A Salvação de um Uchiha
21 Capítulo vinte
_ Mestra, ele já matou todos. — A lua de sangue continuava no céu escuro sem estrelas.
Apenas deixando o cheiro de ferro perpetuar pelo ambiente. Sangue inundava minhas narinas e tudo estava tão silencioso, que a kunai presa em meu pescoço não doía tanto quanto minha consciência.
Tirei lentamente a kunai e sinto calafrios a cada segundo.
Todos já estavam mortos, mas meu poder, aquele que não deveria ter vindo comigo, se tornou presente em meu corpo.
Era isso que eu estava esperando, era isso que eu precisava. Meu poder, meu poder de Deusa...
Ri um pouquinho e me levanto, vendo se meu corpo continuava inteiro e estava.
_ Você não quer matar o Itachi? O amor continua aí? — Mesmo vendo a morte do meu pai...
_ Sim, continua aqui. — A olhei, ela não estava gostando muito do cheiro ou do ambiente. _ Chame os Hyuuga, os faça esconder os Uchiha.
_ Você realmente vai...
_ Reviver todos? — Acenei. _ Mesmo que a maioria não goste de mim, eu que inventei a mentira de não ter os olhos que eles tanto amam. — Zombei a última parte. _ Agora vá até eles, essas pessoas precisam sumir antes que o Hokage e os anciões venham.
Desapareceu da minha vista, me fazendo ajoelhar, vendo um pequeno vislumbre de meu pai desfalecido no chão.
Ainda sentia uma dorzinha da perda, mesmo sabendo que era temporário.
Mesmo assim... doía.
Meu pai estava caído a poucos passos à minha frente. O corpo imóvel, o sangue escuro espalhado pelo chão de madeira.
A kunai que havia atravessado seu pescoço ainda brilhava úmida sob a luz fraca da lua que entrava pela janela.
O cheiro de ferro era pesado, tão forte que parecia grudar na garganta.
Respirei fundo.
Uma vez, duas e três vezes.
_ Me perdoe, pai... — Murmurei.
Estendi a mão e fechei lentamente os olhos dele. O rosto que antes estava tenso agora parecia apenas... cansado.
Como se estivesse dormindo, será que ele encontrou a mamãe? Nunca saberei ou até mesmo ele.
Levantei-me devagar, sentindo meu corpo estranhamente pesado e nada cheiroso. Respirei fundo e dei um passo, e cada passo fazia o sangue no chão grudar na sola do meu pé.
A lua vermelha continuava alta no céu, observando tudo em silêncio.
Sem estrelas, sem vento...
Sem som.
Era como se o próprio mundo estivesse esperando minha mudança, a minha salvação.
Caminhei até o centro da sala e já podia sentir aquilo que não deveria ter saído de mim. O meu poder, a morte, meu irmão, me trouxe esse poder novamente para o meu corpo. Um corpo humano que nem deveria vislumbrar o futuro.
Mas nunca deixaria que ele morresse novamente e que eu apenas observasse.
Meu peito começou a arder.
Era pesado.
Antigo.
Divino.
Meu poder.
O poder de uma Deusa.
_ Então é agora... — Sussurrei.
Levei a mão até o chão ensanguentado e mergulhei os dedos no sangue do meu pai, que ainda estava morno... Ainda existia vida.
A sensação fez um arrepio subir pela minha espinha.
Com calma, comecei a desenhar.
Primeiro, um círculo grande no chão da sala e depois outro menor dentro dele.
Linhas curvas.
Símbolos antigos.
Runas que não pertenciam àquele mundo.
Cada traço parecia pulsar levemente assim que o sangue tocava a madeira.
O ar ficou mais pesado.
Como se a própria realidade estivesse sendo pressionada.
Quando terminei o círculo central, mordi a ponta do meu dedo.
Uma gota do meu próprio sangue caiu no centro do selo.
Ele brilhou.
Fraca.
Mas vivo.
_ O tempo... — Murmurei. _ Não é uma linha.
O selo respondeu.
Uma vibração leve atravessou o chão.
_ É um rio.
A madeira da casa começou a estalar baixo.
O sangue no chão se moveu.
Escorrendo lentamente em direção ao círculo que eu havia desenhado.
_ E eu... — Minha voz ficou mais firme. _ Sou aquela que decide aonde ele volta.
A primeira chama azul apareceu no selo.
Depois outra, e outra.
Elas não queimavam.
Apenas iluminavam o símbolo com uma luz fantasmagórica.
O ar ficou frio.
Então o mundo respondeu.
Um sussurro distante ecoou pela noite.
Como centenas de vozes falando ao mesmo tempo.
Mortos.
Chamando.
Perdidos.
Esperando.
Fechei os olhos e estendi as mãos.
_ Escutem minha voz.
O selo brilhou mais forte.
_ Uchiha que caíram nesta noite...
A lua vermelha iluminou o círculo.
_ Eu os chamo de volta.
O chão tremeu levemente.
Lá fora, no complexo inteiro, algo começou a mudar.
Sangue que antes estava seco começou a se mover.
Corpos imóveis estremeceram.
_ Eu ordeno que o tempo pare! — Não tinha mais ar em meus pulmões. _ Ordeno que rebobine o tempo para as pessoas que desejo. Retornem.
O selo explodiu em luz azul.
Por um segundo, o tempo pareceu quebrar.
E então...
Conseguia ouvir mesmo daqui, respirações.
Uma.
Depois outra.
E outra.
Como se centenas de pulmões voltassem a funcionar ao mesmo tempo.
Abri os olhos devagar.
O selo no chão estava apagando lentamente.
_ Levantem-se. — Sussurrei.
Minha voz agora carregava algo mais antigo que o mundo shinobi.
_ Mas não apareçam.
Lá fora... passos começaram.
Corpos se movendo.
Uchiha despertando da morte.
Confusos e assustados, mas vivos.
Passei a mão pelo rosto cansado.
_ Lembrem-se de tudo o que planejei.
A lua vermelha brilhou mais forte.
_ Fiquem escondidos.
O vento finalmente soprou pelo complexo.
Carregando o cheiro de sangue embora.
_ Até eu chamar.
Ao longe... senti.
Olhos brancos se abrindo na escuridão.
Os Hyuuga tinham chegado.
Silenciosos.
Observando tudo.
Prontos para guiar as sombras.
Prontos para esconder um clã inteiro do mundo.
_ Filha? — Caí de joelhos no chão, engatinhando até ele.
_ Papai. — Agarrei suas roupas e comecei a chorar, ele era minha família.
E mesmo o trazendo de volta, ele morreu bem na minha frente, pelo homem que amo. Isso ainda não me descia, mesmo eu sabendo que não tinha tempo para isso.
_ Sukui, o que você falou é verdade? — Apenas acenei.
Meu pai ainda parecia perdido.
Ele estava sentado no chão, apoiado em um dos braços, olhando ao redor como se estivesse tentando juntar as peças de um sonho estranho demais para ser real.
A mão dele subiu devagar até o próprio pescoço, tocando o lugar onde a kunai havia atravessado.
Não havia mais ferida.
Nem sangue fresco.
Apenas a lembrança.
_ Eu... — Respirou fundo. _ Eu morri. — Concordei, não deixando nenhum som sair.
Estava cansada, esgotada para falar a verdade. Meus poderes retornaram e minha missão de vida começou.
Então, antes que pudesse continuar em meus pensamentos, ele agarrou meus ombros e meu olhou.
Longamente.
Então seus olhos foram até o símbolo no chão. O círculo de sangue ainda brilhava fraco, as linhas quase apagando, como brasas morrendo depois de um incêndio.
_ Foi você que fez isso.
Não era uma pergunta, então apenas suspirei.
_ Pai...
_ Sukui. — A voz dele ficou firme. _ O que você fez?
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
A casa estava quieta demais agora. Lá fora, eu conseguia sentir o movimento. Não tínhamos muito tempo, eles já estavam indo embora.
_ Os Hyuuga estão aqui.
Meu pai franziu a testa.
_ Hyuuga?
_ Eles vão ajudar. — Levantei-me devagar, limpando as mãos sujas de sangue na roupa. _ Todos vocês vão sair da vila esta noite.
Ele ficou imóvel.
_ O quê?
_ Vocês vão desaparecer.
Meu pai se levantou também, ainda um pouco instável.
_ Sukui...
_ Escuta. — Olhei direto nos olhos dele. _ O massacre precisa acontecer.
Aquelas palavras pesaram no ar.
_ Se Konoha descobrir que vocês estão vivos... — Continuei. _ o clã Uchiha será exterminado de verdade.
Ele apertou a mandíbula.
_ Então vamos fugir como covardes?
_ Não. — Balancei a cabeça. _ Vocês vão sobreviver.
Caminhei até a janela.
A lua vermelha ainda iluminava o complexo.
Sombras se moviam entre as casas. Uchiha sendo guiados em silêncio pelos Hyuuga, os olhos brancos brilhando discretamente no escuro enquanto observavam cada canto.
Protegendo.
Escondendo.
_ Os Hyuuga conhecem caminhos fora da vila. — Expliquei. _ Rotas antigas. Passagens que ninguém mais lembra. — Nem mesmo nós.
Meu pai continuava olhando para mim.
_ Vocês vão viver longe daqui. Muito longe. Até que tudo termine.
_ Tudo... o quê?
Girei o anel no meu dedo.
_ Até que o plano acabe.
Ele se aproximou mais um passo.
_ Que plano, Sukui?
Não respondi.
_ Como você sabia que isso ia acontecer? — Insistiu.
Silêncio.
_ E que tipo de jutsu foi esse? — Apontou para o selo quase apagado no chão. _ Isso não é ninjutsu. Nem genjutsu. Nem fūinjutsu.
Apenas sorri de leve.
_ Algumas coisas... — Murmurei. _ É melhor você não saber.
Os olhos dele estreitaram.
_ Sukui.
_ Confie em mim! — Gritei, e isso o fez parar.
Não queria gritar ou mostrar meus sentimentos desse jeito, ele era meu pai, a pessoa que cuidou de mim depois que a mamãe morreu.
Eu deveria ter mais respeito, mas... Não dava mais.
Ficamos alguns segundos apenas nos encarando.
Então ele suspirou.
_ Você sempre foi impossível.
Dei um pequeno sorriso.
_ Eu sei.
Um som distante ecoou lá fora.
Passos.
Apressei-me até a porta e antes de abrir, apertei a maçaneta.
_ Pai. — Sinto seu olhar. _ Eu não tinha esse poder que tenho em mãos hoje quando a mamãe morreu. — Mordi os lábios. _ Se eu tivesse, ela estaria aqui, viva.
Sinto um toque em meu ombro, e depois, um leve aperto.
_ Sei que sim. — Sussurrou e me virei para ele, que olhava para todos os lugares, menos para mim. _ Amo você, Sukui.
_ Também amo você, papai. — Abro a porta e vejo um dos Hyuuga. _ Agora, vá com ele, ele e os outros vão levar vocês até a fronteira antes do amanhecer.
_ E você?
A pergunta me fez parar.
Olhei para a lua vermelha mais uma vez, ela não existia no passado que vi tantas vezes.
Essa lua era minha... Destinada a trazer meus poderes.
_ Eu ainda tenho duas coisas para fazer. — Franziu a testa.
_ O quê?
Respirei fundo.
_ Proteger o futuro.
E antes que ele pudesse perguntar mais alguma coisa, saltei dali.
O ar da noite estava frio.
O complexo Uchiha parecia um cemitério silencioso.
Corpos que antes estavam espalhados pelas ruas agora se levantavam, sendo guiados rapidamente pelas sombras dos Hyuuga.
Olhos brancos observando tudo.
Garantindo que ninguém de fora visse.
Corri pelos telhados.
Rápida.
Leve.
Meu destino estava claro.
Primeiro.
Sasuke.
A casa do Uchiha mais jovem apareceu diante de mim.
Parei por um segundo no telhado.
Senti a presença de três pessoas ali, sabia que ele já tinha sido colocado em um genjutsu, mas a obasan não deixaria que seu pequeno ficasse daquele modo por dias.
Sorri um pouco, ele iria melhorar um pouco mais rápido.
E antes que pudesse descer para o levar comigo para bem longe daqui, senti o chakra de Naruto.
Os dois iriam comigo...
Porque aquela história...
Ainda estava só começando.
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