A Second Chance
29 Epílogo - Saving all my love for you
- Você tem certeza de que eles vão ficar bem?
Santana e Emily estavam paradas na porta de casa, observando o carro que se afastava lentamente em direção a Rosewood. No dia seguinte comemorariam 10 anos de casadas e os pais da jornalista vieram buscar os netos para que elas pudessem celebrar a data como mereciam.
- San, é da minha mãe que a gente está falando. Eles provavelmente vão voltar uns três quilos mais gordos e reclamando da minha comida. – Tinha o braço ao redor da cintura da cantora e uma gargalhada presa na garganta. – Vai ficar tudo bem, amor. Quer dizer, eles me criaram e até que eu me saí razoavelmente bem.
A cantora virou-se para Emily. Mesmo depois de tanto tempo, ainda sentia um frio na barriga toda vez que seus olhos se cruzavam. Os últimos anos não tinham sido simples ou fáceis. Depois que as alianças mudaram de dedo, muita coisa mudou na vida das duas, mas uma coisa permaneceu a mesma: o amor que sentiam uma pela outra. Quando tudo parecia estar desmoronando, tinham a certeza de encontrar rocha firme dentro do abraço agora já tão familiar.
Os primeiros anos do casamento foram recheados de paixão. Naqueles dias, as duas mal conseguiam ficar no mesmo ambiente sem que os lábios se tocassem ou se perdessem em carícias. Era um momento de plenitude e Santana optou por desacelerar um pouco a carreira para poder estar mais próxima de Emily.
Quando se aproximavam do terceiro aniversário de casamento, decidiram que era momento de aumentar a família. Santana gerou o primeiro filho. Tom, um menino esperto, curioso e um pouquinho impetuoso como uma de suas mães, apesar de ter sido gerado com um óvulo de Emily.
Depois que o filho completou um ano de idade, Santana retomou a carreira, depositando todas as suas energias no CD. A vida familiar estável lhe dava a força para fazer aquela empreitada dar certo e as noites longe de Tom e Emily foram recompensadas. Nas estantes de casa, cindo prêmios Grammy lembravam à família do porque Santana às vezes passava tanto tempo longe.
Mas a família ainda não estava completa. Tom logo começou a pedir por um imãozinho e as duas não conseguiram negar. Até porque, estavam mais do que animadas com a perspectiva de ter mais um bebê. Emily gerou Alice, uma versão miniatura de Santana, mas com uma doçura nunca vista nas atitudes da cantora.
Num determinado momento, Emily chegou a cogitar a possibilidade de abandonar a carreira no jornalismo para se dedicar à jovem família. Santana conhecia muito bem a esposa e sabia que ela não seria feliz levando uma vida puramente doméstica. Emily continuou trabalhando e agora era diretora da editora em que trabalhava desde que se mudara para Nova York.
As rotinas das duas mulheres eram intensas, mas tinham orgulho de poder dizer que sempre encontravam momentos para estarem em família e para estarem juntas, como um casal. E era por isso que Emily havia pedido que seus pais levassem as crianças para passar uma temporada em Rosewood. Gostava que as crianças se tornassem um pouco independentes delas e, assim, teria uns momentos a sós com a mulher que tanto amava.
- Pois eu acho que você se saiu extremamente bem, Sra. diretora.
Um sorriso brincou nos lábios de Santana antes de colá-los aos de Emily. Agora que a insegurança e as descobertas dos primeiros anos tinham ficado para trás, cada beijo que trocavam trazia a excitação de saber exatamente o que agradava a outra. Os movimentos do casal tinham sido coreografados em uma década de relacionamento e as duas mulheres se moviam como se partilhassem a mesma mente e sentissem com o mesmo corpo.
Com um esforço um pouco maior do que o normal, Santana descolou seu corpo do de Emily e puxou a esposa pela mão para dentro de casa. Tinham um horário a cumprir e, se continuassem naquele ritmo, não sairiam mais de casa naquela noite.
- San, me explica uma coisa. – Emily tinha um tom divertido na voz e Santana não pôde reprimir um sorriso ao ouvir. – Por que é que a gente vai sair para jantar hoje, se o nosso aniversário de casamento é só amanhã?
- Porque, amanhã, eu não pretendo dividir você com mais ninguém desse mundo.
***
O jantar aconteceu dentro do programado: luz de velas, restaurante romântico, longos olhares trocados, mãos dadas em cima da mesa, uma sobremesa dividida e duas mulheres tão apaixonadas quanto no dia em que começaram a namorar. Mas apesar da emoção do momento, Santana pensava apenas na surpresa que tinha preparado. Queria que tudo saísse da maneira mais perfeita possível.
Emily não conseguia esconder o sorriso largo quando saíram do restaurante. Santana atraía alguns olhares curiosos e a jornalista nem se importava com isso. Sentia-se a mulher mais feliz do mundo e não ligava se as pessoas percebessem. Uma parte dela até queria exibir aquela felicidade um pouquinho.
As duas se abraçavam na porta do restaurante, quando uma limusine estacionou na beira da calçada, bem na frente de onde estavam. Santana deu mais um beijo na esposa e pegou sua mão, sorrindo.
- A nossa carruagem chegou, meu amor.
- Cadê o seu carro?
- O Mike já levou para casa. Essa é a nossa carona para a nossa próxima parada.
- O que você está aprontando, Santana?
- Você já vai descobrir, mas eu preciso que você coloque isso primeiro.
- Uma venda? – O tom de voz era de dúvida, mas o sorriso no rosto era brincalhão. Conhecia Santana e sabia que a esposa adorava esse tipo de coisa.
- Por favor. Faz isso para mim?
A jornalista sabia que não adiantava discutir e decidiu entrar naquela dança. Enquanto tomava seu lugar no banco de trás do carro, lembrou-se da brincadeira que Santana armou para pedi-la em casamento e sentiu um arrepio de excitação pelo que estava por vir. A última imagem que viu antes de colocar a venda foi Santana lançando um sorriso misterioso para ela.
- Agora só falta mais um detalhe, amor.
Se Santana pudesse ver os olhos de Emily naquele momento, teria notado a curiosidade que começava a nascer em sua mente. Tremendo de antecipação, a cantora pegou um fone de ouvido que tinha sido colocado ali previamente e encaixou as saídas de som nos ouvidos da esposa. A seleção musical tinha sido cuidadosa: apenas as músicas escritas e gravadas por Santana. Em todas, Emily tinha sido a musa inspiradora.
Pronto. Agora que a esposa não podia vê-la ou ouvi-la, Santana pegou o celular para pôr em prática a segunda parte do seu plano para aquela noite. Trocou algumas mensagens com Mike e se certificou de que estava tudo preparado. Chegariam ao seu destino em poucos minutos e, conforme se aproximavam, sentia sua ansiedade aumentar.
Finalmente o carro estacionou na frente do local combinado. O motorista abriu a porta do carro e Santana ajudou Emily a sair do veículo. A jornalista tentou puxar a venda, mas foi impedida pela cantora. Puxando um dos fones, Santana sussurrou no ouvido de Emily:
- Ainda não, meu amor. A gente já está chegando.
Santana guiou a mulher pelas escadas e até o elevador. Saíram no andar e Emily se deixou levar pela mão da latina, cada vez mais fria. Santana estava nervosa, mas, ao mesmo tempo, segura de que Emily gostaria da surpresa. Encaixou a chave na fechadura antiga e um cheiro de flores invadiu as narinas das duas enquanto entravam. Faltava pouco para ter Emily em posição.
Deixou a jornalista parada no meio do cômodo enquanto foi vistoriar o restante do ambiente. Emily sentiu quando Santana se afastou e se sentiu irrequieta. Confiava na esposa, mas não gostava da sensação de estar completamente à mercê de outra pessoa.
A cantora ficou satisfeita com o que viu e voltou para onde tinha deixado Emily. Deu um sorriso ao perceber o nervosismo da morena e retirou apenas os fones, abraçando-a pela cintura e sussurrando muito perto de seu ouvido, arrepiando a pele daquela região.
- Sabe, Em, eu pensei muito sobre onde nós deveríamos comemorar o nosso aniversário de casamento. Vários lugares românticos passaram pela minha cabeça, mas eu achei que nada seria melhor do que aqui, o exato lugar onde o nosso amor nasceu. Duas vezes.
Emily sorriu antes mesmo de Santana remover a venda. Sabia onde estava e concordava com a esposa. Não havia lugar no mundo que significasse mais para elas do que aquele apartamento pequeno, num prédio antigo, perdido no meio de Nova York. Santana puxou a venda que cobria os olhos de Emily e permitiu que a esposa visse o que tinha preparado.
A jornalista piscou algumas vezes, se acostumando com a claridade repentina. Quando conseguiu focalizar, o que via trouxe lágrimas a seus olhos. Espalhadas pelas paredes, as fotos do casamento. Via as duas, de vestido branco, sorrindo, trocando votos e prometendo uma vida inteira juntas. Deu alguns passos e constatou que as imagens tinham sido espalhadas por todo o apartamento e que pétalas de rosas vermelhas tinham sido espalhadas por todo o chão. Eram as mesmas flores usadas na decoração da cerimônia.
Na parede onde costumava ficar a televisão – boa parte dos móveis tinha sido removida para aquele momento – uma única foto ocupava todo o espaço: as duas se olhavam nos olhos, mãos reunidas perto do rosto e um brilho no olhar inconfundível. Santana postou-se ao lado da mulher e tomou-lhe a mão, trazendo aos lábios e depositou um beijo suave.
- Lembra dessas duas, aí?
- Sempre, meu amor. Todos os dias. – Emily virou-se para Santana e aumentou o sorriso que parecia grudado em seu rosto. – Eu não sei nem o que dizer, San. É lindo. É a surpresa mais incrível que você já me fez.
- Que bom que você gostou, mas você não veio aqui para falar nada. Eu trouxe você aqui para ouvir. Eu achei que dez anos seria um bom momento para renovarmos os nossos votos. Por isso eu trouxe você aqui. A gente nunca precisou de um templo. A gente construiu o nosso templo particular, aqui, nesse apartamento.
Santana já tinha os olhos rasos d’água e não fez nenhuma tentativa de impedir as lágrimas. Se havia algum lugar em que podia se mostrar frágil, ele era com Emily. Respirou fundo antes de continuar com o discurso que tinha ensaiado.
- Sabe, Em, durante muito tempo, muito tempo mesmo, eu mantive muros ao redor de mim. Eu tinha medo de deixar as pessoas se aproximarem, não queria que ninguém olhasse dentro do meu coração. E aí eu conheci você. A menina mais doce que eu já tinha visto e comecei a sentir esse muro ruir. Isso me assustou tanto e, por isso, eu acabei fugindo do amor que estava nascendo. – Santana mantinha as mãos de Emily entre as suas e lágrimas rolavam pelos rostos das duas mulheres. – E aí, dez anos depois, a vida me deu uma segunda chance e eu não estava disposta a perder. Em, você faz de mim uma pessoa melhor. Você faz com que eu conheça uma Santana que eu achei que nem pudesse existir. É por você que eu me levanto todos os dias e é o seu o rosto o último que eu vejo antes de dormir, aonde quer que eu esteja. Os últimos dez anos foram os mais incríveis da minha vida e eu prometo a você, hoje, que eu vou passar os próximos dez, vinte, cinqüenta anos tentando fazer você sentir o mesmo que eu sinto cada vez que olho nos seus olhos. Eu amo você e essa é a maior verdade da minha vida. Tudo nasce e volta para esse amor.
Emily tremia ao final do discurso de Santana e precisou apertar com mais força as mãos que lhe eram oferecidas para se manter de pé. Estava acostumada com Santana usando palavras bonitas – ela era uma compositora, afinal –, mas ter a esposa com o coração exposto daquela maneira, se declarando naquela situação tirou o chão de debaixo dos seus pés.
- San...
- Não precisa falar nada, Em.
- Preciso, sim. Ou você já esqueceu que num casamento, as duas pessoas fazem seus votos?
Santana sorriu quando a mulher respirou fundo, tentando controlar as lágrimas para poder começar a falar. Emily não tinha preparado nenhuma declaração, mas sentiu que era só deixar o coração tomar as rédeas que as palavras sairiam com facilidade.
- Durante muito tempo, San, eu procurei encontrar em outras pessoas o que eu só encontrei em você. Dez anos depois, eu ainda me sinto uma adolescente quando eu olho nos seus olhos. Eu ainda sinto um frio na barriga quando você me toca. Eu ainda me pego pensando em você no meio do dia com um sorriso bobo no rosto. Você disse que eu faço de você uma pessoa melhor, mas isso é só porque eu sou uma pessoa melhor desde que eu te encontrei. Você me ensinou tanto sobre coragem, lealdade, força, caráter, amor. Você é o melhor exemplo de vida que eu poderia esperar para os nossos filhos. E a cada dia da minha vida, os meus esforços são para ser merecedora desse amor que preenche cada fresta, cada segundo, cada movimento da minha vida. Eu te amo. Tanto. Acho que eu sempre guardei esse amor para você. E se eu não tivesse feito mais nada de certo na minha vida, só isso já me bastaria.
Os dois pares de olhos castanhos se encontraram mais uma vez e todo o mundo foi tragado pela intensidade daquele olhar. Todas as versões das duas mulheres estavam ali, naquele momento, entregando seus corações novamente: as pós-adolescentes que se conheceram num bar; as jovens adultas que se reencontraram em San Francisco; e as mulheres que elas haviam se tornado juntas. Cada uma amava todas as versões e fases e momentos da outra. Conheciam suas piores falhas e participaram de suas maiores vitórias. E a cada um desses momentos, o amor que sentiam só fazia aumentar.
Santana puxou Emily para um abraço apertado. Parecia que queria fundir seus corpos, se tornar verdadeiramente uma com a esposa. Seguindo a dança que ensaiaram durante toda a vida, Emily afastou-se de Santana e puxou a cantora para um beijo, colocando em atos toda a intensidade do amor que compartilhavam.
Estavam em casa nos braços uma da outra. E sabiam que ficariam ali para sempre.
Notas finais
Agradeço muito a todos que acompanharam, que comentaram e os que leram em silêncio. Foi minha primeira fic aqui no site e fiquei bem feliz com a reação de vocês.
Bjs e até a próxima!
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