Quando o demônio surgiu pela primeira vez, o Capitão pensou estar alucinando. A poluição sonora provocada pelos brados da tripulação, a exposição prolongada ao sol enquanto conduzia o leme do navio, o forte cheiro do mar e as horas sem consumo de água potável foram motivos mais que razoáveis para este ter sido mais um de seus delírios náuticos.

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Ao contrário do que dizem os contos épicos da idade moderna, piratas não foram heróis celebrados. Por muitos e muitos anos, talvez por um par de séculos, a pirataria nada mais foi que o terrorismo dos mares. Temido pelos homens, cobiçado pelas mulheres, procurado incansavelmente pelas autoridades e casado com sua ganância, Big Bones possuía prazer em viver sob as próprias leis.

Em apostas de taberna, sua resistência a bebida e seu estômago de aço já conquistaram todo o saque de outras embarcações. Sua inacreditável sorte nos dados – ou o seu dom de ludibriar os tolos – já se apossou de milhares de serpentes de prata. Os maiores piratas de sua época eram conhecidos por suas suntuosas barbas; este, no entanto, teve o azar de não possuir alguma. Como compensação à sua vergonha, os deuses decidiram agraciá-lo com um corpo vigoroso e robusto.

Embora seu porte físico o tornasse lento em combates, seus fiéis tripulantes sacrificariam suas vidas, quantas vezes fossem necessárias, para mantê-lo a salvo. Muitos poderiam considerar seus atos como cruéis e sua influência como um dos males da humanidade, mas poucos confessariam a admiração e cobiça acerca de suas posses. Big Bones, ou Capitão Cartman, era um verdadeiro Cão do Mar.

Após mais um gratificante dia de saque, várias horas após zarpar, as comemorações na grande nau permaneciam exorbitantes. Enquanto as velas da embarcação se enchiam com lufadas de ar sob os céus muito azuis, os tripulantes de roupas imundas se embebedavam de rum feito reis. Descansado fisicamente porém devastado mentalmente, Big Bones decidiu entregar o comando do leme a um de seus poucos subordinados sóbrios.

De botas de couro dobradas, calças negras confortáveis e sobretudo vermelho vivo adornado com peças de ouro, seu olho atento – afinal, um tapa olho ocultava o esquerdo – analisava as festividades. Seu chapéu de comandante, enfeitado pela figura de um crânio sobre ossos perpendiculares, projetava sobre seu rosto uma sombra confortável. Mesmo temeroso pela lembrança da alucinação tida há poucos dias, Bones se permitiu debruçar preguiçosamente na parede do convés.

Poucas coisas conseguiam distraí-lo com a mesma facilidade que a calmaria do mar. Passaram-se minutos, vários deles, e fora tempo suficiente para o demônio surgir pela segunda vez.

Claro: “demônio” era um disfemismo. Aquela face distante, flutuando sobre as águas, possuía uma beleza nunca antes vista.

Seus cabelos curtos embebidos em água salgada eram negros e selvagens. Suas feições de mulher eram graciosas, apesar de firmes. Sua pele era pálida feito mármore, como se nenhum sangue circulasse em suas veias. Seu encanto era sombrio, e seu olhar, lascivo.

Certamente era a mulher mais cativante que qualquer homem já tivesse visto. Certamente, era uma mulher que não existia. Bones piscou e esfregou seu olho útil e, assim como suspeitava, a figura desapareceu.

Numa vida como a dele, alucinações como esta eram comuns. Contos sobre mulheres como aquela foram criados para assustar crianças, nascidos do frenesi de marinheiros loucos.

— Butters — chamou pelo criado de bordo que passava ao lado. Tronco desnudo, pés descalços, feições delicadas demais para um homem e uma bandana sobre os cabelos loiros.

— Trouxe pra você. — disse ao entregar-lhe uma garrafa de rum. — Parece meio abatido desde que retornamos da costa da Somália, senhor.

Impressionado por sua proatividade, o Capitão aceitou sua oferta de bom grado. Levou a garrafa aos lábios e teve dela uma longa dose. Enquanto observava, seu criado esfregava as mãos uma na outra com expectativa.

— O mar faz coisas estranhas na mente dos homens, meu amigo. — limpou com o polegar uma gota que escapou de seus lábios. — E esse rum é uma merda.

— Desculpe, senhor! — o jovem dava passos inseguros para trás. — Senhor, Capitão, senhor...

— Butters... — pressionou a ponte do nariz entre os dedos. — Apenas vá buscar outra garrafa antes que a gente te mate.

Amedrontado, o criado saiu em disparada para cumprir a ordem. Com sua atenção de volta ao mar, Bones riu sutilmente e continuou a consumir a bebida. Conseguir devoção por meio do medo era um divertido rito de passagem para os recém-chegados. Butters certamente se desesperaria ao ver que todas as garrafas de rum no estoque eram exatamente iguais.

O horizonte era uma linha reta, dividido por dois diferentes tons de azul. As águas permaneciam calmas, calmas demais, e nenhuma terra estava à vista. Bastou que o Capitão tomasse outro gole para que, de maneira súbita, os céus se tornassem escuros.

Os ventos sopraram mais forte. Um frio repentino gelou sua espinha. O mar se agitava, os céus se encobriam por nuvens, um trovão tenebroso soou a bombordo. Gotas de chuva grosseiras lentamente despencaram por todos os lados. Em meio à inexplicável mudança de clima, um dos Mestres do Navio anunciava a tempestade.

Como um pirata temido, Eric Cartman já navegou nas mais turbulentas das águas. Porém, desta vez, algo estava terrivelmente errado. Havia um sentimento incomum de que algo na direção do trovão o chamava.

Após dar meia volta, o Capitão caminhou pelo convés. Seus passos de veterano adaptavam-se facilmente aos movimentos bruscos do navio. Seu sobretudo pesava pela chuva e o desespero diluía o álcool das mentes dos tripulantes. De um dos servos próximos, furtou de modo bruto uma luneta de bronze. A fim de tirar as próprias conclusões, Cartman levantou a luneta e olhou impacientemente através.

A tempestade se intensificava. A imensa embarcação tremulava. Relâmpagos disformes à distância cruzavam os céus e iluminavam as nuvens escuras como se as fragmentasse. Ao encontrar o que tanto buscava, numa proximidade tão elevada que sua luneta para longas distâncias perdia a utilidade, Bones afastou o instrumento de sua face.

Levou uma mão ao quadril e tocou inutilmente o cabo de sua cimitarra; o mais tolo dentre todos os instintos de defesa. O que estava à sua frente não era um demônio, não era um deus, tampouco era datado nos livros de lendas do mar. A imensa criatura que emergia das águas, ascendendo aos céus com uma altura descomunal, era algo capaz de fazer o próprio Kraken se amedrontar.

Enormes tentáculos, que facilmente dariam mais de dez voltas ao redor do barco, se movimentavam lentamente por todos os lados. Tentáculos estes, negros e pesados, que possuíam um característico odor de maresia, podridão e morte. O núcleo do enorme monstro, para surpresa e confusão geral, era um torso feminino largo e pálido de metros incontáveis, com seios firmes sem bicos ou auréolas que demonstrassem alguma humanidade. Seus braços eram tão longos como o corpo ordenava, suas unhas eram negras e pontiagudas, suas mãos estendidas retorciam os dedos feito garras.

Uma parte da tripulação, cegada pelo medo, gritava indefesa e se encolhia pelos cantos na espera de salvação. A parte restante, corajosa e experiente, alvejava incansavelmente a criatura com dezenove canhões. Constatando que não surtiam efeitos em qualquer um dos disparos, mesmo os artilheiros mais destemidos se acovardavam.

Big Bones sempre se perguntou como seria sua morte. Para a lenda que considerava ser, seria uma morte propriamente lendária.

De olho fixo na criatura e mão sobre o pomo da espada, buscava por algum rosto em meio aos cabelos indomáveis. Enquanto dois pares de tentáculos se enroscavam ao redor do navio, um último relâmpago revelou aquilo que procurava: o mesmo rosto belo de mulher, com o acréscimo de um sorriso anormalmente largo e de dentes afiados.

Antes que seu navio se despedaçasse, que seus servos tivessem um último suspiro de horror e que seu corpo colidisse com águas geladas, Bones esteve certo de que aquele par de olhos amaldiçoados havia focado diretamente sobre seu ser.

* * *

O despertar de Cartman foi abrupto. Em seu primeiro fôlego, pôs-se de lado sobre o solo áspero e tossiu fortemente para expelir a água em seus pulmões. Sua cabeça parecia girar, sua boca e garganta queimavam junto ao desagradável sabor do sal, e mesmo que iluminação ao redor fosse suave seu olho descoberto ardia como o inferno em contato com a claridade.

Seu sobretudo ainda pesava pela umidade. Sua sensação corporal era a de ter sido massacrado pelas ondas, mas curiosamente nenhum de seus músculos doía. O chapéu que por anos marcou seu posto de Capitão havia desaparecido, revelando completamente seu cabelo castanho e bem cortado. De qualquer forma, já não importava: não existia mais qualquer tripulação que pudesse comandar. Ao se sentir vivo o bastante, fez uma pausa para analisar os arredores.

Tanto o solo quanto as paredes côncavas eram feitas de rocha, moldadas pela brisa e pelo tempo. Em algumas áreas das paredes e teto, sinais de limo com certa beleza podiam ser encontrados. Pela luminosidade alaranjada que vinha na direção oposta ao seu olhar, Cartman deduziu estar na gruta de uma pequena ilha não mapeada. Não apenas isso, como deduziu que a tempestade havia durado somente o tempo de vê-lo aterrorizado e perdendo todos os seus bens.

Sentindo-se exausto, liberou uma risada breve. Voltou a se deitar sobre o chão áspero com sua tensão ignorando completamente o desconforto.

Big Bones: ex-corsário, mercenário, enganador, estrategista e provavelmente único sobrevivente do naufrágio da Liane do Mar. Se lembrava que a figura de sua falecida mãe ornava a proa. Em vida tratando-se de uma prostituta e sabendo que todos os dias aquela embarcação carregava dezenas de homens, era como uma grande e triste brincadeira de mau gosto.

Fitava o teto sem muitas esperanças. Não sabia como chegou ali, muito menos como poderia sair dali ou o que faria caso conseguisse sair. Dificilmente bebidas conseguiam derrubá-lo, mas podia jurar que sentia uma ligeira ressaca. Ressaca e alucinações, pois existia uma estranha impressão de não estar sozinho.

Cobrindo o rosto com uma mão, finalmente olhou em direção à luz. Pela grande brecha entre as pedras, o sol desaparecia lentamente no horizonte. Águas rasas se movimentavam serenamente na área mais inclinada do solo, e uma mulher familiar com curvas voluptuosas sentava-se despreocupadamente sua margem.

Cartman sequer a temeu ou se espantou. Depois do que foi visto em seus últimos momentos naquele navio, nada mais teria o poder de surpreendê-lo. Melhor adaptado à claridade, desfez a sombra sobre seu olho para analisá-la. Era a mesma mulher, ou o mesmo ser com aparência de mulher, que o havia atormentado durante dias.

De costas para ele, inteiramente nua e com a rebeldia de seus cabelos acentuada enquanto secos, bebia a solução roxa de uma garrafa esférica. Cada gole resultava na água onde estavam suas pernas, ou ao menos esperava que ela agora tivesse pernas, uma evaporação irracional. Ao ingerir a última gota, a criatura afastou o frasco dos lábios e o fez desaparecer numa torrente de chamas negras.

Ainda que usasse de sua experiência em não se mostrar amedrontado, o sangue de Cartman congelou quando ela se virou sensivelmente e o olhou com se enxergasse sua alma.

Suas íris eram um cinza profundo. Seus lábios eram naturalmente lilases e seus olhos eram contornados por linhas pretas que não pareciam ter sido pintadas. Sinalizando a ele que agora possuía um corpo completo, cobria razoavelmente os seios com um dos braços.

Que os deuses o perdoassem... Ela era uma tentação ao olhar. Tinha um corpo farto, atrativo até nas imperfeições e com carne o bastante para apertar nas mãos. A vida que levava não o permitia criar vínculos, sequer permitia que tivesse relações sexuais mais que esporádicas, e aquela entidade que podia multiplicar de tamanho e afundar frotas inteiras parecia ter sido feita para atender aos seus desejos mais reservados.

Bones não era alguém a se deixar intimidar. No entanto, aquela ausência de expressão que ela possuía realmente o intrigava. Embora suas pálpebras superiores se inclinassem em desinteresse, seu olhar fixo demonstrava exatamente o contrário. Era uma falta de emoções tão grande que “frieza” não era o bastante para ilustrar.

Mais do que gostava de enigmas, Bones gostava de resultados. Não estava muito disposto a permanecer nesta privação de palavras.

— Você precisava mesmo ter quebrado a porra do meu navio? — rompeu o silêncio usando de certo sarcasmo.

Finalmente, algum sorriso naqueles lábios. Ou, ao menos, a sombra de um; demonstrar felicidade não parecia ser o seu forte. Cartman já desconfiava que não encontraria nela qualquer arrependimento ou compaixão, mas encontrar divertimento foi uma surpresa notável. Não era muito diferente do que ele mesmo sempre foi: gostava de testar os limites dos outros.

— O que foi? O Leviatã comeu a sua língua? — com um sorriso maldoso, provocou-a sem pudor algum erguendo-se em seus braços para se sentar. — Ou além de não saber se vestir, você também não sabe falar?

Como resposta, a mínima alegria que ela tinha desapareceu. Em contrapartida, um brilho de interesse passou pelos seus olhos.

No momento seguinte, deixando-o tanto intrigado quanto provocado, a mulher sombria estava engatinhando lentamente em sua direção. O contato visual era mantido por todo o caminho. De fato, havia um par de pernas no lugar dos vários tentáculos que Cartman vira anteriormente. Sua locomoção cuidadosa indicava uma baixa habilidade em se deslocar. Uma visão que despertou o membro retido em suas calças encharcadas.

Ao alcançá-lo, a mulher posicionou-se ao seu lado. Seus rostos estavam próximos, a ponto de compartilharem calor pelo simples ato de respirar. Ainda que se esforçasse em não deixar de olhá-la nos olhos, Cartman inconscientemente passeava o olho livre pelo seu corpo na intenção de captar mais detalhes. Sua análise nada sutil precisou ser interrompida, pois ela descansou uma das mãos suaves na lateral de seu rosto. Sem aviso, vergonha ou pedido, a mulher uniu seus lábios entreabertos num beijo frio.

Ela mantinha os olhos selados, mas Cartman era incapaz de fechar o seu. Não conseguia se mover, horrorizado pela névoa difusa que se formava sobre seu pensar. Um único nome, cuja fala e grafia lhe eram desconhecidos, era clamado em sua mente por novecentas e noventa e nove diferentes vozes.

A anatomia humana não parecia ter sido feita para pronunciar tal palavra. Todas as vozes, centenas delas, a sussurravam ininterruptamente. Um nome a se lembrar pela eternidade.

— Henrietta. — Cartman enunciou com cuidado quando a união entre seus lábios foi cortada. Mesmo que sua mente parecesse ter sido violada, sentia-se estranhamente calmo.

Apesar da pronúncia ter soado incorreta, ela assentiu. Sua inexpressividade, como sempre, presente. Sua mão permanecia na lateral do seu rosto, acariciando-o ternamente com a ponta dos dedos. Cartman se permitiu deixar levar pelas carícias, ousando tocar sua cintura com equivalente suavidade.

— Você destruiu tudo o que eu tinha, mas não a mim. — prosseguiu impondo seriedade. — O que você espera? Saiba que não costumo me render muito fácil... E também nunca fui muito barato.

Mais uma vez, tudo o que ela esboçou foi aquele sorriso quase imperceptível. Cartman não havia se dado conta de que, enquanto falava, ela elevava discretamente o polegar até seu tapa olho.

O removeu de uma só vez, finalmente revelando aquilo que há muito possuía curiosidade: o olho esquerdo do Capitão era inteiramente branco. Sua íris e pupila estavam tão desbotadas que pareciam ter desaparecido, gerando um aspecto cadavérico; a aparência de um olho que há muitos anos não enxergava. Se a visão tivesse sido perdida por uma causa mais nobre, como uma grande batalha ou mesmo uma simples briga de bar, Eric Cartman não o esconderia. Entretanto, não passava do resultado de um contratempo tido em sua infância.

Antes de se tornar Big Bones, as mulheres o olhavam com repulsa. Era apenas um amontoado de gordura patética, com pouca defesa e um olho cego. Após adquirir poder, fortuna e um emagrecimento sutil, magicamente seu peso a mais tornou-se um charme e ficou conhecido não por ser gordo, mas por ter ossos largos – assim concedendo seu novo nome. Precisou estar órfão de posses, perder seus seguidores e ser perseguido por um ser de outro plano para finalmente encontrar uma mulher que se diferenciava de todas as outras: uma mulher que o olhava com verdadeiro desejo.

Enquanto distraído por suas lembranças, Henrietta arrastava uma unha pelo dorso de sua mão. Arranhou suave e lentamente até alcançar o fim de seu dedo anelar. Embora o ato não fosse coeso em sua civilização atual, era um gesto de fácil compreensão: ela o havia escolhido.

Poderia ser sacrificado num ritual pagão mais tarde e sequer se importava. Aquele rosto belo, aquela aura misteriosa que a cercava, aqueles olhos tomados por uma volúpia quase primitiva... Cartman a queria pelo resto dos seus dias.

Reuniram os lábios num ritmo intenso. Para seu alívio, o sabor suave de sal marinho em sua boca não parecia ser algo que a incomodava, e não houveram vozes sussurrando em sua mente desta vez. Pouco a pouco, esquecendo as noções de tempo, conheciam o toque e sabor um do outro. Henrietta arranhava lentamente sua nuca, de cima a baixo, arrepiando-o a ponto de fazê-lo apertar sua cintura com firmeza e trazê-la para mais perto. O atrito entre seus seios e as roupas úmidas que ele usava foi imediato, levando-a liberar um lamento pela sensação.

Completamente excitado pela feminilidade em sua voz, Cartman sorriu com maldade.

— Você não pode falar, mas você pode gemer. — sussurrou em seu ouvido para mexer com seus sentidos. — Que interessante.

O tremular em suas pernas indicava sucesso. Aproveitava para explorar as coxas dela com as mãos, fazendo-a se contorcer no estímulo das áreas certas. Ainda que estivesse praticamente possessa pelos toques, montou seu colo para não perder a postura e tornou a beijá-lo de modo voraz.

A dureza que se escondia nas calças do ex-corsário foi imediatamente pressionada, forçando-o a agarrá-la e impulsionar brevemente seu quadril para cima. Estava se controlando para não fodê-la sem cerimônias. Pensou em deitá-la o mais confortavelmente possível sobre o chão apenas pelo orgulho de recuperar o domínio, mas o chão definitivamente passava longe de ser confortável.

Notando que ela tentava remover seu sobretudo, Cartman imediatamente ajudou a tirá-lo e o jogou alguns metros ao lado. Antes que voltasse a ser beijado, inclinou-a sutilmente e começou a degustar um de seus seios. Chupava, estimulava com a língua e mordiscava a carne ao redor, arrancando dela mais gemidos e arfares que inutilmente tentava conter. Como esperava, os bicos possuíam um tom de lilás mais escuro que os lábios, algo que aumentava a curiosidade pelo que encontraria abaixo. Tocava, alisava e apertava sua cintura e pernas, sentindo-a friccionar suas intimidades.

Entregue às sensações que ele causava, Henrietta enroscou uma das mãos em seus cabelos e os puxou delicadamente entre os dedos. A sanidade de Cartman aos poucos se esvaía com a sensualidade dos seus gestos. Para alguém que em sua real forma possui tentáculos pútridos, ela cheirava bem demais. Retornou com avidez aos seus lábios, porém pôde conseguir dela apenas dois selos rápidos. Esteve tão fora de si que inicialmente não compreendeu por que ela havia se afastado.

É claro, a situação era injusta. Ele ainda usava roupas demais. Impaciente, Henrietta tentava desfazer os abotoados de sua camisa sem qualquer habilidade. Após várias tentativas frustradas, puxou de forma bruta ambos os lados arrebentando uma sucessão de botões.

— Porra. — Cartman queixou-se enquanto retirava o que restou. — Quer destruir mais alguma coisa minha? Eu literalmente só tenho as roupas do corpo.

Henrietta deixaria claro que não se abalou por suas palavras, mas sequer prestou atenção em qualquer uma delas. Admirar o tronco nu de seu cativo era bem mais interessante. Cartman tinha uma proporção ideal de músculos e carne, onde o “ideal” para ela era justamente haver mais do segundo que do primeiro. Ele não era o único que podia apreciar um físico mais denso.

O empurrando graciosamente com uma mão em seu peito, Henrietta o beijou pelo queixo e pescoço deixando mordidas leves pelo caminho. Descia a mesma mão pelo seu corpo, aproveitando sem nenhum controle de seu abdômen com o tato. Como nesta posição ele precisava usar os braços como apoio, ela tinha toda a liberdade de alcançar seu cinto e desfazê-lo.

Quando Henrietta tornou a se afastar, Cartman já começava a sentir falta de sua atenção. Entretanto, pôde perceber que voltaria a recebê-la em breve. Sua calça foi aberta por ela e superficialmente puxada, libertando completamente a sua ereção.

Ter o navio maior, a barba maior, o pau maior, para os homens eram praticamente as mesmas coisas. Desde que o mundo existe, houveram estas e outras milhares de competições internas por virilidade e poder. Bones pode ter tido um dos melhores navios, mas perdia nos outros dois quesitos; a seu ver, possuía um pênis mediano e nada mais. Contudo, vê-la admirando seu membro ereto com um olhar ávido o fez revisar seus conceitos. Henrietta praticamente salivava ao pensar nas possibilidades, acima de tudo não esquecendo que aquela rigidez foi causada por ela mesma.

Ao sentir a língua dela deslizar pela base do seu pênis, Cartman pendeu a cabeça para trás e liberou um murmúrio prazeroso. A língua particularmente possuía uma cor roxa, não que quem estava recebendo aquela demonstração de suas capacidades se importava.

Henrietta inclinava o rosto para um lado enquanto o provava, mantendo os olhos fechados para aproveitar o sabor ao máximo. Sem consciência, oferecia a ele uma bela visão. Deslizou a língua até alcançar o topo, onde circundou toda a cabeça e lambeu delicadamente a fenda em sua ponta.

Cartman resistia em não segurá-la pelos cabelos e fazê-la começar o verdadeiro trabalho. Em vez disso, pôde ter uma surpresa mais agradável: a viu descer seu rosto novamente, desta vez mais abaixo, onde prontamente pôde dar alguma atenção às suas bolas.

A esse ponto, tudo era demais para ele. Tinha uma preferência peculiar por receber algum incentivo nesta área. Ela lambia com vontade e por vezes chupava, fazendo Cartman não ter mais controle algum sobre sua respiração desorientada. Descansava uma mão com firmeza sobre sua cabeça como pedido – ou ordem – para que continuasse, separando um pouco mais as pernas para conceder espaço.

A intenção inicial de Henrietta era a de dominá-lo, mas não poderia negar que estava adorando a situação. Prosseguia com entusiasmo, parando apenas quando ele julgou estar satisfeito. Tendo seu dever cumprido, sem hesitar, finalmente levou todo o pênis à boca.

O ex-corsário a assistia se deliciar em sua extensão. Para não perder nenhum detalhe do seu rosto, fazia questão de manter as mãos sobre seus cabelos para fixá-los no lugar. Os movimentos contínuos que sua cabeça fazia enquanto cobria seu pau com saliva eram enlouquecedores. Ela mantinha os olhos abertos para ver todas as suas reações, sendo uma tão excitante que a obrigou a levar uma mão à própria intimidade e estimular a si mesma com os dedos.

A umidade maravilhosa em torno do seu falo, a forma como ela precisava se aliviar apenas por agradá-lo... Cartman não conseguiria aguentar por muito mais tempo. Ainda que fazê-la parar fosse contra a sua vontade, pôs uma das mãos em seu rosto para levantá-lo. De qualquer maneira, iria adorar retribuir o favor.

Compreendendo seu propósito, Henrietta mordeu o lábio com outro sorriso modesto. Tomou uma pequena distância e se sentou, abrindo as pernas para ele com classe.

Cartman então percebeu mais um fator curioso. Fora o cabelo e sobrancelhas, Henrietta não tinha pelos pelo corpo. Provavelmente por seu corpo não ser realmente este, mas isso não lhe importava. Aquelas dobras roxas e atraentes pingando essência eram o que realmente lhe interessavam.

Prontamente segurou em suas coxas e mergulhou o rosto entre elas. Explorava seu sexo com a boca deliberadamente, praticamente bebendo de sua excitação. Os sons que Henrietta emitia eram uma doce canção em seus ouvidos, fazendo seu membro pulsar de ansiedade. Precisou segurar suas pernas com mais força ao chupar seu pequeno ponto de prazer, pois ela instintivamente tentou fechá-las. Sem nenhum aviso inseriu os dedos médio e anelar em sua intimidade, vendo-os deslizar facilmente por sua fenda lubrificada.

Interrompendo o ato oral, Cartman passou a mover os dedos dentro dela com toda a rapidez que sua mão permitia. Se levantando o bastante para que seus rostos estivessem em mesma altura, pôde ver em suas expressões de prazer que ela gritaria caso pudesse. Incapaz de produzir qualquer ruído, seu corpo trêmulo arqueava, dominado por um prazer tão forte que Cartman supôs ser seu ponto de êxtase mais intenso. Numa questão de tempo, com um último impulso expulsando seus fluidos e um último arquejar, Henrietta teve seu primeiro orgasmo.

O rosto dela suava em exaustão com um semblante frágil. Precisou abraçá-lo sobre os ombros para se manter estável. Seu cativo beijava todo o seu rosto com um ar apaixonado, deitando-a sem que suas costas tocassem o chão para manter seu bem-estar – ou era ela a verdadeira cativa entre os dois?

O pirata pôde perceber os pés de Henrietta tentando empurrar para longe as suas calças. Com um sorriso exibicionista, decidiu ajudar removendo suas botas. Sentia-se orgulhoso de si por ainda não ter terminado, mas ainda mais pela fome que nela era capaz de despertar. Quando ambos estavam livres de roupas, optando por atender aos seus pedidos, Cartman a penetrou de uma só vez.

Assim eles estavam: seus corpos em contato direto, movendo-se juntos enquanto Henrietta gemia. Tinha o rosto sobre o ombro dele enquanto o abraçava, suspirando em seu ouvido a todo momento e involuntariamente o conduzindo ao próprio clímax. O prazer de senti-la por dentro fazia o ato de carregá-la parecer estranhamente fácil; poderia dizer sem pensar duas vezes e em palavras detalhadas o quanto Henrietta era gostosa, por dentro e por fora.

A mente dela divagava. A posição e ritmo em que estavam pareciam tão perfeitos que com facilidade se aproximava de mais um orgasmo. Recebendo as pernas dela ao redor de seus quadris, Cartman acertou um tapa estalado em sua bunda e redobrou a velocidade.

Existia alguma vantagem na falta de palavras. Embora quisesse dizer a ele quanto prazer sentia, o quão bom ele parecia dentro dela e o quanto não se arrependia de sua escolha, o silêncio permitia que se concentrassem totalmente na satisfação do momento. À medida que Henrietta gozava mais uma vez, acariciando e arranhando as costas dele a cada vez que sua região mais íntima se retraía, pôde sentir o ritmo de Cartman tornar-se desproporcional e seus gemidos másculos se tornarem mais pesados.

O envolveu com mais força em suas pernas, enviando uma respiração quente e suspiros tentadores em sua orelha. Após mais alguns impulsos, incapaz de escapar, aprofundou-se nela uma última vez. Deitando-a no solo com suas últimas forças e enterrando o rosto na curva de seu pescoço, despejou todo o seu sêmen.

Henrietta mordia o lábio com libido, amando cada jato quente que a preenchia. Não era como se seu corpo pudesse gerar a prole de um mortal, de qualquer maneira. Saciada, o puxou pelo cabelo com menos delicadeza que nas outras vezes e o beijou com a mesma vontade.

Enquanto a noite se instaurava sobre os mares, o casal excêntrico se acolhia num abraço agradável. O chamado de retorno que Henrietta recebia deveria esperar.

* * *

Talvez fosse madrugada, ou qualquer outro horário na noite. Vestido novamente, Cartman encaixava o sobretudo por seus braços. Seu tapa olho havia sumido, ou Henrietta poderia tê-lo eliminado. De toda forma, não teria mais um porquê de usá-lo.

Henrietta se sentava mais uma vez à margem da água. Com o oceano tocando seus pés, abraçava suas pernas dobradas e encarava a escuridão no céu estrelado sem nenhuma emoção. A luz incandescente da lua em quarto minguante multiplicava sua beleza e sua palidez. Cartman não se surpreenderia caso ela se fortalecesse na noite. Caminhou até ela e se agachou às suas costas, respirando em sua nuca antes de dizer algumas palavras.

— Pensei que você já teria ido embora quando eu acordasse. — murmurou sua confissão, deixando beijos por toda a lateral do seu pescoço.

Henrietta curvava a cabeça para um lado recebendo seus beijos. Curiosamente, estava expondo um sorriso. Se virou para ele minimamente, apenas pelo prazer de revê-lo. Com o dedo indicador do ex-corsário sob seu queixo, trocaram um beijo rápido.

Ao se entreolharem, Cartman percebeu um colar que antes não estava em seu pescoço. Longo, composto por uma corda fina e uma concha pequena e pontuda caindo entre seus seios. Sua cor prateada podia ser facilmente comparada à pele de quem a usava.

— Devo perguntar de onde tirou isso? — zombou, plenamente consciente de que a dúvida não teria resposta.

O retorno dela foi piscar os olhos duas vezes. Novamente, sem nenhuma emoção. Sufocando uma risada, Cartman reuniu seus lábios mais uma vez.

Uma brisa gélida passou por eles, sacudindo aqueles cabelos negros. Com um olhar vago, Henrietta se voltou na direção do mar.

Um brilho esverdeado surgiu nas profundezas, dando início à formação de um vórtice na superfície. Diante dos olhos bom e ruim de Cartman, formou-se um círculo perfeito sobre as águas onde o interior possuía um bizarro tom verde escuro.

Ao olhar no interior do vórtice, o pirata sentiu-se vazio. Como se todo o seu raciocínio e sentimentos tivessem sido roubados, restando apenas o medo. Antes que pudesse questioná-la, Henrietta havia agarrado seus ombros e o puxado junto a ela para o interior do portal. Afundavam continuamente, em alta velocidade, e no infinito aquoso não havia qualquer atmosfera em que ele pudesse respirar.

Seria preocupante... Caso respirar estivesse sendo necessário. O sal do mar nem mesmo afetava seus olhos. A única fonte de luz em milhas era provida pelo pingente, e convenientemente era toda a luz necessária para que Cartman a visse se transformar.

Os detalhes lilases em suas mamas desapareciam. Três guelras nasciam a cada lado do seu pescoço. O cinza dos seus olhos se transformava num amarelo vibrante e seus dentes se tornavam sutilmente afiados. E por último mas não menos importante, bolhas surgiam de suas pernas conforme geravam vapor convertendo-as em vários tentáculos.

Então, esta era ela de verdade. Para Cartman, continuava bela e interessante. Apenas seria mais complicado de copular.

Nas águas gélidas de outras coordenadas, numa queda que não parecia ter fim, Henrietta o arrastava. Não para bani-lo ao plano da morte, mas para torná-lo um líder em sua própria dimensão.

* * *

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