A Salvação de um Uchiha
28 Epílogo
O som da água correndo pelo riacho era suave.
Constante.
Quase como uma canção antiga que o mundo nunca esqueceu.
A madeira da varanda ainda guardava o calor do sol da tarde, e o vento leve fazia dançar as cortinas da pequena casa no campo.
Tudo ali parecia tranquilo demais para alguém que já conheceu o caos.
Mas, ainda assim era real.
Sentei-me ao lado dele, encostando levemente meu ombro no seu.
Itachi não disse nada de imediato, como de costume. Seus olhos estavam voltados para frente, atentos, mas suaves.
Acompanhei seu olhar.
Quatro crianças corriam pelo gramado.
Risos.
Pequenos gritos.
Discussões bobas que terminavam em gargalhadas.
Vida.
_ Você está sorrindo. — Murmurei.
_ Estou? — Ele respondeu, como se não tivesse percebido.
Inclinei a cabeça, observando melhor.
_ Está.
Ele ficou em silêncio por um instante e então respirou fundo.
_ Acho que... demorei muito para aprender a fazer isso, a ter essa paz e sorrir para os outros além de você.
Meu coração apertou.
Mas dessa vez não doeu.
Apenas aqueceu.
Encostei minha cabeça em seu ombro.
_ Ainda bem que aprendeu.
O vento passou entre nós, trazendo o cheiro da grama e da água limpa. O mundo parecia desacelerar sempre que estávamos assim.
Sem pressa.
Sem medo.
Sem guerra.
_ Eles são barulhentos. — Comentou, olhando as crianças.
Soltei uma risada baixa.
_ Você era pior.
_ Eu não corria desse jeito.
_ Não mesmo. Você só carregava o peso do mundo nas costas em silêncio.
Ele não respondeu.
Mas senti seus dedos entrelaçando os meus.
E isso já dizia tudo.
Ficamos assim por um tempo.
Apenas olhando.
Vivendo.
Até que ele falou, baixo:
_ Ainda acho difícil acreditar.
_ No quê?
Ele virou o rosto levemente, me olhando de lado.
_ Em tudo isso.
Segui seu olhar de volta para as crianças.
_ Eu também.
Silêncio.
_ Quando você me contou... — Começou. _ Sobre quem você realmente é...
Sorri de leve.
_ Uma Deusa?
_ Hum.
_ Assustei você?
_ Não.
Pisquei, surpresa.
Ele continuou:
_ Eu só fiquei com medo de perder você de novo.
Meu peito apertou.
Virei o rosto para encará-lo completamente.
_ Você não vai.
_ Mesmo quando tiver que voltar?
O vento passou mais forte dessa vez.
As folhas se moveram.
O riacho continuou.
Tudo seguiu.
Mas aquele momento ficou suspenso.
Apertei a mão dele com mais força.
_ Eu vou voltar algum dia. — Falei, sincera. _ Faz parte do que eu sou.
Os olhos dele não desviaram dos meus.
_ Mas não hoje.
Aproximei meu rosto do dele, encostando nossas testas.
_ Nem amanhã.
Fechei os olhos por um segundo.
_ E quando esse dia chegar, ainda vou ter vivido tudo isso com você.
Silêncio.
Mas não vazio.
Nunca vazio.
_ E valeu a pena?
Sorri.
Dessa vez... sem lágrimas.
_ Você ainda tem dúvida?
Ele soltou um pequeno suspiro... quase uma risada.
E então, ele inclinou o rosto e beijou minha testa.
Suave.
Calmo.
Casa.
As crianças continuavam correndo.
Uma caiu.
Outra ajudou.
Uma terceira começou a rir.
A quarta tentou "mandar" em todas.
_ Aquela ali puxou você. — Comentou.
_ Qual?
_ A que está mandando em todo mundo.
_ Ah, claro que não.
_ Claro que sim.
_ Você está sendo injusto.
_ Estou sendo preciso.
Ri, e o som escapou leve, quase desacostumado, como se ainda estivesse aprendendo a existir sem peso.
Por um instante, tudo ficou grande demais dentro do peito, não de dor, não de urgência, mas de plenitude, daquela que não aperta, apenas transborda em silêncio.
O sol começava a se despedir no horizonte, tingindo o céu com tons dourados e alaranjados que pareciam se dissolver lentamente, como uma memória bonita que não quer ir embora.
A luz tocava tudo com delicadeza, a madeira da varanda, as folhas ao redor, a pele, como um último carinho antes da noite chegar.
Havia calor ali, mas não era intenso; era suave, constante, acolhedor como um abraço que não exige nada em troca.
Sentada naquele lugar simples, vendo tudo aquilo que um dia pareceu impossível se tornar real diante dos meus olhos, eu senti algo se encaixar dentro de mim pela última vez.
Não como uma peça que faltava, mas como algo que finalmente parava de procurar.
E então eu entendi.
Nem deuses controlam tudo, por mais que tentem. Nem o tempo se curva sempre à vontade de quem o manipula. Nem a dor pode ser evitada, apagada ou reescrita completamente.
Mas o amor...
O amor não precisa de controle.
Ele não precisa de perfeição.
Ele não precisa sequer de permissão.
Ele apenas... encontra um jeito.
Sempre encontra.
Inclinei a cabeça novamente, encostando no ombro de Itachi, e fechei os olhos devagar, permitindo que aquele momento me atravessasse sem resistência.
Não havia tensão no meu corpo, não havia pensamentos disputando espaço, não havia aquela necessidade constante de antecipar o próximo passo.
Pela primeira vez em toda a minha existência, eu não queria mudar nada.
Nenhum detalhe.
Nenhuma escolha.
Nenhuma dor que me trouxe até ali.
Porque, naquele exato instante, tudo fazia sentido do jeito que era.
Ali, com ele.
Com eles.
Com aquela vida simples, imperfeita, marcada... e ainda assim absurdamente linda... eu não era uma deusa.
Não era uma arma.
Não era um destino caminhando em forma humana.
Eu era só... Sukui.
E havia uma paz indescritível nisso.
Uma paz que não vinha da ausência de sofrimento, mas da aceitação completa de tudo o que fui, de tudo o que perdi... e de tudo o que ainda escolhi amar.
O vento soprou mais uma vez, um pouco mais fresco agora, carregando consigo o som distante de risos, o farfalhar das folhas e pequenos fragmentos daquele dia que já começava a se despedir.
As pétalas que antes dançavam no ar agora caíam com calma, encontrando o chão como se também tivessem cumprido seu papel.
O sol desaparecia devagar, sem pressa, como se respeitasse aquele momento tanto quanto eu.
E, quando a luz finalmente cedeu lugar ao início da noite, não houve vazio.
Não houve perda.
Ficou apenas a sensação.
Do que foi vivido.
Do que foi amado.
E de algo ainda mais profundo, a certeza silenciosa de que, mesmo quando o tempo seguisse, mesmo quando os dias mudassem e as estações levassem embora aquele instante, nada daquilo seria realmente perdido.
Porque algumas coisas não pertencem ao tempo.
Elas pertencem àquilo que escolhemos guardar.
E, pela primeira vez eu não precisava segurar.
Eu só precisava viver.
FIM.
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