A Seleção - Versão Schreave
5 Capítulo 13
Notas iniciais
Os sábados normalmente eram os mais tranquilos pela falta de programação com as Selecionadas. Contudo era o dia em que eu organizava papeladas, participava de conselhos e às vezes tinha que marcar vários encontros. No momento eu estava na biblioteca terminando o segundo diário de Gregory Illéa, esse por sua vez, falava sobre ascensão de Illéa ao poder. Por minha sorte meu pai estaria em uma reunião do conselho e pediu que só fizesse o relatório desta vez, a cada dois livros. O sol já estava se pondo, era uma das horas mais agradáveis e uma das minhas preferidas para fotos.
A noite ontem com America tinha sido surpreendentemente agradável, mesmo após ouvir sua triste história. E minha promessa de nunca magoa-la continuava firme em minha mente. Eu nunca faria aquilo. Mas às vezes sua insistência com Marlee era o que me incomodava, não queria Marlee, queria America. Não comentei com America que já havia saído com Marlee, não queria trazê-la como assunto. Mas não houve nada de especial, saí depois dela com mais duas garotas. E nenhuma ficou em minha mente por muito tempo. Todas eram doces, bonitas, amáveis, mas todas eram volúveis quanto às suas opiniões.
Sai da biblioteca, pensando em chamar uma das selecionadas para cavalgar, Celeste talvez, quando meu pai simplesmente apareceu enfurecido.
– Venha Maxon. Lide com isso. — disse carregando-me pelo braço até meu escritório, que por Deus não ficava muito longe. Ao entrar vi duas meninas chorando, não havia saído com ela, mas pude ler seus broches: Anne e Celeste. Caminhei até minha cadeira do outro lado da mesa e pedi para que elas se sentassem.
– Posso saber qual foi o problema? — perguntei intrigado. Essa não era uma cena muito comum. Todos ficaram calados. Quando Celeste começou a chorar mais ainda e balbuciar alguma coisa. — Controle sua respiração minha querida.
– Meu príncipe. Ela bateu em mim, quando eu apenas expressava minha opinião, sobre algo que já tinha ouvido falar sobre sua casta. Eu nunca pensei que Anne, uma dama que é, faria isso. Deu-me um tapa doloroso no rosto.
– Você disse que eu era uma prostituta! E que minha família toda se sustentava disto! Você ofendeu a mim e a minha família. Príncipe Maxon, o que você faria se alguém ofendesse sua família? — seu desespero me fez mostrar o quanto foi magoada. O que me fez pensar que a outra estaria culpada, mas o choro de Celeste era muito verdadeiro.
– É mentira! — clamou a outra.
– Mostrem-me as filmagens. — um assistente veio até mim e colocou o vídeo da gravação do Salão das Mulheres na TV. Infelizmente não havia áudio, o que não comprovaria o que Anne disse, mas o tapa foi bem nítido. Após ver o vídeo suspirei fundo, estava odiando aquela situação. Levantei a cabeça e vi que meu pai havia saído, o que me deu um alivio. — Saíam todos, menos a Celeste. E Anne espere lá fora. todos saíram obedecendo minhas ordens. Levantei determinado a finalizar essa história, Celeste fez o mesmo. Você está bem minha querida?
– Sim, meu príncipe. Obrigada por perguntar. -falou pondo a mão em meu ombro.
– Você vê que eu estou numa situação complicada, porque ela quebrou o regulamento, mas ela pode ser minha futura esposa e eu estarei mandando-a embora. O que você acha que eu deveria fazer? — queria ver sua opinião, que tipo de pessoa ela era ou se era apenas mais uma sim senhor como a maioria.
– Meu príncipe, creio que se ela desobedeceu o regulamento deve ir embora. Afinal ninguém quer ser machucada por uma louca como Anne. E eu tenho certeza que sua esposa não deve portasse desta forma. — Ela era opiniosa ao menos. O que me fez gostar um pouco dela.
–Vou considerar o que você disse, minha querida.
– Obrigada. — e deu-me um abraço ao redor do pescoço, por um momento eu fiquei sem ação, a única pessoa que eu havia criado intimidade para isso foi America, mas logo retribui. A diferença era que o abraço de America além de ser mais verdadeiro e caloroso, Celeste era meio indecente, de modo que propositalmente esfregava-se em mim, quando percebi que ela tentaria beijar-me segurei seu rosto e disfarcei.
– Seu rosto está inchado, melhor ir ao médico. Ao sair chame Anne. — Minutos depois Anne entrou. Ela sentou-se em duas cadeiras e sentei-me de frente para ela. Odiava essa situação, mas eu deveria cortar o mal pela raiz antes que o palácio se tornasse uma zona de guerra. — Anne, minha querida. Sei que isso é difícil para você, mas são as regras. Não há nada que prove que a Celeste agrediu você verbalmente. Infelizmente você está fora da Seleção.
Anne foi embora antes do jantar. A única coisa que me consola é que todas as selecionadas casa-se com no mínimo um Três após saírem do palácio, elas são consideradas valiosas. O jantar foi comum, America foi uma das primeiras a saírem, e como não mexeu na orelha presumi que estava cansada ou apenas não queria falar comigo hoje. O resto da noite foi meio entediante, de manha teria um ensaio fotográfico com as selecionadas e a insônia me atingia fortemente.
Fui para a varanda do meu quarto, e fiquei lá. Estava apenas com uma calça fina de linho e fiz todos os exercícios de sempre, do apoio de frente à abdominal. Precisava sempre estar com um corpo preparado quando fosse a hora de receber alguma castigo do meu pai. Quando terminei apenas fiquei sentado e pensando na minha situação com cada selecionada. Ouvi um barulho de porta fechando e quando olhei pela sacada vi só o cabelo vermelho de America. Minha sacada ficava abaixo da sacada dela. Ela estava lendo algo que parecia com umas partituras, me senti um voyeur observando-a, e entrei para meu quarto. Esse sentimento de querer algo que não posso era angustiante. Fui deitar e por sorte não sonhei, estava cansado demais para isso.
– Muito bem, senhorita, vire-se para a câmera e sorria, por favor — pediu o fotógrafo, que foi prontamente atendido por Celeste. Ela era uma perfeita modelo e não tinha problema algum com as fotos, o que por incrível que pareça era importante. Ela era divertida, bonita, esperta, uma rainha exemplar. Se não estivesse tão obcecado por America, ela com certeza seria minha escolha obvia. Logo acabou e a próxima era amiga. Pude sentir uma estranha alteração nos meus batimentos cardíacos, mas ignorei-o.
– Olá, minha querida — cantarolei propositalmente, sabendo que isso a irritaria.
– Nem comece.
– Um segundo. Sua echarpe está torta.
Era de esperar ajeitei do mesmo jeito que fazia com minha mãe quando isso acontecia, mas a naturalidade de suas respostas era o que me fazia sentir comum, apenas um rapaz comum e não um príncipe.
– Acho que assim dá para o gasto.
– Bem que eles podiam pendurar você com os lustres depois, não? — levei um momento pra perceber que ela se referia as medalhas, e não pude deixar de rir. Quando levantou a cabeça para as fotos e viu todos focados nela pude sentir seu corpo enrijecer.
– Não fique nervosa — ele sussurrou.
– Não gosto que todos fiquem olhando para mim. — Sei que ela não estava gostando disso, mas eu precisava que ela ficasse e que ninguém me incomodasse por deixa-la ficar. Coloquei a mão na cintura de America de modo que ela não poderia soltar-se e traria uma impressão de intimidade entre nós. O que também conquistaria o povo.
– Apenas olhe para mim como se não aguentasse mais a minha cara — disse tentando fazê-la rir e a câmera disparou naquele exato momento e nos pegou rindo. Mais natural impossível. — Viu? Não é tão ruim.
– Talvez. — disse teimosa. Relaxei o braço sabendo que agora ela não tentaria me afastar. Depois virei-a de costas para mim, e era incrível como encaixávamos perfeitamente. Meu queixo ficava exatamente embaixo de sua cabeça, e por ser pequena cabia perfeitamente em meus braços de uma forma protetora.
– Excelente — incentivou o fotógrafo. Podemos fazer umas no sofá?
Quando nos sentamos no sofá um homem se aproximou para trazer provavelmente alguma notícia política importante. Ele ficou receoso por America estar perto, mas ela podia ouvir, além ser minha amiga sempre teria esperanças dela ser a futura rainha. Os rebeldes haviam atacado uma cidade rural, mataram várias pessoas, mas o que eu mais estranhava era porque ele estava dizendo aquilo a mim se meu pai estava no palácio.
– O que meu pai diz?
– Na verdade, Majestade, ele quer saber sua opinião. — Não pude deixar de esconder minha surpresa, mas aquele não era um momento para pensar nas atitudes do meu pai. E sim fazer o que fui ensinado por muito tempo: resolver situações de emergência.
– Localize as tropas a sudoeste de Sota e em toda a região de Tammins. Não é necessário ir muito ao sul e chegar a Midston. Seria perda de tempo. Veja se conseguimos interceptá-los.
– Perfeito, senhor. — E logo saiu. Estava furioso, eram sulistas, nortistas não matavam ninguém do povo. Milhares de pessoas mortas, pessoas que não tem culpas, milhares de enterros, milhares de mortes ao longo dos anos por culpa de rebeldes que querem não uma revolução baseada em princípios, mas apenas em poder.
– Você está bem? — perguntou America vendo minha preocupação.
– Fico pensando nas pessoas.
– Talvez devêssemos parar sugeriu. — Mas não iria desperdiçar aquele momento com America, devíamos continuar. Coloquei minha mão sobre a dela, para a próxima foto.
– Um dos requisitos dessa profissão é a capacidade de parecer calmo quando se está muito longe disso. Por favor, sorria, America. — nas ultimas fotos apertei a mão dela e ele apertou de volta. Eram nessas simples coisas que eu gostava mais da America. Com um simples toque ela passava uma energia boa e eu sabia que ela se preocupava comigo naquele momento.
– Muito obrigado. A próxima, por favor? — o fotógrafo repetiu. Quando nos levantamos segurei a mão dela novamente, na realidade não queria que ela fosse.
– Por favor, não diga nada. É de extrema necessidade que seja discreta.
– Claro.
– Janelle, minha querida — disse com a frase de efeito de sempre Antes que eu esqueça, está livre esta tarde?
Chamei Janelle para ir caçar no lago, era em torno das duas horas, mas o sol já não estava muito forte. Em sua lista havia a informação de que sabia caçar aves e eu fazia isso quando era mais novo. Seria uma boa forma de conhecê-la mais, era o segundo encontro com Janelle, havia gostado dela. Era uma pessoa espontânea apesar de sua personalidade forte e por gostar de falar de todas as selecionadas. Assim que ela chegou nos deram as escopetas e começamos. Ela era boa.
– Meu príncipe. — disse uns cinco minutos após termos terminado de caçar.
– Sim? — falei esperando o que ela iria dizer. Talvez algo que nos desse algo interessante para conversar ou criarmos uma afinidade.
– Visto que eu fui a única a ter dois encontros entre as Selecionadas, imagino que nós...
– Não foi. — disse interrompendo-a, e no mesmo momento engoli as palavras de volta. Talvez, agora, nunca soubesse o que ela iria dizer.
– Como?
– Não foi. America, ela teve dois encontros também. Mas pode continuar o que ia dizer.
– Ah. falou com tom de deboche Mas quem liga para aquela Cinco ralé?
Assim que ela pronunciou essas palavras o sangue subiu a cabeça, nunca que me senti tão protetor assim com alguém.
– Como? — falei parando de andar e ficando de frente para ela.
– Quem liga para aquela Cinco ralé. Uma ruiva pálida, de uma família onde a mãe tem um filho atrás do outro como se fosse um animal. E America? Burra também, nunca teve oportunidade de estudar numa escola descente. Acho que ela deveria ser sua próxima escolha para eliminação.
– Ah você acha? — minha raiva era tanta que não pude deixar de ser irônico. Tomei-a pelo braço quase a arrastando, e ela seguia-me atrás marchando. Quando chegamos aos portões do palácio a levei a um guarda.- Pois eu discordo. Soldado Woodwork assegure-se de que ela esteja fora do palácio antes do jantar.
Janelle foi a primeira eliminação individual por escolha minha. E pela primeira vez eu não me sentia culpado
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