A Secret ...
1 Parte 1 ...
Notas iniciais
Começa então os novos tempos, em que as pessoas tornaram-se livres para pensarem por si só, não mais sendo subjugadas por outros, auto-entitulados líderes espirituais no planeta Tharan.
Porém um novo tempo não surge assim, do nada... algumas pessoas relutam contra as mudanças...
E uma delas é Jason, um pai severo que tem duas filhas para cuidar.
É assim, então... neste clima, que a nossa história começa ...
Os ventos fortes e frios açoitavam aquele antigo e recluso casarão, assim como a chuva que caía em uma pequena precipitação, porém tal apenas colaborava com o frio daqueles dias.
Tal construção, outrora cheia de vida e com proprietários que ostentavam suas riquezas, com um belo e enorme campo gramado. Agora, a mesma encontrava-se decadente, escura e silenciosa. Seus donos, agora não passavam de pessoas comuns, cujo nome da família já não exercia tamanho poder como antigamente. Poder este suportado pela Imperium Sanctus. Porém, com o fim da guerra, que culminou com o fim do poder totalitário desta ordem religiosa, a família perdera tudo.
Os atuais moradores tratavam-se agora de um pai e suas duas filhas: uma, a mais velha, que tinha 18 anos, e a caçula, com 16. Lucie, a mais velha, era a mais séria e responsável. Trajava-se sempre com roupas escuras, contrastando com sua pele, bem clara e longos cabelos tão loiros, que pareciam até esbranquiçados. Seus olhos, de um tom azul claro, pareciam sempre observar profundamente as pessoas, como se as estudasse.
A caçula, Celine, no entanto, era bem quieta e tímida. Também, era a mais emotiva da família. No entanto, ela sentia-se bem mais a vontade quando Lucie estava perto de si, sempre a protegê-la. Tinha cabelos lisos, porém curtos, em um tom castanho claro. Seus olhos, sempre bem abertos, possuíam um tom também azul claro e demonstravam sempre a sua fragilidade.
Jason, o pai, era um homem rude, devido às enormes dificuldades financeiras que começou a enfrentar, após a guerra religiosa. Culpava a todos por conta de seus infortúnios e, por conta de ter sido o único favorável a Imperium Sanctus daquele povoado, não era nunca bem visto pelos demais aldeões daquele pequeno vilarejo.
Os dias se passaram e Jason acometeu-se de uma doença que o forçou a não poder mais trabalhar no que antes eram os vastos campos gramados, porém agora servia apenas para a plantação e o sustento dele e das filhas. Apesar do seu jeito rude e severo, Jason queria apenas o melhor para as suas filhas que, apesar de nunca conseguir demonstrá-lo muito bem, também queria que elas tivessem a mesma educação religiosa que ele tivera.
Lucie carregava uma panela fervente para cima de uma mesa de madeira, mal conservada, que se localizava em uma vagamente iluminada sala de jantar. Outrora deveria ser bem limpa e cuidada, porém agora parecia apenas como uma sombra do que já fora. Os carpetes, que antes eram belos, com tons de vermelho-escuro, mas agora, as partes não rasgadas eram de uma cor escura, desgastada. Em seguida, Lucie distribuiu três pratos e talheres em volta da panela, servindo-os com o conteúdo da mesma: uma rala, porém aquecida sopa de repolho.
Serviu uma boa quantidade daquela sopa no prato ao seu lado, onde sua irmã costumava se sentar, e no outro prato, onde o seu pai sentava-se. Para si, ela serviu-se de apenas um pouco. Não sentia fome e planejava deixar mais para ambos. Assim que terminou de arrumar e servir os pratos, rumou em direção aos quartos. A princípio, parou perto de um quarto, cuja porta estava semi-aberta e seu interior encontrava-se em um completo breu. Podia ouvir um ronco pesado vindo de dentro do mesmo. Aproximando-se da porta, Lucie inspirou fundo.
“Pai... acabei de servir a comida...” Disse Lucie, séria e pode ouvir um resmungo baixo, como se alguém houvesse acabado de acordar.
“Oh... Sim... comer... Comer...” Disse a voz de dentro do quarto e, em seguida, Lucie entrou no mesmo, ajudando o pai a se levantar. Com dificuldade, começou a apoiá-lo, saindo lentamente do quarto. O pai, taciturno e com uma expressão séria, acompanhava a filha, até que suspirou, aborrecido.
“Não era... necessário me carregar...” Disse Jason, porém Lucie negou com a cabeça.
“Eu compreendo, pai. Mas não. Eu não me importo em lhe ajudar...” Disse Lucie, com um olhar tão sério quanto o dele. Ao passarem perto de outra porta, porém esta estava fechada, Lucie deu duas batidas na mesma.
“Irmã... venha! Nós vamos comer.” Disse Lucie e ela pode ouvir um som de um livro a se fechar e, em seguida, passos que se aproximavam lentamente da porta, abrindo-se em seguida. Com um olhar assustado e, ao mesmo tempo, curioso, ela observou de uma pequena fresta da porta. Lucie esboçara, então, um breve sorriso ao vê-la que, logo o retornou, porém de uma maneira mais tímida e saiu do quarto, acompanhando-os.
Tão logo se reuniram a mesa de jantar, o pai conduziu uma prece, que Lucie logo começou a realizar também. Celine, no entanto, apenas fingiu, fechando os olhos e movendo os lábios e, quando concluíram, começaram a comer em um profundo e pesado silêncio. Celine virou-se para a irmã e exibiu uma expressão preocupada, ao ver o quanto Lucie havia colocado para si mesma. Pensou em dizer algo, mas, como se previsse, Lucie fez um gesto para que ela se calasse. Entristecida, Celine inspirou fundo, e começou a comer.
Passadas meia hora, Celine começava a recolher os pratos e certificou-se que a panela estava vazia. Sentia um pouco de fome, porém não havia mais nada para comer em casa. Levou então os pratos para lavá-los, assim como a panela, enquanto Celine aproximava-se da cozinha, com o seu jeito curioso.
“Mana...” Disse Celine e Lucie voltou-se para ela.
“Pode ir se deitar, mana... eu já vou acabar aqui, me banhar rápido e logo estarei junto de você, tudo bem?” Disse Lucie, quebrando sua expressão séria, para uma mais humana e compreensiva. Celine concordou com a cabeça, com um belo sorriso, que acabou por cativá-la.
“Só queria que... você pudesse me contar uma história, para eu poder dormir...” Perguntou Celine, tocando as pontas de seus indicadores, sem jeito. Lucie sorriu brevemente, concordando com a cabeça. Animada, Celine rumou em direção ao quarto, às pressas. Lucie sorriu. Gostava de vê-la animada assim, porém logo o sorriso cedeu para sua costumeira expressão séria e acelerava-se para terminar de lavar os talheres.
Em poucos instantes, rumou em direção ao lado de fora da casa, aproximando-se da pequena área cercada, onde estava uma tina com um balde, próximo de um sifão. Retirando suas roupas e colocando-as penduradas a cerca, protestou a respeito do frio, porém tratou de banhar-se o quanto antes. Em questão de minutos, o terminara e vestira uma muda de roupas limpas, que havia trazido e colocou as outras que havia vestido dentro de um barril, fechando-o em seguida. Cuidaria daquelas roupas amanhã.
Sentindo a pele arrepiada do frio do lado de fora, Lucie apressou-se e rumou em direção ao quarto, apagando as velas pelo caminho, entregando a casa a uma completa escuridão. Abrindo lentamente a porta do quarto.
Observara aquele pequeno cômodo, com uma cama que ocupava boa parte do quarto. A cama encontrava-se disposta ao fundo, próxima de uma parede onde havia uma pequena janela. Desta janela, dava para observar a chuva a molhá-la. Próximo da porta encontrava-se uma pequena estante, repleta de livros e, próxima dos pés da cama, colada a parede oposta, encontrava-se uma escrivaninha que continha uma vela acesa.
Lucie pode avistar a sua irmã, levemente adormecida na cama, segurando um livro. Certamente era o livro que ela queria que Lucie lesse para ela. Suspirou, porém com um sorriso no rosto.
Delicadamente removeu o livro de suas mãos, sem acordá-la, e o colocou no espaço vago da estante e, em seguida, assoprou a vela, deixando o local entregue a escuridão. Em seguida, deitou-se na cama, ao lado da irmã e sorriu, satisfeita, ao perceber que ela não acordara. “Realmente estava com sono...” Pensou Lucie e acariciou delicadamente os cabelos dela, sorrindo brevemente. Não parecia mais a Lucie séria de até poucos momentos atrás. Parecia uma jovem garota que crescera as pressas, e eram apenas naqueles momentos, ali entre as duas, que ela revelava esse seu jeito carinhoso e delicado de ser.
Porém. Também havia algo. Algo que ninguém, nem seu pai e muito menos Celine sabiam sobre Lucie. Algo que consumia o seu espírito.
Sem mais o seu controle, Lucie aproximou os seus lábios com os de Celine, beijando-a delicadamente. Não era a primeira vez que o fazia e mal sabia quando sentiu tal atração por sua própria irmã, mas continha-se. Tentava ao seu máximo não exibir tal atração para ninguém, muito menos para ela.
Era apenas naquelas horas que, ao vê-la, tão indefesa, que ela perdia o seu controle.
Lucie tinha medo. Muito medo que seu pai descobrisse. Mas mais ainda: tinha medo que sua irmã descobrisse. Era como uma jovem, tímida, que não conseguia declarar o seu mais puro amor para a pessoa que amava.
Limitava-se apenas em beijá-la, naquelas horas. Na verdade, não era o suficiente. Desejava conseguir ter coragem de confessar o que sentia, porém o medo que ela sentisse repulsa de si e nunca mais quisesse falar consigo, era muito maior.
Lucie lembrou-se que, quando se sentiu atraída por Celine, ela acreditou que havia sido obra de algum espírito, ou demônio e tratou de rezar, em busca de apoio, todas as vezes, ao anoitecer. Porém, ao invés de se sentir melhor, a situação só se agravava.
Flashes de lembranças de Celine a abraçá-la e estarem juntas, assim como comentários por parte de Celine, quando a mesma desejava a sua companhia e atenção, ofuscavam suas mentes e sentia-se cada vez pior.
Porém não conseguia conter-se. Aquele desejo. Aquela paixão que ardia em seu peito a consumia todos os dias.
Então ela pode sentir. Diferente das outras noites, lágrimas que começavam a brotarem de seus olhos e escorrerem pelo seu rosto. Em seguida, as mesmas caíam, umedecendo o rosto de Celine.
Foi nesta hora que Lucie paralisou.
Foi nesta hora que ela sentiu até o seu coração e pulmões pararem de funcionarem.
Pois Celine abria, assombrada, os seus olhos e a avistou, a sua frente, a beijar-lhe. Ambas se entreolharam. Porém não havia palavras.
Apenas olhares...
- Continua –
Notas finais
Porém, os elementos que compuseram essa história foram várias idéias de outras histórias que eu criei, ou estou a terminar.
Conforme fui escrevendo, no entanto, fui me interessando a descrever a situação em que os três vivem... ao ponto que quase me vi, na vida deles! E, me empolguei tanto, em descrever o lado sério e trabalhador de Lucie, que quase me falta espaço para seguir em rumo ao tema principal na história: o relacionamento entre as duas. Fiquei até preocupado enquanto tentava encontrar um subterfúgio para colocar este tema... e isso me veio como uma dádiva, perto da conclusão do capítulo.
Adorei escrever sobre elas, amo a Lucie por tudo que ela faz, sem pedir nada em troca... é uma personagem realmente sofrida, como verão nos próximos capítulos. E Celine... eu a adoro também.
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