A Seleção-Interativa
46 A Origem do Trono - Parte Final
Notas iniciais
Uma semana se passou desde que tudo aconteceu. O tudo. Desde que o castelo foi bombardeado, desde que a capital de Illéa virou um caos, desde que Amberly descobriu que sua "filha morta" estava bem vivinha, e na verdade se chamava Samantha. Desde que Clarkson foi desmascarado na frente de sua esposa... Quanta loucura para sete dias.
E foi nesses dias que todos se recuperaram. Que quase todos se recuperaram. Quase se recuperaram.
O grande momento, porém, era o mais esperado. O momento de reencontro entre Amberly e Samantha. Ninguém sabia direito o que aconteceria com Clarkson, mas era esperado que ele ao menos pedisse perdão pelo que fizera.
***
Jason arrumou a gola da camisa social e se viu mais uma vez no espelho. Ele seria responsável por acompanhar Samantha até o Salão, onde combinara com America de reunir a família real.
Ele olhou o relógio pela décima vez em quinze minutos, tentando ser pontual. Certo. Aquele era o momento. Jason saiu do quarto (ele havia dormido num hotel próximo ao castelo) e desceu correndo as escadas. Atravessou o estacionamento e subiu na moto.
"Só são quatro quadras" ele pensou.
***
– Ai meu Deus, por que ele fez isso comigo? — America choramingava enquanto tentava encontrar um jeito de falar com Maxon. Maxon. O Maxon a quem ela deixou esperando no altar. O Maxon com quem ela terminou tudo. Com quem ela meio que...
– Você meio que brincou com ele — Marlee disse.
Marlee tinha ido ver America desde que o castelo foi bombardeado. Sua presença havia gerado ibope na mídia, mas logo tudo virou um "mal entendido de julgamento" segundo Clarkson, e deixaram-na em paz. Ela estava tentando ajudar America a encontrar Maxon e falar com ele.
Tudo deve ser sincronizado, disse Jason. Você leva Maxon para o Salão e eu levo Samantha. Então, bum, a notícia será dada. E aí veremos o que acontece.
Essas palavras ecoavam maldosamente na cabeça de America.
– Não brinquei com ele — ela falou, andando de um lado a outro dentro do quarto. — Olha... Eu realmente me importo com ele. E sei que o que eu fiz foi muito errado. Mas quando você está confuso, não dá pra decidir direito!
– Eles viraram a sua seleção — Marlee caiu no sofá, rindo.
– Isso não tem graça — America pôs as mãos na cintura. — Mas será que dá pra você parar de jogar as coisas na minha cara e me ajudar a falar com Maxon?
Marlee arregalou os olhos. A ruiva estava desesperada.
– Está bem! Mas America, só tem um jeito — ela tamborilou os dedos na cauda do piano. — Você tem que falar com ele. E agora.
– O que? — ela perguntou, aflita. — Você tem que vir junto. Ele deve me odiar com muita intensidade a este momento!
– Você enlouqueceu? Acha que essa reunião que Jason planejou é uma brincadeira de casinha? America, se trata de uma irmã perdida, de uma herdeira ao trono, se trata de família. Eu não posso me meter em algo sério assim. Mas você, você já faz parte disso. Então, não enrola, e vá logo falar com Maxon!
***
Jason segurava as mãos de Samantha, que suavam de nervosismo. Ele a encontrou na praça que ficava perto da Torre A, e agora seguiam em direção ao castelo. Ela não havia perguntado por nada — Samantha ainda era uma sulista, ainda sabia das coisas, e mesmo que não tivesse certeza do que tudo aquilo se tratava, tinha suas suspeitas e preferia que elas fossem certificadas no momento certo.
***
– É urgente — America falou. — Sei que você está bravo comigo, e que não mereço sua confiança...
– Eu arrisco. O que eu tenho a perder agora? — Maxon falou, dando de ombros. — Só me fale para onde estamos indo.
– Para o Salão — ela respondeu.
Maxon fez uma careta.
– Devo ficar nervoso por isso?
– Ah, deve. Deve.
***
Amberly já estava no Salão, tentando se distrair com a saia do próprio vestido, quando as portas se abriram. O primeiro a entrar foi Maxon.
– Mãe?
– Filho?
– Eu — America falou para si mesma. Ela esperou perto da janela enquanto os outros chegavam — o que foi rápido.
Jason e Samantha chegaram juntos. Ela estava tão pálida que parecia ter morrido há poucos minutos atrás.
– Jason?– Maxon balbuciou. — Isso é alguma brincadeira? — sua voz parecia expelir toda a raiva que havia dentro dele.
– Calma. Não estou aqui para brigas. Falo, sério — Jason respondeu, pausadamente. — E antes de alguém perguntar mais alguma coisa, será que eu posso tentar explicar o que é isso aqui?
Samantha e America se entreolharam.
"Hora da verdade" Jason pensou.
***
– Não acredito que meu pai fez isso. O meu pai, que sempre me criou com tanto... Amor — Maxon parecia louco da vida. Ele precisou tirar a gravata para respirar normalmente. Sua voz tremia enquanto falava. — Samantha... Então, tenho uma irmã? Sempre tive, a vida toda?
– Sim, meu filho. Sempre tivemos mais uma na família — Amberly respondeu entre soluços.
– E Clarkson sempre escondeu isso — Samantha completou.
No primeiro momento, os três ficaram inertes, olhando um para a cara do outro, como se aquilo fosse alguma cena de filme. Depois, Amberly e Samantha correram, um ao encontro da outra, e se abraçaram por um longo tempo.
– Posso te chamar de mãe? — Samantha perguntou, com voz embargada. As lágrimas, àquela altura, nem mesmo a Samantha eram inevitáveis.
– É claro que pode, minha filha. Eu senti sua falta durante dezessete anos. Senti falta de pentear seus cabelos, senti falta de comprar seus vestidos... Senti falta até mesmo de te aguentar falando de todos os meninos por quem se apaixonou — Amberly disse, ora chorando, ora rindo.
America e Jason se afastavam, apenas observando como as coisas se ajeitavam. Para Jason, tudo fora um desafio desde o início, e ele não fazia ideia de como Samantha ficaria depois daquele encontro, mas para America... Ela já sabia como aquilo terminaria. Em amor. Em puro amor. O amor que não foi completo durante dezessete anos, e que agora estava perfeitamente no lugar. As coisas? As coisas iriam se ajeitar naturalmente.
– Eu tenho uma irmã — Maxon disse, tentando limpar as lágrimas que caíam abruptamente. — E ela é uma sulista! — Samantha riu. Ele colocou os braços ao redor de Samantha e envolveu-a num abraço apertado e demorado. — Eu também senti falta de você. Senti falta de te defender dos garotos que já te maltrataram.
– Acho que alguém fez isso por ela durante esses anos — America sussurrou para Jason.
– Eu cuidei de Samantha o melhor que pude, mas agora é a vez dela de ser cuidada por outras pessoas... — Jason disse, pensativo.
– Não fala assim. Ela nunca vai querer que você se afaste. Vocês podem não ser irmãos de sangue, mas são de criação — America disse, segurando em sua mão. — Acho que agora é a nossa hora — ela sorriu ao ver os três abraçados e contando coisas sobre suas vidas entre lágrimas e risos. — Você fez um ótimo trabalho.
– Nós fizemos um ótimo trabalho — Jason falou enquanto saíam pelas portas do Salão.
***
Descobrir que eu tinha uma irmã que ficou por dezessete anos sumida, num lugar bem diferente do que deveria ser a sua casa, foi algo ao mesmo tempo péssimo e maravilhoso. Imaginar que ela sofrera longe de mim era horrível, mas saber que ela havia tido pessoas boas ao seu lado era muito bom. Saber que ela tivera Jason era um alívio. Tudo bem que parte de mim ainda o adiava, mas a outra parte o agradecia imensamente... Pode parecer esquisito, mas hoje vejo que a vida fez uma troca comigo. Uma troca que não dá pra medir. Me tirou America e a deu a Jason, mas tirou Samantha de Jason e a deu a mim.
Mesmo assim, de certa forma, eu sempre terei America, e Jason sempre terá Samantha.
Há um mês, minha casa foi bombardeada. E há um mês, tem sido reconstruída. O castelo não foi completamente destruído, de forma que podemos continuar morando aqui enquanto os engenheiros tentam arrumar a bagunça.
É muito estranho não ter mais as mesmas pessoas morando comigo. America foi embora, mesmo depois de eu conversar com ele e dizer que não a odiava mais. Jason a levou com ele. As selecionadas — você já sabe — foram embora há tempos, e a Seleção agora é apenas uma névoa do passado. Eu não sei como vou ficar depois que a Seleção simplesmente acabou, assim, sem mais nem menos. Mas com Samantha de volta a casa, eu acho até um absurdo que eu me preocupe com casamento.
Agora somos só eu, minha mãe, meu pai e Samantha. Clarkson foi perdoado — e é por isso que Amberly é rainha. As vezes acho que ela foi quem fez de meu um rei. Na verdade, cada dia só serve para me provar isso. A coroação de Samantha como princesa está marcada para a próxima semana, na manhã de domingo.
A coroação de Samantha como princesa?
Eu até poderia te dizer como foi que ela chegou a essa decisão. Ela, que sempre foi sulista, sempre pertenceu ao lado inimigo — ou que pensamos ser o lado inimigo, pois ela já explicou tudo o que podia quanto ao equívoco entre os Mercenários e os Sulistas — sempre foi acostumada a liderar bandos de homens e a ser a mulher poderosa que foi (e ainda é, afinal, vocês não fazem ideia do que ela fez com os soldados daqui), de repente vai virar princesa.
Eu realmente acho que essa parte merece ser explicada por ela.
(próximo capítulo)
***
Depois que saíram do castelo e passaram pelos grandes portões de ferro, America e Jason pararam e olharam um para o outro. Ali era o fim e o início. Era o adeus e o bem-vindo.
– Nunca mais vou entrar aqui — America disse, se assustando com o quanto as palavras soaram estranhas para ela, como um grande murro em seu estômago. — Ah, Deus. Sinto como se tivesse vivido um sonho, e de repente, acordei.
Jason sorriu para ela e a abraçou, dando-lhe um beijo na testa.
– Eu não pretendo ser um pesadelo real pra você.
– Não foi o que quis dizer... — America riu baixinho. — Você sabe o que significa para mim. Você chegou de repente, me fazendo questionar tudo, me fazendo quebrar todas as regras. Eu estava aqui, no castelo, com o meu futuro perfeitamente desenhado ao lado de Maxon. E agora estou aqui, ao seu lado. Vivendo uma reviravolta. Uma reviravolta perfeita — ela ergueu a cabeça e olhou para ele. Seus olhos azuis, mesmo depois de meses, ainda tinham a capacidade de deixá-la perdida.
– Posso não ser um príncipe, mas eu serei se você quiser.
– Por que eu precisaria de um príncipe? Você é perfeito assim, com essa jaqueta preta e óculos aviador — ela riu.
Jason demorou alguns segundos para responder. Ele colocou os cabelos de America atrás de sua orelha e sorriu enquanto a observava.
Olhava-a como se fosse a última joia rara do planeta.
– Porque você é uma princesa. Eu soube desde o início.
America ficou vermelha e olhou para baixo, mas Jason segurou seu queixo e olhou no fundo de seus olhos. Ele se aproximou, e se aproximou mais... Então beijou-a suavemente. Seus lábios tinham o poder de causar borboletas no estômago. Ao abrir os olhos, ela se sentiu completamente anestesiada, dizendo a primeira coisa que lhe veio a cabeça:
– Para onde iremos?
Jason deu um sorriso de lado.
– Para onde você quiser, contanto que me leve junto.
America riu, colocando os braços ao redor de seu pescoço.
– Você... Você foi um pedaço de mau caminho. Eu soube desde o início.
Ela afofou as mãos em seus fios negros e puxou sua cabeça para a frente, beijando-o novamente.
– Nem acredito que vou poder te beijar o tanto que eu quiser.
– Hum... — ele murmurou enquanto a beijava. — Não vá achando que é assim, senhorita...
– Como é que é? — ela perguntou, se afastando de seus lábios.
– Não... Se afaste — ele reclamou.
– Eu não gostei do que você falou.
Jason suspirou e então disse:
– Você não vai passar a vida me beijando, e não vamos passar o resto das nossas vidas em cima de uma moto vivendo aventuras. Uma hora, minha beleza vai acabar, minha moto vai quebrar e você vai se cansar de me beijar.
America virou o rosto para que ele não visse seus olhos marejarem. Que droga é essa, afinal?
– Vamos precisar de uma casa, de um carro, e de uma cidade para viver. E você vai precisar de um anel, também, para que os caras não fiquem te cantando quando você for no mercado fazer as compras. Eu vou precisar de um emprego, e não sei se posso continuar sendo um sargento na Base enquanto tento criar uma família ao seu lado.
– Família? — America perguntou, erguendo as sobrancelhas. — Você não acha que é muito cedo para pensar nisso? — ela o testou. Jason riu.
– O que mais eu poderia querer ao seu lado?
– Então por que não vou poder te beijar sempre que eu quiser?
– Você vai poder. Só vai ter que me responde uma coisa antes — Jason disse. — Case-se comigo.
America arregalou os olhos e olhou para os lados, tentando decidir se chorava ou ria.
Mas eu acabei de sair de um quase casamento, como vou me casar com Jason?
– Você sabe que não podemos casar agora. Tipo, amanhã ou depois de amanhã — ela falou. Jason assentiu. — E sabe que não fazemos ideia do que fazer. — Jason assentiu novamente. Mas quando America respirou fundo para dizer a próxima frase, Jason franziu o cenho numa expressão de desespero.
– Você casaria comigo? — ele perguntou.
America olhou para ele e abriu um grande sorriso.
– Meu Deus, é claro!
– Ah, ufa — ele suspirou e pôs os óculos nos olhos. — Pensei que eu não poderia mais te beijar quando eu quisesse.
Enquanto os dois se beijavam, o sol se punha atrás do castelo. Duas pessoas os observavam do Terraço, onde estava o jardim suspenso.
– Eles foram feitos um para o outro — Samantha comentou, abraçada a Maxon. Ele deu um longo suspiro, tentando decidir como se sentia em relação aquela cena de Jason e America. — America, no fim, não era a sua princesa. Nenhuma das selecionadas era.
– Eu acho que eu tinha que encontrar outra princesa — Maxon falou. — Uma princesa perdida — ele sorriu.
– Olha, não fica me emocionando demais, ok? Eu ainda sou uma sulista — Samantha falou, limpando rapidamente as lágrimas dos olhos.
– E agora, o que acontece? — ele perguntou.
Samantha virou-se para Maxon e fez cara de desdém.
– Não acredito que você ainda não foi atrás da Anna. Droga, é a Anna Parker! Acha que eu não sei sobre vocês dois? Vá atrás dela, antes que ela suma de verdade – Samanta exclamou.
Maxon mordeu o lábio e passou as mãos no cabelo.
– E pra onde eu vou? — ele perguntou erguendo as mãos.
Samantha pôs as mãos na cintura enquanto parecia pensar na resposta.
– Acho que vou ter que te dar uma ajudinha — ela piscou.
***
– O sol se pôs. Logo vai anoitecer — America disse. — Agora é sério. Pra onde vamos?
Jason subiu na moto e acenou para ela.
– Eu ainda tenho uma casa, lembra?
– Mas você não pode levar pessoas como eu para lá, Jason — America falou.
– Ih! — ele riu. — E você já se esqueceu de quem eu sou na Base Sul?
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