A Salvação de um Uchiha
6 Capítulo cinco
_ O que você quer ser quando crescer? — Perguntei, levantando a mão na frente dos olhos, imitando o gesto de uma luneta.
Como se pudesse enxergar o futuro ali, naquilo que eu tentava observar, algo que só seria revelado se me concentrasse o suficiente.
Ele ficou em silêncio por um momento, os olhos perdidos em algum ponto distante, mas a resposta que ele deu foi mais certeira do que eu esperava.
_ Não sei. — A voz dele era suave, quase reflexiva.
Estávamos rodeados pelos escombros de alguma construção abandonada, uma ruína esquecida que ainda carregava as marcas de um tempo de esperanças perdidas.
_ Mas sei que quero me casar com você.
Fiquei sem palavras por um segundo, o impacto das suas palavras me pegando de surpresa, como um vento forte que se levanta do nada.
Mas, dessa vez, ao invés de me assustar ou me afastar, algo dentro de mim se aquietou, como se aquela simples declaração fizesse parte de um futuro que eu ainda não conseguia compreender totalmente, mas que sentia, de alguma forma, já começar a se desenhar.
_ Sim, iremos nos casar e ter quatro filhos. Nossa família será a maior do distrito. — Sorri, minhas palavras saindo um pouco desajeitadas, mas carregadas de uma sinceridade que não sabia de onde vinha.
Ele riu, como se minhas palavras fossem uma piada inocente, mas havia algo mais ali.
Algo que fazia com que, por um momento, o mundo ao redor desaparecesse, deixando apenas a nossa risada ecoando naqueles escombros, como se estivéssemos construindo nosso próprio pedaço de felicidade em meio ao caos.
E, apesar de tudo, de todas as incertezas que nos rodeavam, aquele momento de simples cumplicidade me fez sentir que, talvez, fosse isso o que realmente importava.
Estar ali, com ele, acreditando no que ainda não podíamos ver, mas que já começávamos a imaginar.
Ficamos ali por um bom tempo, apenas nos olhando, os nossos olhares se entrelaçando como se o futuro que falávamos se tornasse mais real a cada palavra dita.
O vento soprava suavemente ao redor, como se a natureza estivesse tentando se fazer ouvir também, tentando participar daquele momento em que, por um breve instante, o mundo parecia menos complicado.
O som distante de algumas pedras caindo de uma estrutura quebrada trouxe-me de volta à realidade.
Nos encontrávamos em um lugar que, embora tivesse sido cenário de tantas histórias passadas, agora parecia deserto, sem vida, mas, ao mesmo tempo, cheio de promessas não ditas.
Eu sabia que aquele cenário tinha algo a mais.
Não podia ser coincidência o fato de estarmos ali, de estarmos falando sobre coisas tão profundas em meio a um lugar que simbolizava a destruição, o fim.
Talvez fosse uma metáfora para o que se passava dentro de nós. Talvez, assim como aquele lugar, estávamos tentando reconstruir algo perdido.
_ Você acha que nossa família vai ser feliz? — Perguntei, enquanto observava o céu, as nuvens se movendo lentamente, como se também estivessem imersas em pensamentos, refletindo sobre as nossas palavras.
Ele ficou em silêncio por um momento.
Sabia que ele não era do tipo de pessoa que falava facilmente sobre suas emoções.
Apesar de ser alguém com quem sempre me senti à vontade, havia sempre aquela distância, aquela linha invisível entre nós que, por mais que tentássemos ignorar, nunca desaparecia totalmente.
_ Acho que... sim. — A resposta dele foi breve, mas havia uma confiança em sua voz que não podia ser ignorada. _ A felicidade não é algo que vem de fora, é algo que a gente cria.
Tive que sorrir.
Isso era algo que eu gostaria de acreditar com mais convicção.
A ideia de criar nossa própria felicidade, de ter o controle sobre as nossas vidas, sempre pareceu uma ideia atraente.
Mas a realidade, às vezes, tem uma maneira estranha de colocar obstáculos em nosso caminho, e muitas vezes não há controle, nem segurança.
O que, então, era realmente a felicidade? Era estar ao lado de alguém que amávamos, como agora, em um lugar caído, mas repleto de sonhos?
Ou seria estar em um mundo onde não havia dúvidas, onde não precisávamos construir nada porque tudo já estava dado certo?
_ Espero que seja assim. — Respondi, mais para mim mesma do que para ele. _ Espero que possamos criar nossa felicidade juntos.
Ele me olhou com um sorriso suave, um sorriso que tinha algo de enigmático, como se ele soubesse mais do que estava disposto a contar.
Às vezes, ele tinha essa habilidade de ser mais profundo do que eu conseguia acompanhar, e naquele momento, algo me dizia que ele estava refletindo sobre algo muito maior do que nossa simples conversa sobre casamento e filhos.
Algo que eu não entendia completamente, mas que sentia vagamente sendo transmitido pelo olhar dele.
_ Quando tudo isso terminar, vamos sair dessa vila e construir nossa casa. — A voz dele, mais calma do que nunca, me trouxe de volta à realidade. _ Vamos ter o nosso lugar. Um lugar onde só nós dois vamos estar. Onde não haverá ninguém para nos dizer o que fazer ou como viver.
Sorriu, seus olhos brilhando de uma maneira que eu não via há muito tempo.
_ Quero isso, quero que seja só nós dois.
Essas palavras ecoaram em minha mente, e por um instante, me vi imaginando isso. Uma casa. Eu e ele.
Um lugar sem regras externas, onde pudéssemos decidir o que fazer e como viver.
Onde o peso do mundo fosse apenas o que decidíssemos carregar, e não o que fosse imposto a nós.
Aquela ideia parecia simples e ao mesmo tempo incrivelmente distante, como um sonho que, por mais desejado, estava fora do nosso alcance.
Mas, ao olhar para ele, a ideia parecia um pouco mais real, como se realmente fosse possível, se tentássemos o suficiente.
_ Também quero isso. — Falei, a voz quase sussurrada, mas firme. _ Quero que seja só nós dois. Mas... e o resto? E o clã? E o que vai acontecer depois?
Ficou em silêncio por um momento, e pude perceber que estava refletindo sobre a minha pergunta. O clã. O futuro.
Tudo aquilo que parecia estar fora do nosso controle, e que, de alguma forma, sempre encontrava uma maneira de nos alcançar, não importava o quão longe tentássemos ir.
A verdade era que éramos filhos de um clã, e a história de nossas famílias sempre teria algum peso sobre nossos ombros, não importa o quanto tentássemos mudar o curso dos eventos.
_ O clã sempre será parte de nós. — Finalmente respondeu, a voz grave e carregada de uma certeza que me fez questionar as minhas próprias crenças. _ Mas isso não significa que precisamos viver à sombra dele. Não significa que nossas escolhas sejam definidas por ele.
Suspirei, sentindo uma leve pressão no peito.
Ele estava certo, sabia disso.
Mas, ao mesmo tempo, a verdade era que nossas escolhas sempre seriam limitadas pelo que os outros esperavam de nós.
O peso das expectativas do clã, da vila, de nossas famílias. Não era algo fácil de escapar, por mais que tentássemos.
O que seria de nós, então? Como encontrar nosso próprio caminho, se as trilhas já estavam marcadas?
_ O que você acha que vai acontecer com o clã? — Perguntei, a curiosidade me consumindo, a dúvida se infiltrando lentamente em meus pensamentos.
Sabia que ele tinha uma visão diferente, uma perspectiva mais ampla do que eu.
Ele sempre teve essa habilidade de ver as coisas de uma maneira única.
Ele olhou para mim por um longo momento, como se estivesse pesando minhas palavras.
Seus olhos brilharam com algo que eu não conseguia identificar completamente. Talvez fosse dor. Ou talvez algo mais.
_ O clã... vai ter que mudar. — Ele disse, a voz baixa, quase como um suspiro. _ Mas quem somos nós para tentar mudar o que já está escrito? O que podemos fazer é decidir o que queremos para o nosso futuro. E isso... isso é o que realmente importa.
Olhei para ele, sentindo a gravidade de suas palavras penetrar em minha mente.
O que ele estava dizendo era verdade, de certa forma. O clã, a vila, o destino... tudo isso poderia ser uma parte do nosso passado, mas o futuro era algo que poderíamos criar.
Pelo menos, era isso que eu queria acreditar. E, com ele ao meu lado, sentia que talvez fosse possível fazer isso.
_ Sim, o futuro é o que criamos. — Respondi, tentando fazer com que minhas palavras soassem mais fortes do que me sentia. _ E quero criar um futuro com você.
Sorriu novamente, aquele sorriso tranquilo, cheio de uma confiança silenciosa.
Ele não dizia muito, mas a maneira como olhava para mim, a forma como suas palavras se entrelaçavam com as minhas, tudo isso me dizia mais do que ele poderia expressar com simples palavras.
Queria acreditar em nós, queria acreditar que seríamos capazes de construir algo juntos, independentemente do que o mundo ao nosso redor tentasse impor.
E, enquanto o vento passava, fazendo as folhas secas dançarem ao nosso redor, eu senti, pela primeira vez em muito tempo, que talvez estivéssemos no caminho certo.
Não sabia o que o futuro nos reservava, mas, com ele ao meu lado, parecia que poderíamos, pelo menos, caminhar juntos, lado a lado, enfrentando tudo o que viesse.
Já que minhas visões se encerram no dia que o clã mais poderoso de Konoha é destinado a cair.
Parecia que meus olhos não conseguiam ver mais por eu estar morta no futuro...
Talvez esse garoto que fala em fugir de suas responsabilidades e do clã, tenha me matado por um proposito maior.
E esse proposito nunca será eu, nunca será nosso relacionamento, mas sempre será sua família, seu futuro irmão.
E os olhos que tantas pessoas desejam pelo poder que eles escondem.
A cegueira é uma punição, mas sei de uma forma de vencer isso, apenas que ele não vai me escutar quando chegar a hora.
... Mamãe, nunca prometi para a senhora que não seria uma ANBU, e sei que quando a hora chegar, quando a convocação me obrigar a ser, estarei lá, de joelhos no chão, jurando lealdade a vila e o terceiro Hokage.
_ Minha salvação, o que tanto pensa? — Pisquei algumas vezes, deixando as visões do futuro passarem por mim mais uma vez.
Vou até ele, pulando em seu corpo magro e pequeno, sabendo que um dia ele será maior que eu e sua magreza irá desaparecer, o deixando esbelto.
_ Penso num futuro que ainda não existe. — Sorri. _ Você estará ao meu lado, não é?
_ Sempre. — Era uma promessa que farei de tudo para ser realizada.
E então, enquanto sentia o calor do pequeno abraço, percebi que o peso do futuro ainda não havia nos alcançado.
Havia algo no brilho inocente daqueles olhos que me fazia acreditar, mesmo que por um breve momento, que promessas podiam ser cumpridas e destinos podiam ser moldados.
_ Sei que estará. — Murmurei, mais para mim do que para ele, enquanto o soltava suavemente.
Mas no fundo do meu coração, a dúvida persistia.
Porque promessas feitas em tempos de paz sempre parecem fáceis, mas é na tempestade que elas são postas à prova.
E uma parte de mim temia que, quando chegasse a hora, ele não estivesse lá — não porque não quisesse, mas porque o destino sempre encontra formas cruéis de separar aqueles que mais desejam estar juntos.
Eu o vi se afastar, correndo com passos rápidos e despreocupados, enquanto eu permanecia ali, com a visão do futuro pairando em minha mente como um fantasma.
Fechei os olhos e inspirei profundamente, tentando apagar as imagens que vinham e iam como sombras dançantes.
_ Seja como for. — Sussurrei. _Quando o futuro chegar, estarei pronta.
E com isso, segui em frente, com o coração carregado de uma determinação que só o tempo seria capaz de testar.
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