_ Kagehime.

A voz firme do capitão me chamou, atravessando o espaço entre nós como uma lâmina afiada. Sua máscara de raposa ocultava qualquer expressão, mas seu tom não deixava dúvidas: ele estava sério.

Interrompi meu jogo de espadas sem hesitar. O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo leve tilintar do metal quando guardei a lâmina.

Caminhei até ele, minha postura controlada, e executei uma mensura respeitosa, sem palavras, apenas com o corpo.

Meus trajes de combate estavam impecáveis. Mesmo assim, duvidava que ele estivesse ali para avaliar minha adaptação à nova vida.

Talvez fosse, enfim, minha primeira missão. Ou quem sabe ele tivesse decidido me expulsar daquele lugar incomumente silencioso.

A base era discreta. Não uma caverna sombria, não um castelo grandioso, apenas um refúgio estrategicamente simples. Tranquilo demais para um esconderijo de ninjas das sombras.

O capitão permaneceu em silêncio por um instante, observando-me, e então cruzou os braços.

_ Tenho algo para você. — Ele quebrou finalmente o silêncio, sua voz carregada de intenção. _ Uma missão delicada.

Minha respiração se manteve estável, mas meus sentidos aguçaram.

_ Estou pronta. — Minhas palavras saíram sem hesitação.

Ele inclinou levemente a cabeça antes de prosseguir.

_ Sua tarefa é infiltrar-se na mansão de um dos aliados do shogun. Ele guarda documentos que não podem cair nas mãos erradas. Você deve recuperá-los sem ser vista.

Nenhum erro, nenhuma margem para falha. Um teste, com certeza.

_ Entendido.

O capitão pareceu satisfeito com minha resposta. Ele entregou-me um pequeno pergaminho selado com o emblema da nossa ordem.

_ Os detalhes estão aqui. — Apontou. _ Parta o mais rápido possível, e lembre-se, Kagehime: sombras não deixam rastros.

Fiz uma nova reverência, dessa vez mais profunda. Quando ergui a cabeça, ele já havia se virado, desaparecendo entre os corredores estreitos da base.

Uma missão de infiltração.

Finalmente.

Poderia ter soltado um grito de euforia ou dado cambalhotas, mas contive minha animação.

Em vez disso, girei nos calcanhares e corri para fora da sala de treinamento, indo direto para o meu quarto. Havia pouco tempo para me preparar.

Não precisava levar muito, apenas o essencial para sair viva daquela missão.

Toquei a pequena adaga presa ao meu cinto, um lembrete silencioso de que a morte sempre espreita nas sombras. Apenas esperava que ela não estivesse me seguindo tão de perto desta vez.

Respirei fundo ao cruzar a soleira do meu quarto. O espaço era simples, quase sem personalidade, pois passava pouco tempo ali.

Era apenas um local de descanso entre treinos exaustivos, um refúgio temporário na vida de uma assassina.

No entanto, ainda carregava um vestígio de normalidade. Apesar de ser uma sombra, eu ainda tinha responsabilidades mundanas.

Minhas mãos se moveram com eficiência, reunindo o que precisava. Roupas escuras, armas discretas e frascos de venenos.

O essencial para uma missão onde ser vista significava falhar.

Ajeitei o tecido escuro ao redor do corpo, certificando-me de que cada dobra estava ajustada para não interferir nos movimentos.

As lâminas ocultas estavam firmes, os frascos de veneno devidamente protegidos. A missão exigia silêncio e precisão, e eu não cometeria erros.

Com um último olhar ao quarto austero, apaguei a única vela acesa, mergulhando o espaço na escuridão. Não haveria mais hesitação.

Deslizei pela porta, fechando-a sem som, e segui pelos corredores estreitos da base.

Cada passo era calculado, os sentidos aguçados para qualquer movimentação ao redor. Não encontraria muitos aliados ali.

Cada um tinha sua própria missão, sua própria trilha entre as sombras.

Ao alcançar o pátio externo, inspirei fundo o ar frio da noite. O céu estava coberto por um véu de nuvens finas, ocultando parcialmente a lua. Bom. A escuridão era minha aliada.

Antes de saltar, coloco minha máscara no rosto, que era feita de porcelana leve, sua superfície branca é marcada por delicadas fissuras, como se guardasse segredos há séculos.

Os olhos são moldados em fendas estreitas, ocultando minha identidade sem comprometer minha visão.

Pinturas sutis em tons de vermelho e preto desenham o semblante de uma raposa sorridente.

O interior é forrado com um tecido fino, tornando o encaixe confortável, e pequenas perfurações na lateral garantiam que minha respiração permanecesse silenciosa.

Quando a prendi com firmeza, sinto como se me tornasse outra. Não mais Sukui. Agora, sou apenas Kagehime, a sombra que dança na noite.

Saltei sobre o muro lateral sem esforço, aterrissando em uma das trilhas ocultas que levavam para fora da base.

Mantendo-me em movimento, desdobrei o pergaminho e li seu conteúdo sob a luz difusa da lua. A mansão ficava a pelo menos cinco horas de viagem. Não havia tempo a perder.

Dobrei o pergaminho e o guardei com segurança antes de ganhar velocidade, impulsionando-me para o alto.

Meus pés tocaram o primeiro galho com leveza, e então outro, e outro, deslizando pelas copas das árvores com a graça de um predador noturno.

A adrenalina percorria minhas veias como fogo líquido, e um sorriso formou-se sob a máscara.

Aqui, entre as sombras e o céu, eu era livre. Não havia paredes, não havia limites, apenas a velocidade, a precisão e o doce prazer de ser invisível ao mundo.

Cada movimento era calculado, cada aterrissagem perfeita. O ritmo do meu coração acompanhava o fluxo do vento, e a floresta se tornava minha aliada, ocultando-me enquanto eu deslizava por sua vastidão.

A mansão me esperava. E eu chegaria antes do amanhecer.

──※ ·❆· ※───

Horas depois, a silhueta escura da mansão ergueu-se contra o céu nublado. A estrutura era imponente, cercada por muros altos e patrulhada por guardas armados.

Não havia margem para erro.

Oculta na escuridão, observei a rotina dos vigias, analisando cada movimento com precisão cirúrgica.

Os guardas se revezavam a cada meia hora, mas havia brechas na segurança. O telhado era o caminho mais seguro.

Movendo-me como um sussurro na noite, escalei a parede externa com o auxílio de ganchos discretos.

O contato de minhas botas macias contra as telhas não emitiu som algum. Rapidamente, encontrei uma claraboia semiaberta e deslizei para o interior da mansão, aterrissando em um corredor silencioso.

Cada passo era calculado, meus sentidos aguçados para qualquer som fora do comum.

O mapa memorizado em minha mente me guiava até o escritório do senhor feudal, onde os documentos estavam escondidos.

A porta do cômodo estava trancada, mas isso não me deteria. Com mãos hábeis, retirei um pequeno conjunto de ferramentas e, em poucos instantes, a fechadura cedeu sem um estalo sequer.

O interior do escritório era luxuoso, com pergaminhos e registros organizados em prateleiras imponentes.

Os documentos estavam em uma gaveta trancada. Sorri sob a máscara ao deslizar uma lâmina fina na fresta. Um clique suave e a gaveta se abriu, revelando um maço de pergaminhos selados com o brasão do shogun.

Isso não está fácil demais? Mesmo assim, recolho os documentos, guardando-os com segurança.

Quando me virei para sair, um pressentimento gelado percorreu minha espinha. O som quase imperceptível de passos se fez presente.

Não estava sozinha.

Saltando para a lateral da sala, ocultei-me nas sombras enquanto a porta se abria lentamente. Três figuras encapuzadas entraram, suas posturas alerta.

Ninjas.

Não eram guardas comuns.

Um deles ergueu a voz, baixa e afiada como uma lâmina:

_ Sei que está aqui.

A sombra de um sorriso tocou meus lábios. Foram rápidos. Mas eu era mais.

Sem perder tempo, girei sobre os calcanhares e lancei uma kunai, mirando o primeiro oponente.

Ele desviou com destreza, sacando sua própria lâmina. Os outros dois avançaram em sincronia, forçando-me a saltar para trás.

O embate começou. Lâminas tilintavam na escuridão, faíscas surgindo quando as espadas se chocavam.

Eu me movia com agilidade, cada golpe meu era preciso, cada esquiva uma dança mortal. Um dos ninjas tentou agarrar-me, mas usei a parede como impulso, saltando por cima dele e fincando uma adaga em seu ombro.

Ele grunhiu, mas não caiu. Os outros redobraram os ataques.

Desviei de um golpe descendente por um triz, sentindo o vento do corte roçar meu traje. Contra-ataquei com um chute certeiro na lateral do segundo ninja, fazendo-o cambalear.

Restavam dois. Não poderia prolongar o combate.

Em um movimento rápido, lancei uma pequena bomba de fumaça ao chão. A nuvem espessa preencheu o ambiente, ocultando minha presença.

Os ninjas tossiram, tentando encontrar seu alvo, mas já estava em movimento.

Saltei pela janela, aterrissando com leveza no telhado. Correndo sem hesitação, desci pelo lado oposto da mansão, desaparecendo na noite antes que qualquer reforço pudesse me alcançar.

Os documentos estavam seguros.

E eu também, ou foi isso que pensei, antes que uma kunai se afundasse em minhas costas.

A dor rasgou minha pele como fogo, mas não parei. Meus passos ficaram mais pesados, minha respiração irregular.

O sangue quente escorria pela minha roupa, mas ceder não era uma opção.

Continuei correndo, cada batida do meu coração marcando o tempo que eu tinha antes de desmoronar.

O som dos inimigos se esvaiu atrás de mim, mas minha visão começou a escurecer. Não podia desmaiar ali.

O solo sob meus pés de repente cedeu. Um instante de queda livre, o vento rugindo em meus ouvidos, e então meu corpo encontrou a dura realidade de um chão de pedra. A escuridão me envolveu, fria e sufocante.

Estava em uma caverna.

Minha visão turva mal conseguia distinguir as sombras ao meu redor, mas então percebi algo — ou alguém.

Um vulto adormecido, ou talvez à beira da morte. Sua respiração era fraca, mas ainda existia.

E os olhos, tão vermelhos quanto os meus, me fizeram tremer antes de perder a consciência.