A Salvação de um Uchiha

26 Capítulo vinte e cinco


Yahiko estava parado diante dos dois amigos, esperando que eles reagissem, mas nada aconteceu e apenas os deixei ali.

Agora realmente não existia mais vingança contra seu mestre ou com o mundo.

Nem mesmo existia a ameaça do Orochimaru querendo o corpo de Sasuke, ele já tinha um corpo perfeito.

Não que eu compactue com ele ou sua ideologia, mas não precisa ser assim, necessariamente.

Porém, a conversa com Naruto ainda me entristecia. Ele não queria que os pais voltassem a vida, ele queria apenas os deixar descansar, mesmo querendo muito dizer sim.

Infelizmente não pude perguntar isso para aqueles dois ou até mesmo para Obito que não parava de levar sermão não apenas de Rin, mas de Kakashi.

Sei que mexer com os mortos teria alguma consequência, mas se para acabar uma guerra que mataria milhares de pessoas a única alternativa era trazer duas pessoas de volta a vida.

Então não me importava com as consequências, aceitaria de bom grado.

Claro, não foi apenas duas pessoas, foi um clã. Mas isso é apenas detalhes.

_ O plano foi concluído, mestra. — Parei no corredor e olhei para a raposa. _ Zetsu não existe mais entre nós ou qualquer coisa relacionada a Kaguya.

_ O clã Otsutsuki?

_ Eliminado em todas as realidades. — Sorri, ela era uma boa raposa, mesmo tendo seus segredos.

_ Qualquer ameaça além desse clã, precisamos eliminar.

_ Sim, mestra. — Voltei a andar, fazendo um portal logo em seguida.

Agora era vez do Danzo.

O ar mudou no instante em que atravessei o portal.

Não era só o lugar.

Era a sensação.

Frio. Estagnado. Morto.

A base da Raiz continuava exatamente como eu lembrava, silenciosa, sufocante, como se cada parede tivesse absorvido os gritos que ninguém nunca ouviu.

Dei alguns passos à frente, o som ecoando baixo no corredor vazio.

Ele já sabia que eu estava ali.

Claro que sabia.

_ Você demorou. — A voz dele veio seca, sem emoção.

Levantei o olhar.

Danzo Shimura estava parado no centro da sala, como se sempre tivesse estado ali... esperando.

As bandagens, o olhar duro, o peso de alguém que nunca se arrependeu de absolutamente nada.

Por um momento... apenas encarei.

Não como inimiga.

Mas como alguém que queria entender.

_ Eu precisava resolver coisas maiores. — Respondi, calma.

Ele não se moveu.

_ Maiores... do que Konoha?

_ Maiores do que você.

Silêncio.

Mas não era um silêncio vazio.

Era carregado.

Pesado.

Eu dei mais um passo.

_ Por quê? — Ele estreitou levemente os olhos.

_ "Por quê"?

_ Experimentos humanos. — Minha voz saiu mais baixa agora. _ Crianças. Cobaias. O clã Uchiha. Manipulação. Mentiras.

Mais um passo.

_ Por quê? É pela sua mãe? — O quê?

Ele me encarou... e, pela primeira vez, não foi como alguém que estava sendo confrontado.

Foi como alguém que achava aquilo... irrelevante.

_ O que você falou sobre minha mãe? — A raiva me consumia e não tinha mais nada na minha cabeça além de saber o que ele quis dizer.

_ Então você ainda estava no escuro sobre isso. — Zombou. _ É, não é tudo que seus olhos podem ver. — Sentou-se na cadeira que tinha ali. _ Sua mãe foi a primeira cobaia. — Olhou para atrás de mim. _ Não é mesmo, Nazaki.

Olhei para trás e lá estava minha mãe, mas em um corpo sem vida e apenas que servia para servir... Meus olhos transbordavam de lagrimas.

Aquela mulher não era minha mãe, mas era.

Aquilo que estava diante de mim tinha o rosto dela, os traços suaves que eu memorizei desde criança, o contorno dos olhos que tantas vezes me olharam com carinho... mas não havia nada ali.

Nenhum calor. Nenhuma presença. Era como olhar para uma lembrança que alguém tentou reconstruir com pedaços errados.

Meu corpo travou, mas minha mente não. Ela se partiu.

_ O que... você fez... — Minha voz saiu falha, baixa, quase irreconhecível, como se não pertencesse mais a mim.

Danzo não se moveu de imediato. Ele apenas me observou, como se estivesse avaliando uma reação esperada, como se tudo aquilo fosse apenas mais uma etapa de algo que ele já havia previsto.

_ Nazaki nunca foi completa. — Falou, com uma calma que tornava cada palavra mais insuportável do que qualquer grito. _ Desde o início.

Meu coração falhou uma batida.

_ O que você quer dizer com isso?

Ele apoiou o braço na cadeira, inclinando levemente a cabeça, como alguém prestes a explicar algo trivial.

_ Sua mãe não nasceu como os outros. — Fez uma breve pausa, como se escolhesse as palavras, mas não por cuidado... e sim por precisão. _ Ela foi criada.

O mundo pareceu se comprimir ao meu redor.

_ Criada...?

_ Um experimento. — Respondeu, simples, direto, como se estivesse falando sobre um objeto. _ Tecidos. Células. Fragmentos de Uchiha mortos. Tentativas falhas... até que ela foi a única que sobreviveu.

Minha respiração ficou irregular.

Lenta.

Pesada.

Errada.

_ Não... — Sussurrei, mais para mim mesma do que para ele.

_ Ela crescia de forma instável. O corpo não se sustentava sozinho. — Continuou, ignorando completamente o que eu sentia. _ Precisávamos ajustar, corrigir e remendar.

Meus olhos se moveram involuntariamente para aquele corpo atrás de mim.

As cicatrizes.

As marcas.

Tudo aquilo que, por anos, teve uma explicação... uma mentira confortável.

ANBU.

Missões.

Sacrifícios.

Meu pai acreditou nisso.

Ele quis acreditar.

_ As cicatrizes... — Minha voz saiu mais baixa ainda, carregada de algo que nem eu conseguia nomear. _ Não eram da ANBU...

_ Claro que não. — Danzo respondeu, sem qualquer traço de arrependimento. _ Eram necessárias para mantê-la funcional.

Funcional.

A palavra ecoou dentro de mim como algo quebrando.

_ E mesmo assim. — Continuou, cruzando as mãos. _ Ela foi surpreendente. Porque, apesar de tudo... ela conseguiu conceber uma criança.

O ar pareceu desaparecer.

Meu corpo ficou frio.

_ Você.

O silêncio que se seguiu não era vazio.

Era sufocante.

_ Então... eu... — Não consegui terminar.

_ É o resultado mais bem-sucedido que já tivemos. — Disse, quase como um elogio. _ Estável. Poderosa. Muito além do que esperávamos.

Minhas mãos começaram a tremer.

Não de medo.

De algo pior.

_ E quando ela morreu... — Continuei, agora com a voz completamente diferente. _ O que você fez?

Danzo me encarou por um instante, e então respondeu, como se aquilo fosse apenas uma continuidade lógica.

_ Tentei trazê-la de volta.

Olhei novamente para trás.

Para aquele corpo.

Para aquela... coisa.

_ Isso não é ela.

_ Não. — Concordou, sem hesitar. _ Não é.

Cada palavra dele era uma lâmina.

_ O corpo responde, os músculos funcionam e as estruturas permanecem. — Explicou. _ Mas não há mais vontade. Não há mais consciência. Apenas... movimento.

Minhas lágrimas caíam sem que eu percebesse.

Silenciosas.

Quentes.

Inúteis.

_ Então você criou isso... — Minha voz falhou. _ Só para...?

_ Para testar os limites. Para entender até onde podemos ir.

O silêncio caiu de novo.

Mas dessa vez... algo dentro de mim quebrou de forma irreversível.

Desviei o olhar daquele corpo.

Não.

Daquilo.

E voltei para ele.

Não havia mais dúvida.

Não havia mais questionamento.

Não havia mais nada para entender.

Apenas uma certeza.

Minha voz saiu baixa.

Fria.

Vazia.

_ Você não tem o direito de falar o nome dela.

O ar ao meu redor começou a distorcer, não de forma visível, mas palpável, como se a própria realidade estivesse reagindo ao que crescia dentro de mim.

_ Você não tem o direito de existir depois disso.

Meus olhos se ergueram lentamente, encontrando os dele pela última vez.

E, naquele instante... não havia mais Sukui ali.

Apenas consequência.

_ Emoções enfraquecem decisões. — Continuou. _ Eu fiz o que precisava ser feito para manter a vila de pé.

_ Mantê-la de pé... — Ri, mas não havia humor nenhum ali. _ Ou sob seu controle?

O silêncio voltou.

Mas dessa vez... mais tenso.

Ele não respondeu.

Não precisava.

Porque eu já sabia.

O leve som da minha respiração era a única coisa que ainda me ancorava naquele lugar... naquele momento... naquela realidade que, até segundos atrás, ainda fazia algum sentido.

Agora não fazia mais.

Nada fazia.

O ar parecia mais espesso. Difícil de puxar. Difícil de soltar. Como se cada inspiração fosse uma escolha... e cada expiração, uma desistência.

_ A vida inteira... — Minha voz saiu mais baixa, quase um sussurro arrastado por algo que ainda tentava sobreviver dentro de mim. _ Ela achou que estava doente, não foi?

Danzo não demonstrou surpresa.

Nem culpa.

Nem sequer... incômodo.

Apenas aceitação.

Fria.

Limpa.

Cruel.

_ Nazaki foi criada para suportar o que nenhum outro corpo suportaria. — Disse, com a mesma entonação de quem descreve o clima. _ Desde o nascimento, ela foi instável. Nós apenas... mantivemos o funcionamento.

Algo dentro de mim... torceu.

Não quebrou de imediato.

Não.

Foi pior.

Foi lento.

_ "Funcionamento" — Repeti, mas a palavra saiu estranha na minha boca, como se não pertencesse mais à linguagem humana.

Funcionamento.

Não vida.

Não infância.

Não riso.

Não dor.

Funcionamento.

Minhas unhas cravaram na palma da mão, mas eu não senti.

Ou talvez tenha sentido... e simplesmente não importava mais.

_ Todos os médicos sabiam. — Continuei, e agora minha voz não era mais estável. Ela oscilava, como uma chama prestes a apagar. _ Eles sabiam o que ela tinha.

_ Claro que sabiam. — Respondeu, simples. Direto. _ Foram escolhidos a dedo.

E então...

O mundo inclinou.

Literalmente.

Meu campo de visão vacilou, como se a realidade tivesse perdido o eixo. As paredes pareciam... mais distantes. Ou mais próximas. Eu não sabia dizer.

_ Então... todas aquelas noites. — Minha mente começou a cuspir memórias sem controle, mamãe tremendo, chorando, sorrindo mesmo com dor. _ Todas as dores... os desmaios... os remédios...

_ Sedação. — Corrigiu.

A palavra cortou.

_ Contenção. Ajustes. O corpo dela era constantemente... remendado.

Remendado.

Remendado.

Remendado.

A palavra ecoou.

Uma.

Duas.

Três vezes.

Até perder o significado.

Até virar som.

Até virar nada.

Silêncio.

Mas não um silêncio comum.

Era um silêncio que pressionava. Que invadia. Que preenchia cada espaço dentro do meu crânio até não sobrar lugar para pensamento nenhum.

Minha mente tentou negar.

Por um segundo.

Um único segundo.

"Não."

Mas não havia argumento.

Não havia mentira.

Não havia escapatória.

_ Ela... — Minha voz falhou.

E isso... isso nunca acontecia.

_ Ela nunca esteve doente.

_ Não da forma que pensava.

Algo morreu ali.

Mas ainda havia restos.

E Danzo... continuou.

E talvez esse tenha sido o maior erro da vida dele.

_ Confesso que. — Inclinou levemente a cabeça, como se estivesse genuinamente interessado. _ Que me surpreendi quando você nasceu.

Meu olhar subiu.

Devagar.

Pesado.

Mas não havia mais calor nele.

_ Um corpo estável. Uma herança genética impossível. — Havia admiração ali. Admiração. _ Eu quis você.

Meu chakra... reagiu antes de mim.

Ele não explodiu.

Ele... distorceu.

Como uma sombra viva que não aceitava mais obedecer de forma alguma.

O chão sob meus pés estalou.

Rachaduras finas se espalharam, como se algo estivesse tentando sair de dentro da própria terra.

_ Mas Hiruzen foi mais rápido. — Continuou, alheio. Sempre alheio. _ Ele te tomou antes. Te moldou. A pequena Princesa das Sombras. A lâmina pessoal do Hokage.

Algo dentro de mim... riu.

Não foi um som.

Foi uma sensação.

Errada.

Que não combinava com nada.

Meu coração... parou.

Não.

Ele não parou.

Ele simplesmente... deixou de ser relevante.

_ Então... — Minha voz saiu vazia.

Não fria.

Não controlada.

Vazia.

Como se tivesse sido arrancada de dentro de mim sem cuidado.

_ Eu sou só mais um experimento que deu certo?

Danzo não hesitou.

Nem por um segundo.

_ Você é o resultado.

...

Silêncio.

Mas agora...

Algo começou.

Não era raiva.

Não era dor.

Era... ausência de limite.

Como se tudo que me segurava, valores, lógica, identidade, estivesse sendo lentamente arrancado... camada por camada...

Até não sobrar nada que me impedisse.

E foi ali.

Exatamente ali.

Que Sukui deixou de existir como algo humano.

Não houve grito.

Porque gritos pertencem a quem ainda sente.

Não houve aviso.

Porque avisos são para quem ainda espera resposta.

Não houve hesitação.

Porque hesitação exige dúvida.

E eu não tinha mais nenhuma.

Apenas...

Desapareci.

Não em velocidade.

Mas em intenção.

O corpo dele reagiu tarde demais.

Minha mão já estava dentro do peito dele antes mesmo que o ar percebesse o movimento.

O som foi grotesco.

Úmido.

Quente.

Real demais.

Os olhos de Danzo se arregalaram.

Pela primeira vez...

Ele não estava no controle.

Choque.

Finalmente.

Meu rosto se aproximou do dele.

Devagar.

Quase íntimo.

_ Emoções... — Sussurrei, e minha voz... minha voz não parecia mais minha. _ Enfraquecem decisões, não é?

Minha mão se fechou.

O coração dele pulsou contra meus dedos.

Vivo.

Frágil.

Ridículo.

Uma.

Duas.

Na terceira, esmaguei.

Sem esforço.

Sem cerimônia.

Sem nada.

O sangue escorreu quente pela minha pele.

Escorreu pelo meu pulso.

Pingou no chão.

Mas aquilo...

Aquilo não significava nada.

Nada.

Nada.

Nada.

E foi aí que eu percebi.

Não estava mais com raiva.

Eu não estava triste.

Eu não estava... nada.

E isso...

Era muito pior.

Ele tentou falar.

Tentou reagir.

Tentou existir.

Mas já não havia mais espaço para ele no mundo.

Arranquei minha mão.

E, no mesmo movimento...

Uma lâmina de chakra negro surgiu, instável... viva... errada...

E atravessou o pescoço dele.

Sem resistência.

Sem peso.

Sem importância.

A cabeça se separou do corpo com uma facilidade absurda.

O som do corpo caindo veio primeiro.

Pesado.

Oco.

Depois a cabeça.

Um impacto seco.

Simples.

Encerrado.

Silêncio.

Mas agora...

O silêncio não pressionava.

Ele... acolhia.

Eu respirei.

Uma vez.

O ar entrou, mas não trouxe nada.

Duas.

Saiu... e levou o que restava.

Nenhuma emoção veio.

Nenhuma culpa.

Nenhuma dor.

Apenas... um espaço vazio onde antes existia alguém.

Me abaixei.

Devagar.

Segurei a cabeça dele pelos cabelos.

Os olhos ainda estavam abertos.

Presos em algo que ele não conseguiu entender a tempo.

_ Acabou.

A raposa surgiu ao meu lado, observando o espaço vazio.

_ E agora?

Olhei para frente.

Para o nada que ele deixou.

Para tudo que ainda existia.

_ Não sei. — Respirei fundo. _ Apenas faça mamãe descansar dessa vez, conto com você. — A vejo sorrir triste.

O silêncio ainda pairava no ar quando o portal se abriu novamente.

Não havia pressa.

Não havia mais urgência.

Mas havia... encerramento.

Caminhei pelos corredores de Konoha com passos firmes, ignorando os olhares que surgiam conforme eu avançava. Alguns ninjas pararam, outros apenas desviaram o olhar.

Ninguém me impediu.

Ninguém ousaria.

Empurrei as portas da sala do Hokage sem anunciar minha presença.

Lá dentro, Hiruzen Sarutobi levantou o olhar lentamente... como se já soubesse que aquele momento chegaria.

Sem dizer nada, joguei algo sobre a mesa.

Um som pesado.

Seco.

A cabeça de Danzo rolou alguns centímetros... antes de parar.

O silêncio foi absoluto.

Hiruzen não se levantou.

Não gritou.

Não demonstrou choque.

Apenas... fechou os olhos por um breve segundo.

Cansaço.

Um cansaço de anos.

_ Acabou. — Minha voz saiu calma, vazia de qualquer emoção.

Ele abriu os olhos novamente.

_ Eu imaginei que esse dia chegaria. — Murmurou.

_ Demorou mais do que deveria.

Silêncio.

_ Você sabia? — Perguntei e ele ficou confuso.

_ Sobre?

_ Nada.

_ Você sabe o que isso significa? — Mudou de assunto.

_ Sei. — Interrompi. _ E é exatamente por isso que estou aqui.

Dei um passo à frente.

_ Estou saindo.

Ele franziu levemente o cenho.

_ Do quê?

_ Das sombras. — Respondi, direta. _ Não existe mais motivo para continuar nelas.

O olhar dele se aprofundou.

Como se estivesse tentando entender... ou talvez aceitar.

_ E o que pretende fazer agora?

Por um instante...

pensei.

Em tudo.

Na guerra que não aconteceu.

Nos mortos que não precisaram morrer.

Nos caminhos que foram quebrados... e refeitos.

Em minha mãe.

Então respondi:

_ Viver.

Simples assim.

O silêncio voltou... mas dessa vez, não era pesado.

Era estranho.

Quase leve.

Virei-me em direção à porta, mas parei por um segundo.

_ Ah... — Falei, sem olhar para trás. _ você está convidado.

_ Convidado?

_ Para o meu casamento.

Dessa vez... ele realmente ficou em silêncio.

Não de cansaço.

Mas de surpresa.

Um sopro quase imperceptível escapou dele.

Talvez um começo de sorriso.

Talvez não.

Não esperei.

Abri um portal.

E atravessei.

──※ ·❆· ※───

O vento era diferente ali, não apenas mais limpo, mas leve, como se não carregasse o peso da vila, das ordens, das mentiras... como se aquele lugar tivesse sido esquecido pelo próprio mundo.

A pequena casa permanecia de pé no meio do nada, cercada por árvores altas que sussurravam suavemente entre si, criando um som constante e quase hipnótico. Não havia pressa ali. Não havia perigo imediato.

Apenas... existência.

E aquilo doeu.

Doía porque era simples. Porque era real. Porque era tudo o que foi tirado.

Meu coração vacilou dentro do peito, não em dor, não em desespero... mas em confusão. Era uma sensação estranha, quase irritante, como se ele não soubesse mais como reagir a algo que não fosse tensão, alerta ou vazio.

Fazia anos.

Anos desde que eu senti algo próximo de... paz.

Meus passos desaceleraram naturalmente conforme me aproximei da porta. Cada tábua de madeira sob meus pés parecia sólida demais, real demais, como se estivesse tentando me lembrar que aquilo não era uma missão.

Não era uma infiltração. Não era um campo de batalha.

Era... um lar.

Parei diante da porta.

Minha mão se ergueu, mas hesitou no ar por um breve segundo. Não por dúvida do que encontraria ali, eu sabia exatamente quem estava ali, mas porque, pela primeira vez desde... tudo... eu não sabia quem eu era ao bater naquela porta.

A assassina?

A arma?

Ou... alguém que ainda lembrava como pertencer?

Meus dedos bateram na madeira.

O som ecoou baixo, contido, quase respeitoso.

Passos vieram do outro lado.

Lentos.

Sem pressa.

Sem medo.

Isso... isso me atingiu de um jeito estranho. Ninguém mais andava assim perto de mim. Ninguém mais se permitia não ter medo.

A porta se abriu.

E lá estava ele.

Papai.

Mais magro do que eu lembrava. As feições mais marcadas, como se os anos tivessem sido particularmente cruéis com ele.

O cansaço estava ali, visível, não apenas no corpo, mas no olhar... um homem que perdeu tudo, mas ainda assim continuava de pé.

Vivo.

Ele estava vivo.

Os olhos dele encontraram os meus.

E, por um instante...

o tempo não apenas parou, ele se recusou a existir.

Não havia som.

Não havia vento.

Não havia passado.

Apenas aquele momento suspenso, onde duas realidades colidiam silenciosamente.

Eu vi o reconhecimento surgir.

Lento.

Doloroso.

E então, algo mais.

Algo que eu não estava preparada para ver.

Humanidade.

Minha garganta travou, mas não por emoção descontrolada... era algo mais profundo, mais estranho.

Como se uma parte enterrada de mim estivesse sendo forçada a subir à superfície, mesmo sem permissão.

Inclinei levemente a cabeça, e minha voz, quando saiu, ainda carregava aquele resquício de vazio... mas não completamente.

_ Eu demorei.

O olhar dele não se afastou do meu.

E então, antes que qualquer outra coisa pudesse ser dita, antes que aquele momento se tornasse pesado demais para sustentar, acrescentei, quase como um detalhe irrelevante, mas que, no fundo, não era:

_ Eu tomei banho antes de vir.

Uma pausa breve.

Meus dedos ainda estavam limpos.

Sem sangue.

Sem vestígios.

_ Não queria trazer o cheiro dele até vocês.

O silêncio que se seguiu não foi desconfortável.

Mas também não foi leve.

Era... carregado de tudo o que não foi dito.

De tudo o que ainda precisava ser enfrentado.

E, pela primeira vez desde que entreguei a cabeça de Danzo... eu senti.

Não forte.

Não avassalador.

Mas suficiente.

Suficiente para me lembrar que, por mais que eu tivesse me perdido...

ainda havia algo em mim que escolheu lavar o sangue antes de bater naquela porta.

_ Acabou?

A voz dele falhou.

E isso...

isso foi o suficiente.

Avancei.

E o abracei.

Com força.

Como se o tempo pudesse desfazer aquilo se eu soltasse.

_ Acabou... — Minha voz saiu baixa, tremendo pela primeira vez em muito tempo. _ Acabou, pai...

Senti o corpo dele enrijecer.

E então... ceder.

Os braços dele me envolveram.

Apertando.

Forte.

Como se estivesse confirmando que eu era real.

_ Você... — Começou, mas não terminou.

Ficamos assim por alguns segundos.

Ou minutos.

Não importava.

Quando me afastei, os olhos dele ainda estavam fixos em mim.

Como se estivesse tentando entender tudo de uma vez só.

_ Você fez?

_ Sim.

Silêncio.

Ele respirou fundo.

Olhou ao redor.

Para a casa.

Para o nada ao redor.

E então voltou para mim.

_ Nada vai ser igual.

A frase caiu pesada.

Mas não como crítica.

Como verdade.

Engoli em seco. Ele não precisava saber sobre o que descobri.

_ Eu sei.

Dei um passo à frente.

_ Mas pode ser melhor.

Ele não respondeu, apenas me puxou e me abraçou, e foi ali que desabei em seus braços. Chorei igual uma criança que não queria contar que sofreu bullying para seu pai.

Papai, obrigada, você me salvou da destruição...