A Seleção de Bella Miller
27 Mas um dia sem você é como um ano sem chuva
Notas iniciais
Uma profunda dor na garganta se arrastou, sentia meus órgãos me sufocarem e então, deixei a tosse vir.
Isso estava acontecendo diariamente. Mas, apenas tossia. O frio ainda continuava, o que me fazia acreditar que o sintoma era sinônimo de gripe.
Bebi um copo grande de água, o qual Anna havia deixado na cabeceira ao lado. Deitei-me, fechando os olhos novamente, por mais tarde que seja não sentia sono.
Me levantei, sentindo meus pés se arrepiarem ao se demolirem contra o piso frio. Arrastei-me para fora da cama, expondo-me ao frio.
Liguei a luz do pequeno abajur e pude ter noção do quarto, caminhei até a porta e saí.
Andei até um corredor e me rendi ao chão, estava com frio e sem o mínimo de sono. E a única coisa que conseguia pensar era em Austin...
Você pode me sentir?
Quando eu penso em você
Com cada respiração
Cada minuto
Não importa o que eu faça
Meu mundo é um lugar vazio
Haviam se passado duas semanas depois da nossa ‘conversa’, ele não me mandava embora, mas não dirigia alguma palavra a mim, estávamos distantes. Eu sentia sua falta, sentia falta da sua respiração, do seu toque, do seu cheiro...Me sentia em um mundo vazio.
Eu não estava mais em choque, quando como cheguei ao castelo. Parece que Diogo que na verdade é Jason me achou perto de sua “fazenda”, eu estava desacordada e ferida. Ele como qualquer “camponês” humilde informou a guarda real e Austin veio correndo me buscar, típico de uma cena de romance clichê. Quando fiquei sabendo de toda a história tive vontade de rir, as pessoas eram tão egocêntricas! Mas eu estava famosa, muito famosa. Talvez seja por isso que Austin ainda me mantinha aqui, talvez não. Os rebeldes sumiram, pelo menos até agora nenhum sinal de vida.
Os dias se arrastavam, passava a manhã estudando com as selecionadas, o resto da tarde ficava em meu quarto, geralmente deitada na cama ou fazendo brincadeiras com minhas criadas.
A noite era o pior momento, sempre me lembrava das mãos ásperas do homem ao qual tentou me tocar, lembro-me do rosto enfurecido de Jason quando o viu em cima de mim. Me lembro dos dias trancada naquele quarto... Os pesadelos me atormentavam, o medo me sufocava...
A seleção ainda continuava de pé, Austin fez um belo trabalho dentro dessas semanas. Ele mandava uma garota por dia para casa, o humor que antes o empregava agora estava distante. Ele sempre estava irritado, não participava das reuniões e apenas saia com algumas selecionadas e no geral as dispensava.
O grupo das Palometardadas―como chamamos Paloma e seu grupinho―Que aliás nem é mais um grupo, elas se rebelaram uma contra a outra. Como um bordel rodeado de putas.
Apenas Maria e Ashley continuavam nessa. Apesar de ser apenas três pessoinhas, elas tinham o dom de me irritar e me humilhar. Eu estava cheia.
Levantei-me do chão e caminhei pela imponente escadaria. Meus pés descalços soavam como tapinhas no chão de mármore. Havia um punhado de guardas na porta que me impedia de chegar ao lugar que desejava.
―Perdoe-me, mas a senhorita deve voltar para o quarto―ele ordenou, com autoridade. Ainda que não falasse alto sua voz trovejava ao silencio do elegante corredor.
―Por favor.
―Senhorita, você sabe das regras.
Ele gostava de mim, sabia disso. Seus olhos brilhavam ao me encarar, seu tom não era agressivo.
―Eu...eu...só queria entrar. ―implorei.
―Eu sinto muito senhorita Miller―ele suspirou― Mas só pode entrar com a permissão da família real.
―Então a deixe entrar, Baltazar.
Era uma bela voz, cheia de autoridade. Me virei em sua direção, talvez de proposito, talvez não. E ali estava Austin, me encarando com sua íris azul e seu sorriso cafajeste.
O guarda ao qual Austin se referiu como Baltazar abriu as enormes portas de madeira, acompanhando de outro guarda que também sorria.
Senti o cheiro doce dos livros bater em meu rosto e corri como uma bêbada para a biblioteca. Me senti envergonhada por Austin estar ali, aquele era o nosso lugar, aonde me recorria.
Caminhei, passando as mãos sobre as prateleiras e livros pesados. Sabia que Austin estava atrás de mim, mas não me importei, continuei caminhando até o final da extensão, aonde ainda se encontrava a mesa em que havíamos jantado, parecia que aquilo havia acontecido a tanto tempo atrás, mas quantas semanas eu estava aqui. Quatro? Cinco? Quase um mês? Na verdade eu não sabia disser, o tempo havia derretido e escapado como no quadro de Salvador Dalí*.
Cambaleei diante do chão e ali fiquei: com a camisola branca e fina sobre o chão duro e frio.
Senti novamente uma dor forte na cabeça e o aperto na garganta, em menos de segundos estava tossindo meus órgãos*. Droga de gripe.
Estava tão perdida que só percebi que tinha a companhia de Austin quando o mesmo começou a falar comigo.
―Está tudo bem, meu anjo?
Levantei a cabeça para encará-lo, limpei a boca com as costa da mão.
―Não me chame de anjo, você não tem esse direito.
Senti sua mandíbula se contrair, achei realmente que Austin fosse me bater naquele momento.
―Bella―seu tom foi rude, como se estivesse me repreendendo.
―Estou ótima, apenas uma pequena gripe, Alteza.
Ele chutou uma prateleira e me espantei com seu tom e gesto grosseiro.
―Será que não dá para ter uma conversa direito com você, garota.
Interessante, de Anjo passou para Garota, ele só podia ser bipolar.
―O que foi, alteza? Ficou estressadinho. ―ironizei.
―Cale a boca, garota. Você está me irritando.
Me levantei, irritada. Limpei as gotículas de suor nas mãos contra a camisola. Austin havia me irritado e não ficaria ouvindo baboseiras da sua boca. Comecei a caminhar em direção a saída, até que sou prendida contra a parede.
―Aonde você pensa que vai. ―ele exalava raiva.
―Pensei que estava se irritando e não quero te irritar. ―Minha voz saiu fina, como se tivesse o exultando.
Ele ignorou totalmente meu sarcasmo e perguntou:
― O que você faz aqui?
Suas mãos apertavam meus pulsos fortemente acima da cabeça, ele estava próximo, muito próximo. De forma que sussurrava colado ao meu ouvido.
Como se eu estivesse andando pelo deserto
Por mil dias
Não sei se isso é uma miragem
Mas eu sempre vejo o seu rosto, baby
―Estava sem sono―tentei empurrá-lo, mas foi inútil. ― Austin, você está me machucando.
Não menti, realmente seus dedos estavam me machucando. Com certeza deixaria sua marca.
― Me desculpe. ―ele me soltou e se afastou.
As estrelas estão queimando,
Eu ouço a sua voz na minha mente
Você não consegue me ouvir chamando?
Meu coração está desejando como se o oceano estivesse secando
Me segure, eu estou caindo
― Podemos conversar?
Seu tom havia surpreendentemente abaixado, ele passava as mãos no cabelo como se estivesse a ponto de arranca-los. Ele estava caindo...
― Eu não sei, se for para você ser um ogro grosseiro eu dispenso. ― elevei o tom enquanto despejava as palavras em cima dele.
― Você me irrita, Bella.
―Então porque quer conversa comigo? ―gritei.
―Por que eu sinto sua falta ― ele se virou para mim, gritando. ― Garota, eu sinto tanto sua falta, que sinto raiva de você, mais ao mesmo tempo te amo. Eu quero te mandar embora, para longe da minha vida...mas...ao mesmo tempo eu quero você comigo, ao meu lado.
Eu estou sentindo tanto a sua falta
Não posso fazer nada, estou apaixonada
Um dia sem você é como um ano sem chuva
Eu preciso de você ao meu lado
Não sei como eu vou sobreviver
Mas um dia sem você é como um ano sem chuva
Encarei-o calada, seu tom ia abaixando a medida em que ia se expressando.
―Eu sonho com você todos os dias, Bella. A única coisa que consigo pensar é em você, e eu te odeio por isso.
Eu também me odiava por pensar e faze-lo sofrer. Meu corpo não tinha força para soluçar, por isso derramei lagrimas em silencio.
― Eu te odeio, Bella. ― Olhei em seus olhos e a única coisa que vi foi tristeza. ―Você me ensinou a amar, e reconstruiu meu coração e você também o despedaçou.
―Nós não podemos ficar juntos.
É como se o chão estivesse desmoronando sob meus pés
Você não vai me salvar?
Vai ser quando você voltar para mim
Oooh, baby
―Então seja apenas minha amiga. ― Aquilo não foi um pedido, mas imaginei como um. ― Olha só, eu posso fazer você ficar―suas pupilas estavam dilatadas e foi impossível não reparar em seu desespero. ―Você disse que não queria voltar para casa... E tem a sua mãe, você falou que seu pai não fala nada dela para você, eu tenho computadores, tenho registro...Nós podemos pesquisar sobre ela, você não queria ver pelo menos uma foto sua.
Talvez aquilo desse certo, talvez não. Austin estava louco, talvez louco por mim. Ele não se importaria de me enfurnar com coisas matérias pois sabe que não iria dar valor aquilo, mas...ele envolveu minha família, minha mãe... Eu não sabia o dia em que ela fazia aniversário, ou o tumulo em que ela estava enterrada. Eu não sabia nada, talvez Austin pudesse me ajudar.
― Eu posso te ajudar, meu anjo.
Suas mãos foram para meu rosto, ele sorria, sabendo que eu estava pensando em sua ideia maluca.
― Nós seremos amigos? ―Perguntei, com a voz rouca.
― Nós seremos amigos.
É um mundo maravilhoso com você na minha vida
Então se apresse, baby, não perca mais tempo
Eu preciso de você mais perto
Não consigo explicar
Mas um dia sem você é como um ano sem chuva
Seu sorriso voltou.
Ele estendeu a mão, como se fosse nosso ‘toque’, hesitei antes de juntar minha mão a sua.
―Amigos?
Foi minha vez de sorrir:
― Amigos! ―respirei fundo e acrescentei: ― Te vejo amanhã, ás seis. No nosso lugar. Boa noite, Austin.
Olhei para seus olhos, atônita por uns segundos, antes de me ver sair do ‘nosso lugar’.
Fale com o autor