A Seleção-Interativa
33 Capítulo 33 - Se é um jogo, temos que jogar para saber quem vence
Notas iniciais
Acordei num lugar estranho, ainda com a visão embaçada. O cheiro era... úmido. Havia um barulho de água não muito longe, e quando meus olhos voltaram ao normal eu me sentei.
Minha cabeça latejava. E tudo voltou.
Samantha, a guerra, nossa fuga.
Aspen.
Minha cabeça doía muito mesmo, e eu me xinguei porque lembrei de minha mais nova habilidade: desmaiar. Por que diabos eu desmaiava tanto?
Olhei ao redor, preocupada porque não ouvia nem Maxon nem Jason.
– Mas o que é... isso? — tentei me levantar mas estava sem forças. Passei as mãos sobre a parede gigante de pedra atrás de mim, e senti a umidade.
Eu estava em uma caverna.
– Ei, bom dia, dorminhoca. — era Jason. Ele entrou pela abertura da caverna, estava com a farda de antes, mas parecia... revigorado. Mas o que é que estava acontecendo? Eu não podia estar numa caverna! — Como está se sentindo?
Por que será que sempre que eu acordava Jason aparecia?
Olhei para Jason com uma horrível expressão e respondi:
– Um lixo.
E eu estava mesmo. Agoniada, com calor e com dor cabeça. Ainda com aquelas roupas do casamento, o que fazia a cena da caverna parecer mais ainda com aqueles filmes da época americana. Eu não podia estar pior.
Jason riu.
– Por que você tá de bom humor? — resmunguei. — Pensei que não veria esse sorriso até que Maxon sumisse de vista.
– É, você tá mesmo horrível. — Jason disse, ainda com o mesmo sorriso. Ele havia desconversado de propósito, e eu tinha entendido.
Ah, ele amava me provocar. Eu amava isso.
Jason trazia uma cesta improvisada, e meu estômago roncou. Ele me olhou de canto e me entregou a cesta, se afastando em seguida, o que me fez rir.
– Idiota. — eu falei. — Obrigada, eu estava morrendo de fome.
Franzi as sobrancelhas quando disse isso.
– Eu acho melhor você se preocupar com isso depois. — Jason pediu, como que lendo meus pensamentos.
Eu levantei, nervosa e preocupada. Não acredito que ignorei a ausência dele por aqueles segundos!
– Cadê o Maxon? — perguntei, com o estômago ardendo. Parecia que meu cérebro ia desligar a qualquer momento. Jason mal teve tempo de responder, quando Maxon entrou na caverna (que por sinal era um gigante espaço com paredes de pedra).
Sem camisa. Com uma toalha enrolada no pescoço que descia dos dois lados do peitoral.
Ah, não. Eu não ia ficar presa com aqueles dois naquela caverna por mais de um dia, ia?
Porque se eu ia, receei de que não tomaria responsabilidade por meus atos.
– Bom dia, America. — Maxon falou, com sua voz gentil de volta. Isso aqueceu meu coração — como eu sentira falta da voz dele!
Mas isso não mudava o fato de que ele estava extremamente sexy daquele jeito. Eu só queria saber de que piscina/sauna/ou o que fosse ele havia saído.
– Eu acho que você vai gostar de ver isso. — Maxon me chamou para fora.
Eu não tinha certeza de que queria ver, mas assim que pus os pés para fora da caverna que refletia algumas ondas no teto, eu me arrependi de não ter visto antes.
Uma cachoeira enorme que dava em um lago com pedras. Árvores em todo o redor, e o sol nascendo no horizonte. O aroma daquele lugar era incrivelmente doce, eu respirei fundo e fechei os olhos, tentando aproveitar aquele nascer de sol. Um passarinho passou voando, e um bando de araras cruzaram o céu ao longe.
Por Deus.
– A gente morreu e foi pro céu? — eu perguntei, maravilhada. Maxon riu, também meio encantado.
– Estamos muito longe de tudo, America. — Jason respondeu. — Mas ainda não é o céu.
– Olha, cavaleiros, me perdoem, — eu tomei a decisão mais louca que poderia naquele lugar. Puxei a toalha do pescoço de Maxon (se eu ficasse mais tempo ali, acabaria babando) e comecei a descer a pequena estrada de pedras que levavam á cachoeira. — mas eu preciso mergulhar nisso.
Os dois se entreolharam surpresos (então eles haviam ficado amigos ou era apenas uma trégua?) e cruzaram os braços, observando a cena.
Cheguei perto do lago e comecei a escalar as pedras, louca para descer naquela cachoeira. Quando alcancei o alto que queria, me joguei sem medo.
E afundei na água fria.
No momento em que caí, foi como se todas as minhas culpas, lástimas e problemas, junto com o luto de Aspen, tivessem afundado junto. Demorei um pouco para submergir, mas foi a melhor sensação do mundo. Eu teria de conviver com a morte dele, mas talvez pudesse fazer o que eu fazia de melhor: ser forte e seguir em frente. Eu havia dormido um dia inteiro na moto de um sulista e sendo observada pelo meu grande amor. Mal sabia mais o que diabos estava fazendo, e que me culpe a consciência, mas pela primeira na vida eu senti que tinha que aproveitar.
Tirei aquele vestido que Samantha me emprestara — apesar de lindo, já estava sujo e me agoniava de calor. Banhei por uns quinze minutos sem nem olhar para Maxon ou Jason, que eram um problema no qual eu nem queria pensar, e depois saí da água só com o corset do vestido. Me enrolei na toalha o máximo que pude, sem na verdade me importar com isso.
Porque de repente, eu não era mais a America de antes.
Eu era uma America nova, decidida e forte. E eu poderia sim fazer o que eu quisesse. Contanto que não magoasse quem eu amasse, o resto não seria muito prioridade.
Voltei para a "caverna" e os dois me olhavam perdidos.
– Que? — eu perguntei. — Eu estava com calor! — me expliquei.
– É... — Jason tentou falar mas desistiu na primeira tentativa.
– O que eu visto? — eu perguntei, lembrando que talvez não devesse ter molhado o vestido de Samantha.
– Eu trouxe roupas para você. — Maxon disse. Eu olhei para ele, meio tímida, e sorri agradecendo. Ele tirou uma maleta da moto e me entregou.
Não precisei pedir, os dois saíram no mesmo segundo. Quando vi a maleta, fiquei desanimada ao imaginar longos vestidos e roupas de gala, mas Maxon mais uma vez soube me surpreender.
Simples. Porque ele me conhecia muito bem.
– Calça cápri e regata. — eu disse sorrindo. — Hum, é só o Maxon sendo Maxon. — vesti a roupa rapidamente e joguei os cabelos para o lado, me sentindo muito agradecida por não precisar usar joias e cintas desconfortáveis.
Quando saí, não consegui avistá-los mais. Presumindo que estivessem buscando lenha ou algo do tipo, resolvi dar uma volta no lugar.
Andei e andei, até que parei num espaço de terra sem nada ao redor. Havia uma pequena cruz feita de madeira sobre o espaço.
– Aspen. — eu disse, sentindo as lágrimas voltarem. Me abaixei e caí de joelhos, mas dessa vez foi diferente. Aquela dor no meu peito, a culpa e a vontade de ter morrido junto sumiram. Só havia o luto, a saudade. E eu sabia que precisaria me despedir dele de verdade se quisesse ser feliz novamente. Comecei a falar. — Suas primeiras palavras comigo foram "Eu acho que te amo, Meri". — eu sorri ao lembrar disso. — E suas últimas palavras foram "Eu te amo, Meri". Aspen... Você não deveria ter me salvado. Mas você salvou. Obrigada, Aspen. E acredite, seja lá onde estiver, eu te amo. E nunca me esquecerei de você. Não importa qual seja a minha escolha.
Funguei e sequei as lágrimas, pronta para me despedir.
– Descanse em paz, meu querido Aspen. Te levo comigo — tirei a moeda do bolso — para sempre.
Depois destas palavras, senti uma mão no meu ombro.
– Eu nunca soube de vocês dois. — era Maxon. Tentei explicar sobre isso, mas ele me interrompeu. — Tudo bem, você não me deve nada.
Olhei para ele sem saber o que falar. Pensei que ele fosse dar um de "traído" e me chamar de mentirosa, algo do gênero, e talvez até me castigar como aconteceu a Marlee. Mas no momento em que Maxon me puxou para um abraço sincero, me senti uma idiota por pensar isso dele.
O seu abraço me fez sentir de novo. Eu senti tanta falta dele, e nem percebi. Mas eu sabia porque: Jason havia sido tudo o que eu precisava durante aquele tempo.
Será que ele ainda seria tudo para mim?
O que aconteceria com o meu amor por Maxon?
E Samantha, onde ela estaria agora? Eu sabia que ela amava Jason. Porém isso nunca foi uma desculpa para que eu desistisse dele.
Não desistiria de mais nada.
– Ah, America, como eu senti sua falta! — Maxon me abraçou mais forte, passando a mão por meus cabelos. — Não sabe quantas vezes eu ensaiei esse momento, eu te procurei por tanto tempo... Nem tinha mais certeza de que a encontraria viva. Mas eu a encontrei, e não vou deixar que você me peça para desistir de você. Não desistirei de mais nada.
Ele havia tomado a mesma decisão que eu.
Eu não pretendia ficar beijando hora Maxon hora Jason, mas aquele não foi minha culpa.
Maxon me tomou nos braços e me deu um beijo.
E aquele beijo abalou minhas estruturas.
– Maxon, não posso ficar...
– Shhh, — ele pediu — se é um jogo, precisamos jogar para saber quem vence.
O que? Não é um jogo, nunca foi um jogo!
Ou... era?
De repente, a Seleção virou-se contra mim. Jason e Maxon era os concorrentes. E Maxon estava disposto a lutar por meu coração.
Da mesma forma como eu lutei pelo dele.
"- Shhh, — ele pediu — se é um jogo, precisamos jogar para saber quem vence."
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