*~
Pousamos em um beco lateral ao hospital. Não queríamos chamar a atenção para uma menina que simplesmente descia do céu. Eu nunca tinha ido àquele hospital, então eu estava extremamente receosa. Entrei na recepção, sozinha — Jack disse que era melhor esperar do lado de fora -, e fui até a enfermeira atrás da mesa.
– Quero ver Jamie Bennett. — eu disse com uma convicção que me foi uma surpresa.
– Ele não está recebendo visitas no momento pois seu estado é muito grave. — disse a enfermeira friamente.
– Eu sou filha dele... — disse, e eu percebei que meu tom de voz se tornara quase suplicante.
– Sem exceções, senhorita Bennett. — ela se mostrou irredutível.
– Mas ele precisa de um acompanhante! — eu insisti, procurando por qualquer jeito de poder ver meu pai.
– Cassie Bennett já o acompanha.
Claro, minha mãe...
– Não tem como ligar pra ela para trocarmos de lugar? — perguntei, ansiosa.
– Não. — ela disse simplesmente, e voltou aos seus afazeres.
Voltei correndo para o lado de fora do hospital, segurando as lágrimas, e encontrei Jack no mesmo lugar onde descemos.
– Procurei por ele pelas janelas e ele estava com uma mulher. — ele disse assim que me avistou.
– Minha mãe está acompanhando ele. E eu não posso trocar com ela. — eu disse e, depois de alguns segundos de silêncio, finalmente perguntei, mesmo ainda receosa. — Como ele estava?
Jack analisou minhas feições, como se procurasse por algum sinal de que eu não conseguiria ouvir uma notícia ruim. E eu via em seus olhos que a situação podia me surpreender, mas ele conseguiu palavras boas para não me chocar.
– Ele não está nada bem, Angie.
Foi quando minhas últimas defesas falharam e foram abaixo. Me joguei nos braços de Jack Frost e chorei. Ele ficou surpreso, mas logo me envolveu pela cintura e acariciou meus cabelos confortavelmente enquanto eu soluçava. Ele demorou quase cinco minutos para me fazer acalmar.
– Ei, calma. — ele sussurrava em meu ouvido com um vento frio e, se eu não estivesse soluçando tanto, juraria que tinha me arrepiado. — Ele não está bem, mas vai ficar.
Eu respirei fundo, finalmente restaurando o controle sobre mim, e me afastei dele. — Tem razão, ele vai ficar bem. — eu disse, limpando o resto das lágrimas que escorriam.
– Quer que eu te leve até lá? — ele perguntou, limpando uma lágrima que eu tinha deixado passar.
O toque frio de seus dedos me fez arrepiar.
– Como? — perguntei, tentando tirar aquela sensação da minha cabeça.
Jack abriu um sorriso brincalhão, e se virou de costas para mim.
– Sobe.
E não foi preciso muito mais para saber o que fazer. Subi em suas costas e ele me segurou firme, tentando equilibrar tanto meu peso sobre suas costas quanto o cajado em sua mão. E sobrevoou até uma janela lateral do hospital, onde eu finalmente vi o estado do meu pai. Seu cabelo negro, com alguns fios brancos, estava com uma parte raspada, onde uma faixa ensanguentada cobria o que era provavelmente um corte feio. A perna direita estava engessada e suspensa por um aparelho que ligava ao teto, o braço esquerdo também estava engessado e vários cortes de diferentes tamanhos e diâmetros cobriam seu corpo. O aparelho médico que marcava a pulsação indicava que os batimentos cardíacos estavam tão irregulares quanto sua respiração.
Meu pai estava péssimo.
Ele parecia adormecido, mas seus olhos se arregalaram de repente quando me viu flutuando do lado de fora da janela. Se virou para mamãe, e disse-lhe alguma coisa. Ela apenas assentiu com certa relutância, deu-lhe um beijo na testa e saiu. E então papai olhou em minha direção, ansioso. Jack Frost abriu a janela, e entrou. Pulei de suas costas e corri até meu pai, sentindo as lágrimas já voltando aos meus olhos.
– Pai. — eu disse, acariciando sua mão direita.
Ele sorriu com dificuldade. — Meu anjo.
Eu sorri engasgada, com as lágrimas turvando minha visão.
Eu nunca fora chamada de princesa, como Lily era. Para ele, eu era sempre um anjo.
– Você vai ficar bem, pai. — eu insisti, mesmo sabendo que, pela visão que eu tinha dele, tinha algumas dúvidas.
Mas ele não concordou e nem discordou. Olhou meio aéreo pelo quarto, com o brilho no olhar que eu reconheci sendo o mesmo de quando ele nos contava as histórias sobre os guardiões.
– Jack Frost está por aqui? — ele perguntou, ainda olhando ao redor.
Olhei receosa para Jack, parado perto da janela. Ele deu um passo hesitante à frente. Papai não o localizou, e eu percebi o olhar magoado de Jack. Mas eu sorri, o incentivando, e ele percebeu que, por Jamie Bennett já ser um adulto, era lucro ele ao menos ainda acreditar. Não que isso mudava o fato do melhor amigo dele não o vê-lo.
– Está sim, papai. — eu disse gentilmente a ele, voltando a acariciar sua mão.
Ele sorriu sofridamente, e eu percebi o quanto esse simples movimento gastava suas forças.
– Jack, que saudades, meu amigo. — papai sussurrou com dificuldade, e ofegou logo em seguida.
Jack sorriu tristemente, e então pareceu lembrar que não podia ser visto por ninguém mais do que eu. Seu sorriso murchou e neve começou a cair pelo quarto. Neve! E por mais que meu pai tivesse dificuldades até mesmo para sorrir, vi um brilho maravilhado em seus olhos ao ver aquela neve. E então sua expressão se endureceu e Jack fez a neve parar, preocupado que isso tivesse piorado a situação do meu pai, mas uma checada rápida no aparelho cardíaco me garantiu que meu pai ainda estava ali.
– Angie. — papai murmurou, e eu me aproximei para conseguir ouvir. — Eu não tenho muito tempo...
– Não pai, não fale isso! — eu implorei, soluçando. — Não me deixe!
Mas ele me ignorou, apressado.
– Tome cuidado. Breu me pegou quando eu voltava com a informação que sua tia me deu.
Jack olhou para mim, e eu não consegui reconhecer o que vi em seu olhar. A cor havia assumido um tom de nevasca por um segundo, antes de voltar ao normal. Saber que Breu havia atacado meu pai também não era uma coisa de que gostei.
– Ela... Ela sabia como derrotá-lo. — continuou papai. E a máquina cardíaco fez um bipe mais rápido. — Ela queria que eu te dissesse... E eu fui lá para buscar essa informação, é importante... Vocês têm que...
E o bipe se tornou constante, anunciando a pior notícia que eu havia recebido até então.
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