Notas iniciais
Armando confirmou sua presença com Catalina ao telefone na exposição de Pablo Picasso no Museu Nacional, onde estariam todos os empregados de Ecomoda. Encontrou Beatriz na exposição e levou-a para conversar no segundo andar do museu, queria levá-la para conversarem fora dali, onde não seriam ser flagrados pelo quartel ou outros funcionários da Ecomoda que estavam por ali. Desta vez, foi muito difícil convencê-la a acompanhá-lo sequer até o carro. Estava magoada pela forma com que ele babou por Adriana Arboleda e a maltratou na frente da modelo, Betty sabia que não tinha os atributos que encantavam-no. Embora, soubesse que havia dando-lhe carinho e amor na noite em que passaram juntos, e que o havia sentido entregue e dela, também sabia ser uma loucura tudo isso. Se nem uma mulher como Marcela que era tão bela e elegante não era suficiente para ele, imagina ela. Se não fosse Arboleda, seria uma bem parecida. Não tinha medo de falar isso a ele, pois era a verdade.

"Para quê se iludir mais? Foi bom enquanto durou." ?“ pensou

Aconselhou-o que o melhor era que tentasse recomeçar com Marcela na viagem que fariam à Miami. Betty sabia que ao menos Marcela o amava e que não era apenas desejo. Poderiam ser felizes, ter uma família. Para Armando aquilo soava esquisito: nenhuma das moças com quem saía se preocupava com isso. Elas queriam apenas desfrutar momentos com ele, e se possível fazer com que ele largasse de Marcela. Beatriz, ao contrário, preferia abrir mão da própria felicidade, das noites de romance com ele para que fosse feliz nos braços da noiva de acordo como planejavam as famílias e como o próprio Armando até certo momento pretendia fazer. Não podia entender que ela se preocupasse com ele tanto assim.

Enquanto tentava convencer Beatriz dentro do carro e guiava pelas ruas de Bogotá, em sua mente, ainda tinha a lembrança da primeira noite passada com Betty, há apenas alguns dias. Embora, não tenha visto nada de seu corpo, pôde sentir com as mãos, a suavidade de sua pele e a quentura de sua sensualidade. Sabia que não era mais uma menina tendo sua primeira relação. Alguém tinha tido relações com ela, ele não fora o primeiro, como pensava. Isto o deixava confuso. Ao mesmo tempo que tirava um pouco de sua culpa, também provocava-lhe outros tipos de sentimentos e questionamentos: quem terá sido? Nicolás? Um daqueles da gangue? Será que ainda gostava dele?

Sabia que as coisas não poderiam ficar assim: precisavam conversar, mas Marcela estava atrás dele, o que impedia que fossem a algum lugar público para conversar, ou corriam o risco de serem descobertos ou no mínimo interrompidos. No entanto, precisou praticamente implorar para conseguir levá-la para o apartamento de Mário. Só sabia que como ele iria viajar no dia seguinte, algo precisava ser feito hoje, pois segundo o amigo podia ser tarde demais quando retornasse de Miami, a empresa já poderia estar nas mãos de Nicolas Mora. Logo, era necessário manipular Armando a se encontrar novamente com Betty, para que ele convencesse Betty a ficar do lado dele.

"Beatriz, não torne as coisas mais difíceis para mim. Nunca tive que dizer coisas assim para uma mulher. Dizer que as amo para ir para levá-las para cama, é fácil. Elas não estão apaixonadas, querem o mesmo eu: cumprir o desejo. Mas você é diferente: é sensível, frágil. minha amiga, confidente, não quero magoá-la!" -pensava Armando.

Casa de execução de Mário (como era conhecido o apartamento de Mário)

Ao chegarem à portaria do edifício de Mário, as coisas ficaram ainda mais difíceis com os comentários indiscretos do porteiro sobre a presença constante de Armando no apartamento do amigo, logicamente, como supunha Betty, acompanhada de belas mulheres. Não se sentia confortável, estava enciumada. Não entendia porque ele tinha que trazê-la a um lugar onde ela se sentia mais uma das que levara ali e ainda, mulheres certamente belíssimas.

Ele mal conseguia argumentar, o que ela falava era verdade.

—Logo, voltará à sua vida normal com mulheres bonitas!

O que mais doía, era que, apesar de tudo que dizia, no fundo queria sim que estivesse com ela, independente disso. O amava e sabia que era capaz de fazê-lo feliz, só não tinha os argumentos físicos para merecer estar ao seu lado.

—Não sou mulher para o senhor!

Beatriz sentia-se mal, não aguentava mais ficar tão perto dele e ter que parecer sensata e resistente. Quis embora. Então, ele a segurou, tomou-a nos braços, impedindo que se fosse, dizendo que nenhuma outra mulher era tão importante quanto ela.

(Não se sabe, se estava falando totalmente verdade, pois ele ainda não tinha noção do que era amar e ser amado de verdade, tampouco dos sentimentos que tinha por Betty, apesar de sentir amizade e desejo. Sabe-se que precisava convencê-la a continuar com ele, de alguma forma. Mas nenhuma das palavras ditas por ele nesta conversa foram ditas por Mário para que falasse para ela, logo, surgiram de Armando mesmo.)

—Nenhuma tão especial quanto você!

—Nenhuma tão feia como eu!

—Nenhuma tão doce, nenhuma tão boa (beijo), nenhuma que me desperta o que você me desperta (beijo na testa terno)

(Desarmada, ela o abraça.)

—Isto é terrível para mim!

—Por quê? Por quê? Ele sente a angústia nos olhos dela e não entende

Ela lhe dá um beijo

—Porque eu te amo, doutor, eu te amo! Eu tenho medo, do que vai acontecer, tenho medo de sofrer. (Só agora ele entendeu) Tenho medo de perdê-lo (beijo) Mas também tenho medo de continuar com o senhor!

—Beatriz! (Ele tirou seus óculos, para olharem-se nos olhos, os deles já haviam sido tirados, e a segurou pelo pescoço, delicadamente, para sentí-la perto)

—Você não tem porquê ter medo de nada. (Ela, então o beijou, se entregando)

—Ai, eu te amo tanto, doutor! Eu te amo tanto!

—Eu também! Eu também te amo! (beijo)

(Ela beijou-a com muita paixão, sem resistir. Aos poucos os adendos foram caindo pelo caminho: ela largou sua bolsa, ela tirou o paletó, ele tirou o blazer dela. )

Rodopiando pela sala com o beijo, sem olhar onde estavam, não havia tempo para procurar o quarto, a cama, um lugar mais confortável. Deitaram-se no sofá da sala mesmo, sem desgrudar um só momento dos lábios um do outro. De olhos fechados, nem sequer se preocuparam em apagar as luzes, permanecendo à meia-luz.

Aquele beijo era diferente de qualquer um que haviam dado, era carregado de paixão, de entrega, de desejo. Sentiam como se um imã os atraísse.