A Second Chance
5 Toxic
Notas iniciais
- E então? Já decidiu a roupa que você vai usar?
- Jake, você está lembrado que essa é uma reunião com uma potencial entrevistada e não um encontro, né?
Os dois amigos estavam parados na porta do prédio que abrigava a redação. O fotógrafo fumava um cigarro e Emily resolveu acompanhá-lo. Precisava respirar um pouco de ar, além de não agüentar mais os olhares de curiosidade que Jake lhe lançava a cada cinco minutos.
- Uma potencial entrevistada que é uma ex-quase-talvez-alguma-coisa, se eu bem me lembro.
- O que eu e a Santana tivemos ficou no passado. Além disso, eu estou com a Nina agora e tenho total capacidade de ser profissional perto dela.
- Eu vi isso ontem. Aquela cara de pimentão gaguejante me deixou super confiante em você.
Pensou em alguma resposta espertinha para dar para o amigo, mas era preciso concordar com ele. Santana ainda tinha a capacidade de mexer com ela, mesmo depois de tanto tempo. Deixou a cara de super-heroína se desmanchar e perguntou honestamente:
- Tão óbvio assim?
- Não sei para o resto daquele povo, mas para mim foi claro como água!
- É. Para você e para a Dianna.
- Como assim? A coração de gelo também percebeu?
- Coração de gelo? De onde você tirou isso, Jake?
- Andei ouvindo algumas conversas pelos corredores. Mas não muda de assunto, menina. O que foi que ela falou?
- Mais cedo, quando eu fui contar que tinha me encontrado com a Santana, ela perguntou como eu tinha conseguido marcar um café com ela sem passar pela equipe. Fui obrigada a dizer que nós nos conhecemos há algum tempo atrás e ela, é claro, perguntou se isso iria afetar a minha matéria.
- E você respondeu que...
- Que está tudo sob controle!
- Assim que eu gosto! Mentindo na cara dura sem nem piscar!
***
Já estava na metade final do seu show e até agora nada de Emily aparecer. Santana começou a pensar que talvez a morena não aparecesse e que aquela história de entrevista e capa de revista não passasse de uma desculpa para um café.
Durante os acordes finais da penúltima música, levantou os olhos e deu de cara com Emily entrando no salão. A cantora quase desafinou em algumas notas quando a jornalista avançou lentamente até a mesa mais próxima. Ela trajava um vestido preto, justo, nem muito curto ou decotado, apenas o suficiente para instigar a imaginação alheia. As botas de cano alto e a jaqueta de couro vermelha completavam o visual e ela não passou despercebida entre os presentes.
De cima do palco deu um sorriso de esguelha para Emily e combinou alguma coisa com a banda. Voltando-se para a plateia, agradeceu a presença de todos e anunciou a última música.
- Para encerrar essa apresentação, eu vou cantar um clássico que há muito tempo eu não canto. “Someone like you”.
Emily sentiu um choque, uma espécie de onda elétrica percorrer seu corpo ao ouvir o primeiro verso da canção. Era essa a música que Santana cantava naquele bar escondido em Nova York quando seus olhares se cruzaram a primeira vez. Quantas vezes dissera que aquela era a sua música preferida em todo o repertório da cantora? E agora ela escolhia justo essa para finalizar a apresentação, bem quando Emily resolvera aparecer. Definitivamente a cantora não estava facilitando as coisas para ela.
Esperou pacientemente que Santana atendesse a todos os seus fãs até que fosse possível chegar perto dela. O semblante era cansado, ma incrivelmente feliz. Emily se lembrava de como Santana se entregava a cada performance.
- Gostou da última música? Especialmente para você.
- Você sabe que eu gosto da sua interpretação dela, só não entendi por que você escolheu justo “Someone like you” para encerrar a apresentação.
- Emily, eu...
- Aí, está você, querida! Como sempre, brilhante!
- Obrigada, Simone. Deixa eu te apresentar uma pessoa. Essa daqui é Emily Fields, uma velha amiga minha.
- Ah, claro, a repórter sobre quem você me falou hoje mais cedo.
- Exatamente. E Emily, essa é Simone Marino, minha assessora de imprensa.
- É um prazer, Simone. Será que a gente pode conversar um pouco sobre a entrevista?
- Claro. Na verdade, a Santana me contou o que você está propondo e eu acho que pode ser uma oportunidade interessante. Temos apenas um pequeno problema.
- Qual?
- Ficaremos pouco tempo na cidade e vários compromissos anteriores já haviam sido combinados, então o tempo da Santana está bastante apertado. Como ela insiste em conceder essa entrevista, acho que você teria que ficar grudada nela 24 horas pelos próximos quatro dias para conseguir juntar material. Topam?
Por essa Emily não esperava. Tinha esperanças de que fosse sentar com Santana por no máximo umas três horas em um camarim, após uma apresentação qualquer, conversar sobre alguns tópicos que já tinha identificado, entrevistar algumas pessoas da banda e equipe e pronto. Santana Lopez estaria fora da sua vida. De novo. Definitivamente. Não estava preparada para quatro dias inteiros andando atrás daquela cantora. Mas antes que pudesse pensar com mais cautela sobre qual seria a melhor maneira de conduzir as coisas, se ouviu respondendo:
- Topo.
Pronto! Santana deu mais um sorriso de esguelha e Emily pôde sentir sua garganta apertar um pouquinho. Não tinha a menor ideia de como sobreviveria aos próximos dias. Ou melhor, não sabia se queria sobreviver. Independentemente de qualquer coisa, achou que seria melhor ter reforços caso cometesse alguma loucura.
- Mas eu preciso ter o meu fotógrafo comigo. Não existe capa sem fotos, certo?
- Com certeza, mas ele não precisa ficar com vocês o tempo todo.
- Não, mas se a nossa intenção é mostrar um pouco sobre quem é Santana Lopez fora dos palcos, iremos precisar de fotos de bastidores. Podemos fazer assim, você me dá uma geral na agenda de vocês para os próximos dias e eu combino com o Jake quando e onde nos encontrar.
- Simone, pode passar toda a minha agenda para a Emily. Eu confio nela. Sei que ela não vai divulgar nada antes da hora e nem usar fotos muito comprometedoras.
A frase foi seguida por uma piscada de olho que deixou Emily inquieta. Queria fugir logo daquele lugar, tomar um banho gelado, dormir e só acordar no mês seguinte. Ou, pelo menos, queria que Jake estivesse ali. Ele não deixaria que ela fizesse nada muito estúpido. Ou deixaria?
- Claro, Santana. Como quiser.
- Bom, Santana, obrigada por concordar com a entrevista. Simone, foi um prazer conhecer você. Aonde e a que horas nos encontramos amanhã?
- Aonde você pensa que vai, senhorita? Nossa entrevista começa agora!
Quando finalmente se livrou da cantora e conseguiu voltar para casa, já passava das três da manhã. Não conseguia entender como Santana tinha tanta energia. Haviam se encontrado de manhã no café e no final do dia ela não parecia ter nem metade do cansaço que Emily apresentava.
Viu o carro de Nina na garagem e decidiu que era melhor entrar em casa sem fazer barulho. Era a segunda noite consecutiva que abandonava a namorada e estava prestes a dizer que viraria sombra de uma cantora famosa e incrivelmente sexy pelos próximos quatros dias. Não podia esperar uma reação muito pacífica.
Abriu a porta com o máximo de cuidado, tateou até encontrar o sofá e, no escuro, tirou as botas e a jaqueta. Carregando os calçados em uma das mãos, caminhou até o quarto, rezando para não topar com nada no meio do caminho. Conseguiu chegar até o dormitório em segurança, mas no momento em que começava a abrir o vestido, a luz do abajur de Nina se acendeu e ela deu de cara com os olhos castanhos da namorada.
- Aonde é que você esteve até essa hora?
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